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Posts Tagged ‘Qualidade de Vida.’

PASSIONATE FLAMENCO

Imagem:  Passionate Flamenco

Por: Vera Cristina Marcellino*

ISSN 1516-0793

Pouco vivenciamos nossos corpos em movimento de uma forma consciente sobre os significados que cada gesto cotidiano pode carregar. Em linguagem psicanalítica diríamos um movimento carregado de valor, de sentido, algo que vem cheio de afetividade, que nos liga a um estado  mais profundo que a consciência cotidiana poderia observar. A surpresa é que o corpo, mesmo  em estado cotidiano não deixa nunca de estar carregado de sentido.

O movimento é a expressão particular de cada pessoa, revelando involuntariamente, suas mais íntimas características psíquicas.

Ele traz consigo, invariavelmente, aspectos conscientes e inconscientes, culturais, sociais, afetivos, simbólicos e assimila informações. O corpo, ao contrário do clichê, nome de livro, não só fala. O corpo também tem memória, escuta e elabora, pensa, simboliza, identifica sentidos, aquilo que de alguma forma tem valor para o indivíduo.

Considerando a experiência sensível do movimento uma oportunidade para a elaboração interna e dessa elaboração desenvolver o conhecimento das próprias habilidades, de seu repertório expressivo e, simultaneamente, integrar processos psíquicos ainda não conscientes, poderemos destacar que o corpo compreende à sua maneira como integrar e expressar esses processos. Ele tem uma linguagem própria que foge de códigos pré-estabelecidos ou racionais.

É raro encontrar uma abordagem terapêutica que integre os aspectos simbólicos que o corpo vivencia aos aspectos expressivos e integrativos desses símbolos através do movimento corporal.

Há técnicas terapêuticas que utilizam o corpo como recurso para psicoterapia; há terapias corporais, mas ainda é muito escasso no Brasil um trabalho que atinja simultaneamente essa unidade psicofísica através de processos artísticos, mais apropriadamente, processos da dança, ou do movimento expressivo, que no contexto da psicologia de Carl Gustav Jung poderemos chamar de Terapias Expressivas.

O princípio essencial da dança como técnica expressiva é a autonomia do indivíduo em investigar-se em movimento de tal forma que identifique a si mesmo, ou seja: descubra seu corpo e seus aspectos sensíveis e simbólicos.

No desenvolvimento desse trabalho identificamos que, articular o corpo, às emoções, às imagens simbólicas, ao mesmo tempo em que o movimento é buscado em sua forma mais crua, ele, o corpo, transborda elementos que se alimentam mutuamente: significados se desdobram em movimentos, movimentos resgatam significados.

Para Jung o processo criativo consiste (até onde nos é dado segui-lo) numa ativação mais profunda do inconsciente e numa elaboração e formalização na obra acabada. À camada mais profunda do inconsciente, nesse contexto, C. G. Jung refere-se aos árquétipos, marcas do inconsciente coletivo partilhadas pela humanidade e que resgata no indivíduo um senso de unidade, de ter um lugar no mundo. É paradoxal, mas emocionante. Para ele, a arte seria então, uma forma de tornar mais acessível e consciente esse processo de percepção de elementos não facilmente verbalizáveis e não cognitivos; forma de conhecimento mais complexo e total por ser vivencial.

Os conteúdos simbólicos podem, pela vivência poética da dança, ser requisitados para um diálogo sincero de aproximação, de acolhimento e de transformação. O resultado é: equilíbrio emocional, equilíbrio corporal.

Podemos identificar semelhanças entre os processos criativos e sensíveis e o conceito de processo de individuação que C. G. Jung propõe ao longo de sua obra. Uma vivência sensível permite acessar um universo mítico e arcaico no movimento que torna-se expressivo e integrativo em si mesmo. Dá sentido e integra no indivíduo aqueles aspectos sombrios escondidos às sete chaves, mas que, por ser vivencial, só a pessoa em processo descobre, não é necessário verbalizar, aqui, na maioria das vezes, as palavras são dispensáveis, mas a escuta faz parte do ambiente acolhedor que pretendemos oferecer. Ainda segundo Jung, nossa meta como seres humanos é a Individuação, um processo natural de amadurecimento.  É o caminho da plenitude, do encontro do Si-mesmo ou Self. Quando Jung fala de individuação, refere-se ao caminho que é orientado pelos símbolos arquetípicos (incluindo imagens mitológicas) que emergem espontaneamente, de acordo com a natureza do indivíduo.

Todos nós temos nossas identificações simbólicas com algum aspecto comum à humanidade, esses momentos de identificação não são mensuráveis. A arte possibilita esses momentos de encontro.

Ainda rara como terapia no Brasil, a dança está apresentando resultados surpreendentes na área de saúde mental, sua expansão está tardia, já que desde os primórdios da humanidade é através do movimento (corpo expressivo) que o ser humano percebe, identifica, explora e relaciona-se com o mundo, com o cosmos, com o outro e consigo mesmo.

*Vera Cristina Marcellino, Mestre em Artes pela Unicamp, Bacharel e Licenciada em Dança pela Unicamp. Facilitadora de recursos expressivos em arte-terapia (dança. Aborda e pesquisa a articulação e diálogo entre performance-art,  somma psíquico e psicologia analítica.

 LINK: www.symbolon.com.br/artigos/A_danca_e_a_psicologia_junguiana.doc

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(Imagem da Internet – Autor desconhecido)


Por Angelita Scardua

Primeiramente, podemos pensar na moradia como parte de duas de nossas necessidades básicas: proteção e segurança. De um lar, contudo, espera-se mais do que a função de simples abrigo. Nós temos a expectativa, consciente ou inconsciente, de que a casa que habitamos nos ofereça conforto, paz, estabilidade e, principalmente, nos ajude a ter mais felicidade. Mas como transformar cimento, tijolos, telhas, tinta, etc., num espaço que possa nutrir nossos corpos, corações e mentes?

A sociedade de consumo viabiliza a existência de vários profissionais dispostos a nos ajudar a ter uma casa que expresse nossos anseios de habitar: arquitetos, decoradores, designers, e por aí vai. Na prática, porém, poucos profissionais da área saberiam explicar o que pode transformar uma casa num lar. Quando oferecem soluções para a organização, decoração, montagem…construção de uma casa, os experts em moradia tendem, na média, a seguir as tendências do mercado. Via de regra, as tendências em questão são fruto de pesquisas das indústrias de construção civil, têxtil, iluminação, etc. Melhor dizendo, as tendências surgem, quase sempre, para justificar os gastos das indústrias com pesquisas que levam a novos materiais e técnicas. Muitas vezes essas inovações podem ser ótimas para o consumidor final, muitas vezes não! O amianto, só para citar um exemplo recente, foi usado largamente nas construções do mundo até que se descobrisse uma correlação entre esse material e a incidência de tumores malignos. Outras vezes, as inovações teconológicas criam tendências que melhoram a vida doméstica de forma geral, favorecendo nossas busca por bem-estar e qualidade de vida. É o caso, por exemplo, dos materiais renováveis, do uso da energia solar, dos vidros temperados, e muitas outros.

Ainda assim, de que forma os “profissionais da casa” podem nos ajudar a erigir um lar? Se pensarmos que a idéia de lar implica, em boa parte, a expressão da nossa individualidade, o desejo de afirmarmos nossa condição social e cultural e a representação dos nossos valores pessoais; o mínimo de conhecimento psicológico, tanto ao nível da espécie – o ser humano – quanto ao nível do indivíduo – o sujeito que demanda a casa – deveria ser parte essencial da formação daqueles que constroem casas. Quem sabe, anum futuro próximo se estabeleça uma abertura conceitual de ambos os lados para a existência de um trabalho interdisciplinar? Ou, pelo menos, o interesse numa produção teórico-prática que buscasse efetivamente o diálogo entre áreas como Arquitetura, Design, Decoração, Engenharia Civil, Psicologia, Antropologia, Sociologia, História, etc.

No campo da Psicologia, do qual me sinto confortável para falar, há estudos sobre os efeitos do ambiente na vida das pessoas, e vice-versa. Esses estudos abarcam desde aspectos genéticos como as neurociências da percepção, até fatores subjetivos como as características de personalidade subsidiadas por formações inconscientes. Uma vertente interessante, e a princípio mais palatável para não psicólogos, são os estudos no campo da Psicologia Ambiental, que se baseiam nos mecanismos evolutivos que favoreceram a constituição da espécie humana. Sabe-se hoje, por exemplo, que a sensação de conforto e felicidade no que diz respeito ao habitar vincula-se aos instintos primários que nos leva(ra)m à luta pela sobrevivência. Como assim? Para entender isso melhor, seguem alguns exemplos:

A busca de refúgio: a sobrevivência de nossos antepassados dependia da capacidade de encontrar lugares seguros, que fornecessem abrigo dos elementos naturais e proteção contra os predadores. Assim, tendemos a preferir lugares acolhedores, que dão a sensação de conter, abrigar, acolher…como ocorre com telhados  de muitas águas e variações na altura, com moradias de espaços compartimentados e privativos. Tanto é que a tendência dos lofts, por exemplo, por mais que tenha sido enaltecida pela mídia especializada, não logrou tornar-se uma regra de moradia, nem mesmo para uma minoria significativa. Alguns arquitetos, como Frank Lloyd Wright, são mestres em criar habitações cheias de espaços com essa característica de “refúgio”. Muitos profissionais, atualmente, seguem esses princípios optando por uma disposição dos móveis e por uma escolha de materiais – como madeira, pedra e outros – que promovem a sensação de conforto e segurança.

A importância da visibilidade: para os nossos antepassados, sobreviver numa savana africana implicava capacidade de antever as ameaças circundantes. Para fazer esses tipo de “previsão”, os humanos sempre dependeram da visão do que ocorria nas redondezas. Não é à toa que ao longo da história humana, os lugares altos semprem foram uma escolha para a construção de castelos, fortalezas e todo tipo de espaço para a defesa. Ou seja, ao mesmo tempo que precisamos nos recolher/refugiar, precisamos saber o que nos ronda a fim de que possamos nos defender. Assim, mesmo hoje, entre nós, há uma certa predileção por espaços amplos, tetos altos, luminosidade, etc. O mesmo vale pelo encantamento que ainda sentimos com casas erigidas em colinas, montanhas e, até mesmo, pelo fascínio susictado pelos arranha-céus das grandes metrópoles no imaginário moderno.

A atração pelo desconhecido: experimentos psicológicos sugerem que os humanos possuem uma forte atração pelo mistério. O que parece fazer sentido, já que descobrir, desvendar, conhecer, etc., são interesses inerentes à própria evolução da espécie. Sem tais interesses estaríamos todos, neste exato momento, habitando cavernas e vestindo a pele de animais mortos (alguns ainda o fazem, sei lá porquê!). Nossa sobrevivência como espécie está diretamente associada ao nosso interesse pelo que é desconhecido, misterioso. É a vontade de conhecer que nos impulsiona a realizar coisas, seja cruzar os oceanos ou fiar o algodão. Talvez, por isso, tendamos a nos sentir atraídos por corredores, escadas, nichos…espaços que “prometem” a revelação de algo mais que nos escapa à primeira vista. Hallsde entrada, sólidas portas; caminhos de acesso à entrada da casa com curvas, esquinas, cantos; cortinas que não ocultam totalmente os ambientes mas velam seus conteúdos…Enfim, casas com pequenos “segredos” parecem nos atrair e encantar.

A conexão com a natureza: no âmbito da investigação científica há sólidos indícios de que imagens de paisagens naturais podem melhorar o humor e, conseqüentemente, causar impacto positivo na saúde dos seres humanos. Um estudo clássico nessa área revelou que pacientes em recuperação cirúrgica, quando instalados em quartos com vista para a natureza, sentiam menos dor e se recuperavam mais rápido do que aqueles acomodados em quartos comuns. É claro que nem todo mundo pode habitar uma casa com vista privilegiada mas, certamente, isso é algo que a maioria de nós gostaria de fazer. Cultivar plantas em casa, morar próximo à agua – seja mar, cachoeira, rio, lago, etc., – ornar paredes com fotografias e pinturas de paisagem, criar um animal de estimação…são maneiras de nos mantermos em contato com a natureza e, ao mesmo tempo, de alegrar o nosso cotidiano. No passado remoto, para os nossos ancestrais, lugares cercados de vegetação e água era a garantia segura de fonte de alimentos, ou seja, de sobrevivência. No mais, o que seria da nossa história como espécie sem a companhia de nossos alegres companheiros de caçada, os cães.

A preferência pela simetria: uma das idéias dominantes atualmente nas neurociências é que o nosso cérebro se sente recompensado com padrões. Essa parece ser uma herança do nosso profundo vínculo original com a natureza. Do ponto de vista biológico, o equilíbrio das proporções, a regularidade e a ordem parecem sinalizar boas condições para a perpetuação da espécie. Tanto no âmbito da atração por um parceiro sexual quanto pela escolha de um lugar adequado para se viver, a existência de formas ordenadas e padronizadas parecem sinalizar confiabilidade. Pense bem: habitar um local no qual as estações seguem um fluxo regular possibilita um melhor planejamento das temporadas de caça, semeadura, colheita, recolhimento, etc. Similarmente, pesquisas recentes sobre a atração sexual têm demonstrado que o nosso cérebro tende a interpretar um corpo simétrico e bem proporcionado com genes mais saudáveis. Logo, simetria, ordem, equilíbrio e proporção parecem estar, do ponto de vista evolutivo, intimamente associados a tudo aquilo que no longo prazo possa ser confiável, produtivo e seguro. Não é a toa que ambientes com arrumação simétrica tendem a nos parecer mais aprazíveis. Paredes, tapetes, móveis, luminárias, janelas, portas, quadros…qualquer elemento de decoração que segue um padrão, seja de cor, textura, forma, tamanho, etc., parece agradar aos nossos olhos.

À procura do centro: nossos ancestrais caçadores e coletores – posteriormente agricultores e pastores – não teriam nos legado seus genes, e garantido nossa passagem por aqui, se em algum momento da dura rotina cotidiana eles não tivessem podido parar e repousar. O descanso é parte essencial da nossa sobrevivência, é o momento no qual nos permitimos ser mais do que animais. O repouso, o descanso, o ócio, são momentos em que podemos refletir, vagar… mergulhar no campo imaginário das nossas especulações, sonhos, desejos e delírios. O espaço que favorece essa “humanização” diária é o que podemos chamar de “centro”, o lugar de recolhimento, de auto-conexão. Casas que oferecem espaços preservados, ou seja, distantes de entradas, corredores e locais de passagem, nos parecem mais relaxantes. Não precisa necessariamente ser um cômodo, pode ser apenas uma poltrona num canto da sala, um banco num jardim, uma cama adequadamente posicionada. Às vezes, a simples mudança da iluminação de um ambiente pode proporcionar esse oásis imaginativo. Um dado interessante sobre o efeito da disposição dos móveis numa casa é que alguns experimentos psicológicos demonstraram que nossas escolhas fora de casa – dos locais por onde queremos andar, em quais preferimos parar e o que buscamos olhar – são afetadas pela organização dos espaços em nossos lares. Simbolicamente falando, nossa motivação para explorar o mundo tem a intensidade e a dimensão dos sonhos que a nossa casa nos permite abrigar.

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Por Angelita Scardua

Psicologia do Design de Interiores é um ramo recente da Psicologia Ambiental. Baseia-se em resultados de pesquisas científicas e em experimentação. O fundamento essencial dessa área é o amplo universo de investigação neurocientífica das emoções humanas. Dito de outra maneira, ocupa-se de entender como os seres humanos reagem, no nível emocional e cognitivo, à forma com que os espaços interiores – residenciais e comerciais, individuais e coletivos – são organizados. A partir disso, a Psicologia do Design de interiores visa contribuir para que os lares e estabelecimentos comerciais sejam espaços promotores de bem-estar e qualidade de vida. Não se pode confundir a Psicologia do Design de interiores com a Ergonomia. Enquanto a Ergonomia volta-se para a criação de ambientes funcionais, a Psicologia do Design de interiores tem a árdua tarefa de tentar criar ambientes mais felizes, espaços que priorizem as emoções e as vivências positivas.

Ainda, a Psicologia do Design de interiores também tem sido utilizada para auxiliar profissionais do mercado imobiliário na venda e alocação de imóveis, principalmente no que diz respeito à decoração das casas a serem negociadas. No canal de TV à cabo A&E há um reality show, Sell This House (Casa à Venda), no qual o designer Roger Hazard utiliza os princípios da Psicologia do Design de interiores para ajudar pessoas a venderem seus imóveis. Similarmente, os mesmos conhecimentos têm sido utilizados por lojas que trabalham com artigos de decoração para promover uma melhor adequação dos produtos ao perfil e às necessidades e expectativas do cliente.

A Psicologia do Design de interiores foi o primeiro passo no sentido de utilizar os conhecimentos propiciados pela Psicologia Positiva na Psicologia Ambiental. Ou seja, a primeira tentativa de promover felicidade a partir da interação homem-ambiente. Apesar de ter sido a primeira, essa vertente não é a única a ocupar-se de tornar meros moradores em habitantes mais felizes. Recentemente, surgiu nos EUA a onda do happy décor!

O happy décor, segue a enxurrada de propostas, em todos os âmbitos da cultura contemporânea, que prometem a felicidade num pacote bem arrumado. Da perfumaria à culinária, da literatura ao setor bancário, quase todas as formas de produção humana nesse início de século têm adotado o discurso da felicidade prêt-àporter. Tendo por resolução produzir felicidade com cores intensas e ambientes profusamente iluminados, o happy décor surge como a alternativa da hora para quem quer decorar a casa e, ao mesmo tempo, se sentir em dia com as as mais recentes tendências de comportamento e estilo de vida  contemporâneas…Afinal, só no ano de 2007, 100 instituições americanas ofereceram cursos sobre a felicidade.

Mas não é só de fast-self-h(elp)appy-décor que vive o mundo da arquitetura. Alguns estudos, bem mais sérios, na área tentam entender a relação entre arquitetura e felicidade. O filósofo Alain Botton, por exemplo, publicou um livro, em 2007, sobre o papel da arquitetura na promoção de felicidade. Em seu livro A arquitetura da Felicidade, o autor nos convida a abrir os olhos para essa curiosa relação, raramente percebida. Botton defende que o que buscamos numa obra de arquitetura não está tão longe do que procuramos num amigo. Ao construir uma casa ou decorar um cômodo, as pessoas querem mostrar quem são, lembrar de si próprias e ter sempre em mente como elas poderiam idealmente ser. O lar, portanto, não é um refúgio apenas físico, mas também psicológico, o guardião da identidade de seus habitantes.

Assim como Botton, outros estudiosos procuram levar a sério a investigação da relação entre felicidade e arquitetura. Dentre eles, há psicólogos sociais, experimentais, evolutivos e ambientais como Gary W. Evans, da Universidade Cornell, em Nova York, que realiza estudos profícuos na área. Num deles, Evans identificou que o bem-estar numa casa é, em grande parte, dependente da possibilidade que os moradores têm de fazer mudanças na casa. Para ele, essa autonomia decisória quanto à organização da casa cria um elo emocional entre o morador e o imóvel. Não é a toa que a as pesquisas sobre satisfação com a moradia apontam para o fato de que os proprietários costumam ser mais satisfeitos com seus lares do que os inquilinos. Evans também conseguiu demonstrar que determinadas mudanças nas características da casa podem melhorar a percepção subjetiva dos moradores e dar lugar a sentimentos positivos. Ele concluiu, por exemplo, que a falta de privacidade numa casa contribui para o estresse. A sensação de perda do espaço individual pode ser originada por elementos como paredes muito finas, janelas mal posicionadas e varanda muito aberta.

A necessidade de privacidade é um aspecto recorrente nos estudos sobre os efeitos do ambiente no bem-estar subjetivo das pessoas. Por exemplo, os psicólogos Oddvar Skjaeveland, da Universidade de Bergen, na Noruega, e Tommy Gärling, da Universidade de Gutemburgo, na Suécia, defendem que deve haver áreas de transição entre o espaço privado(a casa) e o público(a rua), para transmitir segurança e tranqüilidade. Seja como for, identificar os fatores que promovem bem-estar, sentimentos e emoções positivas, sensações agradáveis e satisfação com o lar tem sido a meta dos psicólogos envolvidos na formulação de uma arquitetura da felicidade. Com isso, o foco da casa passa a ser o indivíduo e não apenas conceitos abstratos de estética ou funcionalidade.

Como defende Botton, o autor do livro Arquitetura da Felicidade, esses dois aspectos não são independentes nem excludentes. Ou seja, para ele, as construções não deveriam ser desenhadas apenas para funcionar de tal ou tal modo, mas também para refletir um ideal de beleza e transmitir mensagens. Segundo o filósofo, a funcionalidades essencial dos prédios deve ser a psicológica. Um banheiro que não funciona direito incomoda tanto quanto um que não atenda à função estética e expressiva. Talvez, por isso, os psicólogos da arquitetura da felicidade afirmem que para que alguém seja feliz com sua casa não é preciso gastar rios de dinheiro. Respeitar as características e particularidades do morador já é um passo. O outro é respeitar as necessidades inerentes à nossa condição biológica. Deixar a luz natural adentrar a casa, por exemplo, não serve apenas para aquecer os ambientes e realçar as cores das paredes, tecidos e  móveis, mas também para ajudar o nosso organismo a regularizar os ciclos cotidianos dependentes de hormônios – como o ciclo vigília-sono – e isso, coincidentemente, melhora o nosso humor!

 

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