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Posts Tagged ‘Psicologia Profunda’

PASSIONATE FLAMENCO

Imagem:  Passionate Flamenco

Por: Vera Cristina Marcellino*

ISSN 1516-0793

Pouco vivenciamos nossos corpos em movimento de uma forma consciente sobre os significados que cada gesto cotidiano pode carregar. Em linguagem psicanalítica diríamos um movimento carregado de valor, de sentido, algo que vem cheio de afetividade, que nos liga a um estado  mais profundo que a consciência cotidiana poderia observar. A surpresa é que o corpo, mesmo  em estado cotidiano não deixa nunca de estar carregado de sentido.

O movimento é a expressão particular de cada pessoa, revelando involuntariamente, suas mais íntimas características psíquicas.

Ele traz consigo, invariavelmente, aspectos conscientes e inconscientes, culturais, sociais, afetivos, simbólicos e assimila informações. O corpo, ao contrário do clichê, nome de livro, não só fala. O corpo também tem memória, escuta e elabora, pensa, simboliza, identifica sentidos, aquilo que de alguma forma tem valor para o indivíduo.

Considerando a experiência sensível do movimento uma oportunidade para a elaboração interna e dessa elaboração desenvolver o conhecimento das próprias habilidades, de seu repertório expressivo e, simultaneamente, integrar processos psíquicos ainda não conscientes, poderemos destacar que o corpo compreende à sua maneira como integrar e expressar esses processos. Ele tem uma linguagem própria que foge de códigos pré-estabelecidos ou racionais.

É raro encontrar uma abordagem terapêutica que integre os aspectos simbólicos que o corpo vivencia aos aspectos expressivos e integrativos desses símbolos através do movimento corporal.

Há técnicas terapêuticas que utilizam o corpo como recurso para psicoterapia; há terapias corporais, mas ainda é muito escasso no Brasil um trabalho que atinja simultaneamente essa unidade psicofísica através de processos artísticos, mais apropriadamente, processos da dança, ou do movimento expressivo, que no contexto da psicologia de Carl Gustav Jung poderemos chamar de Terapias Expressivas.

O princípio essencial da dança como técnica expressiva é a autonomia do indivíduo em investigar-se em movimento de tal forma que identifique a si mesmo, ou seja: descubra seu corpo e seus aspectos sensíveis e simbólicos.

No desenvolvimento desse trabalho identificamos que, articular o corpo, às emoções, às imagens simbólicas, ao mesmo tempo em que o movimento é buscado em sua forma mais crua, ele, o corpo, transborda elementos que se alimentam mutuamente: significados se desdobram em movimentos, movimentos resgatam significados.

Para Jung o processo criativo consiste (até onde nos é dado segui-lo) numa ativação mais profunda do inconsciente e numa elaboração e formalização na obra acabada. À camada mais profunda do inconsciente, nesse contexto, C. G. Jung refere-se aos árquétipos, marcas do inconsciente coletivo partilhadas pela humanidade e que resgata no indivíduo um senso de unidade, de ter um lugar no mundo. É paradoxal, mas emocionante. Para ele, a arte seria então, uma forma de tornar mais acessível e consciente esse processo de percepção de elementos não facilmente verbalizáveis e não cognitivos; forma de conhecimento mais complexo e total por ser vivencial.

Os conteúdos simbólicos podem, pela vivência poética da dança, ser requisitados para um diálogo sincero de aproximação, de acolhimento e de transformação. O resultado é: equilíbrio emocional, equilíbrio corporal.

Podemos identificar semelhanças entre os processos criativos e sensíveis e o conceito de processo de individuação que C. G. Jung propõe ao longo de sua obra. Uma vivência sensível permite acessar um universo mítico e arcaico no movimento que torna-se expressivo e integrativo em si mesmo. Dá sentido e integra no indivíduo aqueles aspectos sombrios escondidos às sete chaves, mas que, por ser vivencial, só a pessoa em processo descobre, não é necessário verbalizar, aqui, na maioria das vezes, as palavras são dispensáveis, mas a escuta faz parte do ambiente acolhedor que pretendemos oferecer. Ainda segundo Jung, nossa meta como seres humanos é a Individuação, um processo natural de amadurecimento.  É o caminho da plenitude, do encontro do Si-mesmo ou Self. Quando Jung fala de individuação, refere-se ao caminho que é orientado pelos símbolos arquetípicos (incluindo imagens mitológicas) que emergem espontaneamente, de acordo com a natureza do indivíduo.

Todos nós temos nossas identificações simbólicas com algum aspecto comum à humanidade, esses momentos de identificação não são mensuráveis. A arte possibilita esses momentos de encontro.

Ainda rara como terapia no Brasil, a dança está apresentando resultados surpreendentes na área de saúde mental, sua expansão está tardia, já que desde os primórdios da humanidade é através do movimento (corpo expressivo) que o ser humano percebe, identifica, explora e relaciona-se com o mundo, com o cosmos, com o outro e consigo mesmo.

*Vera Cristina Marcellino, Mestre em Artes pela Unicamp, Bacharel e Licenciada em Dança pela Unicamp. Facilitadora de recursos expressivos em arte-terapia (dança. Aborda e pesquisa a articulação e diálogo entre performance-art,  somma psíquico e psicologia analítica.

 LINK: www.symbolon.com.br/artigos/A_danca_e_a_psicologia_junguiana.doc

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Imagem: O Retorno de Perséfone de Frederic Leighton (1891).

Por Alexandre Quinta Nova Teixeira

 1 – O MITO:

No Olimpo ( lugar onde moravam os deuses ) Deméter se casa com Zeus e geram Core (a jovem). Um dia Core estava brincando em Elêusis (lugar onde mora os mortais) e vê uma flor de narciso no qual ela fica encantada e acaba cheirando esta flor. Ao cheirar esta flor Core fica tonta (NARKÉ=Narcótico) então a terra se abre e Plutão vem numa carruagem para raptar Core e leva-la para o Hades ( mundo dos mortos), pois Plutão se apaixonou por Core.

Deméter sente a falta de sua filha e fica louca a sua procura. Com isto Deméter (Mãe Terra) sai do Olimpo e vai em busca de sua filha pelo o mundo inteiro. Durante nove dias e nove noites a deusa fica a procurar sua filha sem nenhuma pista. Enquanto Deméter está a procura de sua filha a terra fica sem vegetação e sem fertilidade.

No décimo dia Hélio (deus do sol) diz a Deméter que viu Core ser seqüestrada em Elêusis por Plutão. Com isto Deméter se transforma em uma ama e vai conhecer Céleo e Metanira, que são reis de Elêusis , e cuida do filho do casal ( Demofonte ). Deméter decide transformar Demofonte em deus , para adotá-lo, levando ele ao fogo para sua purificação, mas sua mãe descobre e impede este processo com um grito.

Deméter diz que só volta ao Olimpo quando encontrar sua filha e pede a Zeus. Este manda Hermes, o deus do caduceu de ouro, ir para Hades e convencer Plutão de devolver a filha de Deméter. Então Hermes convencer ao irmão de Zeus à devolver Perséfone, mas este dá uma romã para ela comer. Deméter vai ao encontro de Core e ao abraça-la Deméter sente sua filha diferente e pergunta se ela comeu algo em Hades. Core diz que comeu uma romã e por causa disso ela terá que passar um terço do ano em Hades . Com isto Core se transforma em Perséfone que é esposa de Plutão.

Antes de voltar ao Olimpo Deméter ensina os seus rituais para Célio e seu filho Triptólemo . Ao voltar ao Olimpo a terra volta a ter vegetação e a ser fértil.

Célio funda os grandes mistérios de Elêusis que faziam parte dos rituais de fertilidade da Grécia no anos 1500 AC até 300 DC. Nestes mistérios qualquer pessoa que falasse grego poderia participar. Os iniciantes assistiam o mistério que era apresentado pelos sacerdotes. No final do mistério acontece a ” GRANDE VISÃO ” que era apresentada a espiga de milho, que simboliza a fertilidade. Depois de assistir ao mistério não se podia falar de nada o que aconteceu ou a pessoa seria desmentida

Antes de se passar para os grandes mistérios tinha que se passar pelos pequenos mistérios e a ponte de Guéfria, onde se falava vários palavrões até chegar aos grandes mistérios.

2 – INTERPRETAÇÃO DO MITO:

Antes de amplificar este mito eu darei o significado dos principais deuses do mito (Deméter , Perséfone e Plutão).

Deméter significa ” a mãe-terra “. Esta deusa simboliza um excesso de proteção. Ela traz o dom da empatia, compreensão emocional e física das necessidades da pessoa. Tem a tendência de tratar os outros como se fossem seus filhos e sua preocupação principal está centrada na família. Deméter é regida pelo Eros(amor), o não-verbal, saciando as necessidades de seus filhos e tem como principio o corpo e o material. Em síntese Deméter representa o arquétipo da mãe.

Perséfone é a rainha do mundo dos espíritos onde existe o que há de mais profundo no psiquismo humano. Ela vive no Hades e entra em contato com os conteúdos reprimidos, estando num fase profunda do inconsciente.

Plutão é o rei do Hades. Com isto ele rege o mundo inconsciente e as riquezas interiores. Sua missão é conduzir as pessoas para o caminho do auto-conhecimento e a integração levando-as ao seu processo de individuação. Este deus é regido pelo logos ( leis e limites ), ética, principio espiritual, voltada ao verbal e ao auto-conhecimento. Plutão representa o arquétipo do pai.

Podemos amplificar este mito com a fase inicial do desenvolvimento do homem.

No inicio quando Core ainda era um feto havia uma simbiose entre a Deméter e Core. Nesta fase Jung se refere ao termo “URÓBOROS” onde temos como símbolo a serpente que morde a própria cauda e o inicio da vida. No uróboros o feto vive em equilíbrio e totalidade. O corpo da mãe e da criança se misturam onde não podemos definir um e outro.

Quando a criança nasce, nós não conhecemos todas as forças que entrelaçam, cercam e enredam os relacionamentos entre mãe e o bebe pequeno. Só a mulher tem o dom da fertilidade dando a luz e a vida de um novo ser. O mesmo acontece entre Deméter e Core. A menina tinha o amor, a proteção e a satisfação das suas necessidades que só a Grande Mãe pode proporcionar ao sua filha. Com isto não só Core mas todos as crianças pequenas vivem no Olimpo, ou seja “O paraíso da infância “, que simboliza a consciência. Nesta fase o bebe assume uma posição horizontal vivenciando o arquétipo da mãe que foi representado no mito pela Deméter “A MÃE-TERRA”.

Quando Core cheira a flor de narciso ela fica tonta e desta forma é seqüestrada por Plutão. Com isto a flor de narciso simboliza uma armadilha para que Core seja raptada.

Este rapto está relacionado a primeira experiência sexual onde Core sai do” paraíso da infância ” para entra em contato com o mundo dos mortos ou o seu inconsciente. Com este rapto Core (a jovem) se transforma em Perséfone que é a esposa de Plutão e rainha do inferno. Por ser rainha do inconsciente ela lida com o que tememos e reprimimos. Se ela estiver muito aflorada pode levar a uma psicose. Com isto Perséfone entra em contato com o arquétipo do pai.

Deméter sente falta de sua filha e Zeus manda que busque Perséfone. Plutão permite volte a se encontrar com a mãe mas dá uma semente de romã para ela comer. Esta semente representa simbolicamente a sexualidade e a repressão de Plutão sobre Perséfone. Por causa desta semente Perséfone fica sempre entre o consciente e o inconsciente.

Este mito é constelado em pessoas com traços infantis sempre precisando de outras pessoas para tomar as decisões por ela. No caso de Perséfone ela depende da mãe ou do marido. Desta forma ela não tem maturidade, tendo a recusa a crescer. Por isto ela tem medo de assumir sua própria individualidade.

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Imagem: Rachel Weisz Como Branca de Neve por Annie Leibovitz

Por Fabrício Fonseca Moraes*

Um conceito importante para a psicologia analítica é o “símbolo. É quase impossível falar qualquer coisa em psicologia analítica sem tocar direta ou indiretamente em símbolos.  Isso faz com que vejamos o uso do termo de uma forma, muitas vezes, equivocada. Vamos pensar alguns aspectos dos símbolos:

1) Etimologia de Símbolo

A palavra símbolo vem do termo grego symbolon, que por sua vez estava relacionado com o verbo symballein que era “lançar com”, “lançar junto” ou fazer coincidir. O termo significava união, pacto, amizade. Símbolo na antiga Grécia representava um compromisso entre duas pessoas. Era comum, por exemplo, a divisão ao meio de uma moeda na ocasião da separação de dois amigos ou de duas pessoas que tinham um compromisso entre si, para que quando no futuro elas se reencontrassem a moeda partida seria símbolo do compromisso do passado.

Na Ilíada de Homero, no Canto VII, temos um exemplo interessante do sentido do símbolo. Nesse canto é relatado uma pausa na batalha entre os exércitos, sendo então proposta uma luta entre o melhor dos Aqueus e o melhor dos troianos. Assim Ájax, o melhor dos Aqueus, e Hector (ou Heitor) o melhor dos troianos iniciaram um combate feroz, e quando era chegada a noite, hora que era proibida pelos deuses de haver combate,  eles discutem o fim de seu combate. Heitor, diz:

“(…) Vamos por fim ao combate e à luta, por hoje. Mais adiante, à luta voltaremos até que faça a escolha, entre nós, o demônio da fortuna e a vitória caiba a um dos dois. Já cai a noite; cumpre guardar a noite. (…) Troquemos, pois, dons memoráveis, para que alguém, Troiano ou Grego, possa vir a dizer: `Combateram-se os dois na peleja devora-corações. Separaram-se amigos.`” Falou. E deu sua espada ao Dânao, cravejada em prata, com talim bem trabalhado e bainha; Ájax o cinturão – púrpura fulgurante – lhe ofertou. Separaram-se então. Aos Aqueus um se dirigiu; outro, à multidão troiana. (HOMERO, 2002, pág. 282-3)

Nesse fragmento da Ilíada devemos observar a frase “separaram-se amigos”. Olhando o contexto percebemos claramente que “amigos” como aparece no texto em nada se relaciona com o conceito de amigos que temos nos dias atuais. Essa amizade dita por Homero, tem como símbolo ou marca de reconhecimento os “dons memoráveis”, a espada e o cinturão. A troca desse presentes é o símbolo o reconhecimento e respeito mútuo, reconhecimento que seria cantado tanto por gregos e troianos.

O símbolo indica o reconhecimento, aponta para este algo em comum. Heitor e Ájax mesmo em lados opostos estavam unidos pela batalha travada, e simbolizada pela troca de armas.

Outro exemplo, mais próximo e conhecido é o símbolo do peixe utilizado pelos cristãos dos primeiros séculos para se reconhecerem, quando se encontravam, um fazia um risco curvilíneo e o interlocutor completava o desenho com outro risco curvilíneo formando um peixe (símbolo do peixe estava relacionado a palavra ICHTHYS, peixe em grego,  cujas letras que eram consideradas como acróstico para Iesous Christos Theou Hyous Soter – Jesus Cristo, de Deus o filho, Salvador). eles se reconheceriam como cristãos. Em outras versões, uma pessoa escrevia no chão a letra grega alfa (a), que guarda similaridade com o peixe, e o interlocutor apagaria o desenho, de igual modo eles se reconheceriam como cristãos reconhecendo-se como “cristãos”.

O símbolo historicamente representa a união, um elo que une entre dois iguais que foram separados, indicando uma identidade entre ambos.

2) Símbolo na Psicologia Analítica

Os junguianos muitas vezes são questionados sobre “significado” de símbolos, ou de forma caricata são aqueles que reconhecem símbolos em tudo. Por isso, devemos ter cautela no estudo de símbolos.  O primeiro passo para pensarmos o símbolo na psicologia analítica é fazermos a diferenciação entre sinal e símbolo, pois eles possuem uma relação muito próxima.

Os sinais indicam/informar convenções ou relações naturais. No geral, possuem um significado determinado.  Por outro lado, o símbolo possui vários significados. Devemos compreender que o símbolo ser expresso por um sinal, isto é, uma marca ou ícone, entretanto, o significado ou sentido do símbolo será sempre subjetivo. O sinal por sua vez, tende a apontar a um significado objetivo, determinado pela cultura. Assim, todo símbolo é um sinal, mas, nem todo sinal é um símbolo. Deste modo, para a psicologia analítica compreende que os símbolo indica algo que não pode (pelo menos não momentaneamente) ser expresso pela linguagem comum, indicando para algo desconhecido.

Colocando em outros termos, o símbolo possui um icone (ou sinal) que está relacionado com a consciência (ou seja, é percebido ou representado na consciência) e outro aspecto que é sua indeterminação corresponde a sua relação com o inconsciente. Assim, os símbolos possuem uma natureza intermediária ou transcendente, constituindo uma outra realidade. No símbolo a consciência e o inconsciente estão integrados.

Nessa perspectiva um simbolo pode ser uma imagem(icone), local, situação, musica, sensações e etc… todos os elementos sobre os quais o inconsciente possa se projetar atribuindo significado pode se tornar simbólico. Os símbolos são sempre formados a partir do inconsciente, a consciência não cria símbolos, mas sinais.   

a) Símbolos  Culturais

 Os símbolos culturais são representações arquetípicas que orientam a cultura. Os símbolos culturais estão relacionados geralmente relacionados com as religiões. Devemos lembrar que  uma religião não é Um simbolo, mas um sistema simbólico. Quando uma religião subjulga outra, o símbolos são substituídos(ou absorvidos) por outros da matriz arquetípica correspondente. Outros, podem se manter como contos de fada ou nos mitos. 

b) Símbolos  Individuais

 Os símbolos pessoais são formações que eclodem do inconsciente, intimamente relacionado com o momento do qual um individuo vive. O símbolo muitas vezes se constela como uma resolução de conflito. É um elemento integrador, que supera um possivel conflito possibilitando o funcionamento da dinâmica psíquica.  Um aspecto fundamental, é considerar que um símbolo somente é para quem o percebe, “depende da atitude da consciência que observa se alguma coisa é simbolo ou não(…)” (JUNG, 1991, p.445)

c) Transformadores de Energia

Jung se referia aos símbolos como transformadores de energia, pois tinham a função de transmitir a energia entre a consciência e o inconsciente. Isso significa dizer que os símbolos possuem a função de nutrir a consciência e o ego. Os símbolos canalizam a energia do inconsciente para a consciência, aglutinando a energia e deixando disponível para a ego. Isso especialmente importante, pois, quanto maior a energia disponível ao ego, maior o potencial de ação ou ao exercício da vontade.

d) Função Transcendente

Função Transcendente foi o conceito que Jung adotou (importando da matemática) para expressar a tendência da consciência e do inconsciente em se unir.Toda vez que falamos de símbolos estamos falando de função transcendente, ou melhor, esta se exprime ou se manifesta pelos simbolos. O que é importante para pensarmos a psicoterapia. Pois, a mudança da atitude da consciência ocorre na medida que a que a função transcedente se manifesta, como expressão da resolução do conflito. No texto intitulado “A Função Transcedente” Jung também relaciona a função transcendente com a transferência, pois, esta é uma tentativa do inconsciene em mudar a atitude da consciência (superação do conflito) através da projeção de conteúdos inconscientes no terapeua/analista que favoreceria essa mudança. Assim, a relação terapêutica seria simbólica, isto é, constituiria um símbolo para o cliente.

Por isto, na prática é o médico adequadamente treinado que faz de função transcendente para o paciente, isto é, ajuda o paciente a unir a consciência e o inconsciente e, assim, chegar a uma nova atitude. Nesta função do médico está uma das muitas significações importantes da transferência: por meio dela o paciente se agarra à pessoa que parece lhe prometer uma renovação da atitude; com a transferência, ele procura esta mudança que lhe é vital, embora não tome consciência disto.(JUNG, 1998, p. 74)

 

Referencias

JUNG, C.G. A DINAMICA DO INCONSCIENTE, Ed. Vozes, Petrópolis, RJ, 1998.

JUNG, C.G. TIPOS PSICÓLOGICOS  Ed. Vozes, Petrópolis, RJ, 1991.

HOMERO, ILIADA– tradução Haroldo Campos; 3 ed.; São Paulo: Arx, 2002.

 

Fabrício Fonseca Moraes é Psicólogo Clínico de Orientação Junguiana, Especialista em Teoria e Prática Junguiana (UVA/RJ), Especialista em Psicologia Clínica e da Família (Saberes, ES). Atua em Vitória desde 2003.

Contato: 27 – 9316-6985.

e-mail: fabriciomoraes@yahoo.com.br

Twitter:@FabricioMoraes

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Por Lucy Coelho Penna

 

Apresentado no Simpósio “Relaxamento: sua importância no contexto psicoterápico”, 36ª Reunião Anual da SBPC, São Paulo, 4-11 de julho de 1984. Publicado na Revista Ciência e Cultura (SBPC), 1984.

 

RESUMO

A calatonia é um método de relaxação proposto por Sándor o qual utiliza toques suaves sobre o corpo do paciente, em associação com a psicologia profunda. As três técnicas componentes do método são brevemente descritas neste trabalho, e comentadas focalizando-se a sua relação com a psicoterapia, com as reorganizações psicofisiológicas e com as mudanças posturais. Partes das respostas que são induzidas pelo método calatônico parecem ser devidas ao papel dos fatores cinesiológicos que os toques suaves mobilizam, assim como às sensações, afetos, imagens e idéias que o estímulo tátil pode despertar. Em qualquer destas categorias, as respostas do paciente ao método não devem ser vistas somente como recondicionamentos psicofisiológicos, mas, e sobretudo, como recolocações existenciais amplas e profundas.

HISTÓRICO

A calatonia é um método de relaxação proposto por Sándor (7, 8), composto de três técnicas para serem utilizadas em associação com a psicologia profunda. Sándor partiu das observações realizadas em hospitais da Cruz Vermelha, antes e durante a II Grande Guerra, para elaborar o seu método, cujo desenvolvimento posterior teve a influência das suas experiências clínicas no Brasil.

 

A técnica básica desse método, conhecida também como calatonia, foi apresentada pela primeira vez em público por ocasião do evento que a Sociedade de Psicologia de São Paulo promoveu em 1969.

Naquela ocasião, Sándor apresentou, pela primeira vez, a técnica básica, embora ela já estivesse em uso por diversos profissionais, em São Paulo. Assim , na mesma oportunidade, Mauro (3) e De Santis (1) apresentaram as suas experiências clínicas com o uso desta técnica em psicoterapia de adultos. Mais recentemente, esta última autora também mostrou o emprego da calatonia em psicoterapia infantil (2). Na mesma linha de consideração, Penna (5) apresentou o caso de uma menina de cinco anos, cuja excessiva tensão oral a tinha levado a grave síndrome da articulação temporomandibular, recuperando-se através da calatonia integrada à psicoterapia de linha jungueana. Mais recentemente, a mesma autora propôs alguns princípios para a avaliação do contexto teórico da calatonia, em sua modalidade básica (5).

 

Embora as observações já publicadas representem apenas uma parcela muito pequena das experiências clínicas feitas pelos profissionais que empregam o método calatônico, atualmente há outros relatos feitos oralmente, em várias ocasiões. Durante os últimos anos o método tem sido divulgado através de cursos de especialização 1 e de grupos de estudos, realizados por Sándor ou por seus colaboradores, tanto na universidade, quanto em clínicas particulares.

 

 

OBJETIVO DO MÉTODO

Em um plano mais abrangente, esse método visa uma reavaliação existencial ampla e foi planejado para alcançá-la em integração com a psicologia profunda. Visto de modo operacional o método objetiva a regulação do tono psicomotor e procura o recondicionamento psicofisiológico do paciente, através de estímulos táteis suaves, aplicados em pontos determinados do corpo.

 

Os seus efeitos são observados no planejamento da postura, que é conseqüência da regulação do tono das musculaturas esquelética e visceral; assim como na soltura dos movimentos e na expansão da sensibilidade proprioceptiva. Com um melhor conhecimento do próprio corpo, o sujeito então pode reavaliar as suas expressões corporais e elaborar a linguagem dos próprios sintomas, quando os possui. Segundo Sándor (8), os conteúdos inconscientes que estão associados às desorganizações psicofisiológicas aparecem na forma de imagens, idéias, lembranças e sonhos, refletindo o momento em que vive a pessoa. Sempre que surgem, essas produções das camadas mais profundas da personalidade são acolhidas e trabalhadas no processo terapêutico, sem que se procure dirigi-Ias e nem também forçá-las em esquemas interpretativos, mas dando-lhes a dimensão profunda adequada.

Assim, a calatonia possibilita a ampliação do mundo interno e abre a recepção do simbolismo das representações corporais. As funções intelectiva e ideatória são, por este meio, também mobilizadas, do que resulta um amplo processo transformador, o qual é diretamente manifestado na melhor qualidade dos relacionamentos interpessoais.

O método é constituído, atualmente, por três técnicas. A primeira, que foi originalmente apresentada como “calatonia” e duas outras, que devem ser consideradas como desdobramentos da técnica básica: Descompressão Fracionada e Toques de Reajustamento nos Pontos de Apoio. As três técnicas possuem em comum o modo suave como empregam a estimulação tátil, além do princípio geral de utilização em um contexto psicoterapêutico. Entretanto, dentro de certos critérios éticos, a técnica básica tem sido empregada também na prática médica; em fonoaudiologia e fisioterapia, assim como em reabilitação e em terapia ocupacional (relatos pessoais). Além disso, estão sendo presentemente desenvolvidas várias experiências com essa técnica em centros comunitários (penitenciárias, creches, escolas e hospitais), cujos relatos (pessoais) indicam resultados bastante promissores.

 

1. Inicialmente na Universidade Católica e, depois, no Instituto Sedes, em São Paulo.

 

A TÉCNICA BÁSICA

A aplicação do método calatônico em sua modalidade básica (calatonia) consiste na realização de uma seqüência de nove toques suaves e monótonos, os quais são aplicados sobre a pele, nas extremidades do corpo. Pode-se escolher entre a área dos pés e calcanhares e a área das mãos e pulsos, segundo critérios terapêuticos. Preferencialmente, realizamos a calatonia sobre as extremidades distais, de acordo com as normas descritas por Sándor (7, 8).

 

Para a aplicação, o paciente deita-se em decúbito dorsal, com os braços bem soltos ao longo do corpo. Sugere-se que feche os olhos, podendo abri-los, se quiser; o terapeuta solicita que aceite as mudanças que poderão acontecer em seu estado geral, sem procurar interferir, além de que é muito importante que não pense em relaxar-se, apenas “deixe acontecer”. O terapeuta senta-se, então, aos pés da cama e, muito suavemente, toca os pés do paciente, mas sem massagear, nem movimentar ou pressionar, limitando-se ao contato sutil. A área de contato situa-se nas falanges distais, mais precisamente na base da unha, colocando-se o polegar no lado posterior, à altura da polpa do dedo. Cada contato é feito simultaneamente nos dois pés, de maneira tranqüila e uniforme, por aproximadamente três minutos. Para voltar do estado de relaxação, pedimos que a pessoa movimente os dedos, balance levemente a cabeça, abra os olhos e pisque, respire fundo e espreguice, antes de erguer-se.

 

A aplicação da calatonia em sua modalidade principal, nos pés, promove determinados efeitos que vêm sendo estudados clinicamente, mostrando que sua peculiaridade reside no alcance da estimulação tátil realizada nos pés, dentro da relação terapêutica. Esta condição enfatiza as qualidades empáticas do contato suave na pele, além dos aspectos simbólicos dos pés na imagem do corpo. Consideramos que os pés, estando na parte mais inferior do corpo humano, podem ser, analogicamente, depositários dos conteúdos básicos da personalidade, juntamente com as pernas e a pélvis.

 

Por outro lado, os pés têm sido tratados como símbolo da alma humana (5) e local de projeção dos conteúdos infantis (9). Tais simbolismos são amplamente difundidos e vê-se que os conteúdos projetados na extremidade inferior do corpo também estão presentes nos mitos do Saci Pererê, Curupira e Mapinguaris que, no folclore brasileiro, são entidades protetoras dos recursos naturais (6). Por outro lado, o espaço recebe conotações simbólicas decorrentes da analogia que estabelecemos entre as partes do corpo e o meio circundante. Estes elementos de natureza psíquica estão na origem dos processos perceptivos e da relação que o ser humano constitui com as principais dimensões espaciais; fato já aproveitado em diversos testes, como o Desenho da Figura Humana, o Teste da Árvore e o Rorschach. Os pés ligam o ser humano com o chão, com a terra que não somente o sustenta, mas também o atrai para baixo.

Naturalmente, cabe ao terapeuta assinalar o alcance individual ou coletivo dos conteúdos originários da estimulação calatônica dos pés ou das mãos. De qualquer modo que o faça, porém, a sua interpretação constitui um momento privilegiado dentro da sessão. Nem sempre é oportuno interpretar-se as imagens obtidas durante a relaxação, havendo casos em que a sua simples verbalização, pelo paciente, já constitui uma elaboração suficiente e também uma grande vitória sobre a resistência.

 

 

DESCOMPRESSÃO FRACIONADA

A Descompressão Fracionada, tanto quanto o Toque de Reajustamento nos Pontos de Apoio, foi planejada para ser utilizada em seqüência à técnica básica. O seu objetivo é também desmobilizar os núcleos de tensão corporais e estimular a auto-regulação em níveis psicofisiológicos, promovendo, concomitantemente, a manifestação dos conteúdos afetivos e ideativos subjacentes. Enquanto a técnica básica estimula o sujeito a partir das suas extremidades durante quase meia hora, nesta modalidade a estimulação pode ser feita em, praticamente, todos os pontos do corpo, tendo uma duração mais curta em cada área.

 

O terapeuta exerce certa pressão com as palmas das mãos ou ponta dos dedos sobre os pontos escolhidos no corpo da pessoa, e vai modulando esse contato durante nove ciclos respiratórios do sujeito. Assim, a pressão é de modo que a pessoa perceba claramente o contato durante três expirações. Na quarta, inicia-se a descompressão, fracionando-a durante mais três ciclos respiratórios completos. Finalmente, ainda sem afastar as mãos completamente, o terapeuta permanece outros três ciclos em contato apenas suavemente perceptível.

 

Para realizar cada momento de descompressão, observa-se cuidadosamente como o paciente respira, para modulá-la quando a pessoa estiver soltando o ar. O terapeuta precisa estar ainda bastante consciente do seu próprio estado, relaxando os próprios níveis de tensão, especialmente nos braços e nas mãos.

 

As repercussões da Descompressão Fracionada são comumente de descontração nas regiões tocadas, com certa generalização para as áreas circunvizinhas, acompanhadas da sensação de calor. Freqüentemente, as recordações dos contatos anteriores nas mesmas áreas e o desejo de preenchimento daquelas experiências incompletas ou frustrantes, aparecem. Estas condições são, às vezes, espontaneamente projetadas sobre a figura do terapeuta, de modo que a pessoa cria determinadas expectativas, normalmente desfeitas com o decorrer do tratamento. Nunca é demais lembrar que, ao mesmo tempo em que toca, o terapeuta é tocado também, mesmo de modo aparentemente passivo. As suas reações podem ser, ao menos potencialmente, análogas às do paciente. Em parte isto se deve à qualidade da estimulação tátil que, sendo próxima e imediata, coloca as duas pessoas envolvidas como sujeitas a processos semelhantes de identificação e de projeção.

 

 

OS TOQUES DE REAJUSTAMENTO NOS PONTOS DE APOIO

Os Toques de Reajustamento nos Pontos de Apoio da postura são realizados, de modo muito suave, preferencialmente sobre as articulações do corpo, durante aproximadamente três minutos.

 

De acordo com a articulação escolhida, o contato é feito com um ou mais dedos, de ambas as mãos, tocando-se, simultaneamente, áreas paralelas do corpo do paciente. Assim, por exemplo, o toque nos joelhos é realizado colocando-se as pontas dos dedos de cada mão em volta da patela. O paciente está sentado, com as pernas estendidas e o terapeuta, sentado à sua frente, realiza o contato suavemente, observando as reações do sujeito.

 

O efeito mais evidente desse tipo de contato é soltar as articulações móveis (anfiartroses e diartroses), ocasionando um afrouxamento gradativo dos pontos de apoio posturais. Pela diminuição dos níveis de tensão na articulação estimulada, far-se-á sentir o predomínio da força da gravidade, conduzindo o corpo para uma soltura maior. Por isso temos sempre ao lado do sujeito um divã, ou mesmo boas almofadas, para que, eventualmente, ele possa deixar-se descontrair despreocupadamente.

 

É o estado de tensão anterior do paciente que vai determinar o reajustamento postural necessário. No entanto, sempre se pode observar uma resposta respiratória reflexa após o toque, acompanhada de descontrações em feixes de fibras, ou até mesmo em grupos musculares inteiros. Estas reações levam a uma soltura parcial do corpo no espaço, partes simétricas se reequilibram e movem-se, alinhando-se de modo mais harmonioso. Em outras ocasiões, quando o reajustamento atinge zonas musculares mais extensas, observamos um verdadeiro “derretimento” da postura, todo o corpo se solta e o paciente entra em profunda relaxação.

Nesses momentos, é comum que haja certa percepção do processo de reajustamento que teve lugar, o qual se propõe à mente do paciente através de imagens diversas, às vezes em tonalidades de luz e sombra nas áreas corporais envolvidas.

 

 

A APLICAÇÃO DO MÉTODO EM PSICOTERAPIA

Dentro de uma sessão, costuma-se, primeiramente, ouvir o paciente, receber os seus conteúdos e observações e depois realizar a calatonia ou uma das outras técnicas. Este procedimento conduz a uma peculiar aproximação dos mesmos conteúdos relatados verbalmente. Durante a relaxação a pessoa tem a oportunidade de observar-se a partir de outro ponto de vista e captar aquilo que o seu inconsciente está querendo dizer sobre o material verbalizado. Esta visão interior geralmente contribui com lembranças e com imagens sensoriais atuais, experiências do corpo vividas intensamente no passado e ligadas ao momento presente.

 

Muito freqüentemente, os toques nos pés estimulam o aparecimento de imagens de movimento ou alterações do equilíbrio, fazendo com que a pessoa se perceba em posições diferentes daquela em que realmente está. Aparecem, ainda, lembranças relativas aos primeiros passos e a quedas, a correr, dançar, momentos já vividos que se propõem ao sujeito, não apenas como reminiscências, mas acompanhados dos conteúdos afetivos correspondentes.

 

 

A PELE

Do ponto de vista subjetivo, a relação que constituímos com a pele a coloca como porção limítrofe do Eu: ela está na fronteira entre o mundo interno e externo, fronteira sensível, dinâmica e mutável, que se expande e se contrai de acordo com os estados psicofisiológicos. A pele nos isola, nos protege e também nos contém.

 

A pele é considerada, segundo os especialistas, como um órgão dos sentidos, ocupando entre estes, uma posição singular. A sua origem embrionária é a mesma do sistema nervoso 2 . Estas características a capacitam para exercer as funções de recepção e de emissão que lhe são peculiares. A pele parece emitir sinais em um grau não encontrado nos outros órgãos dos sentidos, embora alguns destes sinais somente sejam perceptíveis quando há um contato proximal entre emissor e receptor. À medida que o meio interno apresenta certas modificações, estas são conduzidas à periferia do corpo e traduzidas em alterações vasomotoras de ereção capilar e de sudorese, de mudança da condutibilidade elétrica e outras, que se constituem em autênticos sinais de comunicação. O método calatônico procura produzir estímulos predominantemente ectodermais, mas também as camadas de origem mesodérmicas são ativadas nos toques com pressão leve.

 

2. O sistema nervoso central e a camada superficial da pele desenvolvem-se do ectoderma, enquanto a camada interna (derme) e o sistema nervoso vegetativo têm origem no mesoderma.

 

No método calatônico o silêncio e a ausência de controle visual contribuem para enfatizar a pele como meio e mensagem da relação que se constitui. As mãos do terapeuta podem, então, representar um ponto de contato com o mundo exterior que permite à pessoa realizar a transição entre o estado de alerta e o relaxamento. Nesse sentido, as mãos desempenhariam um papel análogo ao dos “objetos transicionais” mencionados por Winicott (10), facilitando o mergulho introspectivo e assegurando o retomo construtivo da libido. Os objetos transicionais trazem proteção e impedem que a ansiedade, naturalmente elevada pelos conteúdos da entrada no inconsciente, desorganize a identidade egóica. As mãos do terapeuta podem ser percebidas como um objeto a meio caminho entre o objetivo e o subjetivo, sendo, então, parcialmente incorporadas durante a experiência de descontração. Com a continuidade do desenvolvimento do indivíduo, ele poderá criar relações objetais propriamente ditas, valendo-se destas vivências de soltura psicológica e física que correspondem ao estado de relaxação.

 

Nas ocasiões em que as reações neurovegetativas são também mobilizadas, pode-se ter choro ou uma gostosa vontade de rir, além de outras expressões fisiológicas com significados afetivos, como de alegria ou de tristeza. A “volta à terra” que este derretimento promove, aproxima o paciente de zonas inconscientes muitas vezes intocadas, produzindo experiências “arquetípicas”, onde o somático e o psicológico não estão ainda dicotomizados, nem diferenciados. A energia libidinal pode então ser conscientemente percebida, fluindo no próprio corpo, sem controle voluntário, gerando eventualmente medo e angústia, tanto quanto prazer e alegria.

A FORÇA DE GRAVIDADE

A participação da energia gravitacional nos três procedimentos mencionados é central. Quando estimulamos os pés aproveitamos terapeuticamente os muitos recursos sensoriais e motores desenvolvidos pela espécie para captar e responder à “mãe-terra”, no curso da adaptação do ser humano ao planeta. O principal estímulo recebido da terra, sempre presente desde o início da vida, é a sua força magnética, segurando o homem à sua superfície. O esqueleto, os músculos e os órgãos desenvolveram-se estrutural e funcionalmente para adaptar-se ao tipo de ambiente terrestre. Logo, o equilíbrio e a harmonia da postura estão correlacionados com a adaptação funcional ao ambiente. Neste sentido, quando a relaxação desmancha os núcleos de tensão muscular, a força de gravidade atua e atrai para baixo. Após essa “queda” planejada, será mais fácil a pessoa perceber como está organizando a sua posição no mundo e se por de pé de modo mais harmonioso.

 

Na Descompressão Fracionada toca-se o corpo de um modo que dificilmente ele é tocado nas relações sociais comuns. Além disto, a compressão é parte do estímulo constantemente recebido pela massa corpórea que, ao se movimentar, muda as relações de peso e altera a pressão que está sendo constantemente exercida pela gravidade terrestre sobre as diferentes áreas do corpo.

Nos toques de Reajustamento o paciente está de pé ou sentado e, o efeito da força gravitacional é ainda mais evidente. Realiza-se neste como nos outros toques, o sentido procurado pelo seu Autor quando escolheu o termo grego khalaó, para denominar o método. Este verbo, que significa literalmente “relaxação”, possui, ainda, outros sentidos, tais como: “deixar ir”, “afastar-se do estado de ira ou de violência”, “abrir uma porta”, “rasgar os véus”, “desatar as amarras de um odre”, “retirar o véu dos olhos”, “alimentar-se”, e também, “perdoar os pais”.

 

Sabemos que as defesas são erigidas para resistir à força natural, que tanto está fora do corpo como dentro dele. A neurose se estrutura nos músculos, especialmente nos posteriores, através dos quais se expressa simbolicamente em uma postura orgulhosa, dura; por outro lado, denuncia a enorme dificuldade em relaxar, em deixar-se ir, seguindo o fluxo da própria energia. Saber ser ativo e passivo, conforme as circunstâncias, é um estilo de vida, não somente uma questão de fisiologia ou de psicologia do movimento. Reconhecendo a importância desses aspectos, o trabalho psicoterapêutico que utiliza os toques suaves em associação com a análise do inconsciente procura integrar os níveis físico, afetivo e cognitivo da experiência humana.

 

Em todos os casos nos quais a reorganização seja visada, o método calatônico pode ser utilizado.

Segundo Sándor (8), desaconselha-se o seu emprego em casos de psicoses agudas, quando este método não poderia ser realizado de maneira suave, como foi planejado. Por outro lado, em afecções somáticas graves, nas síndromes psicossomáticas e em estados confusionais, aconselha-se que o terapeuta trabalhe com supervisão, além de que mantenha contatos com o médico responsável, para o eventual tratamento medicamentoso do paciente.

Durante certos tratamentos com fármacos que alteram o estado de consciência, e também com corticoesteróides, entre outros, o emprego do método precisa de especial atenção.

 

Em síntese, os critérios éticos e as indicações só podem ser adequadamente pensados e pesados quando o terapeuta tenha sido submetido antecipadamente, ele próprio, às intervenções que pretende realizar.

 

 

REFERÊNCIAS

(1) De Santis, M.I. 1969. A integração do animus na metanóia e no relaxamento. Bol. Psicol, São Paulo, 21: 57 e 58:
(2) De Santis, M.I. 1976. O discurso não verbal do corpo no contexto psicoterápico. Dissert Dep. Psicol. PUC, mimeog., Rio de Janeiro.
(3) Mauro, B. 1969. Anima e inconsciente racial no relaxamento e nos sonhos. Bol. Psicol, São Paulo, 21: 57 e 58.
(4) Penna, L 1976. Observações sobre um caso de psicoterapia infantil com relaxamento. Anais do II Congresso Interamericano de Psicologia. Clínica, São Paulo.
(5) Penna, L. 1979. Calatonia: a sensibilidade, os pés a imagem do próprio corpo em psicoterapia Dissert. IP-USP , mimeog., São Paulo.
(6) Penna, L. 1983. Os pés em relação com a terra. Cadernos da PUC, São Paulo, n 15.
(7) Sándor, P. 1969. Calatonia. Bol. Psicol., São Paulo, 21:57 e 58.
(8) Sándor, P. 1974. Técnicas de relaxamento, São Paulo, Vetor.
(9) Schilder, P. 1950. The image and appearance of the human body. Nova York, John Wiley & Sons.
(10) Winicott, D.W. 1958. Transitional objects and transitional phenomena Collected Papers: Through Pediatrics to Psyco-Analylisi. Londres, Tavistock Publ.

 

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Por Rosa Farah

  (Revista “Hermes” no. 1)

 

Ainda hoje, mesmo entre terapeutas junguianos, podemos por vezes observar algumas reações de surpresa ao mencionarmos a aplicação das técnicas de trabalho corporal associadas à Psicologia Analítica de C.G. Jung. Tal fato deve-se apenas em parte à maior divulgação em nosso meio das abordagens corporais derivadas do trabalho de Reich e seus seguidores (a Bioenergética, por exemplo), ou mesmo das chamadas formas “alternativas” de intervenção terapêutica.

 

Embora existam razões históricas mais complexas para que os processos corporais permanecessem até então aparentemente à parte das considerações dos psicoterapeutas não é nosso objetivo aqui detalhar tais razões(2). Vamos mencionar apenas como ilustração destes fatores a polêmica estabelecida – dentro do próprio meio psicanalítico – pelas contestações apresentadas por Reich: Conforme sabemos, suas críticas foram dirigidas não apenas a alguns dos postulados teóricos e metodológicos da Psicanálise. As próprias estruturas de poder subjacentes às instituições acadêmico-científicas também foram alvo direto de sua análise. A partir daí, o posicionamento científico de Reich passou a ser conhecido de forma inseparavelmente associada à sua atitude contestadora.

A polêmica resultante da repercussão de suas propostas contribuiu em grande parte para Reich passar à História da Psicologia como sendo um contestador pioneiro, especialmente no assunto referente à consideração dos processos corporais na busca de compreensão dos dinamismos psicológicos.

 

Não se pretende aqui entrar em detalhes sobre os aspectos inovadores de sua obra, embora o tema seja de extremo interesse e valia para uma maior compreensão da evolução da Psicologia ocidental. Nossa intenção inicial é chamar a atenção para o fato de a polêmica envolvendo a história do corpo na Psicologia não ter se originado com as proposições de Reich e seus seguidores.

 

Em “Tocar, Terapia do Corpo e Psicologia Profunda”, McNeely(3), terapeuta junguiana, apresenta um esclarecedor apanhado histórico sobre aqueles que considera como pioneiros da somatoterapia(4).

 

“Considero pioneiros da somatoterapia Freud, Sandor Ferenczi, Alfred Adler, Groddeck, Wilhelm Reich e Jung. Eles foram naturalmente influenciados por outros: Nietzsche, Kretschmer, Krafft-Ebing, Schiller, antropólogos, etc.

 

Começo por estes seis terapeutas porque sua principal preocupação com relação ao corpo foi a distribuição da energia (conforme se vê principalmente na teoria dos impulsos). Descobre-se que nesta matéria eles estiveram juntos, discordaram e, por fim, se separaram.” (5)

 

Estamos destacando aqui um elemento fundamental para a compreensão sobre a evolução da atenção dada ao corpo na história da Psicologia ocidental: as dificuldades para o equacionamento da relação corpo-mente não provêm apenas da complexidade inerente aos processos psicofísicos envolvidos. Se mesmo em nossos dias nos defrontamos ainda com muitos obstáculos – fruto de preconceitos determinados ainda pelo espírito de nossa época – para o desenvolvimento de certos níveis do nosso trabalho, o que não estaria então ocorrendo naqueles tempos e lugares, no âmbito acadêmico onde viveram e trabalharam os pioneiros da Psicologia Profunda? Vejamos o pensamento de McNeely a respeito.

 “A resistência da sociedade para com aquilo que se revelava foi impressionante. Freud e seus colegas estavam descobrindo que a moralidade e a neurose relacionavam-se. De algum modo, a energia da unidade mente-corpo era capaz de direcionar-se mal, transformando-se em sintomas físicos, dizendo realmente que um corpo doente ou perturbado indica uma psique perturbada que necessita de cura. Esta não era uma mensagem popular.” (6)

Não nos parece necessário detalhar neste momento a apresentação de elementos demonstrativos do aspecto polêmico da consideração do corpo na Psicologia.

 

Esses breves comentários têm por finalidade apenas situar e destacar o fato que, em época idêntica à mencionada por McNeely – e portanto em meio ao mesmo clima descrito -, C. G. Jung ter sido um dos pioneiros a abrir caminhos para uma nova forma de abordagem da questão da integração corpo-mente. Cada pesquisador de então, de forma pessoal, desenvolvia não apenas uma teoria, pois, conforme palavras do próprio Jung,

 

“Todo psicoterapeuta não só tem o seu método: ele próprio é esse método.” (7)

 

A maneira escolhida por Jung para expressar suas considerações sobre a questão do paralelismo psicofísico, parece-nos, foi intencionalmente parcimoniosa. Talvez mesmo cautelosa, especialmente quando perguntado diretamente a respeito, tal como consta nos relatos da primeira e segunda conferências que proferiu em Londres, 1935, transcritas em Fundamentos de Psicologia Analítica (8).

 

Tal atitude, embora possa parecer contraditória com outros momentos ousados de sua obra, devia-se muito mais ao fato de ser ele um homem consciente do risco representado pela atitude de pôr-se em confronto direto com a forma de pensar da época. Em suas memórias, a certa altura, diz textualmente:

 

“Percebi que é inútil falar aos outros sobre coisas que não sabem. Compreendi que uma idéia nova, isto é, um aspecto inusitado das coisas só se afirma pelos fatos.” (9)

 

Parece-nos ter Jung escolhido um outro caminho, em lugar de participar da polêmica reinante a respeito do tema corpo: a observação e registro dos fatos tal como se lhes apresentavam. E então, quando assim lhe foi possível apresentar suas idéias – isto é, corroboradas por demonstrações fatuais – não deixou de apresentá-las de modo assertivo.

A obra de Jung poderá surpreender o leitor disposto a localizar suas inúmeras menções à correlações psicofísicas. Porém mais esclarecedor do que qualquer argumento aqui apresentado será a própria constatação desse fato, por meio de uma consulta direta à fonte.

 

Sobre o material escolhido para a pesquisa:

Para realizar esta pequena pesquisa procuramos selecionar, na obra de Jung, algum material adequado ao objetivo expresso no título deste artigo: ilustrar a maneira direta e explícita com que este autor faz referências a processos corporais, mencionando-os como componentes intrinsecamente interligados aos dinamismos psíquicos.

 Localizar e destacar tais referências parece-nos uma maneira bastante clara e objetiva de ilustrar um aspecto de fundamental interesse na Psicologia junguiana: o fato de que a maneira utilizada por Jung para mencionar o dado corporal, já deixava implícita a possibilidade de vir a se desenvolver uma forma “junguiana” de abordagem do corpo em Psicologia. Um texto em especial foi então escolhido: Trata-se da edição das conhecidas “Conferências de Tavistock”, uma espécie de introdução, didaticamente organizada, ao pensamento de Jung.

 

Esta obra, conforme já mencionamos, compõe-se do relato de cinco conferências proferidas por Jung em Londres em 1935. Na edição brasileira, aparece sob o título Fundamentos de Psicologia Analítica (10).

Uma das razões motivadoras de nossa escolha por esse texto é o fato de, mesmo sendo dirigida a psicoterapeutas, a apresentação da Psicologia Analítica ser ali realizada em termos introdutórios. Assim, os principais conceitos e idéias de Jung são expressos de forma abrangente e clara, sem perder a autenticidade garantida pelo fato ser o próprio autor quem os expõe.

 

 

 

 

Procedimento utilizado:

A prática adotada em nossa pesquisa foi a seguinte: elaboramos um esquema referente a cada conferência, para ser utilizado como uma espécie de roteiro de leitura. Esse esquema colocou em destaque os principais conceitos e idéias apresentados e/ou comentados por Jung ao longo de suas falas. Na seqüência, destacamos os trechos correspondentes, em cada parágrafo do texto, aos momentos em que o autor expressou algum tipo de relação ou paralelo entre os processos psicofísicos.

 

Foi possível assim observar diferentes níveis ou tipos de menções ao corpo (e/ou seus processos) sendo expressas nas falas de Jung: em alguns momentos trata-se literalmente de uma relação formulada pelo autor, no real sentido do termo. Em outros, consiste numa hipótese, uma simples menção ao corpo ou, ainda, uma exemplificação de algum processo ou fenômeno corporal. Optamos por incluir todos os tópicos voltados a nossa finalidade – destacar menções ao dado corporal -, sem nos preocuparmos em discriminar, generalizar ou classificar o tipo de consideração feita em cada momento.

 

 

 

Citações ilustrativas sobre os dados coletados:

Antes de passarmos às citações desejamos deixar clara a idéia de que estas ilustrações não pretendem tornar prescindível a leitura (ou releitura) do texto integral. Ao contrário, esperamos que esta apresentação sirva de estímulo à sua consulta do original. Porém existe uma razão para adotarmos esta forma – a citação – e não apenas a menção aos parágrafos e trechos pertinentes: a visão conjunta dos textos selecionados fornecerá ao leitor, em nossa forma de entender, uma percepção diferenciada dos elementos assim destacados no pensamento de Jung.

 

1. Falando sobre a relação consciente <–> inconsciente (11):

“A consciência é sobretudo o produto da percepção e orientação no mundo externo, que provavelmente se localiza no cérebro e sua origem seria ectodérmica. No tempo de nossos ancestrais essa mesma consciência derivaria de um relacionamento sensorial da pele com o mundo exterior. É bem possível que a consciência, derivada dessa localização cerebral, retenha tais qualidades de sensação e orientação.” (12) # 14

 

2. Ao falar sobre o ego e sua relação com a consciência:

“E o que seria o ego? É um dado complexo formado primeiramente por uma percepção geral de nosso corpo e existência e, a seguir, pelos registros de nossa memória.(…) Esses dois fatores são os principais componentes do ego, que nos possibilitam considerá-lo como um complexo de fatos psíquicos. A força de atração desse complexo é poderosa como a de um imã: é ele que atrai os conteúdos do inconsciente, daquela região obscura sobre a qual nada se conhece. Ele também chama a si impressões do exterior que se tornam conscientes ao seu contato. Caso não haja este contato, tais impressões permanecerão inconscientes.” # 18

 

3. Diferenciando afeto e sentimento:

“O problema está apenas numa questão de grau. Se houver um valor obsessivamente forte, sua tendência é tornar-se uma emoção num dado momento, ou seja, quando atingir a intensidade suficiente para causar uma enervação fisiológica. Todo processo mental provavelmente causa ligeiras enervações deste tipo, e são realmente tão pequenas que não há meios de demonstrá-las(13).

 

Existe, entretanto, um método bastante sensível de registrar as emoções em suas manifestações fisiológicas; trata-se do efeito psicogalvânico(14). Baseia-se na diminuição da resistência elétrica da pele sob influência emocional, o que não se dá sob influência do sentimento.” (15) # 48

 

4. Falando a respeito da relação corpo-mente:

“A relação corpo-mente constitui um problema extremamente difícil. Pela teoria de James-Lange, o afeto é resultado de alteração fisiológica. A pergunta: Corpo ou psique é fator preponderante? sempre será respondida segundo diferenças temperamentais. Aqueles que por temperamento preferem a teoria da supremacia do corpo afirmarão que os processos mentais são epifenômenos da química fisiológica. Os que acreditam mais no espírito adotarão a tese contrária: o corpo é apêndice da mente e a causalidade reside no espírito. A questão tem aspectos filosóficos e por não ser filósofo não posso arrogar a mim a decisão. Tudo o que se pode observar empiricamente é que processos do corpo e processos mentais desenrolam-se simultaneamente e de maneira totalmente misteriosa para nós. É por causa de nossa cabeça lamentável que não podemos conceber corpo e psique como sendo uma única coisa.

 

A Física moderna está sujeita à mesma dificuldade: atentemos para o que acontece com a luz! Comporta-se como se fosse composta de oscilações e ainda formada por corpúsculos. Foi necessário uma fórmula matemática muito complexa, cujo autor é M. de Broglie, para auxiliar a mente humana a conceber a possibilidade de corpúsculos e oscilações serem dois fenômenos que formam uma única e mesma realidade(16). É impossível pensar isso, mas somos obrigados a admiti-lo como postulado.

 “Do mesmo modo o chamado paralelismo psicofísico forma um outro problema insolúvel. Tome-se por exemplo o caso da febre tifóide e suas contaminações psíquicas; se os fatores psíquicos forem confundidos com uma causalidade atingiríamos conclusões absurdas. O máximo que se pode afirmar é a existência de certas condições fisiológicas que são claramente produzidas por doenças mentais, e outras que não são causadas, porém meramente acompanhadas de processos psíquicos. Corpo e psique são os dois aspectos do ser vivo, e isso é tudo o que sabemos.

 

Assim prefiro afirmar que os dois elementos agem simultaneamente, de forma milagrosa, e é melhor deixarmos as coisas assim, pois não podemos imaginá-las juntas. Para meu próprio uso cunhei um termo que ilustra essa existência simultânea; penso que existe um princípio particular de sincronicidade(17) ativa no mundo, fazendo com que fatos de certa maneira aconteçam juntos como se fossem um só, apesar de não captarmos essa integração. Talvez um dia possamos descobrir um novo tipo de método matemático, através do qual fiquem provadas essas identidades. Mas atualmente sinto-me totalmente incapaz de afirmar se é o corpo ou a psique que prevalece.” # 69/70

 

5. Ao final da segunda conferência, um dos presentes retoma, na forma de novo questionamento, a discussão do paralelo psicofísico (# 135). Pode-se perceber, na colocação da pergunta a tentativa de cobrar de Jung a retomada da análise de um sonho por ele realizada em outro contexto. A partir da interpretação do mencionado sonho, Jung teria identificado a base orgânica da doença do sonhador, conforme é relatado na nota 33, pág. 60 do texto original. Dr. Bion pergunta, então, se Jung coloca apenas como uma analogia os paralelos entre as formas arcaicas do corpo e da mente ou se ele percebe uma relação mais profunda entre elas. A íntegra das respostas de Jung abrange várias páginas, motivo pelo qual novamente recomendamos uma consulta ao texto original(# 135 a 144). Como ilustração da cautela adotada por Jung frente à questão citaremos aqui alguns trechos dessa sua fala.

 “O senhor voltou novamente ao problema do paralelo psicofísico, ponto extremamente controvertido, sem resposta, pois está fora do conhecimento humano. Como tentei explicar ontem, as duas coisas acontecem juntas, de maneira peculiar, e são, creio, dois aspectos diferentes apenas para a nossa inteligência, e não na realidade. Nós as concebemos como duas formas devido a nossa total incapacidade de concebê-las juntas.” # 136

 

“O caso mencionado pelo senhor foi o do pequeno mastodonte. Explicar o que o mastodonte significa de orgânico e por que devo tomar tal sonho como sintoma fisiológico desencadearia uma tal polêmica que os senhores acabariam por me acusar de obscurantismo. Tais coisas são realmente obscuras, e eu teria de falar da mente básica, que pensa por meio de padrões arquetípicos. Quando falo de tais padrões, aqueles que têm consciência deles entendem, mas os outros podem acabar pensando assim: ‘Esse sujeito é completamente louco, pois se preocupa com diferenças entre mastodontes, cobras e cavalos’. Eu deveria dar-lhes um curso de aproximadamente quatro semestres sobre simbologia para que os senhores conseguissem seguir o que eu digo.” # 138

 

“Quando ouvem o que digo, costumam dizer: é passe de mágica. Também se pensava assim na Idade média e se perguntava: Como se pode afirmar que Júpiter tem satélites? Se a gente responder que é pelo telescópio, o que representará isso para um público medieval?.” # 139

 

“Não quero me superestimar por isso; fico sempre perplexo quando meus colegas perguntam: Como você estabelece um diagnóstico desses ou chega a tal conclusão? Respondo normalmente: Explico, se você me permitir dizer o que você deve fazer a fim de entendê-lo.” # 140

 

6. Ao discorrer sobre os complexos:

“…provavelmente os senhores já observaram que, ao me fazerem perguntas difíceis, não consigo respondê-las imediatamente porque o assunto é importante, e o meu tempo de reação, muito longo. Começo a gaguejar e a memória não fornece o material desejado. Tais distúrbios são devidos a complexos – mesmo que o assunto tratado não se refira a um complexo meu. Trata-se simplesmente de um assunto importante, tudo o que é acentuadamente sentido torna-se difícil de ser abordado, porque esses conteúdos encontram-se, de uma forma ou de outra, ligados com reações fisiológicas, com processos cardíacos, com o tônus dos vasos sangüíneos, a condição dos intestinos, a enervação da pele, a respiração. Quando houver um tônus alto, será como se esse complexo particular tivesse um corpo próprio e até certo ponto localizado em meu corpo, o que o tornará incontrolável por estar arraigado, acabando por irritar meus nervos. Aquilo que é dotado de pouco tônus e pouco valor emocional pode facilmente ser posto de lado porque não tem raízes. Não é aderente.” # 148

 

“…O complexo, por ser dotado de tensão ou energia própria, tem a tendência de formar, também por conta própria, uma pequena personalidade. Apresenta uma espécie de corpo e uma determinada quantidade de fisiologia própria, podendo perturbar o coração, o estômago, a pele.(…) Quando se fala em força de vontade, naturalmente se pensa em um ego. Onde, pois, está o ego, ao qual pertence a força dos complexos? O que conhecemos é o nosso próprio complexo do ego, que supomos ter o domínio pleno do nosso corpo. Não é bem isso, mas vamos considerar que ele seja um centro que está de posse do corpo, que exista um foco denominado ego, dotado de vontade e que possa fazer alguma coisa por meio de seus componentes.” # 149.

 

7. Comentando um sonho, Jung estabelece relações entre imagens oníricas e estruturas orgânicas do sonhador. Novamente reproduziremos aqui apenas as correlações estabelecidas. O contexto global poderá ser localizado nos parágrafos 180 a 201 do texto original.

 

“…Afirmo – e quando digo isso tenho algumas razões para fazê-lo – que representações de fatos psíquicos através de imagens como cobra, lagarto, caranguejo, mastodonte ou animais semelhantes também representam fatos orgânicos. A serpente, via de regra, representa o sistema raquidiano (cérebro espinhal), particularmente o bulbo e a medula. O caranguejo, por outro lado, sendo dotado apenas de um sistema simpático, representa as funções relativas a esse sistema nervoso, mais o parassimpático, ambos localizados no abdômen. O caranguejo é uma coisa abdominal. Então, se traduzirmos o texto do sonho, poderemos ler: se você continuar assim, seu sistema simpático e raquidiano voltar-se-á contra você, e aí não haverá como fugir. E é bem isso o que está acontecendo. Os sintomas de sua neurose expressam a rebelião das funções simpáticas e do sistema raquidiano contra a sua atitude consciente.” # 194(…)

 

“Eis como se comportam as pessoas que só têm cabeça. Usam o intelecto, a fim de afastarem as coisas por meio de um raciocínio qualquer. Dizem: Isso é insensato, portanto, não pode ser, portanto, não é. É assim que faz o nosso amigo. Ele simplesmente abole o monstro através do raciocínio.” # 199

 

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Katie BjÖrn – Amorfa – Oil painted, 1998.

 

 

Por Celso Barreto

 

Existem muitos pioneiros no trabalho da somaterapia, Freud, Sandor Ferenczi, Adler, Reich, Jung e outros.

O objetivo deste ensaio é apresentar C.G.JUNG como um dos pioneiros a abrir caminhos em uma abordagem de Integração “corpomente”, apesar de ainda em nossos dias, o ambiente acadêmico persistir com preconceitos para desenvolver esta abordagem.

Tenho informações que alguns profissionais da Psicologia Analitica já estão desenvolvendo este trabalho em forma de vivências, utilizando a fundamentação junguiana para a Integração Psicofísica.

Para iniciar a apresentação deste trabalho escolhi algumas falas de Jung proferidas em alguns seminários que esboçam a idéia corpomente segundo suas observações.

Relacionamento consciente – inconsciente – corpo

“A consciência é produto da percepção e orientação no mundo externo que provavelmente se localiza no cérebro e sua origem seria ectodérmica. No tempo de nossos ancestrais a consciência derivaria de um relacionamento sensorial da pele com o mundo externo. É bem possível que a consciência derivada dessa localização cerebral retenha tais qualidades de sensação e orientação”(Par.14 – Fund.Psic.Anal.Jung).

Obs: Tanto a pele quanto o sistema nervoso originam-se da ectoderme e também criam os órgãos dos sentidos: olfato; paladar; audição; visão; tato; ou seja , tudo o que acontece fora do organismo. Portanto o SN é uma parte escondida da pele, ou ao contrário, a pele pode ser considerada como a porção externa do SN.

“Nossos conteúdos inconscientes são potencialidades que podem vir a ser, mas que não são, porque não tem definição. Somente quando se tornam definidas elas podem aparecer. Nada é definido no inconsciente, enquanto algo estiver no inconsciente, nada pode ser dito sobre ele. Definição aparece quando a matéria aparece. De acordo com a filosofia Tântrica, a matéria é a definição do pensamento divino, o pensamento criador. Porém isto é meramente uma projeção psicológica, pois enquanto o pensamento de alguém não atingir um corpo, ele não é definido. Dar corpo aos pensamentos significa que se pode falar a respeito dos mesmos, pintá-los, mostrá-los, fazê-los aparecer claramente aos olhos do mundo.

Até mesmo certas doenças do corpo podem trazer o caráter da idéia, talvez representem a idéia de alguma coisa que simplesmente não pode ser engolida. Uma coisa que não pode ser aceita é representada por um espasmo da garganta, por exemplo, e pode ir tão longe que a pessoa pode não conseguir comer.

Então, tais idéias suspensas podem se expressar facilmente no corpo; em certos problemas de pele, perturbações do sistema nervoso periférico, talvez com anestesia, problemas de estomago e intestino, ou seja , diarréia ou constipação. As pessoas que não querem deixar algo ir embora podem produzir uma extraordinária constipação. Existem muitas coisas engraçadas a esse respeito, quase cômicas, tão óbvias que quase não se acredita, pois somos pouco inclinados a acreditar nas coisas óbvias, sempre achamos que a verdade precisa ser muito complicada, muito sutil. Se alguem fala algo muito simples, todo mundo pensa que não é verdade”

( Pgs.136,137 Assim Falou Zarathustra, Jung).

Exemplificando este texto de Jung, recebo sempre em meu consultório pessoas que persistem em não acreditar que as reações físicas que estão tendo, estão diretamente ligadas a sua vida psíquica, pois parece simples demais que tal situação ocorrida em sua vida possa estar afetando-o desta maneira. O que facilita meu trabalho é que estas pessoas geralmente já passaram pela mão de diversos especialistas da área da medicina e também já fizeram todos os exames necessários para diagnosticar que fisicamente eles não tem disfunção alguma do órgão ou parte afetada, receberam apoio medicamentoso e foram encaminhados para um psicólogo.

Apresentarei em seguida como Jung abordou a situação citada acima com um de seus clientes e depois como vejo a evolução deste trabalho nos tempos atuais para quem associa outras técnicas de apoio para auxiliar seus clientes a entrar em contato consigo próprio e sua vida interior(psique).

“Certa vez tratei um caso assim; o homem ficou reduzido a um esqueleto. Podia somente engolir duas xícaras de leite por dia, e para cada xícara necessitava duas horas, e toda vez que tomava um gole um pouco maior ele simplesmente recusava – precisava tomar aos golinhos. Ficava tão cansado que temia morrer. Ninguém sabia o que fazer, e então esse pobre homem acabou indo a uma feiticeira. Vejam, eu fui chamado como último recurso, quando o homem estava praticamente morto. Eu sou tão extremamente não científico, que posso curar um tal caso. Quando tal homem caiu eventualmente em minhas mãos eu perguntei sobre seus sonhos. Logicamente, eu sabia que ele não podia engolir alguma coisa, e naturalmente tinha as maiores resistências para chegar lá, mas seus sonhos me conduziram.

Sua noiva era representada como uma espécie de prostituta em seus sonhos, então eu lhe disse para ir para casa e perguntar a um amigo o que pensava da moça. E o primeiro homem para quem perguntou disse-lhe; “É claro todo mundo sabe, ela é simplesmente uma moça fácil”Ela havia tido relações sexuais com dois outros homens enquanto era sua noiva. Isto era o que ele não queria saber, estava convencido de que ela era a mais pura das virgens, vinda das melhores famílias. Bem depois de uma semana que ele se fora, recebi uma carta sua, bastante amarga dizendo: “Eu posso comer agora! o senhor tinha razão. tive de desistir do relacionamento. Penso que estou curado. Atenciosamente” Podia se ver sua emoção; ele não gostou da idéia, mas é o preço para nos curarmos”(Pags.136, Assim falou Zarathustra, Jung).

Este caso deixa muito claro o relacionamento consciente-inconsciente-corpo, mas nem sempre a evolução do caso chega ao término com resultados positivos , muitas vezes a pessoa faz a integração entre essas partes, mas não consegue alterar muito suas reações físicas, como se o corpo tivesse incorporado a nova forma de funcionar ou seja o desenvolvimento de complexos psiquicos resultará também em uma reaprendizagem corporal, seja de movimentos ou de funcionamento. É necessário utilizar-se também do auto conhecimento físico para que a pessoa sinta-se mais solta e mais leve.

Trabalhei com um homem que relatou ter vários problemas de contusão de ombro e pescoço, investiguei sua história de vida e o mesmo falou ser o filho mais velho, que teve de ajudar a todos da família, é extremamente religioso e fiel as leis de sua crença, casou-se e por vários motivos separou-se da mulher, encontrou outra mulher e vive com ela a anos e não consegue regularizar a situação com ela , porque casamento na igreja é uma vez só, então ele feriu as leis de Deus e vive sofrendo por isso. Trabalha em uma empresa onde é chefe de uma seção com muitos funcionários, sua responsabilidade e dever é de tanto peso, que chega a executar as tarefas dos funcionários com receio de que eles não a executem e isto venha a compremeter sua imagem de responsabilidade. Quando ele trazia suas dores para a terapia, eu pedia que exemplificasse por qual situações de stress ele havia passado naquela semana e de como ele reagia fisicamente. Ex; estava dirigindo e alguém falou algo que o desagradou, agarrou o volante com muita força e dirigiu assim durante um bom tempo, na sua mesa de trabalho recebe telefonemas de vários departamentos e agarra o telefone com muita força. Estas associações foram trazendo a consciência do paciente os aspectos de sua rigidez, de como ele agarrou todas as leis que eram apresentadas para ele com todas as suas forças psiquicas e físicas, mas isto não fez com que soltasse seu ombro. Começou a trabalhar com o que já havia conquistado em análise, houve um alívio do sofrimento que tinha imposto a sua alma, mas seu ombro continuava doendo. Iniciei trabalhos corporais com ele com o objetivo de mobilizar maior relaxamento muscular e passei exercícios para que ele fizesse todo dia, exercício que consistia em apertar o ombro o máximo possível e ir ganhando consciência dele ao soltá-lo lentamente. Em poucos dias ele trouxe um sonho (sic) “sonhei que saía de meu ombro um bicho branco em forma de lagarta, eu fiquei muito assustado, mas depois desse sonho não tive mais dores”

O paciente se reorganizou no trabalho delegando funções e responsabilidade a seus funcionários e confiando mais , casou-se com a mulher que morava com ele e deixou o tratamento.

Ao falar aqui sobre complexos acho necessário trazer um parágrafo de Jung sobre o assunto.

“…provavelmente os senhores já observaram que, ao me fazerem perguntas difíceis, não consigo responde-las imediatamente porque o assunto é importante, e o meu tempo de reação, muito longo. Começo a gaguejar e a memória não fornece o material desejado. Tais distúrbios são devidos a complexos – mesmo que o assunto tratado não se refira a um complexo meu.. Trata-se simplesmente de um assunto importante, tudo o que é acentuadamente sentido torna-se difícil de ser abordado, porque esses conteúdos encontram-se, de uma forma ou de outra, ligados com reações fisiológicas, com processos cardíacos, com o tônus dos vasos sanguíneos, a condição dos intestinos, a inervação da pele, a respiração. Quando houver um tônus alto, será como se esse complexo particular tivesse um corpo próprio e até certo ponto localizado em meu corpo, o que o tornará incontrolável por estar arraigado, acabando por irritar meus nervos. Aquilo que é dotado de pouco tônus e pouco valor emocional pode facilmente ser posto de lado porque não tem raízes. Não é aderente”(Parágrafo 148, Fundamentos da Psicologia Analítica, Jung).

Jung e sua leitura corporal

Ao aplicar o teste de associação de palavras, Jung comenta as características da respiração de uma pessoa durante a aplicação; ele observa as nuances de alteração do ritmo respiratório que sugerem a diferença de reação do indivíduo frente a complexos conscientes e inconscientes.

“Os presente diagramas ilustram muito bem as diferenças de reações entre os complexos consciente e os inconscientes. Em C, por exemplo, o complexo é consciente. A palavra estímulo atinge a pessoa causando uma inspiração profunda. Mas, quando atinge um complexo inconsciente, o volume da respiração é restrito, como se pode ver em D, I. Há um espasmo do tórax, quase não havendo respiração. Dessa forma prova-se empiricamente a diferença fisiológica entre reação consciente e outra inconsciente” (Parágrafo 134, Fundamentos da Psicologia Analítica, Jung).

Esses níveis de respiração são muito comuns em nosso trabalho diário, e a forma de trabalhar com isso tradicionalmente é auxiliar a pessoa a descobrir os valores simbólicos de sua vida psíquica, hoje além da palavra, podemos utilizar também do auto-reconhecimento corporal associado a situação complexa. É uma forma de encontrar outros caminhos para encontrar com o inconsciente (quando percebo ou torno consciente minha respiração contida, associo também o momento e situação do ocorrido identificando melhor minhas reações, isto é não somente no nível do pensamento, mas também em meu corpo).

Como Jung exemplificou no texto inicial deste ensaio “nossos conteúdos inconscientes são potencialidades que podem vir a ser, mas que não são, porque não tem definição”

Outra leitura corporal de Jung

“Se prestarmos bastante atenção em um homem que trabalha com as percepções sensoriais, veremos que as linhas de direção de seus olhos têm a tendência de convergir, de encontrar-se num determinado ponto, ao mesmo tempo, a expressão ou o olhar da pessoa intuitiva apenas cobre a superfície das coisas. Ela não olha fixamente, mas globaliza os objetos num todo, e entre as muitas coisas que percebe, estabelece um ponto na periferia do campo e visão, e isto constitui o pressentimento.

Com bastante segurança é possível dizer a partir dos olhos de uma determinada pessoa, se ela é intuitiva ou não. É inerente ao caráter do intuitivo o não prender-se à observação de detalhes, ele sempre busca apreender a totalidade da situação e então, repentinamente, qualquer coisa emerge dessa globalização. (parágro 30, Fund.Psicologia Analítica, Jung).

Mais uma vez, Jung nos mostra a amplitude de suas observações, nunca separando, sempre associando um ponto ao outro e criando integrações psicofísicas. De uma forma simples ele mostra como identificamos um tipo psicológico através dos movimentos dos olhos.

Pretendo aqui encerrar esse trabalho dizendo que o material apresentado, acho ser suficiente para esclarecer a Integração Psicofísica de C.G.Jung, mas existe muito material deste mesmo conteúdo em toda a sua vasta obra e abrange diversos níveis de entendimento.

Como ele mesmo diria “Todo psicoterapeuta não só tem seu método; ele próprio é esse método” o que indica as milhares de possibilidades de tratamento e cada um desenvolve a sua forma, baseando-se em fundamentação da Psicologia Analítica.

Celso Barreto
Psicólogo CRP 08/04493

Bibliografia para maiores Informações:

– A prática da Psicoterapia, C.G.Jung, Ed.Vozes
– Fundamentos da Psicologia Analítica, C.G.Jung, Ed.Vozes
– Seminários sobre: Assim Falou Zarathustra, C.G.Jung, Clube Psicólogico de Zurique. 

 

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homem-colorido

Por Sonia Regina Lyra

 

Nos Seminários que JUNG escreveu sobre NIETZSCHE, Jung nos propõe um modelo de extrema importância. Os Seminários foram dados no período de 1934 a 1939. Nesta época ainda não estava suficientemente desenvolvido o conceito de sincronicidade o que fez com que Jung não adentrasse o bastante a questão do Corpo Sutil vindo a designá-lo simplesmente como “inconsciente somático” para diferenciá-lo do inconsciente psíquico.

 

Quando trata do corpo nas Obras Completas, por exemplo, tratando-se de sonhos ou de alquimia, esse normalmente é visto como símbolo de uma realidade psíquica ou de um complexo. Jung estava porém, completamente cônscio de quão difíceis são as questões levantadas a partir do corpo, o que aparece claramente em seus Seminários sobre Nietzsche, onde foi obrigado a ocupar-se mais profundamente desta questão uma vez que para Nietzsche, o Si-mesmo podia ser vislumbrado no corpo; podendo inclusive aparecer como uma identificação entre o Si-mesmo e o corpo.

 

O modelo aqui proposto por Jung, de modo muito sintético, afirma que existe uma ligação entre consciência e inconsciente, que de um lado conduz ao reino puramente espiritual e de outro, ao corpo e à matéria. Usa para este modelo o espectro apontando em duas direções opostas: os instintos e os arquétipos, cabendo ao instinto o infra-vermelho e ao arquétipo o ultra-violeta, compondo assim o que denominou de arquétipo psicóide. Se é visto como ultra-violeta, se vai em direção ao espírito, vem a ser inconsciente psíquico; se é visto como infra-vermelho, se vai em direção à matéria, vem a ser inconsciente somático. Jung diz:

 

“You see, when we speak of the unconscious we mean the psychological unconsciuos, which is a possible concept; we are then dealing with certais factors in the unconscious which we really can understand and discriminate. But the part of the unconscious which is designated as the subtle body becomes more and more identical with the functioning of the body, and therefore it grows darker and darker and ends in the utter darkness of matter; that aspect of the unconscious is exceedingly incomprehensible. I only mentioned it because in dealing with Nietzsche’s concept of the self, one has to include a body, so one must include not only the shadow – the psychological unconscious – but also the physiological unconsious, the so-called somatic unconscious which is the subtil body”. Lecture VIII, 1935.

 

Em suas Obras completas Jung geralmente traz como correlatos a imaginação e o inconsciente psíquico. Assim a Terra, por exemplo,  pode aparecer como símbolo do arquétipo materno; enquanto nos Seminários, Jung a propõe como a própria realidade da matéria, como corpo. Com isto, Jung está afirmando que o Si-mesmo é tanto corpo quanto psique, e que, o corpo lhe é apenas uma manifestação exterior. A alma surge então como “a vida do corpo”; se não pode viver em seu próprio corpo, o Si-mesmo, por assim dizer, rebela-se ou revela-se, atuando através dos sintomas.

 

Ao tratar o corpo como dimensão do Si-mesmo, Jung não está fazendo referência apenas à modalidade fisicamente experimentada, como ocorre atualmente no mundo moderno. Diz-se que há uma dedicação abusiva com relação ao corpo e todo tipo de exercícios e cremes para mantê-lo, conservá-lo. Não se trata disto. Trata-se do “corpo sutil” ou seja, do sintoma como símbolo; do somático como lugar de revelação do psíquico, porque o corpo e a psique são dois aspectos de uma mesma realidade.

 

O “ver”, é considerado semelhante àquilo descrito por Carlos Castañeda em seu encontro com Dom Juan. Trata-se de um ver imaginário mas simultaneamente, corpóreo, no sentido de ser experimentado em uma relação muito estreita com o corpo. Trata-se da distinção que os alquimistas faziam entre “imaginatio vera” e “fantástica”. Em alquimia esta “imaginatio vera” era de suma importância para levar a opus à termo.

 

Sonia Regina Lyra

Crp 08/0745

Junho de 2005.

 

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