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Posts Tagged ‘Psicologia do Corpo’

110901_jacci_yoga_097-2Imagem:  Google.

Autor: Artur Thiago Scarpato**

 

A relação entre anatomia e subjetividade é um tema básico da Psicologia Formativa de Stanley Keleman. Este autor estuda as formas somáticas, que são as constantes transformações morfológicas e anatômicas do corpo que se produzem ao longo da existência acompanhado pelas transformações psicológicas. Na concepção kelemaniana a vida é um processo constante de construção de formas somáticas, desde o processo embriológico na formação do ser humano até o final da vida. Essas transformações não são guiadas apenas por um programa já dado geneticamente, mas as formas somáticas refletem a própria produção da existência, com todos os seus acontecimentos, encontros e relacionamentos.

“O estudo da forma humana revela sua história genética e emocional. A forma reflete a natureza dos desafios individuais e como eles afetam o organismo humano….a postura ereta é acompanhada de uma história emocional de vínculos parentais e separações, proximidade e distanciamento, aceitação e rejeição. Uma pessoa pode incorporar a densidade compacta que reflete desafio ou um peito murcho que expressa vergonha. A anatomia humana é, assim, mais do que uma configuração bioquímica; é uma morfologia emocional. Formas anatômicas produzem um conjunto correspondente de sentimentos humanos”. (Keleman, 1992 p.72)

Keleman deixa de lado os modelos clássicos do aparelho psíquico e parte em busca da experiência encarnada, o corpo sendo criado e criando existência, sendo produzido e se produzindo e o psiquismo como uma parte deste processo somático-existencial.

Na visão kelemaniana, o psiquismo é uma função do corpo, o corpo sente, o corpo pensa, o corpo imagina, o corpo sonha. Nesta concepção, a anatomia e o psiquismo estão absolutamente enredados. Keleman propõe uma anatomia emocional, cognitiva, existencial. O psiquismo está estruturado a partir da organização morfológica do corpo todo e não apenas restrito ao cérebro ou a algum espírito imaterial.

Os estados subjetivos – sentimentos, pensamentos, estados de consciência – são estados do corpo. Como diz Keleman: “todas as sensações, todas as emoções, todos os pensamentos são, de fato, padrões organizados de movimento”.(Keleman, 1995, p 17).

O corpo cria imagens e símbolos de si e do mundo e assim se torna capaz de dialogar consigo mesmo e com os outros. Estas imagens são geradas no córtex cerebral a partir de um diálogo das diferentes camadas somáticas.

O diálogo do corpo consigo mesmo permite ativar um processo de auto-gerenciamento, onde é possível identificar, compreender e modular as formas somáticas, dialogando com os efeitos somáticos das experiências vividas, num modo de participar ativamente da construção da própria existência.

Keleman propõe a Metodologia dos Cinco Passos, processo onde pretende-se influenciar as atitudes, comportamentos e estados internos através da ação modulatória sobre a organização das formas somáticas. Este trabalho está focado na identificação do “como” um determinado comportamento é organizado somaticamente.

Ajuda-se o cliente primeiro a identificar o que ele faz, qual a imagem da situação (passo 1), depois a identificar como ele faz isto através de suas organizações somáticas, intensificando volitivamente com a ajuda da musculatura estriada, discriminando os afetos, estados cognitivos e esboços motores de ação organizados (passo 2). Depois começa-se a desintensificar e desorganizar as formas previamente intensificadas (passo 3) e a observar e receber de volta os efeitos desta desorganização – imagens, sentimentos, lembranças, etc. (passo 4). A partir daí pode-se reconhecer as formas que emergem como diferenciações sobre as formas anteriores (passo 5) ou então retorna-se aos padrões anteriores.

Através deste método de trabalho, atuando diretamente sobre as formas somáticas – organizadoras da experiência subjetiva – procura-se reorganizar comportamentos, atitudes e modos de ser e ensinar uma participação volitiva do sujeito em seu processo de vida, pelo aprendizado das regras da produção somática de existência.

A clínica formativa realiza uma cartografia das formas somáticas de uma pessoa para compreender e atuar sobre:

Os efeitos dos acontecimentos no sujeito.

Os modos habituais de lidar com estes efeitos e a cristalização somática da história de vida em formas estereotipadas, em modos fixos de lidar com as situações, em atitudes padrões.

O estabelecimento de um autodiálogo construtivo, de uma participação volitiva para o restabelecimento do processo formativo.

A partir do reconhecimento de como a pessoa está organizando somaticamente a sua experiência, ela poderá aprender a desorganizar e reorganizar estes modos. Fazer mais e fazer menos constituem um caminho para desorganizar padrões de ação estereotipados, abrindo a possibilidade para a emergência de sensações, sentimentos e novos padrões de ação. A pessoa pode então investir volitivamente neste processo, reconhecendo padrões, desorganizando formas e investindo em formas somáticas emergentes, na intenção de criar e estabilizar novos padrões de ação.

No processo clínico formativo, assim como no trabalho diário de cada um consigo mesmo, opera-se um manejo constante com as formas somáticas utilizando-se a Metodologia dos Cinco Passos.

Cada configuração de forma somática está relacionada a diferentes experiências subjetivas. O pensamento formativo oferece uma importante ferramenta para podermos participar ativamente deste processo, dialogando com os efeitos das experiências em nossos corpos, influindo em nossos comportamentos, aprendendo a navegar no devir.

 

BIBLIOGRAFIA:

Keleman, Stanley. Anatomia Emocional, Summus, São Paulo, 1992

Keleman, S. Corporificando a Experiência, Summus, São Paulo, 1995

Keleman, S. Amor e Vínculos, Summus, São Paulo, 1996

 

Notas:

* Artigo publicado na Revista Psicologia Brasil, ano 3 n 27, p 30-31, 2005.

 

**Autor: Artur Thiago Scarpato: Psicólogo clínico (PUC SP). Mestre em Psicologia Clínica (PUC SP). Possui quatro especializações na área de Psicologia: Especialização em Psicologia da Reabilitação pelo HC FMUSP, Especialização em Cinesiologia Psicológica pelo Instituto Sedes Sapientiae, Especialização em Teoria e Técnica Reichiana pelo Pulsar – Centro de Estudos Energéticos e Especialização em Educação Somática Existencial pelo Centro de Educação Somática Existencial. Trabalha em consultório particular com psicoterapia individual e de grupo. Autor de diversos artigos na área.

 

Retirado do site: http://www.psicoterapia.psc.br/scarpato/formacao.html

 

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PASSIONATE FLAMENCO

Imagem:  Passionate Flamenco

Por: Vera Cristina Marcellino*

ISSN 1516-0793

Pouco vivenciamos nossos corpos em movimento de uma forma consciente sobre os significados que cada gesto cotidiano pode carregar. Em linguagem psicanalítica diríamos um movimento carregado de valor, de sentido, algo que vem cheio de afetividade, que nos liga a um estado  mais profundo que a consciência cotidiana poderia observar. A surpresa é que o corpo, mesmo  em estado cotidiano não deixa nunca de estar carregado de sentido.

O movimento é a expressão particular de cada pessoa, revelando involuntariamente, suas mais íntimas características psíquicas.

Ele traz consigo, invariavelmente, aspectos conscientes e inconscientes, culturais, sociais, afetivos, simbólicos e assimila informações. O corpo, ao contrário do clichê, nome de livro, não só fala. O corpo também tem memória, escuta e elabora, pensa, simboliza, identifica sentidos, aquilo que de alguma forma tem valor para o indivíduo.

Considerando a experiência sensível do movimento uma oportunidade para a elaboração interna e dessa elaboração desenvolver o conhecimento das próprias habilidades, de seu repertório expressivo e, simultaneamente, integrar processos psíquicos ainda não conscientes, poderemos destacar que o corpo compreende à sua maneira como integrar e expressar esses processos. Ele tem uma linguagem própria que foge de códigos pré-estabelecidos ou racionais.

É raro encontrar uma abordagem terapêutica que integre os aspectos simbólicos que o corpo vivencia aos aspectos expressivos e integrativos desses símbolos através do movimento corporal.

Há técnicas terapêuticas que utilizam o corpo como recurso para psicoterapia; há terapias corporais, mas ainda é muito escasso no Brasil um trabalho que atinja simultaneamente essa unidade psicofísica através de processos artísticos, mais apropriadamente, processos da dança, ou do movimento expressivo, que no contexto da psicologia de Carl Gustav Jung poderemos chamar de Terapias Expressivas.

O princípio essencial da dança como técnica expressiva é a autonomia do indivíduo em investigar-se em movimento de tal forma que identifique a si mesmo, ou seja: descubra seu corpo e seus aspectos sensíveis e simbólicos.

No desenvolvimento desse trabalho identificamos que, articular o corpo, às emoções, às imagens simbólicas, ao mesmo tempo em que o movimento é buscado em sua forma mais crua, ele, o corpo, transborda elementos que se alimentam mutuamente: significados se desdobram em movimentos, movimentos resgatam significados.

Para Jung o processo criativo consiste (até onde nos é dado segui-lo) numa ativação mais profunda do inconsciente e numa elaboração e formalização na obra acabada. À camada mais profunda do inconsciente, nesse contexto, C. G. Jung refere-se aos árquétipos, marcas do inconsciente coletivo partilhadas pela humanidade e que resgata no indivíduo um senso de unidade, de ter um lugar no mundo. É paradoxal, mas emocionante. Para ele, a arte seria então, uma forma de tornar mais acessível e consciente esse processo de percepção de elementos não facilmente verbalizáveis e não cognitivos; forma de conhecimento mais complexo e total por ser vivencial.

Os conteúdos simbólicos podem, pela vivência poética da dança, ser requisitados para um diálogo sincero de aproximação, de acolhimento e de transformação. O resultado é: equilíbrio emocional, equilíbrio corporal.

Podemos identificar semelhanças entre os processos criativos e sensíveis e o conceito de processo de individuação que C. G. Jung propõe ao longo de sua obra. Uma vivência sensível permite acessar um universo mítico e arcaico no movimento que torna-se expressivo e integrativo em si mesmo. Dá sentido e integra no indivíduo aqueles aspectos sombrios escondidos às sete chaves, mas que, por ser vivencial, só a pessoa em processo descobre, não é necessário verbalizar, aqui, na maioria das vezes, as palavras são dispensáveis, mas a escuta faz parte do ambiente acolhedor que pretendemos oferecer. Ainda segundo Jung, nossa meta como seres humanos é a Individuação, um processo natural de amadurecimento.  É o caminho da plenitude, do encontro do Si-mesmo ou Self. Quando Jung fala de individuação, refere-se ao caminho que é orientado pelos símbolos arquetípicos (incluindo imagens mitológicas) que emergem espontaneamente, de acordo com a natureza do indivíduo.

Todos nós temos nossas identificações simbólicas com algum aspecto comum à humanidade, esses momentos de identificação não são mensuráveis. A arte possibilita esses momentos de encontro.

Ainda rara como terapia no Brasil, a dança está apresentando resultados surpreendentes na área de saúde mental, sua expansão está tardia, já que desde os primórdios da humanidade é através do movimento (corpo expressivo) que o ser humano percebe, identifica, explora e relaciona-se com o mundo, com o cosmos, com o outro e consigo mesmo.

*Vera Cristina Marcellino, Mestre em Artes pela Unicamp, Bacharel e Licenciada em Dança pela Unicamp. Facilitadora de recursos expressivos em arte-terapia (dança. Aborda e pesquisa a articulação e diálogo entre performance-art,  somma psíquico e psicologia analítica.

 LINK: www.symbolon.com.br/artigos/A_danca_e_a_psicologia_junguiana.doc

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POR FELIPE SALLES XAVIER

Na esquematização imagética existem 10 centros cabalísticos em nosso corpo simbólico, chamados Sephirots, que significariam “esferas que emanam luz” que funcionam vinculada uma a outra. Segundo a psicoterapeuta junguiana Lucy Penna, são localizações imaginais de 10 arquétipos. Esses Sephirots são interligados gerando 22 caminhos, que seguem os princípios dos arcanos maiores do Tarô que representam imagens arquetípicas do inconsciente coletivo. Os Sephirots são os seguintes: Kether, Chokmah, Binah Chesed, Geburah, Tipheret, Hod, Netsach, Yesod e Malkhuth, e ainda uma décima primeira que não é um Sephirot, Daat. Logo abaixo seguem suas localizações e seus aspectos simbólicos.

 

Malkhuth (O Reino) – se localiza nos pés e em nossas pernas, é o contato com o solo, representa a conexão com a parte instintiva, animal é a realidade física. Engloba também a energia de sustentação do corpo e da vida, é o local da energia de telúrica, ou seja, a energia de ação, e simbolicamente é o contato com a mãe terra. Gaia na mitologia grega é a deusa-mãe terra, a criadora e geradora dos outros deuses, ela representa o interior humano, fonte de emoções mais primitivas.

 

Yesod (Fundamento / Forma) – se localiza acima do órgão genital e abaixo do abdômen, é o local que funciona como um reservatório das inteligências e da criatividade, nesse local os atributos são misturados, equilibrados e preparados para a revelação física. É o centro que reuni informações de oito Sephirots. Essa área do corpo é conhecida como o ventre, ele é o centro da consciência humana, lá equilibramos todas as energias vitais e sexuais. Representa o contato com a vida e com o feminino. Yesod é olhar para si mesmo sem usar mascara alguma, permitindo-se assim entrar em contato com o eu profundo e criativo verdadeiro. Sua imagem arquetípica é a lua.

 

Netsach (Vitória / Poder / Eternidade) – se localiza no lado esquerdo próximo entre a parte superior da coxa e a cintura, fica no local do Ílio (osso que forma a cintura), é o local aonde se abriga o centro responsável pelo o contato com o próximo, surge daí o desejo de superar os próprios limites. É ligado ao fato de saber lidar bem com as paixões e com a sedução.  Engloba ainda o principio fálico fertilizador, sendo assim representa o local do masculino.

 

Hod (Glória / Majestade) – se localiza no lado oposto a Netsach, é um canal de melhoria interna e de contato com o outro, representa a aceitação dos pensamentos e reconhecimento do eu em relação ao outro, ou seja, criação do espaço interno e individual. É o principio receptivo dos óvulos femininos. A energia criativa de Yesod surge de uma comunicação entre Netsach e Hod.

 

Tipheret (Beleza / Coração) – Situa-se no centro do tórax em cima do coração, é o centro da árvore da vida. Aqui temos a complementação de consciente e inconsciente, este local integra os opostos, trazendo assim a inteligência emocional, sendo o centro da sabedoria da vida e do entendimento sobre a luz do ego (consciência). É fonte de emoções superiores como os amores, principalmente o amor ágape. Para os gregos existem quatro tipos de amor, as quais são: Eros (o amor físico e sexual, a paixão), Storge (o amor familiar), Philos (o amor entre amigos, a amizade) e por ultimo o Ágape (o verdadeiro amor, o incondicional). O amor Ágape significa generoso, é o amor que se escolhe ter, um bom exemplo desse amor é Jesus cristo. É o centro cabalístico que tem como imagem arquetípica o sol.

 

Geburah (Justiça / Rigor) – Está localizado no ombro direito é o centro de controle dos desejos responsável por questionar os impulsos e as vontades. Centraliza a energia arquetípica a canalizando em questões objetivas no mundo real, com o ideal de superar as barreiras e transformar a própria vida.

 

Chesed (Misericórdia) – Está localizado no lado oposto de Geburah é o local que representa a vontade de compartilhar as boas emoções da vida, o impulso de se doar ao próximo e também é conhecida como compaixão. De ponto de vista simbólico é o local do intuitivo, do espiritual e da bondade.

 

Binah (Sabedoria / Entendimento) – Situa-se no lado esquerdo do cérebro, fica na área da razão do ser humano. Este ponto cabalístico influencia as definições racionais e a organização do pensamento, ou planejamento concreto de algo. Tem ligação com o símbolo arquetípico da água, que sempre esta associada ao feminino e ao futuro.

 

Chokmah (Razão / Inteligência) – Está associado ao lado direito do cérebro. É a região da intuição, das manifestações artística, da criatividade e das grandes idéias, tem como imagem arquetípica o elemento fogo, que se associa ao masculino e o passado.

 

Kether (Coroa) – É a copa da árvore, situa-se na parte superior da cabeça. É a unificação de todas as Sephirots, representa a Luz Superior, gera todo o potencial criativo. No hinduísmo é visto como o Brahma, o principio da energia vital. Nesse ponto concentram-se as experiências da vida, dando passagem ao reino espiritual. A nível simbólico podemos dizer que é o caminho iniciativo para a conexão com o Inconsciente coletivo.

 

Existe ainda um possível 11º Sephirot conhecido como Daath (Conhecimento), ela não é como os outros centro, pois não emana uma energia própria. Representa o abismo, o caos, porque é o ponto de unificação entre o corpo e o espírito, também é o contato com Deus. Se localiza entre o pescoço e o tórax, e simboliza a potencialidade masculina e conhecimento profundo de si – mesmo em relação aos sentimentos profundos.

 

A cabala nós ainda encontramos a divisão de três em três centros. Atziluth (Kether, Chokmah e Binah), Beriah (Chesed, Geburah e Tipheret), Yetzirah (Netsach, Hod e Yesod) o que denuncia a dinâmica arquetípica do corpo, possibilitando outras conexões energéticas entre seus centros.

 

O Atziluth é o “Mundo das Emanações” que é o conjunto responsável pelas irradiações das idéias. O Beriah é o “Mundo das Criações” representando o contato das emoções e sentimentos com o potencial criativo. O Yetzirah é o “Mundo das Formações”, sendo aquilo que nos permite trazer para o mundo físico algo que é interno. E ainda há o Asivah que é um único centro o Malkhuth (Reino), o “Mundo das Ações”, que nos impulsiona oferecendo energia para as atitudes.

 

Em suas separações verticais a cabala ainda faz uma ligação entre os arquétipos de Anima e Animus e sua integração (o Sizígia). O Sizígia é o arquétipo da alteridade, ou seja, é o arquétipo que trabalha na unificação e equilíbrio das diferenças do “eu-pessoal” do individuo, ele está configurado na coluna central da árvore cabalística. Anima é o arquétipo que personifica o feminino, esta relacionado à coluna esquerda sendo o centro da emoção e ao sagrado. Já Animus está relacionado à personificação do masculino, e representa a organização a ordem e o racional.

 

Com isso podemos concluir a importância dos estudos da organização da Cabala, como apoio arquetípico e simbólico para entendermos o funcionamento somato-psíquico da personalidade e dos centros expressivos dos arquétipos em nossas vidas.

 

Entendendo as correntes energéticas arquetípicas podemos entender os simbolismos dos machucados, das quedas, dos hematomas, das dores musculares e dos problemas de pele. 

 

Pois, nossa mente simbólica organiza de forma inconsciente acontecimentos para que nós possamos abrir os olhos para problemas que passamos e que de certa forma nos causam sofrimento, embora a vida nos avise de muitas questões internas mal resolvidas, muitas vezes deixamos de lado não dando o devido valor as experiências vividas, abandonando assim o valor profundos dos acontecimentos externos ao nosso corpo e mente.   

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Por Rosa Farah

  (Revista “Hermes” no. 1)

 

Ainda hoje, mesmo entre terapeutas junguianos, podemos por vezes observar algumas reações de surpresa ao mencionarmos a aplicação das técnicas de trabalho corporal associadas à Psicologia Analítica de C.G. Jung. Tal fato deve-se apenas em parte à maior divulgação em nosso meio das abordagens corporais derivadas do trabalho de Reich e seus seguidores (a Bioenergética, por exemplo), ou mesmo das chamadas formas “alternativas” de intervenção terapêutica.

 

Embora existam razões históricas mais complexas para que os processos corporais permanecessem até então aparentemente à parte das considerações dos psicoterapeutas não é nosso objetivo aqui detalhar tais razões(2). Vamos mencionar apenas como ilustração destes fatores a polêmica estabelecida – dentro do próprio meio psicanalítico – pelas contestações apresentadas por Reich: Conforme sabemos, suas críticas foram dirigidas não apenas a alguns dos postulados teóricos e metodológicos da Psicanálise. As próprias estruturas de poder subjacentes às instituições acadêmico-científicas também foram alvo direto de sua análise. A partir daí, o posicionamento científico de Reich passou a ser conhecido de forma inseparavelmente associada à sua atitude contestadora.

A polêmica resultante da repercussão de suas propostas contribuiu em grande parte para Reich passar à História da Psicologia como sendo um contestador pioneiro, especialmente no assunto referente à consideração dos processos corporais na busca de compreensão dos dinamismos psicológicos.

 

Não se pretende aqui entrar em detalhes sobre os aspectos inovadores de sua obra, embora o tema seja de extremo interesse e valia para uma maior compreensão da evolução da Psicologia ocidental. Nossa intenção inicial é chamar a atenção para o fato de a polêmica envolvendo a história do corpo na Psicologia não ter se originado com as proposições de Reich e seus seguidores.

 

Em “Tocar, Terapia do Corpo e Psicologia Profunda”, McNeely(3), terapeuta junguiana, apresenta um esclarecedor apanhado histórico sobre aqueles que considera como pioneiros da somatoterapia(4).

 

“Considero pioneiros da somatoterapia Freud, Sandor Ferenczi, Alfred Adler, Groddeck, Wilhelm Reich e Jung. Eles foram naturalmente influenciados por outros: Nietzsche, Kretschmer, Krafft-Ebing, Schiller, antropólogos, etc.

 

Começo por estes seis terapeutas porque sua principal preocupação com relação ao corpo foi a distribuição da energia (conforme se vê principalmente na teoria dos impulsos). Descobre-se que nesta matéria eles estiveram juntos, discordaram e, por fim, se separaram.” (5)

 

Estamos destacando aqui um elemento fundamental para a compreensão sobre a evolução da atenção dada ao corpo na história da Psicologia ocidental: as dificuldades para o equacionamento da relação corpo-mente não provêm apenas da complexidade inerente aos processos psicofísicos envolvidos. Se mesmo em nossos dias nos defrontamos ainda com muitos obstáculos – fruto de preconceitos determinados ainda pelo espírito de nossa época – para o desenvolvimento de certos níveis do nosso trabalho, o que não estaria então ocorrendo naqueles tempos e lugares, no âmbito acadêmico onde viveram e trabalharam os pioneiros da Psicologia Profunda? Vejamos o pensamento de McNeely a respeito.

 “A resistência da sociedade para com aquilo que se revelava foi impressionante. Freud e seus colegas estavam descobrindo que a moralidade e a neurose relacionavam-se. De algum modo, a energia da unidade mente-corpo era capaz de direcionar-se mal, transformando-se em sintomas físicos, dizendo realmente que um corpo doente ou perturbado indica uma psique perturbada que necessita de cura. Esta não era uma mensagem popular.” (6)

Não nos parece necessário detalhar neste momento a apresentação de elementos demonstrativos do aspecto polêmico da consideração do corpo na Psicologia.

 

Esses breves comentários têm por finalidade apenas situar e destacar o fato que, em época idêntica à mencionada por McNeely – e portanto em meio ao mesmo clima descrito -, C. G. Jung ter sido um dos pioneiros a abrir caminhos para uma nova forma de abordagem da questão da integração corpo-mente. Cada pesquisador de então, de forma pessoal, desenvolvia não apenas uma teoria, pois, conforme palavras do próprio Jung,

 

“Todo psicoterapeuta não só tem o seu método: ele próprio é esse método.” (7)

 

A maneira escolhida por Jung para expressar suas considerações sobre a questão do paralelismo psicofísico, parece-nos, foi intencionalmente parcimoniosa. Talvez mesmo cautelosa, especialmente quando perguntado diretamente a respeito, tal como consta nos relatos da primeira e segunda conferências que proferiu em Londres, 1935, transcritas em Fundamentos de Psicologia Analítica (8).

 

Tal atitude, embora possa parecer contraditória com outros momentos ousados de sua obra, devia-se muito mais ao fato de ser ele um homem consciente do risco representado pela atitude de pôr-se em confronto direto com a forma de pensar da época. Em suas memórias, a certa altura, diz textualmente:

 

“Percebi que é inútil falar aos outros sobre coisas que não sabem. Compreendi que uma idéia nova, isto é, um aspecto inusitado das coisas só se afirma pelos fatos.” (9)

 

Parece-nos ter Jung escolhido um outro caminho, em lugar de participar da polêmica reinante a respeito do tema corpo: a observação e registro dos fatos tal como se lhes apresentavam. E então, quando assim lhe foi possível apresentar suas idéias – isto é, corroboradas por demonstrações fatuais – não deixou de apresentá-las de modo assertivo.

A obra de Jung poderá surpreender o leitor disposto a localizar suas inúmeras menções à correlações psicofísicas. Porém mais esclarecedor do que qualquer argumento aqui apresentado será a própria constatação desse fato, por meio de uma consulta direta à fonte.

 

Sobre o material escolhido para a pesquisa:

Para realizar esta pequena pesquisa procuramos selecionar, na obra de Jung, algum material adequado ao objetivo expresso no título deste artigo: ilustrar a maneira direta e explícita com que este autor faz referências a processos corporais, mencionando-os como componentes intrinsecamente interligados aos dinamismos psíquicos.

 Localizar e destacar tais referências parece-nos uma maneira bastante clara e objetiva de ilustrar um aspecto de fundamental interesse na Psicologia junguiana: o fato de que a maneira utilizada por Jung para mencionar o dado corporal, já deixava implícita a possibilidade de vir a se desenvolver uma forma “junguiana” de abordagem do corpo em Psicologia. Um texto em especial foi então escolhido: Trata-se da edição das conhecidas “Conferências de Tavistock”, uma espécie de introdução, didaticamente organizada, ao pensamento de Jung.

 

Esta obra, conforme já mencionamos, compõe-se do relato de cinco conferências proferidas por Jung em Londres em 1935. Na edição brasileira, aparece sob o título Fundamentos de Psicologia Analítica (10).

Uma das razões motivadoras de nossa escolha por esse texto é o fato de, mesmo sendo dirigida a psicoterapeutas, a apresentação da Psicologia Analítica ser ali realizada em termos introdutórios. Assim, os principais conceitos e idéias de Jung são expressos de forma abrangente e clara, sem perder a autenticidade garantida pelo fato ser o próprio autor quem os expõe.

 

 

 

 

Procedimento utilizado:

A prática adotada em nossa pesquisa foi a seguinte: elaboramos um esquema referente a cada conferência, para ser utilizado como uma espécie de roteiro de leitura. Esse esquema colocou em destaque os principais conceitos e idéias apresentados e/ou comentados por Jung ao longo de suas falas. Na seqüência, destacamos os trechos correspondentes, em cada parágrafo do texto, aos momentos em que o autor expressou algum tipo de relação ou paralelo entre os processos psicofísicos.

 

Foi possível assim observar diferentes níveis ou tipos de menções ao corpo (e/ou seus processos) sendo expressas nas falas de Jung: em alguns momentos trata-se literalmente de uma relação formulada pelo autor, no real sentido do termo. Em outros, consiste numa hipótese, uma simples menção ao corpo ou, ainda, uma exemplificação de algum processo ou fenômeno corporal. Optamos por incluir todos os tópicos voltados a nossa finalidade – destacar menções ao dado corporal -, sem nos preocuparmos em discriminar, generalizar ou classificar o tipo de consideração feita em cada momento.

 

 

 

Citações ilustrativas sobre os dados coletados:

Antes de passarmos às citações desejamos deixar clara a idéia de que estas ilustrações não pretendem tornar prescindível a leitura (ou releitura) do texto integral. Ao contrário, esperamos que esta apresentação sirva de estímulo à sua consulta do original. Porém existe uma razão para adotarmos esta forma – a citação – e não apenas a menção aos parágrafos e trechos pertinentes: a visão conjunta dos textos selecionados fornecerá ao leitor, em nossa forma de entender, uma percepção diferenciada dos elementos assim destacados no pensamento de Jung.

 

1. Falando sobre a relação consciente <–> inconsciente (11):

“A consciência é sobretudo o produto da percepção e orientação no mundo externo, que provavelmente se localiza no cérebro e sua origem seria ectodérmica. No tempo de nossos ancestrais essa mesma consciência derivaria de um relacionamento sensorial da pele com o mundo exterior. É bem possível que a consciência, derivada dessa localização cerebral, retenha tais qualidades de sensação e orientação.” (12) # 14

 

2. Ao falar sobre o ego e sua relação com a consciência:

“E o que seria o ego? É um dado complexo formado primeiramente por uma percepção geral de nosso corpo e existência e, a seguir, pelos registros de nossa memória.(…) Esses dois fatores são os principais componentes do ego, que nos possibilitam considerá-lo como um complexo de fatos psíquicos. A força de atração desse complexo é poderosa como a de um imã: é ele que atrai os conteúdos do inconsciente, daquela região obscura sobre a qual nada se conhece. Ele também chama a si impressões do exterior que se tornam conscientes ao seu contato. Caso não haja este contato, tais impressões permanecerão inconscientes.” # 18

 

3. Diferenciando afeto e sentimento:

“O problema está apenas numa questão de grau. Se houver um valor obsessivamente forte, sua tendência é tornar-se uma emoção num dado momento, ou seja, quando atingir a intensidade suficiente para causar uma enervação fisiológica. Todo processo mental provavelmente causa ligeiras enervações deste tipo, e são realmente tão pequenas que não há meios de demonstrá-las(13).

 

Existe, entretanto, um método bastante sensível de registrar as emoções em suas manifestações fisiológicas; trata-se do efeito psicogalvânico(14). Baseia-se na diminuição da resistência elétrica da pele sob influência emocional, o que não se dá sob influência do sentimento.” (15) # 48

 

4. Falando a respeito da relação corpo-mente:

“A relação corpo-mente constitui um problema extremamente difícil. Pela teoria de James-Lange, o afeto é resultado de alteração fisiológica. A pergunta: Corpo ou psique é fator preponderante? sempre será respondida segundo diferenças temperamentais. Aqueles que por temperamento preferem a teoria da supremacia do corpo afirmarão que os processos mentais são epifenômenos da química fisiológica. Os que acreditam mais no espírito adotarão a tese contrária: o corpo é apêndice da mente e a causalidade reside no espírito. A questão tem aspectos filosóficos e por não ser filósofo não posso arrogar a mim a decisão. Tudo o que se pode observar empiricamente é que processos do corpo e processos mentais desenrolam-se simultaneamente e de maneira totalmente misteriosa para nós. É por causa de nossa cabeça lamentável que não podemos conceber corpo e psique como sendo uma única coisa.

 

A Física moderna está sujeita à mesma dificuldade: atentemos para o que acontece com a luz! Comporta-se como se fosse composta de oscilações e ainda formada por corpúsculos. Foi necessário uma fórmula matemática muito complexa, cujo autor é M. de Broglie, para auxiliar a mente humana a conceber a possibilidade de corpúsculos e oscilações serem dois fenômenos que formam uma única e mesma realidade(16). É impossível pensar isso, mas somos obrigados a admiti-lo como postulado.

 “Do mesmo modo o chamado paralelismo psicofísico forma um outro problema insolúvel. Tome-se por exemplo o caso da febre tifóide e suas contaminações psíquicas; se os fatores psíquicos forem confundidos com uma causalidade atingiríamos conclusões absurdas. O máximo que se pode afirmar é a existência de certas condições fisiológicas que são claramente produzidas por doenças mentais, e outras que não são causadas, porém meramente acompanhadas de processos psíquicos. Corpo e psique são os dois aspectos do ser vivo, e isso é tudo o que sabemos.

 

Assim prefiro afirmar que os dois elementos agem simultaneamente, de forma milagrosa, e é melhor deixarmos as coisas assim, pois não podemos imaginá-las juntas. Para meu próprio uso cunhei um termo que ilustra essa existência simultânea; penso que existe um princípio particular de sincronicidade(17) ativa no mundo, fazendo com que fatos de certa maneira aconteçam juntos como se fossem um só, apesar de não captarmos essa integração. Talvez um dia possamos descobrir um novo tipo de método matemático, através do qual fiquem provadas essas identidades. Mas atualmente sinto-me totalmente incapaz de afirmar se é o corpo ou a psique que prevalece.” # 69/70

 

5. Ao final da segunda conferência, um dos presentes retoma, na forma de novo questionamento, a discussão do paralelo psicofísico (# 135). Pode-se perceber, na colocação da pergunta a tentativa de cobrar de Jung a retomada da análise de um sonho por ele realizada em outro contexto. A partir da interpretação do mencionado sonho, Jung teria identificado a base orgânica da doença do sonhador, conforme é relatado na nota 33, pág. 60 do texto original. Dr. Bion pergunta, então, se Jung coloca apenas como uma analogia os paralelos entre as formas arcaicas do corpo e da mente ou se ele percebe uma relação mais profunda entre elas. A íntegra das respostas de Jung abrange várias páginas, motivo pelo qual novamente recomendamos uma consulta ao texto original(# 135 a 144). Como ilustração da cautela adotada por Jung frente à questão citaremos aqui alguns trechos dessa sua fala.

 “O senhor voltou novamente ao problema do paralelo psicofísico, ponto extremamente controvertido, sem resposta, pois está fora do conhecimento humano. Como tentei explicar ontem, as duas coisas acontecem juntas, de maneira peculiar, e são, creio, dois aspectos diferentes apenas para a nossa inteligência, e não na realidade. Nós as concebemos como duas formas devido a nossa total incapacidade de concebê-las juntas.” # 136

 

“O caso mencionado pelo senhor foi o do pequeno mastodonte. Explicar o que o mastodonte significa de orgânico e por que devo tomar tal sonho como sintoma fisiológico desencadearia uma tal polêmica que os senhores acabariam por me acusar de obscurantismo. Tais coisas são realmente obscuras, e eu teria de falar da mente básica, que pensa por meio de padrões arquetípicos. Quando falo de tais padrões, aqueles que têm consciência deles entendem, mas os outros podem acabar pensando assim: ‘Esse sujeito é completamente louco, pois se preocupa com diferenças entre mastodontes, cobras e cavalos’. Eu deveria dar-lhes um curso de aproximadamente quatro semestres sobre simbologia para que os senhores conseguissem seguir o que eu digo.” # 138

 

“Quando ouvem o que digo, costumam dizer: é passe de mágica. Também se pensava assim na Idade média e se perguntava: Como se pode afirmar que Júpiter tem satélites? Se a gente responder que é pelo telescópio, o que representará isso para um público medieval?.” # 139

 

“Não quero me superestimar por isso; fico sempre perplexo quando meus colegas perguntam: Como você estabelece um diagnóstico desses ou chega a tal conclusão? Respondo normalmente: Explico, se você me permitir dizer o que você deve fazer a fim de entendê-lo.” # 140

 

6. Ao discorrer sobre os complexos:

“…provavelmente os senhores já observaram que, ao me fazerem perguntas difíceis, não consigo respondê-las imediatamente porque o assunto é importante, e o meu tempo de reação, muito longo. Começo a gaguejar e a memória não fornece o material desejado. Tais distúrbios são devidos a complexos – mesmo que o assunto tratado não se refira a um complexo meu. Trata-se simplesmente de um assunto importante, tudo o que é acentuadamente sentido torna-se difícil de ser abordado, porque esses conteúdos encontram-se, de uma forma ou de outra, ligados com reações fisiológicas, com processos cardíacos, com o tônus dos vasos sangüíneos, a condição dos intestinos, a enervação da pele, a respiração. Quando houver um tônus alto, será como se esse complexo particular tivesse um corpo próprio e até certo ponto localizado em meu corpo, o que o tornará incontrolável por estar arraigado, acabando por irritar meus nervos. Aquilo que é dotado de pouco tônus e pouco valor emocional pode facilmente ser posto de lado porque não tem raízes. Não é aderente.” # 148

 

“…O complexo, por ser dotado de tensão ou energia própria, tem a tendência de formar, também por conta própria, uma pequena personalidade. Apresenta uma espécie de corpo e uma determinada quantidade de fisiologia própria, podendo perturbar o coração, o estômago, a pele.(…) Quando se fala em força de vontade, naturalmente se pensa em um ego. Onde, pois, está o ego, ao qual pertence a força dos complexos? O que conhecemos é o nosso próprio complexo do ego, que supomos ter o domínio pleno do nosso corpo. Não é bem isso, mas vamos considerar que ele seja um centro que está de posse do corpo, que exista um foco denominado ego, dotado de vontade e que possa fazer alguma coisa por meio de seus componentes.” # 149.

 

7. Comentando um sonho, Jung estabelece relações entre imagens oníricas e estruturas orgânicas do sonhador. Novamente reproduziremos aqui apenas as correlações estabelecidas. O contexto global poderá ser localizado nos parágrafos 180 a 201 do texto original.

 

“…Afirmo – e quando digo isso tenho algumas razões para fazê-lo – que representações de fatos psíquicos através de imagens como cobra, lagarto, caranguejo, mastodonte ou animais semelhantes também representam fatos orgânicos. A serpente, via de regra, representa o sistema raquidiano (cérebro espinhal), particularmente o bulbo e a medula. O caranguejo, por outro lado, sendo dotado apenas de um sistema simpático, representa as funções relativas a esse sistema nervoso, mais o parassimpático, ambos localizados no abdômen. O caranguejo é uma coisa abdominal. Então, se traduzirmos o texto do sonho, poderemos ler: se você continuar assim, seu sistema simpático e raquidiano voltar-se-á contra você, e aí não haverá como fugir. E é bem isso o que está acontecendo. Os sintomas de sua neurose expressam a rebelião das funções simpáticas e do sistema raquidiano contra a sua atitude consciente.” # 194(…)

 

“Eis como se comportam as pessoas que só têm cabeça. Usam o intelecto, a fim de afastarem as coisas por meio de um raciocínio qualquer. Dizem: Isso é insensato, portanto, não pode ser, portanto, não é. É assim que faz o nosso amigo. Ele simplesmente abole o monstro através do raciocínio.” # 199

 

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ontspanningsmassage2001

Por Rosa Maria Farah

 

Observação: Este texto foi originalmente elaborado com o objetivo de apresentar aos nossos alunos uma visão sintética sobre a Calatonia e o trabalho desenvolvido por Pethö Sándor, criador desse método de trabalho psicoterapeutico.

Tento encontrar um bom modo de contar ao leitor, um pouco sobre esta forma de trabalho em psicoterapia. Se possível um modo claro e simples, como aquele utilizado por seu autor – Prof. Pethö Sándor – quando falava a respeito de seu método. Penso que uma boa maneira de iniciar nossa conversa possa ser através de um breve histórico sobre sua origem.

O Dr. Sándor era um médico – nascido na Hungria – que na época da segunda grande guerra mundial trabalhava no atendimento de feridos e refugiados em deslocamento pela Europa. Naquele período, dadas as precárias condições geradas pela guerra, com freqüência via-se diante de situações onde os recursos médicos, além de precários, eram de pouca ajuda no atendimento de seus pacientes. Embora sua especialidade fosse a Ginecologia/Obstetrícia, foi designado para o cuidado de pessoas portadoras dos mais variados traumatismos, conforme ele mesmo relatou, ao falar sobre o surgimento de seu método:

“Idealizou-se este método durante a segunda guerra mundial, com base nas observações feitas em casos de readaptação de feridos e congelados, no período posterior à grande retirada da Rússia. Num hospital da Cruz Vermelha foram atendidas as mais diferentes queixas na fase pós operatória, desde membros fantasma e abalamento nervoso, até depressões e reações compulsivas”. (1)

Era praticamente impossível, frente à estas pessoas, estabelecer um limite entre o traumatismo físico e o sofrimento psicológico que os atingia. Mas Sándor já estava atento às estreitas relações existentes entre nossos processos corporais e nosso funcionamento psicoemocional. Foi portanto nestas condições algo dramáticas de trabalho, que ele tentou utilizar, sem sucesso, os ‘métodos de relaxamento’ usuais na época, como por exemplo o método de Shultz. Porém, a gravidade das condições destes pacientes não lhes permitiam a concentração e a colaboração necessárias para a aplicação deste método. Foi quando Sándor observou o seguinte:

“Percebeu-se então, que além da medicação costumeira e dos cuidados de rotina, o contato bipessoal, juntamente com a manipulação suave nas extremidades e na nuca, com certas modificações leves quanto à posição das partes manipuladas, produzia descontração muscular, comutações vasomotoras e recondicionamento do ânimo dos operados, numa escala pouco esperada.” (2)

As duas citações acima foram extraídas de um texto dirigido à profissionais. Mas, se traduzirmos sua observação para uma linguagem do cotidiano, podemos dizer que, em síntese, ele está nos contando como e quando começou a perceber “a atuação terapeutica propiciada pelo contato suave atento e cuidadoso”, ajudando na recuperação daqueles pacientes.

Quem conhece um pouco da história pessoal do Dr. Sándor sabe o quanto ele mesmo, bem como sua família, foram duramente atingidos pelos horrores da guerra. No entanto, podemos perceber, nas entrelinhas da sua descrição, o tipo de conduta que o levou à estas observações: a atitude compassiva e amorosa que assumia diante do sofrimento de seus pacientes…!

Por mais três anos Sándor trabalhou na Alemanha, cuidando de pacientes com queixas psicológicas ou neuropsiquiátricas. Neste período já começava a sistematizar e fundamentar sua técnica – a primeira sequência dos toques sutis da Calatonia – com base nos conhecimentos da Psicologia e da Neurologia. Em 1949 emigrou para o Brasil, onde prosseguiu seu trabalho, atuando principalmente na área da Psicologia.

Vivendo já em São Paulo, como terapeuta e professor, passou a aplicar e ensinar a Calatonia, que passou a ser conhecida por seus alunos, como um “método de relaxamento”. E, como tal, passou a ser utilizada no atendimento psicoterapêutico.

Já sabemos como a Calatonia surgiu, e como chegou até nós. Mas, afinal, no que consiste? Como atua? No que ela difere de outros métodos de relaxamento? Qual sua utilidade? No significado do próprio termo encontramos alguns elementos para responder à estas questões:

Segundo o próprio Prof. Sándor, Calatonia é uma expressão que “… indica um tônus descontraído, solto, mas não apenas do ponto de vista estático e muscular. No original grego o verbo khalaó indica relaxação e também alimentação, afastar-se do estado de ira, fúria, violência, abrir uma porta, desatar as amarras de um odre, deixar ir, perdoar aos pais, retirar todos os véus dos olhos, etc.” (3)

Portanto, podemos dizer que a Calatonia, enquanto método de relaxamento visa, evidentemente, promover efeitos de soltura e/ou distensão muscular, ou seja a “regulação” do tônus. Mas sua atuação vai além do nível apenas muscular, promovendo também “reorganizações psico-fisiológicas” em vários níveis.

Vejamos como isto acontece: o procedimento básico da Calatonia consiste em uma série de “toques”, que o terapeuta realiza em vários pontos do corpo do cliente; A sequência de toques mais conhecida – pois foi a primeira ensinada por Sándor – é realizada em nove pontos da área dos pés, acrescida de um toque na nuca (região occipital). Estes toques são feitos em silêncio, de forma simples e suave, durante 1 a 2 minutos em cada um dos pontos citados. Portanto os estímulos realizados pelo terapeuta vão atuar, em princípio, sobre a pele da pessoa que os recebe.

Vale aqui pararmos um momento para mencionar algumas características muito especiais da nossa pele. Esta espécie de “envelope” que estabelece os limites do nosso corpo é, na verdade, altamente provida de minúsculas estruturas: os receptores nervosos. Estudos mais recentes sobre as particularidades e funções dos receptores nervosos da pele já fazem com que autores como Montagu (4) considerem a pele como um “órgão”, e não apenas um tecido que nos protege das intempéries…

Assim, segundo este enfoque, a pele é considerada como o nosso principal aparato sensorial. Não apenas porque os nossos órgãos dos sentidos sejam, na verdade, tecido cutâneo que se diferenciou (como acontece com as mucosas da boca, na percepção do paladar); Mas principalmente porque cada milímetro de nossa pele é provido de numerosos “receptores nervosos”, ou seja, estruturas neurológicas capazes de captar e conduzir os variados tipos de estímulos: calor, frio, pressão, etc. Como se fossem minúsculos radares, nos mantêm informados sobre a infinidade de estímulos à que somos submetidos à cada instante.

Mas existe ainda uma outra característica importante da pele, que diz respeito à sua própria origem e formação durante nosso desenvolvimento ainda no útero materno: As células que lhe dão origem provêm da mesma camada embrionária da qual se forma nosso sistema nervoso central, ou seja, a ectoderme. A descrição deste fato levou o pesquisador Montagu a escrever esta curiosa observação: “Portanto, o sistema nervoso é uma parte escondida da pele, ou ao contrário, a pele pode ser considerada como a porção exposta do sistema nervoso”. (5)

As implicações deste fato podem ser observadas na própria estrutura da nossa pele. Para ilustrar este comentário vamos apresentar no quadro a seguir uma síntese das descrições feitas pelo mesmo autor Montagu (6) sobre a constituição da estrutura da nossa pele. Vejamos como essa estrutura é altamente complexa e potencialmente “sensível” aos estímulos táteis:

Algumas Características da Estrutura da Pele:

a. O sentido do tato é o primeiro a ser desenvolvido no feto, podendo ser observado ainda no período embrionário, a partir da 6a. semana de vida intra-uterina.

b. Média de Corpúsculos de Meissmer presentes na epiderme por milímetro quadrado:

– Cerca de 80 em crianças.

– Cerca de 20 em adultos.

– Cerca de 4 em idosos.

c. Média de receptores nervosos presentes a cada 100mm2. de pele: Cerca de 640.000.

d. Pontos táteis por cm2 de pele: Cerca de 7 a 135.

e. Número de fibras nervosas oriundas da pele que entram na medula espinal, conduzindo estímulos aferentes: Superior a meio milhão.

f. Outras estruturas presentes em um pedaço de pele com 3 cm de diâmetro:

– 3 milhões de células.

– Entre 100 e 340 glândulas sudoríparas.

– 50 terminações nervosas.

– 90 cm de vasos sanguíneos.

Falando agora do ponto de vista da Psicologia, encontramos hoje em vários autores o reconhecimento da importância do contato – no sentido literal do termo – tanto para o adequado desenvolvimento de uma criança, quanto para a manutenção do equilíbrio psicofísico do adulto. Aliás, se olharmos um pouquinho para trás, vamos perceber que este nem é um achado tão recente da Psicologia: Jung já dizia, em 1935, que no tempo de nossos ancestrais a “consciência” humana formou-se a partir do “relacionamento sensorial da nossa pele com o mundo exterior” (7).

Pesquisadores como Neumann (8) ao estudarem o desenvolvimento infantil, expressaram uma idéia semelhante, ao afirmar que no recém nascido “noção de eu” forma-se gradativamente, a partir do contato que se estabelece entre a criança e sua mãe.

Voltando agora à forma de atuação da Calatonia: Já dissemos que os toques são realizados na pele. Estes estímulos vão portanto atuar sobre os inúmeros receptores nervosos ali existentes. E, mais ainda: vão se propagar naturalmente (9) (através das vias neurológicas aos quais estão conectados) para o sistema nervoso como um todo. Daí percebermos, na prática, que tal atuação se expressa de forma muito particular para cada pessoa com quem trabalhamos.

Para alguns, podem surgir, predominantemente, reações ao nível fisiológico e/ou motor (como “sensações”, ou movimentos mais ou menos sutis); Para outros em termos afetivo/emocionais, (na forma de recordações, associações, etc.); Para outros ainda podem ocorrer alterações do estado de consciência análogos àqueles promovidos pela ‘meditação’, com a eventual recordação de imagens. Imagens estas que, do ponto de vista psicoterapeutico, têm um valor semelhante ao valor dos sonhos.

Assim, a Calatonia atua potencialmente em vários níveis sobre a complexa estrutura psicofísica de cada indivíduo, trazendo à tona elementos, que podem ser elaborados dentro do contexto da psicoterapia. Além disso, pode atuar também promovendo “reequilibrações” do sistema psicofísico, através de processos mais sutís, e um tanto complexos para que os abordemos aqui. Para os leitores interessados neste aspecto, sugerimos a leitura dos casos clínicos relatados no livro “Técnicas de Relaxamento” (10), indicado ao final.

Mas, se aceitarmos que a principal meta da psicoterapia é criar condições para que a pessoa amplie a consciência que tem de si própria, a ponto de poder expressar tão plenamente quanto possível suas potencialidades individuais com equilíbrio e criatividade; Se aceitarmos ainda que cada pessoa é um todo indivisível e que seu corpo e seu psiquismo são apenas diferentes formas de expressão desta mesma unidade sincrônica, então podemos entender a função da Calatonia, como um importante recurso na facilitação do nosso acesso ao mundo interno do ser humano.

Conforme podemos perceber no parágrafo acima, a forma de trabalho terapêutico que Sándor desenvolveu trás implícita uma determinada maneira de entender tanto a natureza do ser humano, quanto a função da psicoterapia. De fato, a Calatonia, mais do que uma simples técnica, (que se define pelos seus procedimentos práticos) constitui-se hoje em um método de trabalho terapêutico. Método este que integra elementos da Psicologia Profunda (em especial as idéias de Jung) visando promover a integração psicofísica do indivíduo.

Pode ser importante ainda acrescentar aqui algo a respeito dos desenvolvimentos mais atuais deste método. Com relação aos toques descritos no início desta nossa conversa, cabe dizer que aquela foi a forma inicial da Calatonia. Ao longo de mais de quarenta anos de trabalho o Prof. Sándor foi acrescentando inúmeros outros procedimentos àquela sequência inicial, conhecida como “toques nos pés”: Mantendo sempre as características básicas da atuação (ou seja os estímulos táteis, realizados de forma suave) idealizou muitas novas formas de toques, além de realizar e transmitir aos seus alunos farta pesquisa sobre os processos anátamo/fisiológicos envolvidos na aplicação destes toques.

Finalmente, cabe dizer ainda que este método, embora tão estreitamente baseado em fundamentos psicológicos, não se constitui em um recurso de uso estritamente psicoterapêutico. Vários colegas, de áreas afins têm já relatado a sua efetiva utilidade em campos variados, tais como na Fonoaudiologia, na Fisioterapia, na Odontologia, na Pedagogia, etc.

O Prof. Sándor veio a falecer, de forma inesperada para nós, a 28 de Janeiro de 1992, ainda em plena atividade criativa. Seu trabalho no entanto continua através das atividades de vários grupos de estudos, conduzidos por seus ex-alunos. Prosseguem também, no Instituto Sedes Sapientiae de São Paulo, as atividades do curso de “Cinesiologia Psicológica”, ao qual Sándor vinha se dedicando com especial empenho nos últimos anos, promovendo a formação de novos terapeutas.

Referências Bibliográficas:

1. Em “Técnicas de Relaxamento”, Pethö Sándor e outros, Ed. Vetor; São Paulo: Capítulo sobre a Calatonia.

2. Ib.

3. Ib.

4. “Tocar: o Significado Humano da Pele”, A. Montagu, Ed. Summus; São Paulo.

5. Ib. Pág. 23.

6. Ib.

7. Em “Fundamentos de Psicologia Analítica”, C.G. Jung, Ed. Vozes; Petrópolis, pág. 5, parágrafo 14.

8. Neumann, E. : “A Criança – Estruturas e Dinâmica da Personalidade em Desenvolvimento desde o Início de sua Formação”, Ed. Cultrix; São Paulo.

9. Destacamos a forma “suave”, bem como a “propagação natural” dos estímulos táteis utilizados na Calatonia, porque estas características nos permitirão distinguí-la de outros métodos de relaxamento. Cada uma das demais técnicas já conhecidas utiliza-se de outros estímulos preferenciais. Mas em geral pressupõem, através de determinadas ‘instruções’, que o terapeuta dirija verbalmente o comportamento que deve ser realizado pelo cliente. Existe portanto, nestas formas de trabalho, algum padrão pre-estabelecido, acerca dos resultados que se pretende atingir com aquele procedimento, padrão este que é definido, obviamente, pelo terapeuta. Mesmo na maioria das formas de massagens utilizadas para fins de relaxamento, a atuação do terapeuta, visa “diluir a tensão” dos grupos musculares que manipula. Não se trata aqui de fazermos uma comparação avaliativa. Cada uma destas técnicas têm suas indicações úteis. Estamos apenas estabelecendo uma diferenciação importante quando se trata do trabalho corporal utilizado dentro da psicoterapia. No caso do uso psicoterapêutico a Calatonia é um método de relaxamento em que a direção e a medida do ritmo dos procedimentos são definidos e determinados individualmente pela própria estrutura psicofísica da pessoa que passa pelo processo.

10. Obra citada em 1, capítulos elaborados pelas terapeutas Beatriz Helena Marques Mauro e Maria Isabella de Santis. Além destes, poderão ainda ser consultados (nas bibliotecas universitárias da USP e PUC-SP) trabalhos de pesquisa para obtenção de títulos de mestrado e doutoramento, de vários ex-alunos de Sándor.

 

Rosa Maria Farah é Psicóloga (CRP 06/1315) e Professora da Faculdade de Psicologia da PUC-SP, onde Coordena o Núcleo: “Integração Psicofísica”. Contatos com a autora: rfarah@uol.com.br

 

 

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bodyImagem: Rhythman Trader, Dean Graham. Coleção Particular – The Bridgeman Art Library.

* Por Rubens Kignel

Seguidores de Wilhelm Reich desenvolveram abordagens hoje reconhecidas mundialmente como psicoterapias: bioenergética, biossistêmica, biossíntese e biodinâmica procuram o equilíbrio entre corpo, psique e sociedade.

 

Wilhelm Reich, o precursor do “corpo em psicoterapia”, deixou um legado de importantes discípulos, a partir dos quais nasceu uma segunda geração de seguidores que ocupam lugar de destaque na psicoterapia brasileira e de vários países. São chamados de neo-reichianos, pois se baseiam em conceitos e princípios criados por Reich, mas revistos, atualizados e influenciados por suas próprias pesquisas. Durante muitos anos o trabalho neo-reichiano foi considerado um campo paralelo à psicoterapia, mas hoje é reconhecido mundialmente como psicoterapia. Seu movimento de evolução e atualização foi muito vigoroso durante os últimos 30 anos. Vejamos algumas das principais abordagens e alguns de seus conceitos principais.

O trabalho de Reich sobre a “couraça muscular” foi desdobrado por Alexander Lowen e John Pierrakos, considerados os primeiros discípulos neo-reichianos. Ambos estudaram diretamente com Reich antes de trabalhar em colaboração. Por volta de 1950, desenvolveram uma técnica que denominaram “bioenergética”, termo reichiano que significa energia biológica. Lowen e Pierrakos acabaram seguindo caminhos diferenciados apesar de terem mantido as mesmas bases e conceitos do mestre.

 

Lowen continuou com o trabalho da bioenergética, que acabou se transformando numa abordagem muito conhecida e reconhecida de trabalho psicocorporal. Um dos principais conceitos da bioenergética é o grounding, termo em inglês que significa “enraizamento”, ou, em bom português, “pôr os pés no chão”, “incorporar-se”, “equilibrar-se”, “cair na real”, “estar em si e consigo mesmo”. No princípio, grounding significava para ele o movimento energético da cabeça em direção ao pés, como forma de incorporação e autoconhecimento.

 

Lowen partia do princípio reichiano de que os caracteres neuróticos, durante o ciclo do desenvolvimento, fixam-se energeticamente em algum ponto-chave do corpo, interrompendo o fluxo da energia. Esses pontos são chamados de anéis, e o bloqueio de energia ocorre desde muito cedo, durante os primeiros três meses, quando o bebê aprende a se defender principalmente com os olhos, evitando o contato ruim com o ambiente. O bloqueio, portanto, se estabelece nos olhos. Mais tarde, na época do desenvolvimento da sexualidade, a interrupção do fluxo de energia se dá na pélvis.

 

O objetivo da bioenergética é desbloquear essa circulação, que em geral vem carregada das repressões, de tal forma que ao longo da relação terapêutica a pessoa se dá conta de sua história, de seus traumas e dificuldades, restaurando um fluxo melhor e mais dinâmico. Cada um dos caracteres, de acordo com Lowen, acaba se fixando em algum dos anéis: ocular, oral, peitoral, visceral e pélvico, dependendo da fase do desenvolvimento em que o trauma ocorre e da formação deste.

 

No setting bioenergético, terapeuta e cliente podem trabalhar de pé, para que o cliente explore sua energia nas chamadas “posições de stress”, que estimulam os bloqueios a ganhar força e serem expressos. Dessa forma, é possível localizar com mais facilidade os bloqueios e restaurar ou reparar o fluxo psicoenergético.

 

Os terapeutas bioenergéticos usam também o chamado stool ou “banquinho”, em que o cliente deita de costas para alongar e estimular a musculatura paravertebral e o músculo diafragmático, que controlam movimento, sensação e respiração.

 

Descontraindo a repressão físico-emocional incorporada nas costas e na respiração, libera-se tanto o corpo físico quanto o “corpo subjetivo”, para que o processo psicoterapêutico se realize. O setting também pode ocorrer no divã, onde há a possibilidade de exploração de descarga ou contenção energética. O paciente se deita e, com a coluna apoiada, braços e pernas ficam livres para ser usados em movimentos de agressão ou acolhimento.

 

Essas técnicas corporais são acompanhadas de um profundo conhecimento psicodinâmico. Os terapeutas passam por uma intensa formação psicanalítica, que acompanha o processo. Lowen conseguiu juntar aspectos da dinâmica corporal e do organismo com a psicanálise freudiana.

Pierrakos, por outro lado, alinhavou o conceito de caráter a um trabalho em comunidade que chamou de core-energetics, desenvolvido em conjunto com sua primeira mulher, Eva Pierrakos. Assim criaram o patchwork, que integra os conceitos da personalidade com a core energética, e tem conteúdo particular no desenvolvimento da espiritualidade. O princípio da core energética considera a idéia de que tudo é energia e consciência formada com um contínuo pulsar de movimento ao interior e ao exterior da pessoa. Essa energia é chamada por Reich de “orgone”. Está tanto no Cosmos como no organismo humano, ou seja, em tudo o que existe. A capacidade de direcionamento dessa energia, de acordo com John e Eva Pierrakos, seria a própria capacidade de conscientização e, portanto, de chegar ao core (núcleo ou essência) pessoal. Influenciado pelos conceitos junguianos de “máscara”, “sombra” e “self”, Pierrakos denominou a primeira camada defensiva de “máscara”, representando as couraças musculares aparentes ou superficiais; de “eu inferior” ou “sombra” os sentimentos negativos inconscientes contidos na musculatura mais profunda; e de “eu superior” ou self core aos sentimentos positivos contidos no corpo

 

Desbloqueio das couraças

Outras duas importantes abordagens são a biodinâmica e a biossíntese, desenvolvidas respectivamente por Gerda Boyesen e David Boadella, clientes de Ola Raknes, discípulo direto de Reich na época em que este viveu na Noruega.

 

Psicóloga e fisioterapeuta norueguesa, Boyesen foi cliente e aluna de Raknes. Desenvolveu um trabalho em que aliava a experiência psicoterapêutica dos conceitos reichianos a técnicas de massagens inspiradas na fisioterapeuta Aadel Bülow-Hansen (tanto no âmbito da fisioterapia quanto no uso da massagem para tratamento de distúrbios mentais e psicossomáticos) e na vegetoterapia criada por Reich e desenvolvida na Noruega por Raknes. O objetivo de sua técnica é o desbloqueio das couraças muscular, de tecido e visceral – e conseqüentemente da subjetividade nelas contida. As massagens biodinâmicas provaram sua eficiência na prática psicoterápica através do profundo conhecimento das características da musculatura, da pele, da membrana entre a pele e o músculo e do funcionamento visceral conectado com os estágios de desenvolvimento.

 

No brilhante artigo intitulado “A personalidade primária”, Boyesen escreve sobre o desenvolvimento psicoenergético do ponto de vista da relação mãe/bebê especialmente conectado com o canal alimentar. Nesse sentido, as pesquisas em biodinâmica articuladas por Boyesen entre as massagens e a psicoterapia levaram à descoberta da “couraça visceral” (repressões localizadas no funcionamento peristáltico do intestino), tornando-o hiper ou hipotônico, isto é, preso ou solto demais. Essas repressões aconteceram em fases muito primitivas do desenvolvimento desde o nascimento até a fase anal ou de controle do esfíncter, que acarretam problemas psicológicos e psicossomáticos. A esse movimento peristáltico Boyesen denominou psicoperistaltismo, numa alusão à idéia de que a digestão não processa só alimentos, mas também emoções primitivas. O psicoperistaltismo é trabalhado a partir da escuta, feita pelo terapeuta, dos ruídos detectados por meio de um estetoscópio posicionado na barriga do cliente durante a massagem, ruídos estes estimulados pelos diferentes toques e massagens. O toque na superfície da pele levou também à descoberta da “couraça de tecido”, isto é, o excesso ou falta de defesas em nível epidérmico.

 

Gerda Boyesen desenvolveu uma forma de leitura corporal diferente da de Lowen. Enquanto ele articulou a leitura do caráter através da postura somática da pessoa de pé, Boyesen preferiu o exame da pessoa com corpo deitado: por meio do toque e do manuseio do corpo do paciente, investigando musculatura, pele, membrana, articulações, respiração e suas relações significativas com a formação de caráter. A psicoterapia biodinâmica tem forte influência da idéia de relações objetais e, especialmente, dos métodos e dos conceitos winnicottianos.

 

David Boadella, da biossíntese, também foi cliente de Raknes. Primeiro desenvolveu pesquisas com base num estudo aprofundado do desenvolvimento embriológico do ser humano, não somente pela investigação da embriologia orgânica em si, mas também pela articulação entre as camadas embriológicas e o conteúdo orgânico e subjetivo destas: O ectoderma, por exemplo, desenvolve -se em direção ao sistema nervoso, responsável pela relação sensorial e neurológica com o ambiente; o mesoderma, em direção ao sistema muscular e esquelético, encarregado de ação e movimento; e o endoderma, à parte visceral do corpo ligada às emoções mais primitivas. Essas pesquisas levaram Boadella a estudar a evolução do feto no útero, desde a fase embrionária, travando contato com o que chama de “vida intra-uterina” e com as influências que o feto recebe da mãe e do ambiente durante a gravidez. Desenvolveu dois conceitos fundamentais da biossíntese: “útero quente” (receptivo ou acolhedor ao bebê) e “útero frio” (não acolhedor ou rejeitador). Esses conceitos foram expandidos como metáforas de situações da vida e usados psicoterapeuticamente na compreensão dos processos no nível das conexões afetivas viscerais ou endodérmicas.

 

O pensamento de Boadella seguiu em direção a conceitos de movimento e postura chamados “fluxo da forma” e “posturas da alma”, com influência do embriologista alemão Blendsmith e dos conceitos de Stanley Keleman. As posturas básicas do desenvolvimento humano definem fixações caracteriológicas que dependem principalmente da educação e cultura. Uma pessoa pode ter características corporais de flexão (fechadas) e extensão (abertas), tração e oposição, rotação e canalização, ativação e absorção, e pulsação. Cada uma dessas características tem uma respectiva postura corporal acompanhada de uma subjetividade básica ligada a situações de abrir-se e fechar-se a si e ao mundo, possuir e rejeitar, desfocar e focar, atividade e absorção, além de toda pulsação existente entre as posturas.

 

Outros importantes conceitos da biossíntese são os de “grounding” (similar ao de Lowen, que vimos anteriormente), o de “centrar-se”, que se refere à capacidade de estar emocionalmente centrado ou equilibrado, e o de “ver-se”, relacionado com a capacidade de se conectar, tanto ao mundo externo como ao interno, num fluxo dinâmico de comunicação. Cada um desses conceitos é vinculado ao sistema muscular e esquelético, ao sistema nervoso autônomo e visceral e ao sistema nervoso central e ao cérebro, respectivamente.

A biossíntese lida com os conceitos de vínculo psicoterapêutico de Guntrip e Winnicott, em relações objetais, além da compreensão do que chama de bioespiritualidade, idéia desenvolvida pelo dinamarquês Bob Moore. A bioespiritualidade é a capacidade do ser humano de estar com o melhor de si mesmo na vida. Na prática clínica psicoterapêutica são usadas técnicas de movimento, meditação, dança e o conceito de “ressonância”, que ajuda o terapeuta a entrar em contato rítmico com o cliente e vice-versa.

 

Outro importante neo-reichiano que podemos citar é Jerome Liss, criador da biossistêmica. Psiquiatra formado em Harvard, Liss atualmente mora em Roma onde trabalha em cooperação com Maurizio Stupiggia, de Bolonha. A biossistêmica lida com a ação não-verbal nos sistemas corporais humanos: o corpo na família, o corpo na organização, o corpo político e o corpo nos grupos terapêuticos. A importância da biossistêmica reside no fato de que através da postura e das sensações pode-se analisar profundamente as relações familiares, de casal e de grupos.

 

No Brasil existem escolas que representam todas essas abordagens, incluindo algumas universidades, e a importância da psicoterapia corporal hoje está cada vez mais clara. Houve um grande avanço devido às pesquisas na neuropsi-cologia. Neuropsicólogos e neurologistas como Edward Tronick, do Hospital Infantil de Boston, Alan Schore, da Universidade da Califórnia, o médico e psicanalista Daniel Stern, António Damásio e Daniel Siegel, entre outros, pesquisaram profunda e detalhadamente a relação entre emoções e cognição no cérebro. As descobertas a respeito do sistema límbico (por onde passam as emoções), do hemisfério cerebral direito e esquerdo, do sistema nervoso autônomo com funcionamento simpático e parassimpático, do sistema nervoso central, do sistema motor, levaram a confirmações sólidas do que já se sabia empiricamente no trabalho clínico. Com isso, o psicoterapeuta corporal tem condições de trabalho e conhecimento que facilitam bastante os diagnósticos e a clínica, que no e através do corpo descobre e pode reparar funções psíquicas. A contribuição da psicoterapia corporal evidencia o fato de que a possibilidade de transformação deve mobilizar a pessoa como um todo. Se o estímulo for apenas psíquico, as transformações se mostrarão mais difíceis e lentas.

Esses estudos proporcionaram ao psicoterapeuta corporal um preparo avançado, o de conhecer o corpo como um emissor de subjetividade, mas também como organismo, com suas manifestações psicossomáticas, e o corpo como forma, expressa por seus gestos significativos. Além disso, a maioria dos treinamentos oferece um profundo conhecimento da dinâmica psicanalítica, influenciada por diferentes abordagens, tanto para trabalho individual como de grupo.

 

Este mês, a nata de psicoterapeutas e pesquisadores da Europa, dos Estados Unidos e da América Latina estará em São Paulo para compartilhar as novidades da área corporal, com abordagens ainda desconhecidas no Brasil, no 7o Congresso.

É importante lembrar que a psicoterapia corporal tem forte atuação na área social, e talvez seja a linha terapêutica que mais tenha avançado nessa área, pois além do trabalho terapêutico exerce função de educação terapêutica e de saúde, melhorando a qualidade de vida de dezenas de comunidades de baixa renda no Brasil. O trabalho educacional é muito importante na formação de psicoterapeutas, que aprendem constantemente com exercícios práticos e teóricos. Todo psicoterapeuta deve passar por uma intensa experiência prática compartilhada com seus colegas, tanto em grupo como no trabalho individual, para poder interferir no ambiente a partir dessa vivência pessoal.

 

Para conhecer mais:

O corpo no limite da comunicação. Rubens Kignel. Summus, 2005.

O corpo em terapia. Alexander Lowen. Summus, 1997.

Nos caminhos de Reich. David Boadella. Summus, 1985.

Entre psiquê e soma. Gerda Boyesen. Summus, 1986.

http://www.biodinamica.psc.br, http://www.biossintese.com.br, http://www.bioenergetica.com.br

 

 

 

 

 

*Rubens Kignel é psicoterapeuta, mestre em comunicação e semiótica pela PUC-SP, coordenador do curso de pós-graduação “O corpo em psicoterapia” (Unip), membro da Associação Brasileira de Psicoterapia e presidente do 7º Congresso Internacional de Psicoterapias Corporais, que acontece no Sesc Pompéia, em São Paulo, de 13 a 16 de outubro de 2005.

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