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Posts Tagged ‘Psicanálise’

Imagem: Nicoletta Ceccoli 

Autor: Juliana Corrêa

 Observando a biografia de escritores, pintores, poetas e artistas em geral, percebemos que um elo que os une é a criatividade. Alguns desses artistas tornam-se indivíduos criativos de um modo bastante específico, ao acessarem as camadas mais profundas da psique. Tal acesso às profundezas da alma também é comum à psicose e, de fato, muitos indivíduos criativos famosos apresentam sintomas neuróticos e psicóticos, em maior ou menor grau. Existe, assim, uma relação evidente entre a arte e a doença mental.

De acordo com a psicologia analítica, o artista é um indivíduo que possui determinada permeabilidade entre consciente-inconsciente. Embora outros indivíduos também apresentem tal permeabilidade, no artista os conteúdos gerados pelo inconsciente são trazidas à consciência através da arte. Jung faz distinção entre a arte produto da neurose, que segundo ele é permeada de conteúdos pessoais, e a arte cuja fonte está no inconsciente coletivo. Nos casos em que a arte é produto de uma neurose o artista busca inspiração em seu próprio inconsciente pessoal, porém essa fonte de inspiração pode se extinguir com a dissolução dos conflitos.

Com esse tipo de arte Jung foi bastante impiedoso, dizendo que deveria ser relegada ao “método purgativo freudiano” (SIC) sem remorso, e que “A neurose não cria arte. Ela é não criativa e inimiga da vida. Ela é o fracasso e a não-realização.” (JUNG: 2001, p. 337). Tal espécie de arte teria mais afinidade com os sintomas do que com os símbolos, e assim, pode ser totalmente reduzida à biografia do próprio autor. Embora detenha muitos méritos, muito da obra de Woody Allen, por exemplo, baseada em seus conflitos pessoais, poderia desvanecer caso tais conflitos fossem sanados. Contudo, a criação originária dos extratos mais profundos da psique não pode ser esgotada tão facilmente: “A resolução de qualquer repressão jamais poderá destruir o que é realmente criativo” (JUNG: 1981, §206).

Neste segundo tipo de arte, de conteúdo simbólico e sobretudo universal, Jung depositava maior interesse. O conteúdo da arte proveniente do inconsciente coletivo não tem sua origem nos sintomas ou numa repressão, pois jamais passou pela consciência, e suas imagens pertencem ao patrimônio comum da humanidade. E é exatamente por esse motivo, que essa espécie de obra de arte nos sensibiliza de forma tão arrebatadora, pois está repleta de significados e experiências comuns a todos.

A arte do inconsciente pessoal, por outro lado, geralmente não resiste, não é deixada à posteridade, principalmente diante da velocidade vertiginosa das informações na época atual. As artes fruto da neurose são sombras que passam e se vão; mas há aquilo que fica: o tempo conserva o que realmente possui valor. Não cultivamos a leitura de obras desconhecidas do passado, mas de clássicos dignos de aprofundado estudo, pois os símbolos que eles portam transcendem a sua época. Assim, podemos ser mais críticos com aqueles que atribuem seu insucesso à “falta de oportunidades” de um ambiente inoportuno. De fato, o meio de muitos criadores brilhantes como Van Gogh e Goya foi injustamente árido. Entretanto, tal fato muitas vezes tem servido de justificativa a uma igual falta de talento, ou até a um excesso de “talento” neurótico.

O homem verdadeiramente criativo não se beneficia da neurose, porém não pode se abster da criação, na medida em que o impulso criativo é mais forte do que ele. Conforme comenta Jung, não se trata, nesse caso, de um “talentozinho agradável” (SIC). Sua força criadora não pode ser reprimida, e poderá pressioná-lo de tal forma a restar pouca energia psíquica às demais atividades, algo que muitas vezes se torna um obstáculo em sua vida. Devido a isso, observamos algumas características comuns a esses artistas.

Muitas vezes o artista não consegue se adaptar às exigências do meio pois o inconsciente lhe subtrai a energia da consciência que seria utilizada a esse propósito. O estereótipo do artista incompreendido e de certa forma exilado da sociedade ilustra bem esse fato: muitas vezes esses indivíduos não conseguem se comunicar com os demais da mesma forma com que se comunicam com o próprio inconsciente. A adaptação ao meio exige certo controle da atenção consciente, algo que o imperativo dos arquétipos inconscientes ativados chega a suplantar, gerando uma enorme tensão e desconforto.

De um lado vemos uma força inconsciente que pressiona e exige expressão. De outro, as ânsias e exigências do homem comum, como o avanço na carreira, o sustento da família, etc. Podemos observar que alguns artistas optam pelo descaso em relação a essas últimas exigências, refugiando-se no ostracismo e, muitas vezes, acusando a própria sociedade de não lhes oferecer as devidas oportunidades. Sofrem por se verem de certa forma marginalizados por essa sociedade.

Tal tendência à inadaptação sofrida pelo indivíduo criativo é uma conseqüência do chamado “rebaixamento do nível mental”, que ocasiona a perda do interesse nas atividades conscientes e a descida aos níveis arcaicos da psique. O nível de consciência rebaixado também ocasiona a conhecida preponderância do amoral sobre o ético em alguns artistas, assim como uma infantilidade comumente vista com maus olhos pela comunidade em geral. Hoje em dia, é nas excentricidades de algumas pessoas famosas que as peculiaridades éticas e morais se manifestam de forma mais patente.

Talvez seja exatamente devido à conduta excêntrica, original ou extemporânea que a mente criativa seja capaz de exteriorizar aquilo que os demais não vêem. Enquanto todos voltam sua atenção às tarefas cotidianas mais burocráticas e enfadonhas, esses indivíduos estão literalmente imersos na psique: eles experimentam como uma realidade viva muito do que o homem em geral ignora. São os anseios, as imagens e experiências ignoradas pela maioria das pessoas comuns justamente o que desponta de forma irresistível e muitas vezes aflitiva na consciência do homem criativo, o qual muitas vezes surge como cura para o modo de vida unilateral da época em que vivemos: “Partindo da insatisfação do presente, a ânsia do artista recua até encontrar no inconsciente aquela imagem primordial adequada para compensar de modo mais efetivo a carência e unilateralidade do espírito da época.” (JUNG: 1991, §130).

Jung fala aqui da enantiodromia, a tendência de qualquer atitude ou estado a originar aquilo que seria o seu oposto. Segundo ele, toda tendência geral é necessariamente uma atitude unilateral. O homem comum é afetado pela tensão desses opostos de forma bem mais branda do que o homem criativo. Este, por estar em contato com o inconsciente de uma forma mais direta, tende a corrigir essa unilateralidade inconscientemente com sua obra. Dessa forma, a obra de arte, ao trazer à tona uma realidade inconsciente, tem a função social de orientar o espírito da época. Zarathustra surgiu com esse propósito na obra de Nietzsche, sob a forma de um salvador, ou sábio:

He (Zarathustra) is going to produce the enantiodromia, he is going to supply mankind with what is lacking, with that which they hate or fear or despise, with that which the wise ones have lost, their folly, and the poor ones the riches. In other words he is going to supply the compensation1. (JUNG: 1988, p.19)

É conhecida a idéia de que a extrema criatividade de alguns artistas os aproxima muito da loucura. Temos muitos exemplos de indivíduos criativos que manifestaram sintomas graves de doença mental, sendo Van Gogh e Nietzsche alguns dos mais ilustres. Tal proximidade entre a criatividade e a psicose se deve à influência exercida, em ambos os casos, pelo inconsciente coletivo, que é a fonte comum de imagens primordiais compartilhada na produção psicótica e nas expressões artísticas.

Jung percebeu, já no início de sua carreira, que a produção de alguns pacientes estava repleta de mitos e símbolos universais, isto é, que muitos desenhos e esculturas produzidos por esses pacientes representavam arquétipos com os quais eles jamais haviam entrado em contato conscientemente. Foi dessa forma que postulou o inconsciente coletivo, que diferentemente do inconsciente freudiano, não é um reservatório de memórias e experiências reprimidas pelo ego, mas um substrato que transcende nossas vivências pessoais. A obra de William Blake, por exemplo, dificilmente poderia ser resultado de sua experiência pessoal no mundo.

Por outro lado, foi apenas através da insanidade que alguns indivíduos produziram o que há de mais importante em suas obras. A inspiração de Sylvia Plath, famosa escritora americana, é interrompida quando ela finalmente encontra equilíbrio na figura de Ted Hughes, durante seu casamento. O contato com o inconsciente e, conseqüentemente, a produção criativa, foi retomado apenas após a separação, com o surgimento de um estado patológico deflagrado pela crise de seu casamento.

Alguns indivíduos são produtivos apenas enquanto o rebaixamento do nível mental se faz presente, não conseguindo manifestar sua criatividade quando existe um vínculo forte com a realidade. Seria arriscado dizer que tais indivíduos deveriam procurar aquilo que os vincula à realidade para manter a consciência. Entretanto, em sua autobiografia o ex-editor dos poemas de Sylvia Plath, Al Alvarez, acredita que alguns artistas pagam um preço alto em troca do mergulho no inconsciente:

I had always believed that genuine art was a risky business and artists experiment with new forms not in order to cause a sensation but because the old forms are no longer adequate for what they want to express. In other words, making it new in the way Sylvia did had almost nothing to do with technical experiment and almost everything to do with exploring her inner world – with going down into the cellars and confronting her demons.2 (ALVAREZ: 1999, p. 56)

Alguns escritores, entretanto, não necessitam abrir mão da consciência para expressar o inconsciente, isto é, eles exploram tal “mundo interior” de forma mais lúcida e não se vêem tão inundados pelo conteúdo simbólico arrebatador. Nesse sentido, é também o nível de consciência mantido quando se vivencia o inconsciente aquilo que separa a arte da doença mental. Ao contrário do que acredita Alvarez, a arte em si talvez não seja um negócio arriscado, pois surge como conseqüência de um comprometimento, e muitas vezes, pode ainda servir como uma função auto-organizadora da psique.

Um outro aspecto que pode intrigar considerando a linha tênue entre a arte e a doença mental é o fato de que as imagens universais produzidas na arte e na psicose podem representar os mesmos arquétipos. Além disso é natural questionarmo-nos qual seria a diferença entre a obra do artista e a produção da loucura pois muitas vezes, sobretudo na arte moderna, a produção do artista é distorcida à maneira fragmentada e caótica da produção esquizofrênica. Em primeiro lugar, no doente mental a produção não possui um objetivo consciente, é antes um sintoma involuntário de sua personalidade fragmentada. O artista, por sua vez, manifesta a tendência atual do inconsciente coletivo, uma vez que sua função, conforme mencionado, é a de solucionar a atitude unilateral da época. Ademais, a produção é vivenciada de forma diferente em ambos os casos:

A distorção do sentido e da beleza pela objetividade grotesca ou pela igualmente grotesca irrealidade é, no doente, uma manifestação conseqüente da destruição de sua personalidade. No artista, porém, é um propósito criativo. O artista moderno, longe de vivenciar e sofrer em sua criação artística a expressão da destruição de sua personalidade, encontra justamente na destrutibilidade a unidade de sua personalidade artística. (JUNG: 1991, §175)

Na arte e na doença mental o tratamento dado às imagens inconscientes tem uma aparente semelhança, que se manifesta na falta de sentimento e harmonia, na fragmentação e impulsos contraditórios, numa expressão esquizofrênica onde não há uma tentativa de comunicação:

Nada vem ao encontro de quem o contempla, tudo se afasta dele, até mesmo uma beleza ocasional aparece apenas como um imperdoável atraso de uma retirada. É o feio, o doentio, o grotesco, o incompreensível e o banal que está sendo procurado, não para esclarecer, mas para disfarçar, um disfarce porém, que não aproveita a quem está buscando, mas, qual névoa fria que procura esconderijo, paira, sem querer, sobre pantanais desabitados como um espetáculo que pode prescindir do espectador. (JUNG: 1991, § 209)

Não obstante tal tendência compartilhada, Jung nega que a obra de James Joyce, por exemplo, que possui “uma semelhança grave” (SIC) com a esquizofrenia, tenha os mesmos traços encontrados na doença mental comum. Resta assim a doença mental incomum, para a qual, segundo ele, a psiquiatria não tem critério, e a qual “pode ser uma espécie de sanidade mental, inconcebível para a inteligência mediana, ou um poder espiritual superior” (1991, § 173).

Finalmente, uma outra possibilidade de associarmos a psicose à arte é o fato de que em ambas observamos a presença de algo denominado por Jung de complexo autônomo. Trata-se de um conceito associado por Jung ao próprio nascimento de uma obra, pois “abrange quase todas as formações psíquicas que se desenvolvem em primeiro lugar bem inconscientemente e só a partir do momento em que atingem o valor limiar da consciência, também irrompem na consciência” (1991: p. 123). O complexo autônomo surge muitas vezes personificado e como não pertencente ao próprio ‘eu’, e na doença mental, manifesta-se na forma de vozes, ou na identificação com personalidades históricas. Embora o indivíduo criativo seja, muitas vezes, dominado por tais complexos autônomos, isso por si só não caracteriza a doença mental, pois pessoas normais também são dominadas por eles. A diferença está na intensidade com que isso ocorre. Ainda que em todos os casos o complexo autônomo tenha a propriedade de dominar e influenciar a personalidade, na produção artística não se trata de fragmentos dissociados, mas de representações arquetípicas repletas de sentido.

Assim, percebemos que tanto a arte legítima quanto a loucura compartilham a imersão no inconsciente coletivo. O que parece existir também em ambas é a necessidade de transcender as imagens inconscientes, o que eventualmente ocorre com a ampliação da consciência. Podemos arriscar a hipótese de que o nível de profundidade alcançado em tal mergulho e o nível simultâneo de consciência é o que provavelmente define o impacto da obra em determinada época.

1. Ele (Zarathustra) produzirá a enantiodromia, suprirá à humanidade do que está faltando, do que ela necessita, daquilo que as pessoas odeiam ou desprezam, a tolice aos sábios, a pobreza aos ricos, ou seja, Zarathustra promoverá uma compensação.

2. Sempre acreditei que a verdadeira arte é um negócio arriscado e os artistas experimentam novas formas não para causar sensação, mas porque as antigas não são mais adequadas para o que desejam expressar. Em outras palavras, inovar do modo com que fez Sylvia não teve quase nenhuma relação com experimentação técnica e relacionava-se quase totalmente com a exploração de seu mundo interior – com descer os porões e confrontar seus demônios.

 

REFERÊNCIAS:

· ALVAREZ, A. Where Did It All Go Right? Londres: Richard Cohen Books, 1999.

· JUNG, C.G O Desenvolvimento da Personalidade. Petrópolis: Ed. Vozes, 1981.

· _____ Jung’s Seminar on Nietzsche’s Zarathustra. Princeton: Princeton University

Press, 1988.

· _____ O Espírito na Arte e na Ciência. Petrópolis: Ed. Vozes, 1991.

· _____ Cartas Vol I. Petrópolis: Ed. Vozes, 2001.

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Imagem: “Medusa” de Jacek Malczewski

Por:  Marise de Souza Morais e Silva Santos

Medusa, ser terrível, embora monstro, é considerada pelos gregos uma das divindades primordiais, pertencente a geração pré – olímpica. Só depois é tida como vítima da vingança de uma deusa. Uma das três górgonas, é a única que é mortal. Três irmãs monstruosas que possuíam cabeça com cabelos em forma de serpentes venenosas, presas de javali, mãos de bronze e asas de ouro. Seu olhar transformava em pedra aqueles que a fitavam. Como suas irmãs, Medusa representava as perversões. Euríale, simbolizava o instinto sexual pervertido, Ésteno a perversão social e Medusa a pulsão evolutiva, a necessidade de crescer e evoluir, estagnada. Medusa também é símbolo da mulher rejeitada, e por sua rejeição incapaz de amar e ser amada, odeia os homens nas figura do deus que a viola e abandona e as mulheres, pelo fato de ter deixado de ser mulher bela para ser monstro por culpa de um homem e de uma deusa. Medusa é a própria infelicidade`, seus filhos não são humanos, nem deuses, são monstros. Górgona, apavorante, terrível.

O mito de Medusa tem várias versões, mas os pontos principais refletem estas características acima. Como Midas ela não pode facilitar a proximidade, um transformava tudo em ouro com apenas um toque, ela é mais solitária mais trágica, não pode sequer olhar, pois tudo o que olha vira pedra, Medusa tira a vida, o movimento com um simples olhar, também não pode ser vista de frente, não se pode ter idéia de como ela é sem ficar paralisado, morrer.

Diz o mito que outrora Medusa fora uma belíssima donzela, orgulhosa de sua beleza, principalmente dos seus cabelos, que resolveu disputar o amor de Zeus com Minerva. Esta enraivecida transformou-a em monstro, com cabelos de serpente. Outra versão diz que Zeus a teria seqüestrado e violado no interior do templo de Minerva e esta mesmo sabendo que Zeus a abandonara, não perdoou tal ofensa, e o fim é o mesmo. Medusa é morta por Perseu, que também foi rejeitado e com sua mãe Danae trancado em uma arca e atirado ao mar, de onde foi resgatado por um pescador que os levou ao rei Polidectes que o criou com sabedoria e bondade. Quando Perseu ficou homem, Polidectes enviou-o para a trágica missão de destruir Medusa. Para isto receberia o auxílio dos deuses. Usando sandálias aladas pode pairar sobre as górgonas que dormiam. Usando um escudo mágico de metal polido, refletiu a imagem de Medusa como num espelho e decapitou-a com a espada de Hermes. Do pescoço ensangüentado de Medusa saíram dois seres que foram gerados do conúbio com Poseidon. O gigante Crisaor e o cavalo Pégaso. O sangue que escorreu de Medusa foi recolhido por Perseu. Da veia esquerda saia um poderoso veneno, da veia direita um remédio capaz de ressuscitar os mortos. Ironicamente, trazia dentro de si o remédio da vida, mas sempre usou o veneno da morte.

” Três irmãs, três monstros, a cabeça aureolada de serpentes venenosas, presas de javalis, mãos de bronze asas de ouro: Medusa, Ésteno e Euríale. São símbolos do inimigo e se tem que combater. As deformações monstruosas da psiqué, consoante Chevalier e Gheebrant ( Dictionnaire des Symboles, Paris Robert Laffont, Júpiter, 1982) se devem as forças pervertidas das três pulsões: sociabilidade, sexualidade, espiritualidade” .(Brandão, ed. Vozes 1987).

Tenho observado em pacientes em terapia, alguns processos que remetem ao mito de Medusa. Estes relatam um sofrimento imenso devido a dificuldades em perceber a própria imagem. Quem sou eu? A grande pergunta para qual toda a humanidade busca respostas. Para estas pessoas, como se tivessem uma imagem invertida refletida no espelho, a pergunta é o que eu não sou. Incapazes de mostrar uma imagem positiva, como os filhos monstros de Medusa, erram pela vida alinhando possibilidades para construir sua monstruosidade. Estes filhos de Medusa, embora filhos de um deus, herdam da mãe a figura monstruosa a que se viu presa a bela Medusa. A duplicidade da Mãe os acompanha. Pégaso unido ao homem é o Centauro, monstro identificado com os instintos animalescos. Mas tambem é fonte, como seu nome simboliza, alado , é fonte de da imaginação criadora sublimada e sua elevação. Temos em Pégaso os dois sentidos ,a fonte e as asas. Símbolo da inspiração poética representa a fecundidade e a criatividade espiritual. Pégaso talvez represente o lado belo de Medusa, que ficou escondido, que não podia ser visto, pois como vimos ela representava a pulsão espiritual estagnada. Pégaso é a espiritualidade em movimento. Crisaor é apenas um monstro, pai de outros monstros Gerião de três cabeças e Équidna. Équidina herda da avó o destino trágico. Seu corpo metade mulher, de lindas faces e belos olhos, tem na outra metade uma enorme serpente malhada, cruel . É a bela mulher de gênio violento. Incapaz de amar, devoradora de homens. Uma reedição de Medusa. Continuará a saga ancestral de odiar os homens e gerar monstros.

Com uma imagem distorcida, como dizíamos anteriormente, estes “filhos de Medusa” não podem ver-se a si mesmos como são, e sempre imaginam bem piores até mesmo do que poderiam ser.

Alguns autores como Melanie Klein e Alexander Lowen falam que a imagem de si se origina do olhar da mãe. A forma como a criança é olhada, é vista, o que ela percebe de rejeição ou aprovação é captado no olhar da mãe. Os tristes filhos de Medusa não podem vê-la, tambem não podem ser vistos por ela. Esta mãe de mãos de bronze não pode acariciar, seu olhar paralisa, seus dentes de javali impedem que beije, mas quando poderia ser atingida pelo filho ela se torna divina, tem asas de ouro, é um alvo móvel. Medusa incorpora para estas personalidades de estrutura depressiva o mito da mãe divina, vista pelo seu filho como a santa mãe, não gera filhos felizes, apenas trágicos. Não pode ser mulher, é santa. A princípio como Jocasta, depositária da paixão do filho, Medusa não o ama, fazendo-o sentir-se torpr e culpado pelo seu amor incestuoso. Como recurso ele a santifica para continuar amando-a e justificando a sua rejeição como forma de protege-lo da sua própria torpeza. Desprovida como santa de instinto sexual, não pode falar ao seu filho da sexualidade feminina, não pode dizer-lhe o que é uma mulher. Inacessível como santa, torna-se monstro. Monstro que é percebido pelo filho mas que se nega a ser visto como é. Medusa não olha, não acaricia, não orienta. Paralisa. Não é por acaso que o sentimento da depressão é a inércia, a perda da vitalidade. Como se tivessem transformados em pedra pelo olhar da mãe os filhos de Medusa erram pela vida sem espelhos que traduzam sua imagem. São monstros cuja criatividade afogada na pedra de suas almas precisa ser libertada. Precisam encontrar um espelho e que lhes diga quem são ou pelo menos quem não podem ser.

No trabalho terapêutico de pacientes com depressão, tenho observado que há uma enorme dificuldade em perceber a figura materna. Ela é idealizada a partir de perfis culturais que parecem não poder ser questionados. Frases como: “qual a mãe que não ama seus filhos?” ou “toda mãe é uma santa” traduzem a situação que impede a visão do real. São pessoas desprovidas de afeto, mas com uma enorme necessidade de carinho, que no entanto não suportam proximidade, de uma vez que não confiam em ninguém, pois não acreditam que podem ser amados. Sentem se monstros. Alguns mais adiante no processo chegam a perceber nitidamente que não foram amados, mas como se esquivando de perceber a profundidade dessa dor negam afirmando que isto é normal, diante da sua torpeza. Falam de mães ocupadas, falam de mães vaidosas ressentidas da perda da beleza com o nascimento do filho. Mas essas referências são quase superficiais.

Quando conseguem se aproximar da visão real dessa mãe de garras e mãos de bronze os sintomas se multiplicam, aumenta a depressão e com esta a paralisia, a inércia. Podem passar vários dias deitados, sem trabalhar ou realizar um mínimo de esforço. Ver Medusa é petrificar-se. Muitos desenvolvem sintomas de dor de cabeça, medo de doenças fatais como câncer, AIDS (doenças ligadas a amputação, decapitação, ao sangue, a sexualidade e sintomas de castração). As fantasias de autopunição se multiplicam, relatam possibilidades de acidentes de automóvel ou com armas de fogo. Tem fantasias de traição com amigos ou companheiras. São pessoas trágicas. Todos relatam uma ausência de alegria, mesmo quando estão em ambientes alegres. Uma profunda inveja do prazer do outro os assola. Muitos perseguem a fantasia de resolver a falta com postos de poder e dinheiro. Aumenta a dor. O poder que tanto ansiaram ou o dinheiro que tudo resolveria aumentam a profundidade do abismo. Ter tudo e não sentir-se nada é muito mais terrível. O abismo se abre cada vez mais como as entranhas da mãe monstruosa. Restam- lhes fantasias suicidas. É preferível morrer a sentir-se monstro. Muitos realizam esta fantasia como ultima tentativa de atingir Medusa. Mas ela nada sentirá, seu ódio pelo homem que a violou transmite-se ao filho que gerou. Sua pior inimiga Minerva ( a deusa da inteligência), deixa-lhe como legado o ódio às mulheres. Não pode dizer ao filho como lidar com elas, como gerar com elas novos filhos, amados ,sadios. Sua descendência, embora não precise ser deverá ser de monstros gerando outros monstros. Fala-se da hereditariedade da depressão. Penso que se houver é muito mais transmitida em gestos e pelo ambiente trágico e desprovido de prazer, em que estas novas crianças nascerão. Os filhos de Medusa não podem ter mulheres amorosas, isto a denunciaria. Raramente, quando encontram estas mulheres não podem confiar nelas e abortam assim a possibilidade de obter o amor que os revitalizaria.

Mas, apesar das dificuldades e das fantasias autopunitivas, Medusa pode ser vista. Através do espelho do terapeuta e deste como espelho, a figura de medusa pode ser vista. Se a relação terapêutica se dá de forma transferencial, amorosa, confiante, o espelho refletirá imagem de Medusa, como ela é. Incapaz de amar, cruel e terrível, górgona, apavorante. Como resultado o filho descobrirá que o monstro é ela, não ele. Da morte dela resulta sua vida, e como Pégaso ele ganha os céus, liberto, simbolizando a vitória da inteligência e sua união com a espiritualidade, a sensibilidade que sempre existiu naquele que se julgava o monstro. Como Pégaso, se não se aferrar ao seu aspecto de humano comum, em revoltas descabidas e em vinganças inúteis poderá compreender a tragédia de Medusa e perdoa-la. Não se transformará no monstro Centauro, identificado com o instintos animalescos e a sexualidade desregrada. Se incorporar Centauro errará pela vida sem pertencer a ninguém. Homem de muitas mulheres, mas sem nenhuma. Será monstro preso a sua mãe monstruosa. Incapaz de amar como ela. Se assumir sua condição de Pégaso, será fonte, de todas as belezas, da mais pura elevação, da criatividade, da fidelidade. Não é por acaso que Pégaso simboliza a Poesia.

As filhas de Medusa também apresentam como ela a impossibilidade de ser amada. São mulheres tristes de trágica figura, mesmo quando belas. Condenadas a serem crianças eternas presas as entranhas da mãe, não podem deixar de ser filhas-monstro, a não ser para poderem ser mães- monstro. Filhas da violação e do abandono (é assim que Medusa transmite a elas sua relação com os homens) são mulheres-meninas, incapazes de perceber o homem a não ser como brinquedo, ou como fonte de sofrimento. Unem-se quase sempre a homens cruéis que possam justificar a idéia da mãe da impossibilidade de ser feliz com um homem. Quando raramente encontram o amor, destroem-no destruindo o homem amado, como faz no mito Équidna, legítima herdeira de Medusa.. Mulheres de amores infelizes, herdam de Medusa as garras, as mãos de bronze, e as asas de ouro. Vítimas de novos abandonos reforçam em cada experiência infeliz a idéia da mãe. Também possuem o olhar terrível. Das uniões infelizes geram filhos infelizes que carregam presos a si mesmas não por amor, mas pelo terror que podem gerar. Novas medusas. Se pela procura puderem chegar ao espelho, podem ser deusas, podem ser Pégasos, ou até mesmo Poesia uma das Musas; se não seguirão seus destinos de mulheres- crianças gerando filhos que não podem amar e que no máximo lhes servem de brinquedo para suas brincadeiras cruéis de paralisar e aterrorizar pessoas. Seguem a saga de Medusa. Mulher que se torna monstro, pelo descuido de homem, pela crueldade de uma deusa.

Mas e as mulheres Medusa? O que lhes resta? O próprio mito nos mostra.

Perseu filho de Danae, mãe amorosa, que segue seu filho no destino que lhes foi dado pelo pai terrível que ouviu de um mago que seria assassinado pelo neto. Trancados em uma arca atirados ao mar são salvos por Poseidon que os encaminha a uma praia tranqüila onde são recolhidos por um pescador e levados ao rei Polidectis, que o educa amorosamente como filho. Perseu é filho de mãe amorosa, que tudo perde para seguir seu filho. Que abandonada por um homem, o próprio pai, atirada à morte por ele não transforma isto em ódio a masculinidade. Perseu também. Seu abandono pelo avô e pelo pai que não o salva, é no entanto criado por um pai amoroso. Perseu e Danae o oposto de Medusa. Não permitiram que sua desgraça se transformasse em ressentimento para com a humanidade. Foram alcançados e salvos pelo amor humano. Ao contrário de Medusa, da qual ninguém pode se aproximar. Somente Perseu poderia destruir Medusa, ele pode ser visto exatamente como seu contrario no espelho, ela mulher, ele homem, ela ressentida, ele perdoando, ela sem possibilidade de resgate, ele salvo pelo amor da mãe que o acompanha, pelo cuidado de um deus e pelo amor de uma pai-rei. Tudo o que faltou a Medusa que precisa ser vista, no espelho, para poder ser destruída e libertar Pégaso. Medusa tem que ser compreendida alem do seu aspecto monstro, como mulher-criança, frívola, presa a beleza passageira, desafiando a grande deusa, a inteligência a quem desafia e a quem odeia. Para depois de morta servir a ela, Minerva, mesmo que seja como esfinge no seu escudo. Guiado pela inteligência e sabedoria de Minerva, que corrige o seu erro de ter criado um monstro, o olhar de Medusa agora é útil, tem aplicabilidade, destroi o inimigo. Já não mata os que ama.

Se a transferência não se realiza, se a relação terapêutica não se faz, e disse alguém que a terapia é uma função de amor, os filhos de Medusa verão no terapeuta a imagem dela e fugirão. Tudo estará perdido, o amor não poderá realizar seu resgate, e Medusa permanecerá eternamente viva destruindo e paralisando até que se destrua ou destrua seus filhos.

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