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bird-woman.jpgImagem: “Captured” de Catrin Welz-Stein

Autor: Ana Luísa Testa

RESUMO

Este artigo aborda questões relativas à dois grandes autores da psicologia moderna: Reich e Jung e traça paralelos não só em suas teorias, assim como em suas percepções sobre vida, ciência e cultura. Discute e crítica posições empregadas pelo paradigma mecanicista de ciência e aponta como Reich e Jung – homens com uma visão além de seu tempo – conseguiram transpor os valores científicos de sua época e adotaram uma visão mais integral de homem em suas práticas e teorias, reconhecendo nos outros em si o que há de irracional e obscuro, aquilo que aprendemos a negar e não conseguimos enxergar – a Sombra e nossos corpos.

Palavras-chave: Jung, Psicologia Corporal, Reich,

ABSTRACT

This article discusses issues about two of the main authors of psychology: Reich and Jung, and draw some parallels into their theories, their perceptions about life, science and culture. This article also criticizes the mechanicist model of science and shows how Reich and Jung were able to skip the scientific paradigm of their time and concept a holistc vision about life and human nature in their practices and theories, recognizing in human beings what’s irrational and obscure, what we learn to deny and what we are not able to see – the Shadow and our bodies.

Keywords: Body Psychology, Jung, Reich.

Oscilei em minha decisão sobre comparar partes da teoria de Reich e Jung muitas vezes. Seriam as semelhanças fortes o suficiente para justificar um artigo? E o que fazer quanto às diferenças? Essas diferenças teóricas e técnicas poderiam se complementar de alguma forma? Quem apresenta a melhor proposta de trabalho: Reich ou Jung? Esta última pergunta foi a mais simples de se responder, pois em psicologia não existe certo e errado; as escolhas teóricas são baseadas na personalidade, visão de mundo, história de vida e grau de identificação de cada pessoa com as mais diversas teorias. Muitas correntes teóricas são eficientes, desde que bem aplicadas e compreendidas. É como Sannino (1992) expõe, fazendo referência aos chineses – A palavra certa na boca do homem errado produz resultados errados. A palavra errada na boca do homem certo produz resultados certos. Em psicologia, a eficiência pessoal e técnica do terapeuta são elementos de maior importância.

Seguindo o desenvolvimento de minhas perguntas, quando penso nas diferenças entre os dois, vejo que elas não se restringem apenas à teoria – já que Reich e Jung foram homens muito diferentes. O primeiro era mais extrovertido, concreto, bastante apegado à seriedade, sem raízes – Reich era um cidadão do mundo – e com pouco senso de humor. O segundo, um tipo introvertido, predominantemente pensador, mais recluso, mais humilde em suas convicções e profundamente enraizado na Suíça. (CONGER, 1993). De fato as diferenças são enormes, mas e quanto às semelhanças?

Ambos foram filhos da psicanálise e amigos próximos de Freud. Reich foi o membro mais novo a ser aceito na Sociedade Psicanalítica, e Freud era como um pai para ele. O livro “Psicopatologia e Sociologia da Vida Sexual”, traduzido no Brasil como “A Função do Orgasmo” foi um presente de Reich para Freud, em 1926, por conta de seu septuagésimo aniversário, mas Freud o rejeitou, e por fim acabaram rompendo por divergências não só teóricas, mas também pessoais. Com Jung a situação não foi muito diferente. Freud acreditava que Jung seria seu sucessor na Sociedade Psicanalítica, mas as divergências teóricas foram profundas, já que Jung considerava a redução nas interpretações sexuais algo superficial, e buscava em sua teoria os símbolos ocultos do inconsciente, e por fim acabaram rompendo no ano de 1913. (CONGER, 1993)

Após a ruptura com Freud, Reich e Jung começaram a desenvolver suas próprias teorias e métodos de trabalho psicoterapêutico. Dedicaram-se à psicologia profunda e aos fundamentos da vida de forma brilhante – Reich estudando e trabalhando com a energia e o corpo e Jung com imagens e símbolos do inconsciente.

Outra semelhança é que para os dois autores, corpo e mente são aspectos diferentes de um mesmo organismo. (CONGER, 1993). Hoje, através de um novo paradigma de ciência que vem abrindo caminhos pela física quântica, sabemos que essa visão de homem não poderia ser mais apropriada. Energia e matéria são aspectos de uma mesma unidade. A natureza do elétron se comporta ora como onda, ora como partícula. Muitos físicos, atualmente, aceitam que a matéria esteja impregnada de psiquismo, (SILVEIRA, 2000) e as neurociências apontam cada vez mais as bases materiais de nosso psiquismo, o que não significa a emergência de um reducionismo das ciências psicológicas às neurofisiológicas, mas sim um complemento, uma visão mais complexa e interdisciplinar.

Conforme diz Silveira (2000, p. 164): “Se o psicólogo, nas suas investigações através das camadas mais profundas da psique, encontra a matéria, por sua vez o físico, nas suas pesquisas mais finas sobre a matéria, encontra a psique”. Neste sentido, matéria e psique podem ser consideradas um mesmo fenômeno, o primeiro observado pelo exterior, e o segundo do interior. (VON FRANZ apud SILVEIRA, 2000)

Seguindo esta linha de raciocínio, acredito que Reich e Jung conseguiram se distanciar do paradigma científico predominante da época – o mecanicista, muito bem sintetizado pela máxima de René Descartes – “Penso, logo existo” – que restringe o homem à um ser racional, previsível e fundamentalmente mecânico. (CAPRA, 1995) O homem se identificou com sua parte racional, e neste modelo de ciência, não teve instrumentos para olhar e compreender o todo. É por esta razão que intitulei Reich e Jung como homens além de seu tempo, mostrando alguns prejuízos que uma cisão entre racionalidade e irracionalidade no homem podem acarretar.

Os dois autores conseguiram esquivar-se do padrão mecanicista de ciência cada um à seu modo: Reich de uma forma que ele julgava concreta (científica) e palpável, e Jung por suas observações e classificações sistemáticas de todo material que lhe aparecia, seja por um processo de auto análise, na clínica ou pelo estudo dos mitos. Ao criticar o modelo vigente, em “O Éter, Deus e o Diabo” (2003) Reich questiona por qual razão a ciência não abraçou o estudo do processo vital, e argumentou que todo paradigma científico adotado é sempre o reflexo dos homens de sua época. Podemos dizer então que o homem mecanicista, materialista, que se enxerga tal como uma máquina é incapaz de incluir em sua pesquisa aspectos que ele próprio não enxerga – sua humanidade total.

O físico mecanicista típico pensa de acordo com os princípios da construção da máquina, a quem serve em primeiro lugar. Uma máquina deve ser perfeita. Portanto, o pensamento e a ação do físico devem ser perfeitos. O perfeccionismo é uma característica essencial do pensamento mecanicista. Não permite erros. Incertezas e situações em fluxo são indesejáveis. (REICH, 2003, pág. 89)

O cientista moderno trabalha com modelos artificiais, altamente controlados em laboratório, já que erros e desvios são considerados inoportunos. E desta forma ele se opõe à realidade, pois a natureza opera de forma imprevisível e altamente complexa. Além disso, o cientista omite em seus resultados possíveis erros, lacunas e contradições e expõe apenas o resultado final, já lapidado. Esta é mais uma atitude que ilustra como a necessidade de perfeição do cientista pode atrapalhar a compreensão dos fenômenos. (REICH, 2003)

Jung, assim como Reich, também faz a sua critica à ciência, ao dizer que ela não consegue trabalhar com o que o homem é – sua essência – e que a vida humana pode ser mais bem expressa através dos mitos. O mito expressa a vida com mais exatidão do que a ciência, que falha por trabalhar com noções médias e demasiadamente genéricas para dar conta da riqueza e complexidade de uma vida individual. (JUNG, 1984)

Com isto, eles não queriam dizer que a ciência deva ser descartada, mas sim complementada, e que seus objetos de estudo possam ser visto a partir de uma visão mais complexa, menos fragmentada e menos desconectada.

Como Reich afirmou, o paradigma empregado em determinada época é o reflexo dos homens que o adotam e o validam, então poderíamos dizer que estes homens estão tão fragmentados e desconectados quanto seu modelo de produção de conhecimento? Reich e Jung acreditam que sim, e que este homem é resultado de uma cultura que considera os aspectos irracionais do ser humano como algo inferior. Para eles, esta cisão é o retrato do homem não saudável, e a saúde deve ser reconquistada a partir da união de opostos. (CONGER, 1993) “Natureza e cultura, instinto e moralidade, sexualidade e realização tornaram-se incompatíveis, como resultado da cisão na estrutura humana.” (REICH, 1995, p. 17)

A unidade desses fenômenos será utópica enquanto o homem se negar a ver e levar em conta o seu corpo e toda a irracionalidade à ele pertinente. Keleman (1999), afirma que tal cisão nos faz perder contato com nossa imagem interior, nosso self. O contato é perdido porque aprendemos em nosso meio externo como devemos ser e como devemos nos comportar, e tentamos corporificar essas imagens de fora para dentro. A fim de sermos aceitos, nos afastamos de nossa capacidade de expansão, de contato e de autenticidade em relação ao nosso ser. Vivemos um personagem que acreditamos ser a representação mais fidedigna de nós mesmos, sem nos darmos conta de que forma ele nos consome e reprime nossos sentimentos mais espontâneos, nossa fluidez natural, nos deixando temerosos e destrutivos – indivíduos encouraçados.

Para Reich, a couraça é desenvolvida pela imposição social de controle dos impulsos e emoções. Elas são corporificadas para que o indivíduo se adapte às exigências sociais através da manipulação de seu sistema vegetativo, como por exemplo, prender a respiração (bloqueio do diafragma) a fim de suprimir fortes emoções. As couraças são identificáveis no corpo através de contrações crônicas em grupos musculares funcionalmente associados.  Estamos inconscientes de nossas couraças, de nossa rigidez somática, e do que elas representam. Nossas couraças são as estruturas capazes de manter a cisão no ser humano. (REICH, 2004)

Se para Reich cultura e sociedade são responsáveis pela cisão e pela formação das couraças, para Jung elas são responsáveis pela cisão e pela constituição da sombra.

Da mesma forma que estamos inconscientes de nossas couraças, também estamos inconscientes de nossa sombra. A sombra, para Jung, abrange os lados opostos inaceitáveis pela sociedade – e por fim por nós mesmos – que não conseguimos acoplar ao nosso Ego. É o nosso lado obscuro. (VON FRANZ, apud CONGER, 1993)

Poderíamos então dizer que o conceito de corpo encouraçado de Reich assemelha-se ao conceito de sombra de Jung, na medida em que ambos operam na manutenção da cisão humana entre o par de opostos racional x irracional. Tanto o corpo quanto a sombra contém a história de como o surgimento espontâneo da energia vital (e de nosso self) é rejeitado.

A vitória de uma vida super racionalizada se dá à custa de uma vitalidade mais primitiva e natural. Para quem pode ler o corpo, ele guarda o arquivo de nosso lado rejeitado, revelando o que não ousamos falar, expressando nossos temores passados e presentes. O corpo como sombra é predominantemente, o corpo como caráter, o corpo como energia contida que não é reconhecida, não é constatada, é ignorada e indisponível. (Conger, 1993. pág. 103)

Através desses conceitos descritos e relacionados – couraça e sombra – vemos que Reich e Jung preocuparam-se com a questão da cisão humana e a forma como ela nos afeta e prejudica. À medida que valorizamos a razão e abandonamos parte de nossa humanidade, os aspectos não-racionais permanecerão na sombra, num estado de inconsciência e indiferenciação, e não poderão ser usados na busca do prazer, do contato íntimo e do amor. Acredito que no trabalho psicoterapêutico o principal objetivo é auxiliar nosso clientes a unirem seus opostos, para que consigam amar não só superficialmente, mas também afetivamente, trabalhar não só com a mente, mas também com o corpo e conhecer não só aquilo que é racional, e sim o todo – e, parafraseando Reich, desta forma ajudá-los à governarem suas vidas.

Relacionar Reich e Jung não é tarefa fácil quando pensamos em encontrar muitos paralelos em suas teorias, mas bastante enriquecedora quando procuramos entender a grandeza de pensamento desses dois autores e cruzar conceitos semelhantes que exprimem a realidade humana. Acredito que estudiosos e seguidores de ambas as teorias podem se beneficiar ao beber de outras fontes teóricas. Este texto não esgota de forma alguma as possíveis relações entre os dois, e argumenta basicamente o reconhecimento de que Reich e Jung identificaram um certo círculo vicioso, de um homem desconectado que produz uma ciência fragmentada, e de uma ciência fragmentada que alimenta a desconexão de um homem racionalizado com a sua irracionalidade.

REFERÊNCIAS:

CAPRA, F. O Ponto de Mutação: A Ciência, a Sociedade e a Cultura emergente.25 ª ed. São Paulo: Cultrix, 2005.

CONGER, J. P. Jung e Reich: O corpo como sombra. São Paulo: Summus, 1993.

JUNG, C.G. Memórias Sonhos Reflexões. 6 ª ed. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1984.

KELEMAN, S. Mito e Corpo: Uma conversa com Joseph Campbell. São Paulo: Summus, 1999.

REICH, W. Análise do Caráter. 3 ª ed. São Paulo: Martins Fontes, 2004.

REICH W. A função do Orgasmo.  19 ª ed. São Paulo: Brasiliense. 1995.

REICH W. O Éter, Deus e o Diabo. São Paulo: Martins Fontes. 2003.

SANNINO, A. M. Métodos do Trabalho Corporal na Psicoterapia Jungiana: Teoria e Prática. São Paulo: Editora Moraes, 1992.

SILVEIRA, N. Jung: Vida e Obra. 17 ª ed. Rio de Janeiro: Editora Paz e Terra. 2000.

LINK: http://www.terapiaemdia.com.br/?p=104

 

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Daily-Painting-the-Journey-His-Story (1)-

Pintura: “The Journey – His Story” de Christopher Clark

AUTORA: RAMONA SCHOERPF

Jung diz que é muito importante o analista estar inteiro no processo analítico e que é na relação entre analista e analisando, quando esta se transforma numa relação entre eu—tu, que se pode chegar ao homem inteiro. E é nesse espaço do instante vivido que gostaria de refletir acerca da postura do analista e na enorme potencia curadora que pode existir quando este espaço é valorizado pelo analista.

Lendo o livro Psicologia e Alquimia, um ponto que achei muito interessante foram algumas colocações de Jung acerca do lugar do analista no processo analítico. Jung (2012 c) diz que é muito importante o analista estar inteiro no processo, ou seja, que é a partir dessa inteireza que o processo analítico pode verdadeiramente ocorrer.

““Arts totum requirit hominem!” (a Arte requer o homem inteiro!), exclama um velho alquimista. Justamente é este “homo totus” que se procura. O esforço médico, bem como a busca do paciente, perseguem esse “homem total” oculto e ainda não manifesto, que é também o homem mais amplo e futuro. No entanto, o caminho correto que leva a totalidade é infelizmente feito de desvios e extravios do destino. Trata-se da “longíssima via”, que não é uma reta, mas uma linha que serpenteia, unindo os opostos à maneira do caduceu, senda cujos meandros labirínticos não nos poupam do terror. Nessa via ocorrem experiências que se consideram de “difícil acesso”. Poderíamos dizer que elas são inacessíveis por serem dispendiosas, uma vez que exigem de nós o que mais tememos, isto é, a totalidade. Aliás, falamos constantemente sobre ela – sua teorização é interminável -, mas a evitamos na vida real. Prefere-se geralmente cultivar a “psicologia de compartimentos”, onde uma gaveta nada sabe do que a outra contém”. (Jung, 2012 c, pág. 12-13)

Trago tais reflexões porque acho muito importante tentarmos nos aproximar o máximo possível dessa relação que ocorre no aqui e no agora no consultório, para podermos a partir desse clareamento trabalhar o que ocorre na transferência e contratransferência.

Murray Stein (1992) fala de um modelo xamânico de cura na contratransferência, onde, citando Jung (1946*) diz que “seus comentários esparsos acerca da dinâmica da transferência/contratransferência na análise seguem em larga medida este modelo: os analistas se contaminam pelas doenças de seus analisandos e então promovem a cura curando-se a si mesmos e administrando o remédio que produzem em si ao analisando pela “influência”. Na análise, este processo xamânico de cura é, evidentemente, levado a cabo num plano psíquico, ao invés de físico. Conforme descrito por Jung, trata-se de uma interação muito complexa e sutil, que abarca a personalidade inteira de ambos os parceiros numa espécie de combinação alquímica de elementos psíquicos”. (Murray, 1992, pág. 73 – Cf. 1946*)

Em seu livro Psicologia e Alquimia, Jung (2012 c) escreve que “ninguém mexe com fogo ou veneno sem ser atingido em algum ponto vulnerável; assim, o verdadeiro médico não é aquele que fica ao lado, mas sim dentro do processo”.

Portanto, uma importante reflexão de Jung é sua fala sobre a relação que se estabelece durante a análise, assumindo que tal relação existe e que é nesta relação que temos a possibilidade de estarmos inteiros.

*JUNG, C.G. 1946. The psychology of the transference. In: Collected Works, 16:163-323. Princeton:Princeton University Press, 1966

“O trabalho analítico conduzirá mais cedo ou mais tarde ao confronto inevitável entre o eu e o tu, e o tu e o eu, muito além de qualquer pretexto humano; assim, pois, é provável e mesmo necessário que tanto paciente quanto o médico sintam o problema na própria pele. (…) Tanto para o médico como para o paciente, o “ficar pendente”, ou a dependência pode tornar-se algo indesejável, incompreensível e até mesmo insuportável, sem que isso signifique algo de negativo para a vida. Pelo contrário, pode até ser uma dependência (um “ficar pendente”) de caráter positivo: se por um lado parece um obstáculo aparentemente insuperável, por outro, representa uma situação única, exigindo um esforço máximo que compromete o homem total.” (Jung, 2012 c, pág. 18)

Se observarmos com atenção todo o trabalho de Jung (2012 c), veremos o quanto se debruçou sobre qualquer tema por ele elaborado, onde nos coloca a importância dessa inteireza dentro do processo analítico.

“E é preciso não esquecer que foi através da paciência indizível dos pesquisadores que a nova ciência conseguiu erigir um conhecimento mais profundo da natureza da alma; certos resultados terapêuticos inesperados foram obtidos graças à perseverança abnegada do médico”. (Jung, 2012 c, pág.18)

Jung se debruçava em cima da historia de seus pacientes e é essa intensidade, essa paixão, esse amor pela cura que faz com que eu me interesse e tenha desejo de me debruçar perante sua obra! Jung estava inteiro em todos os processos que estudava. Não se descobriria a cura para tantas doenças se não fossem a insistência de alguns poucos, que mesmo passando por inúmeras dificuldades, continuavam persistindo!

Rolando Toro (2005 b), criador do sistema Biodanza, nos fala que o “fracasso da psiquiatria e da psicologia é a dificuldade que possuem de amar o louco”.

Este “amar o louco” seria essa inteireza de estarmos entregues ao processo analítico. É preciso se importar com a pessoa que esta a nossa frente, é preciso se debruçar e entrar dentro desse sofrimento junto com o paciente para conseguir sentir o que se passa verdadeiramente. Precisamos ser verdadeiros xamas. Se não consigo me comover perante o sofrimento do outro, devo encaminha-lo para outra pessoa que o possa.

Muitas vezes é o que a pessoa me desperta que me diz como ela esta se movimentando pela vida. E o quanto mais conseguirmos estar atentos a esta relação com nosso analisando, mas fácil nos daremos conta do que estamos sentindo. E este sentir nos diz de nossa contratransferência, podendo ao mesmo tendo nos auxiliar no que estes sentimentos que despertam em mim no momento podem dizer do movimento do paciente.

A partir dai cabe ao analista verificar até que ponto é válido usar tais dados na relação transferencial.

Nathan Schwartz-Salant (1992) também fala sobre a importância da transferência em seu artigo, citando o ponto de vista de Jung sobre o papel do analista.

“(…) muitas vezes, recorre-se às reações do analista para busca de informações sobre o paciente, e o que este diz ou sonha é reconhecido como indicação de percepção precisa do analista e do estado do processo analítico”. (Schwartz, 1992, pág. 9)

Na biodança fala-se que não é necessário somente o contato, mas sim a conexão para podermos nos transformar. James A. Hall (1992) também fala disso em seu artigo Sonhos e transferência/contratransferência: o campo transformador, onde faz uma citação de Jung, onde este diz que ”(…) o verdadeiro médico não se coloca fora de seu trabalho, mas está sempre no meio dele.”

Algo que sempre me fascinou na Biodança foi a valorização do instante vivido, e o quanto Rolando Toro, se debruçou em cima desse conceito, que denominou vivência.

Para Rolando Toro (1968), vivência é “a experiência vivida com grande intensidade por um individuo em um lapso de tempo aqui – agora (‘gênese atual’) abarcando as funções emocionais, cenestésicas e orgânicas”. Para ele, vivência é o instante vivido no aqui e agora com total intensidade e entrega, é quando conseguimos realmente estar inteiros. E é nessa inteireza que existe a possibilidade da transformação acontecer.

Segundo Toro (2005 a), “a vivência constitui-se na experiência original de nós mesmos, da nossa identidade, anterior a qualquer elaboração simbólica ou racional”. É no ato de estarmos inteiros que nos transformamos, pois saímos de nosso modo racional para vivenciar o inédito.

Penso que o ato de ser analisado é também uma tentativa de chegarmos a este homem inteiro que nos fala Jung (2012 c). Entramos num processo profundo de analise interna para sabermos quais aspetos podem estar “trancando” ou bloqueando a livre expressão do meu ser. E à medida que vamos entrando nesse processo interno vemos o quanto levamos conosco de vivências passadas que nos impedem de usufruir o presente.

Então quando Jung (2012 c) nos diz que a arte requer o homem inteiro, esta nos colocando que tanto o analista como o analisando está na busca desse “homem total”, que anseia por se expressar livremente.

Este estar inteiro vai muito além de se reconhecer como um ser único e singular, porque exige também da pessoa um desfazer-se de tudo aquilo que já não serve mais na sua caminhada de individuação. Exige um desfazer-se de aspectos que não fazem mais parte de sua caminhada atual. E é nesse aspecto que surge um dos principais papéis do analista, auxiliar o analisando a se dar conta do já não serve mais na sua caminhada.

Rolando Toro (2005 a) fala que colocar-se no lugar do outro é um ato de lucidez. E esse ato de lucidez (sempre que possível) se dá através do analista dentro do processo analítico. Como na maioria das vezes o analisando busca analise por encontrar-se perdido em alguns caminhos que só consegue andar em círculos, é a lucidez do analista dentro do caminhar do analisando que ira lhe proporcionar a possibilidade de um novo olhar para a sua caminhada. Mas essa lucidez somente poderá ocorrer quando o analista se permitir entrar no processo.

O modo, portanto, pelo qual o analista se coloca nesse processo pode fazer toda a diferença. Quanto mais inteiro o analista estiver, ou seja, mais presente no momento da analise, mais fácil será para este vivenciar o que ocorre na transferência / contratransferência.

Segundo Góis (1997), participação é o oposto de opressão. O papel do analista, portanto, não deixa ser um papel de libertador de padrões internos que não servem mais para a caminhada atual de seu analisando.

A mudança é algo vivo, que nos modifica enquanto vamos vivendo. E o ato terapêutico não é algo a parte onde fazemos uma pausa para relatar apenas acontecimentos significativos de nossa vida, ele também faz parte do que estou vivendo e, portanto, à medida que vou me aprofundando e me entregando nesse processo, vai mostrando também como interajo com o outro e com o mundo. É um processo alquímico!

Só olhando…

Vem, olha no meu olho. Deixa pra lá o que você pensa que eu sou. O que você gostaria que eu fosse. Tenta ver, tenta sentir, te permite ver o que eu sou de verdade. Me dá um minuto da tua vida antes de me definir. E eu mudo todo o dia um pouco, nunca sou igual. E você só vai ver se tiver tempo de ficar me olhando. Tempo de estar comigo no aqui e agora. E se você fizer isso vamos sempre nos entender porque sempre vamos nos ver de verdade.

Vem, olha no meu olho.

 

BIBLIOGRAFIA

GÓIS, Cezar Wagner de Lima. 1997. Vivência em Biodanza in org Flores, Feliciano. Cadernos de Biodança. Porto Alegre.

JUNG, Carl Gustav. 2012 c. Psicologia e Alquimia / tradução e revisão literária Dora Mariana Ribeiro Ferreira da Silva; revisão Técnica, Jette Bonaventure – 6 ed. – Petrópolis, RJ : Vozes.

STEIN, Murray & SCHWARTZ-SALANT, org. 1992. Transferência – Contratransferência / tradução Rosas de Oliveira; revisão técnica Marcia Tabone – São Paulo, SP : Editora Cultrix Ltda.

TORO, Rolando. 2005 a. Biodanza. 2 ed. – São Paulo : Olavobras.

TORO, Rolando. 1968. A vivência. Curso de formação docente em Biodanza. Sistema Rolando Toro – Chile.

WARNKEN, Cristián. 2005 b. Entrevista a Rolando Toro em el programa “La Belleza del pensar”. Chile.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

FLORES, Feliciano Edi Vieira, org. 2006. Educação biocêntrica : aprendizagem visceral e integração afetiva. Porto Alegre : Evangraf.

JUNG, C.G. 2012. Ab-reação, análise dos sonhos e transferência. Tradução de Maria Luiza Appy; revisão técnica Jette Bonaventure. 8 ed. – Petrópolis, RJ.

JUNG, C.G. 2012. Freud e a psicanálise. Tradução de Lúcia Mathilde Endlich Orth; revisão técnica Jette Bonaventure – 6 ed. – Petrópolis, RJ : Vozes.

STEIN, Murray. 2006. Jung : O mapa da alma : uma introdução. Tradução Álvaro Cabral; revisão técnica Marcia Tabone – 5 ed. – São Paulo : Cultrix.

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A Lovely Thought
Imagem: 
“Um pensamento Agradável” de Daniel Ridgway Knight

Autor: Denise Diniz Maia*

Palavras-chave: cultura, arte, ciência, imagens e símbolos.

“Jung é um dos fundadores da psicologia moderna além de ter sido um dos precursores para uma nova era. Ao reintroduzir a noção de Self em psicologia e na cultura, ele coloca o homem frente à sua verdadeira essência e lhe restitui a sua totalidade, possibilitando-lhe o contato com o seu centro”. (Léon Bonaventure)

 

 

As primeiras décadas do século XX foram um momento de intensa experimentação na literatura, nas artes e na psicologia. Artistas e escritores tentaram abolir os limites das representações para mostrar sua experiência interior, sonhos e fantasias.

Começa a acontecer uma maior percepção da importância dos fenômenos psíquicos, num anseio de renovação cultural e espiritual. Psicólogos começaram a observar o mesmo terreno e a ciência moderna também volta sua atenção à realidade subjetiva.

Jung, como um grande investigador do pensamento ocidental moderno, teve suas idéias inovadoras amplamente disseminadas, influenciando o consciente coletivo de toda uma época. Ele sempre esteve à frente de seu tempo, abrangendo em sua obra muitos e variados campos de atuação e provocando um interesse cada vez maior nas gerações mais jovens, que desejavam transformar a sociedade e ter um novo olhar também para o indivíduo.

Surge um interesse maior de teóricos, vindo de debates no âmbito da sociologia e da antropologia; outros pela ressonância de aspectos analíticos com as novas física, biologia, e os fenômenos da consciência. É importante ressaltar o diálogo entre as diversas áreas e ciências, uma comunicação interdisciplinar, onde a psicologia analítica tem muito a contribuir. Os encontros anuais de Eranos que aconteciam na época de Jung, contavam com a participação de teóricos de várias áreas, que se nutriam do pensamento junguiano e que também o influenciavam.

Os convidados se reuniam na casa de Olga Fröbe no lago Maggiore em Ascona, com o objetivo de manter acesa a chama do conhecimento e da reflexão, num momento de obscurecimento e paralização entre as duas guerras.

Olga era uma intelectual, estudiosa de símbolos, cujo desejo era promover um lugar de encontro entre o ocidente e o oriente.

Jung proferiu sua primeira conferência nos encontros, em 1933 e foram 14 no total, até 1952.

Muitos junguianos também participaram, como Emma Jung, Barbara Hannah, Jolande Jacobi, Toni Wolff e James Hilmann. De outras áreas podemos citar entre outros: Mircea Eliade, Károly Kerényi e Rudolph Otto.

Na Grécia antiga a palavra Eranos trazia o sentido de banquete, onde cada convidado apresentava-se trazendo um “presente intelectual”. Assim este se tornou um espaço para a reunião de cientistas, mitólogos, teólogos e filósofos para trocarem idéias sobre suas áreas.

A renovação cultural segundo Kerényi, vem do encontro e do diálogo entre os representantes das diversas ciências e as disciplinas do espírito.

Jung enfatizou a necessidade de se considerar todos os fatores que influenciam a vida psíquica, seja de ordem biológica, social ou espiritual, pois os acontecimentos não são só perceptíveis na realidade externa e distante, mas presentes no mundo interno de cada um. Desta forma a renovação do espírito coletivo só é alcançada por meio da consciência individual onde a elaboração do processo de individuação acontece em paralelo ao desenvolvimento histórico e cultural.

A psicologia analítica muito contribuiu para a compreensão e reavaliação dos símbolos, entendendo que existe uma conexão entre os mitos antigos e os inúmeros acontecimentos atuais além da percepção do grande anseio do homem de se reconectar com aspectos e valores espirituais negligenciados, numa busca de significado e sentido de vida. Esta contribuição foi imensa, ultrapassando a esfera acadêmica e abrangendo o sofrimento da alma e os mistérios da psique humana. Esta forma de compreensão marca o fim do racionalismo científico do século XIX, reforçando que não há uma verdade absoluta, mesmo nas ciências exatas, e que o olhar do pesquisador com toda sua subjetividade interfere no processo observado.

Jung ressaltava a grande importância da fantasia como manifestação psíquica espontânea não controlada pelo consciente e por isto livre em suas formas de expressão. O contato com esta fantasia permite a re-conexão com uma parte menos valorizada, porém de vital importância.

As manifestações artísticas têm esta capacidade de traduzir em fatos visíveis os movimentos predominantes de uma época, captando com antecedência as futuras mudanças do consciente coletivo e traçando assim a linha de um desenvolvimento futuro.

O artista é o interlocutor neste processo que com sua sensibilidade de captar a necessidade coletiva gera dentro de si a obra que irá nascer para o mundo.

As poderosas forças do inconsciente se manifestam em todas as atividades culturais por meio das quais o homem se expressa.

A teoria junguiana ampliou a visão de muitas áreas e sua influência se faz presente nas atividades culturais, no campo das artes, na teologia e na antropologia. Na física moderna, ressalta as implicações filosóficas e sua importância no estudo de nosso universo interior.

A fecundidade das idéias junguianas, a partir dos conceitos de arquétipo e de inconsciente coletivo, abre novas perspectivas sendo, uma das contribuições mais importantes, o entendimento do inconsciente não mais apenas como depositário de conteúdos reprimidos, mas como matriz criadora autônoma da vida psíquica. Cada uma das ciências relacionadas anteriormente têm seu campo de estudos com lei e características próprias, mas se pode reconhecer nelas a presença de configurações arquetípicas.

No domínio das ciências naturais, o físico Wolfgang Pauli assinalou a necessidade de se levar em conta a área de interrelação entre psique inconsciente e processos biológicos. Ele começou a estudar o papel do simbolismo arquetípico no campo científico, trazendo à luz conceitos importantes de unicidade entre as esferas físicas e psicológicas.

Disse Jung:

“A microfísica pesquisa o lado desconhecido da matéria do mesmo modo que a psicologia profunda investiga o desconhecido da psique. Mais cedo ou mais tarde a física nuclear e a psicologia do inconsciente se aproximarão cada vez mais, pois ambas, independentemente uma da outra e vindo de direções opostas, avançam em território transcendente, uma com o conceito de átomo, outra com o de arquétipo”.

Vai acontecendo uma proximidade entre trabalhos da psicologia analítica e da microfísica, onde os conceitos básicos da física como tempo, espaço, energia, matéria, etc… são originalmente idéias arquetípicas.

A noção de campo de energia pode ser comparada à noção de inconsciente, onde conteúdos psicológicos aparecem ordenados na área psíquica como partículas num campo magnético. Podemos falar assim de uma unidade psicofísica da realidade, o unus mundus, onde matéria e psique são um só.

Um dos princípios mais importantes observados é o de sincronicidade cuja explicação para os fenômenos não é apenas lógica e causal, mas uma conexão acausal, onde acontecimentos significativos vão sendo produzidos numa outra relação entre fatos psíquicos interiores e exteriores.

Assim, Jung introduziu a noção de propósito e significado que vai além das leis deterministas de causa e efeito.Enfim, todas estas idéias podem estar presentes na compreensão de novos fatos em muitos campos das ciências e nos fenômenos da vida cotidiana, trazendo uma visão mais ampla da realidade.

Em seus escritos, Jung abordou a relação da psicologia analítica e a obra de arte, indicando intersecções muito próximas entre a experiência artística e a psicológica.

Para ele, o processo criativo consiste na ativação do arquétipo até a finalização na obra acabada, num diálogo constante entre consciente e inconsciente, onde um jogo de opostos está sempre presente. E o artista, como foi dito anteriormente, é um homem coletivo que exprime a alma inconsciente da humanidade mergulhando profundamente no ato criador. Ele é um instrumento colocado à serviço da criação que precisa se expressar, de uma forma autônoma e independente da intenção do autor.

O artista dá forma e traduz, na linguagem de seu tempo, as imagens primordiais ou arquétipos, tornando acessíveis as fontes profundas da vida.

Este é um dos aspectos mais importantes da obra de arte pois, ao trazer à tona formas de que o coletivo mais necessita, ela vai educando o espírito da época. Assim, podemos compreender a arte como uma produtora de símbolos importantes e transformadores para a alma humana.

Jung demonstrou em sua vida um grande interesse por diversas culturas e pela história da arte, cuja presença se expressa na pluralidade de imagens que povoaram seu imaginário psíquico e que nutriram seu gosto pela diversidade da vida simbólica. Ele privilegiou, em sua vida pessoal e clínica, o contato com diversas formas artísticas, atribuindo às imagens e aos símbolos uma grande importância.

A partir de seus estudos analíticos podemos entender que a arte tem um lugar privilegiado pois ao escolhê-las, observá-las, reproduzí-las ou criá-las, nos recolhemos em nossas profundezas.

Como analistas e terapeutas, além de nos abastecermos com estas imagens, tornamos-nos mais criativos e sensíveis abrindo-nos para nossos pacientes na escuta de seus sonhos e no compartilhar de suas imagens.

Jung nos trouxe a descoberta da espontaneidade criativa da psique inconsciente como produtora de símbolos e por ela se deixou conduzir, permitindo que o inconsciente se expressasse em sua vida e em sua obra, trazendo à sua exposição científica, elementos sentimentais e imaginativos.

Este foi o duplo impacto de Jung em nosso mundo:

a) o efeito de sua personalidade e de sua obra e

b) o confronto com o inconsciente com o qual estava profundamente comprometido.

Bibliografia

Gaillard, C – Le Musée imaginaire de Jung, Paris, Stock, 1998

Jung, C.G. (1976) O C 9/1, O arquétipo e o inconsciente coletivo, Petrópolis,

Vozes, 2011

_____________________ – O homem e seus símbolos, Rio de Janeiro, Nova

Fronteira, 2008

_____________________ – word and image, New Jersey, Princeton/

Bollingen, 1979

*A autora, Denise Diniz Maia, é psicóloga, analista didata do Instituto Junguiano de São Paulo-IJUSP, filiado a Associação Junguiana do Brasil-AJB que é filiada da International Association for Analytycal Psychology-IAAP.

Fonte: http://ijusp.org.br/artigos/perspectivas-psicologicas-de-jung-sobre-as-ciencias-e-a-arte/

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bellydancer-ronnyvardy

Por Felipe Salles Xavier

 

 

 

 

Antes do verbo era o ventre, a força criadora do universo e da vida. O que seriamos sem o ventre se através dele nós ganhamos a vida? Ele é o centro da existência e da criatividade humana por excelência.

 

 

 

Origem

Atualmente acredita-se que a dança foi à primeira forma artística de expressão e simbolização do ser humano, a principio ela possuía a finalidade de imitar os animais, a natureza e os elementos mágicos, ou seja, imitar tudo aquilo que rodeava nossos antepassados, foi ela a primeira maneira concreta de simbolizar com o corpo e também de um compreender e unificar-se ao sagrado, ao mundo e ao fluxo da vida. (SCARDUA, 2007).

 

A dança assume um papel importantíssimo no desenvolvimento humano, serviu para tentar explicar a nossa própria existência, o fato de nossos antepassados dançarem contribuiu em nosso desenvolvimento biológico, corpóreo e psicológico, experimentando sensações, emoções e sentimentos que eram liberados por esse fazer artístico.

 

Por isso a dança é uma ferramenta que nos possibilita uma unificação ao sagrado, já que nas culturas pré-históricas tudo aquilo que nos cercava era tido como sagrado, pois a crença de sermos fruto do mesma mãe, do mesmo útero, era fortemente socializada, essa mãe é chamada de terra, Gaia, a deusa-mãe natureza.

 

A Dança do Ventre

A dança do ventre foi à primeira forma de expressão do feminino, ela surge em várias culturas, há indícios de que possa ter surgido no antigo Egito por volta de 7.000 a.C, onde eram realizadas por sacerdotisas para rituais de fertilidade e adoração, e também existem pesquisadores que acreditam que ela tenha surgido com um povo mais antigo, os sumérios, provenientemente de um ritual sagrado.

 

As atribuições artísticas só foram incorporadas com a invasão dos árabes ao território egípcio, quando os padrões da dança foram miscigenados, adicionando um caráter comemorativo, onde se celebra as formas de vida, a magia, o nascimento.

 

O verdadeiro nome dessa dança é Raks Sharki (dança do oriente), nos Estados Unidos é conhecida como Belly Dance (dança da barriga), e no Brasil é chamada de Dança do Ventre, esta é uma dança produzida por mulheres e para as mulheres, foi desenvolvida num tempo onde as deusas estavam vivas e presentes em forma de mito, num tempo onde a mulher e a serpente eram sagradas. 

 

A Serpente

A serpente é um símbolo mítico ligado ao feminino, à fertilidade, a regeneração e a saúde. Ela também incorpora o ciclo da vida, enquanto Ouroboros, a serpente que morde a própria cauda, representa a evolução própria, a continuidade, a auto-fecundação, a proximidade entre o mundo superior e inferior, e ainda a idéia de eterno retorno. Portanto, a vida.

 

Mitos e Arquétipos

Os mitos são a conscientização de arquétipos do inconsciente coletivo, neles encontramos representações internas, transcendentes e coletivas, que servem para organizar o funcionamento psíquico e o comportamento, de acordo com o psiquiatra suíço Carl Gustav Jung, os mitos ilustram arquétipos, e estes não podem ser descritos, entretanto podem ser “representados”.

 

Segundo James A. Hall, os arquétipos são padrões universais, determinantes inatos da vida mental, é uma parte não individual da psique, e algo coletivo, resumindo, são tendências herdadas no inconsciente coletivo, que faz com que os indivíduos se comportem de forma semelhante aos ancestrais que passaram por situações parecidas.

 

Impressões Psicológicas

A dança do ventre está intimamente ligada ao arquétipo da Grande Deusa-Mãe, que esta relacionado à criação, o nascimento, a fertilidade, aquilo que é puro e sagrado.

 

Em cada ser humano existe, no mais profundo do seu mundo interior, a recordação da Mãe. Mãe como natureza, mãe como mulher que gerou e criou, mãe como símbolo de toda a poderosa força criadora individual e universal. São impressões psicológicas muito antigas, relacionadas com a experiência do nascimento e da morte. A imagem arquetípica de uma formidável energia que pariu tudo o que existe fica latente no plano inconsciente até que se ative pelas experiências da vida, ou seja despertada por meios invocatórios, como na dança ritualística. Qualquer mulher, quando vai ser mãe, sofre certa estimulação inconsciente desse arquétipo. Na pratica, tudo funciona para que ela se adapte da melhor maneira possível à tarefa de parir, usando o acervo humano de incontáveis experiências. O arquétipo da Grande Mãe é uma espécie de banco de dados de incontáveis experiências de concepção, gestação, parto e cuidados maternais registrados no inconsciente. Tudo é parte do amplo conjunto de memórias do processo evolutivo humano.

( PENNA, 1993, p. 87 – 88 )

 

As mulheres que praticam essa dança entram numa espécie de viagem interior, onde ganham contato com vários símbolos, emoções e sensações ainda não experimentadas, surgem assim às imagens arquetípicas. Na dança do ventre alguns desses arquétipos são:  o Materno, a Odalisca, a Prostituta Sagrada e Afrodite, esses dois últimos estão associados à sensualidade, aos desejos e ao prazer.

 

O Materno

O arquétipo Materno surge de diversas formas, mas sempre de uma simbologia própria, para diversos psicólogos junguianos, o arquétipo da Grande Deusa-Mãe é o próprio arquétipo Materno. A imagem da Grande Deusa-Mãe surge através da história das religiões, e se estende em várias imagens arquetípicas. Nos olhares da psicologia nos relacionamos com o arquétipo Materno através da própria mãe e a avo, da madrasta e a sogra, e outras mulheres com as quais nos sentimos bem, também com a igreja, a universidade, a cidade, a floresta, a lua, útero e outros. São todos esses e muito mais os símbolos que tratam deste arquétipo. Algumas das características que esses arquétipos trazem são: a bondade, o feminino, a sabedoria, a espiritualidade, o cuidado, o instinto, a fertilidade, o oculto, o obscuro, o renascimento, o sedutor, o venenoso, o pavor e o mortal.

 

A Odalisca

A Odalisca é uma dançarina que se utiliza dos homens para satisfazer sua sexualidade, ela traz a sensualidade como forma de vida. É uma mulher comum que serve sexualmente no harém do rei, uma de suas técnicas de sedução é a dança do ventre. Esse arquétipo fala da relação com o próprio desejo, as mulheres em contato com ele vivem a idéia de serem vistas como deusas da beleza, da sensualidade e do prazer, o que é uma condição psicológica existencial, aonde vêm o sexo como uma forma de domínio pelo prazer, isso é uma necessidade de acabar com a própria impotência, inferioridade que tem inconscientemente.

 

A Prostituta Sagrada

A Prostituta Sagrada é uma mulher humana que encarna as diversas deusas do amor, paixão e da fertilidade, algumas dessas são: Inana (Sumária), Istar (Babilônia), Isis e Bastet (Egito), Astarte (Fenícia), Afrodite (Grécia) e Vênus (Roma).  Ela representa a sexualidade de forma divina, é a sexualidade feminina sendo reverenciada, são responsáveis pela felicidade sexual e pelo desejo. Através dessa imagem a mulher se encontra com o próprio corpo, usando ele como arma sedutora para conseguir o que quer dos homens. Ao rejeitá-la pode-se trazer insatisfação na vida, e ao ser possuída por ela, a mulher pode achar que a única coisa que tem a oferecer é o próprio corpo.

 

Afrodite

A deusa Afrodite na mitologia é filha apenas do pai. Seu nascimento se da quando Zeus, corta os testículos de Cronos e seu esperma acaba caindo nas águas. Dessa união nasce Afrodite, a filha do masculino e da emoção. A deusa não conhece o feminino, logo, acha que sua beleza é tudo que tem a oferecer, esse arquétipo trás as informações do “falso” feminino, entretanto, não vivenciá-la traz conseqüências amargas, como a falta de auto-estima, auto-conhecimento, falta de sexualidade e beleza corporal. 

 

 

As mulheres tomam contato com essas informações do inconsciente através de visões e sonhos que aparecem depois de algum tempo do trabalho corporal que é feito, o ideal é que as praticantes dessa arte busquem uma psicoterapia junguiana para trabalharem os símbolos e entrarem em contato com o seu verdadeiro eu.

 

O Corpo

Outro fator importante na dança do ventre é o trabalho bioenergético que se realizam, os movimentos trabalham os músculos superficiais e profundos, soltando-os dos ossos, deslizado e realinhando toda a musculatura, vértebras e a própria postura, isso faz com que haja uma mudança em todos os estados afetivos e psicológicos, dessa forma acaba fazendo com que as couraças se dissolvam, liberando as emoções que no decorrer de nossas vidas ficam presas ao corpo.

 

Boyesen ( 1988 ) diz que as couraças são tensões que são geradas ao longo da vida, servem para proteger o indivíduo de experiências dolorosas e ameaçadoras.

 

Para os psicoterapeutas corporais, o corpo conta a história de vida de cada indivíduo, e o trabalho corporal é necessário para que ocorra a liberação de emoções “engarrafadas” no corpo e para um melhor fluxo de energia orgônica, o que nos proporciona uma melhor qualidade de vida.

 

Segundo Wilhelm Reich, médico e psicanalista o Orgone é uma energia universal, sem massa e nem inércia, que esta em tudo o que é vivo, e ele pode ser acumulado no corpo através da respiração profunda. 

 

Na dança do ventre é fundamental o trabalho com muitos músculos e com respiração profunda, o que é base no trabalho corporal, os seus movimentos atuam diretamente nos desbloqueios das couraças e no acumulo de orgone.

 

Nessa abordagem levamos em conta que o corpo é um local privilegiado da subjetividade de cada um, e deve ser respeitado como tal.

 

A dança do ventre religa as suas praticantes ao feminino, ao sentimental, ao puro, ao sagrado, ao prazer, ao corpo e aos arquétipos, nos remetendo a tudo aquilo que é essencial a vida e que a sociedade atual não tem tempo para desfrutar, ou seja, ela possibilita uma (re)construção sobre um ser humano primordial.

 

Nessa jornada do auto-conhecimento entramos num processo de auto-cura onde há aumento da auto-estima, sensualidade, sexualidade, do gosto pela vida e melhor fluxo de nossas próprias idéias, afetos e emoções.

 

Então com olhares de duas abordagens psicológicas distintas, podemos ver que trabalham excelentemente bem juntas, um trabalho corporal e analítico, nos faz entrar em contato com a nossa verdade, com nossos símbolos, com o sagrado e com um corpo-Eu, é a aproximação perfeita de corpo, mente e alma. 

 

 

Baseado em Lucy Penna (Dance e Recrie o Mundo: A força criativa do ventre)

e Angelita Scárdua  (A Dança e a (re)Criação do Universo Pela Metáfora Espacial)

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