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Posts Tagged ‘Integração Corporal’

PASSIONATE FLAMENCO

Imagem:  Passionate Flamenco

Por: Vera Cristina Marcellino*

ISSN 1516-0793

Pouco vivenciamos nossos corpos em movimento de uma forma consciente sobre os significados que cada gesto cotidiano pode carregar. Em linguagem psicanalítica diríamos um movimento carregado de valor, de sentido, algo que vem cheio de afetividade, que nos liga a um estado  mais profundo que a consciência cotidiana poderia observar. A surpresa é que o corpo, mesmo  em estado cotidiano não deixa nunca de estar carregado de sentido.

O movimento é a expressão particular de cada pessoa, revelando involuntariamente, suas mais íntimas características psíquicas.

Ele traz consigo, invariavelmente, aspectos conscientes e inconscientes, culturais, sociais, afetivos, simbólicos e assimila informações. O corpo, ao contrário do clichê, nome de livro, não só fala. O corpo também tem memória, escuta e elabora, pensa, simboliza, identifica sentidos, aquilo que de alguma forma tem valor para o indivíduo.

Considerando a experiência sensível do movimento uma oportunidade para a elaboração interna e dessa elaboração desenvolver o conhecimento das próprias habilidades, de seu repertório expressivo e, simultaneamente, integrar processos psíquicos ainda não conscientes, poderemos destacar que o corpo compreende à sua maneira como integrar e expressar esses processos. Ele tem uma linguagem própria que foge de códigos pré-estabelecidos ou racionais.

É raro encontrar uma abordagem terapêutica que integre os aspectos simbólicos que o corpo vivencia aos aspectos expressivos e integrativos desses símbolos através do movimento corporal.

Há técnicas terapêuticas que utilizam o corpo como recurso para psicoterapia; há terapias corporais, mas ainda é muito escasso no Brasil um trabalho que atinja simultaneamente essa unidade psicofísica através de processos artísticos, mais apropriadamente, processos da dança, ou do movimento expressivo, que no contexto da psicologia de Carl Gustav Jung poderemos chamar de Terapias Expressivas.

O princípio essencial da dança como técnica expressiva é a autonomia do indivíduo em investigar-se em movimento de tal forma que identifique a si mesmo, ou seja: descubra seu corpo e seus aspectos sensíveis e simbólicos.

No desenvolvimento desse trabalho identificamos que, articular o corpo, às emoções, às imagens simbólicas, ao mesmo tempo em que o movimento é buscado em sua forma mais crua, ele, o corpo, transborda elementos que se alimentam mutuamente: significados se desdobram em movimentos, movimentos resgatam significados.

Para Jung o processo criativo consiste (até onde nos é dado segui-lo) numa ativação mais profunda do inconsciente e numa elaboração e formalização na obra acabada. À camada mais profunda do inconsciente, nesse contexto, C. G. Jung refere-se aos árquétipos, marcas do inconsciente coletivo partilhadas pela humanidade e que resgata no indivíduo um senso de unidade, de ter um lugar no mundo. É paradoxal, mas emocionante. Para ele, a arte seria então, uma forma de tornar mais acessível e consciente esse processo de percepção de elementos não facilmente verbalizáveis e não cognitivos; forma de conhecimento mais complexo e total por ser vivencial.

Os conteúdos simbólicos podem, pela vivência poética da dança, ser requisitados para um diálogo sincero de aproximação, de acolhimento e de transformação. O resultado é: equilíbrio emocional, equilíbrio corporal.

Podemos identificar semelhanças entre os processos criativos e sensíveis e o conceito de processo de individuação que C. G. Jung propõe ao longo de sua obra. Uma vivência sensível permite acessar um universo mítico e arcaico no movimento que torna-se expressivo e integrativo em si mesmo. Dá sentido e integra no indivíduo aqueles aspectos sombrios escondidos às sete chaves, mas que, por ser vivencial, só a pessoa em processo descobre, não é necessário verbalizar, aqui, na maioria das vezes, as palavras são dispensáveis, mas a escuta faz parte do ambiente acolhedor que pretendemos oferecer. Ainda segundo Jung, nossa meta como seres humanos é a Individuação, um processo natural de amadurecimento.  É o caminho da plenitude, do encontro do Si-mesmo ou Self. Quando Jung fala de individuação, refere-se ao caminho que é orientado pelos símbolos arquetípicos (incluindo imagens mitológicas) que emergem espontaneamente, de acordo com a natureza do indivíduo.

Todos nós temos nossas identificações simbólicas com algum aspecto comum à humanidade, esses momentos de identificação não são mensuráveis. A arte possibilita esses momentos de encontro.

Ainda rara como terapia no Brasil, a dança está apresentando resultados surpreendentes na área de saúde mental, sua expansão está tardia, já que desde os primórdios da humanidade é através do movimento (corpo expressivo) que o ser humano percebe, identifica, explora e relaciona-se com o mundo, com o cosmos, com o outro e consigo mesmo.

*Vera Cristina Marcellino, Mestre em Artes pela Unicamp, Bacharel e Licenciada em Dança pela Unicamp. Facilitadora de recursos expressivos em arte-terapia (dança. Aborda e pesquisa a articulação e diálogo entre performance-art,  somma psíquico e psicologia analítica.

 LINK: www.symbolon.com.br/artigos/A_danca_e_a_psicologia_junguiana.doc

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 Por Rosa Farah

 8. Comentando um sonho de criança Jung menciona outras relações entre símbolos presentes no conteúdo onírico e estruturas orgânicas da sonhadora. Os conteúdos envolvidos são: a) uma roda de fogo despencando morro abaixo ameaçando queimar a sonhadora; b) uma barata picando a sonhadora.

 

“A barata segundo penso, relaciona-se ao sistema simpático. Daí ser possível calcular que haja certos processos psicológicos estranhos desenrolando-se na criança, que afetam esse sistema, o que poderá provocar-lhe alguma desordem abdominal ou intestinal. A afirmação mais cautelosa que nos podemos permitir é a de que pode ter havido um certo acúmulo de energia no sistema simpático, causando ligeiros distúrbios. O que também é expresso pela simbologia da roda de fogo, que em seu sonho parece surgir como um símbolo solar, correspondendo o fogo, na filosofia tântrica, ao chamado manipura chacra, que se localiza no abdômen. Nos sintomas prodrômicos da epilepsia, às vezes encontramos a idéia de uma roda que gira no interior da pessoa. Isto também expressa uma manifestação duma natureza simpática. A imagem da roda que gira lembra a crucifixão de Ixion. O sonho da garotinha é um sonho arquetípico, um desses estranhos sonhos que as crianças costumam ter.” # 203

 

9. Ao falar sobre o caráter emocional da transferência:

(…)”As emoções não são manejáveis como as idéias ou os pensamentos, pois são idênticas a certas condições físicas, sendo, portanto, profundamente enraizadas na matéria pesada do corpo.(…)” # 317

 

10. Ao falar sobre o caráter contagioso das emoções:

“A projeção de conteúdos emocionais sempre tem uma influência particular. As emoções são contagiosas, estando profundamente enraizadas no sistema simpático, que tem o mesmo sentido que a palavra ‘sympathicus’.(…)” # 318

 

11. Mais adiante, ainda tratando do tema transferência, Jung comenta as somatizações possíveis de acometer os terapeutas, causadas pela infeção psíquica decorrente das contínuas projeções a que estão expostos durante seu trabalho:

 

“São espinhos do ofício do terapeuta tornar-se psiquicamente infectado e envenenado pelas projeções às quais se expõe. Tem de estar continuamente em guarda contra a auto-estima excessiva. Mas o veneno não afeta apenas a sua psique. Pode ser que perturbe finalmente o seu sistema simpático.

 

Tenho observado um número extraordinário de doenças físicas entre os psicoterapeutas; doenças que não se ajustam à sintomatologia médica conhecida, e que eu atribuo à contínua onda de projeções da qual o analista não discrimina a sua própria psicologia. A condição emocional particular do paciente exerce um efeito contagioso. Pode-se dizer que ela provoca as mesmas vibrações no sistema nervoso do paciente e, conseqüentemente, como os alienistas, os psicoterapeutas também são passíveis de tornarem-se um pouco esquisitos. Não deve-mos nunca esquecer esse fato, pois liga-se profundamente com o problema da transferência.” # 356

 

12. Comentando a eclosão do nazismo na Alemanha – como resultante da ativação de conteúdos arquetípicos -, Jung enfatiza a possibilidade de atuação das forças do inconsciente sobre as estruturas orgânicas. Mais uma vez, devemos ressaltar a recomendação da leitura integral do texto original para a real compreensão das idéias do autor. Vale lembrar a época destas conferências: entre as duas guerras mundiais (1935).

 

(…) “Eu já pressentira esse fato em 1918, quando disse que a ‘besta loura está se mexendo em seu sono’ e alguma coisa vai acontecer na Alemanha(18).

Naquela época, nenhum psicólogo entendeu o que eu queria dizer, pois não entendiam que nossa Psicologia individual não passa de uma pele bem fina, uma pequena onda sobre um oceano de Psicologia coletiva. O fator poderoso, aquele que muda a vida por completo, que muda a superfície do mundo conhecido, que faz a História, é a Psicologia coletiva que se move de acordo com leis totalmente diferentes daquelas que regem nossa consciência. # 371(…)

 

(…) “Não se pode resistir a tal poder. Os acontecimentos escapam a todas as medidas e fogem à capacidade de raciocinar. O cérebro acaba não valendo nada e o sistema simpático é tomado. Ê uma força que simplesmente fascina as pessoas de dentro para fora, é o inconsciente coletivo que está sendo ativado, um arquétipo comum a todos os que vêm à vida. # 372(…)

 

b A platéia apreende, a partir de novos comentários acrescidos sobre a questão anterior, a posição de Jung sobre a neurose enquanto tentativa de autocura e solicita sua confirmação de tal entendimento. Em resposta a essa solicitação, Jung apresenta sua percepção dos aspectos positivos das patologias às doenças físicas:

 

“Participante: Posso dizer então que a irrupção de uma doença neurótica, do ponto de vista do desenvolvimento humano, é um fator favorável?

 

Jung: É isso mesmo, e fico contente que esse ponto tenha sido levantado. Meu ponto de vista é realmente este. Não sou totalmente pessimista em relação a uma neurose. Em muitos casos deveríamos dizer: ‘Graças a Deus ele decidiu ficar neurótico’. Essa é uma tentativa de autocura, bem como qualquer doença física também o é. Não se pode mais entender a doença como um <ens per se>, como uma coisa desenraizada, como há algum tempo se julgava que fosse. A Medicina moderna, a clínica, por exemplo, concebe a doença como um sistema composto de fatores prejudiciais e de elementos que levam à cura. O mesmo se dá com a neurose, que é uma tentativa do sistema psíquico auto-regulador de restaurar o equilíbrio, que em nada difere da função dos sonhos, sendo apenas mais drástica e pressionadora.” # 388 e 389

 

 

Comentário final:

Apresentamos neste artigo apenas uma pequena seleção ilustrativa dos dados coletados em nossa pesquisa. O levantamento feito ao longo de todo o livro permitiu-nos, inicialmente, a constatação de alguns aspectos quantitativos interessantes, não tanto pelos números em si mesmos, mas pelo que podem nos mostrar a respeito da relação estabelecida entre Jung e sua platéia.

Essa mesma releitura implicou ainda numa espécie de imersão nas entrelinhas das cinco conferências. E durante esse mergulho na atmosfera provavelmente dominante durante a apresentação e discussão das idéias de Jung, nossa atenção se voltou para algumas observações e impressões a serem comentadas a seguir. Do ponto de vista mais objetivo, temos já um aspecto quantitativo a destacar. Realizando uma rápida contagem, dispomos dos seguintes números: De um total de 415 parágrafos, constituintes das cinco conferências relatadas, nosso levantamento aponta uma soma de 97 parágrafos selecionados por conterem algum tipo de menção ao corpo e/ou suas estruturas componentes (dos quais apenas 13 foram reproduzidos aqui(19)). Esses números já nos dizem alguma coisa, especialmente se tivermos em conta o fato de essa não ser, a princípio, uma obra sobre a questão do corpo na Psicologia!

 

Mas, se formos um pouco além e observarmos a distribuição dos parágrafos selecionados ao longo das cinco conferências, um dado a mais chamará nossa atenção. Esses 97 parágrafos estão distribuídos da seguinte maneira:

 

* “Primeira conferência”: 13 parágrafos;

 * “Segunda conferência”: 25 parágrafos;

 

* “Terceira conferência”: 28 parágrafos;

 

* “Quarta conferência”: 11 parágrafos;

 

* “Quinta conferência”: 20 parágrafos.

 

Percebemos, então, o fato de a freqüência no uso de algum tipo de menção ao dado corporal ter aumentado, progressivamente, desde a primeira até a terceira noite. Em seguida caiu, durante a quarta conferência, para voltar a aumentar numericamente na última apresentação. Esses números não parecem apenas casuais. Acompanhando a apresentação das idéias de Jung, o leitor atento certamente poderá perceber os movimentos – tanto do próprio Jung quanto por parte da platéia – frente às colocações mais diretamente relacionadas ao tema dos paralelos psicofísicos, tornando bastante significativa a distribuição dos números acima apontada.

 

Durante as duas primeiras conferências, Jung introduz de maneira fluente, tranqüila, quase casual, sua visão integradora de tais processos. Expressa-se de forma bastante direta e enfática, ao estabelecer as primeiras correlações psicofísicas, sem com isso parecer ter intenção de explicar tais paralelismos. Esta “tonalidade” de suas falas podem ser observadas, por exemplo, nos momentos em que aborda: a origem da consciência (#14); o ego (#18), ou ainda quando diferencia afeto e sentimento (# 48).

 

Ao final da primeira conferência, um dos presentes coloca uma pergunta mais direta a respeito – # 68. A questão, no entanto, é formulada em termos do dualismo causa-efeito: os afetos seriam causados por condições fisiológicas ou o processo se daria de modo inverso?

 

Em resposta, Jung expõe com bastante clareza a posição por ele adotada: ressalta a complexidade do problema, bem como os aspectos filosóficos envolvidos. Mais uma vez ressalta ainda, enfatizando seu procedimento, a importância da observação empírica dos fatos. E, nessa medida, apresenta a constatação a respeito da simultaneidade dos eventos psicofísicos. Sublinhando não pretender esgotar sua explicação, propõe o princípio da sincronicidade como um recurso para ampliar parcial e temporariamente a compreensão a respeito. Percebe-se já nesse momento que, embora Jung coloque sua posição de forma clara e aberta a futuras ampliações, não se dispõe a entrar em discussões meramente teóricas a respeito da questão, como lhe foi proposto por alguns dos ouvintes. Mas a platéia não parece dar-se por satisfeita com sua resposta (ou seria com sua não adesão à polêmica?) ao tema. Vejamos como evolui esse ponto do diálogo entre Jung e os presentes às conferências.

 

Ao final da terceira exposição e de forma quase provocativa (# 135 a 137), mais uma vez alguém retoma a mesma questão. Jung de início responde atenciosamente ao participante proponente da questão (# 136). Diante, porém, de nova insistência da platéia, Jung inclui, numa consideração amplificadora, uma observação ao estilo dos sábios orientais frente a discípulos mais jovens e imaturos: intercala um sutil, mas certeiro, “puxão de orelhas”, ao explicar a condição necessária para o fornecimento da resposta solicitada.

 

“Eu deveria dar-lhes um curso de aproximadamente quatro semestres sobre simbologia para que os senhores conseguissem seguir o que eu digo.” #138

 

Poderíamos presumir essa observação de Jung como encerramento da questão. Essa impressão poderia até ser reforçada pelo fato de, na noite seguinte, Jung reduzir suas menções ao tema causador de tanta inquietação. Porém não foi isso o que ocorreu, visto ao final da quarta exposição, mais uma insistência no mesmo ponto ser apresentada por um dos participantes (# 299 a 302).

 

Dessa vez, porém, a resposta de Jung é menos paciente: mostra-se realmente decidido a considerar definida a questão. Entenda-se bem: encerrada apenas enquanto discussão, pois, ao longo da próxima conferência, Jung volta a estabelecer novos paralelos entre os processos psicofísicos, tal como fizera nas apresentações das três primeiras noites.

 

Outro aspecto a ser destacado é a própria maneira com que tais correlações são expressas pelo autor: fica muito claro o fato de, ao traçar esses paralelos, Jung não expressar-se de forma a estabelecer relações causais entre os eventos psicofísicos. Em lugar disto, menciona-os como simultâneos, ou, melhor dizendo, sincrônicos. Descreve os processos globais tal como os observa, de acordo com sua perspectiva integradora, em lugar de estabelecer dicotomias analíticas. Agindo assim, sua forma de expressão antecipa, em sentido mais prático do que teórico, proposições só agora presentes no âmbito da Psicologia acadêmica. Essas considerações começam a explicitar o emergir coletivo de um certo enfoque da consciência, tido como novo para nossos padrões ocidentais.

 

Ainda de acordo com o pensamento junguiano expresso na atualidade, o movimento acima apontado corresponde a um passo importante e previsível do processo de desenvolvimento da consciência em termos coletivos. Embora fundamental para a compreensão de algumas das proposições de Jung, a exploração deste tema, por sua amplitude, escapa ao alcance dos limites desse nosso trabalho.

 

Remetemos, então, o leitor interessado a autores como Neumann(20) e Whitmont(21), entre outros(22), que ocupam-se amplamente dessa questão: o emergir ou, melhor dizendo, o ressurgir da consciência matriarcal. A título apenas de ilustração, faremos uma breve citação de Whitmont a respeito.

“O caráter divisível e, posteriormente analítico da consciência patriarcal é de natureza masculina. Essa maneira particular de experimentar os acontecimentos é, evidentemente, apenas uma entre outras.

 

Não é uma qualidade necessária ou intrínseca à consciência enquanto tal. Acostumados que estamos ao funcionamento patriarcal, ela acabou nos parecendo a única alternativa possível. No entanto, uma consciência de natureza mais Yin, que está começando a fazer-se presente na atualidade, não funciona por meio de separações e divisões, mas através da percepção intuitiva de processos inteiros e de padrões inclusivos.” (23)

Levando em conta os pontos acima levantados, parece-nos, efetivamente, ter Jung razões de sobra para não se mostrar interessado em “discutir” a questão do paralelismo psicofísico, tão insistentemente incitada durante a realização das Conferências de Tavistock. Não, ao menos, nos termos da discussão proposta por aquela platéia. Nem poderia ser de outra forma, visto sua apreensão desses processos estar, já então, alguns passos além de sua época. Nesse aspecto, como aliás em muitos outros, Jung, em seu tempo, já estava caminhando em direções somente agora apontadas por investigadores tidos, na atualidade, como portadores de proposições inovadoras.

 

Por outro lado, registros datados da mesma época das conferências de Tavistock nos apresentam colocações bastante explícitas, feitas por Jung no âmbito de círculos mais restritos, onde podemos encontrar interessantes exemplos do ponto de vista amplificado com que verdadeiramente buscava compreender tais processos.. A título de ilustração apresentaremos a seguir alguns pequenos trechos de comentários feitos por ele durante os “Seminários sobre Assim falou Zarathustra” a respeito da alternância do predomínio “carne/espírito” ao longo da evolução ocidental.

 

“A Filosofia e a Religião são como a Psicologia quanto ao fato de que não se pode nunca colocar um princípio definitivo: é impossível, pois algo que é verdade para um estágio de desenvolvimento é bastante inadequado para outro. Então é sempre uma questão de desenvolvimento, de tempo; a melhor verdade para certo estágio é talvez veneno para outro.” (…)

 

“O espírito pode ser qualquer coisa, mas somente a terra pode ser algo definido. Então manter-se fiel à terra significa manter-se em relacionamento consciente com o corpo. Não fujamos e nãos nos tornemos inconscientes dos fatos corporais, pois eles nos mantém na vida real e ajudam-nos a não perder nosso caminho no mundo das meras possibilidades, onde estamos simplesmente de olhos vendados.”

“Mas é perfeitamente lógico que depois de uma época que esgotou a importância do espírito, a carne deva ter sua vingança e conquistar o espírito talvez mesmo sobrepujá-lo por algum tempo. É claro que expressemos essas coisas usando os termos espírito e matéria, sem saber exatamente o que designamos através dessas palavras.

 

Na filosofia clássica chinesa usar-se-iam os termos Yang e Yin, e dir-se-ia que está de acordo com as regras do céu que eles invertam suas posições. Yang devora o Yin, e do Yang o Yin renasce; ele emerge de novo, e então o Yin envolve o Yang, e assim por diante. Este é o curso da natureza. Os chineses não ficam tão aborrecidos, porque eles tem observado este processo natural por muito mais tempo. Mas a nossa história não é velha o suficiente, então ficamos atônitos ao observar que o espírito devora a matéria, e então a matéria devora o espírito. É exatamente o mesmo processo. Nós fomos ensinados que Deus enviou seu filho para sobrepor o espírito à carne como um evento único na história; e agora nós aprendemos a verdade reversa, que a carne devora o espírito. E nós ainda não conseguimos acreditar nisso, embora tenha se tornado ainda mais óbvio do que quando apareceu pela primeira vez, no tempo da Reforma.”(24)

 

A pequena pesquisa apresentada neste capítulo nem de longe pretende esgotar o tema levantado, ou seja, o tratamento dado à questão do corpo em Jung. Ao contrário, o leitor atento poderá ampliar fartamente essa observação, ao percorrer sua vasta obra.

 

Nossa intenção aqui foi demonstrar de maneira breve, porém fundamentada, as formas mais ou menos sutis com que colocava sua posição essencial a respeito dessa questão. Já ao final da vida, Jung podia se permitir ser mais explícito ao colocar suas posições sobre essa questão, como exemplifica esse pequeno trecho de entrevista concedida por ele a G. Duplain em 1959. A temática geral dessa entrevista era as mudanças e adaptações necessárias para a Humanidade na entrada do terceiro milênio. Em dado momento, Duplain pergunta à Jung:

 “Duplain – Mas que recomendações pode fazer para a passagem que está prestes a ocorrer e cujas dificuldades o senhor teme?

 

“Jung: Um espírito de maior abertura em relação ao inconsciente, uma atenção maior aos sonhos, um sentido mais agudo da totalidade do físico e do psíquico, de sua indissolubilidade; um gosto mais ativo pelo autoconhecimento. Uma higiene mental melhor estabelecida, se quisermos ver as coisas por esse prisma.” (25)

O pensamento junguiano plantou sementes férteis, e muitas já começaram a germinar, há algum tempo, na direção apontada acima. Ao longo deste nosso relato foram mencionados vários autores cujas pensamento mostra o florescimento de idéias concordantes com a recomendação presente na última citação de Jung.

 

Recentemente têm surgido publicações ilustrativas do movimento já muito ativo no sentido da solidificação dessa visão integradora frente à estrutura psicofísica. Um desses trabalhos soaria talvez como uma heresia aos ouvidos acadêmicos, caso tivesse surgido alguns anos antes. Trata-se da recente publicação, em português, do livro de J. P. Conger “Jung e Reich – O Corpo como Sombra”(26). Mais do que o próprio conteúdo dessa obra, destacamos aqui o aspecto no mínimo inusitado do paralelo estabelecido pelo autor já em sua apresentação. Soa-nos como se o espírito de nosso tempo já reclamasse com veemência aquela disposição antecipada por Jung: a reabilitação do corpo do exílio a que foi lançado em nossa civilização ao longo dos últimos séculos.

 

Ou ainda, dizendo de outro modo, a necessidade da reconciliação do ser humano com a (sua) própria natureza, como condição essencial para atingir a transcendência.

 

Porém, mesmo estando ainda o homem tão longe de elucidar os mistérios da união de seu ser terreno com sua alma, alguns pensadores, seguindo a trilha deixada por Jung, nos ajudam a refletir com maior inteireza sobre essa questão. É o caso de Kreinheder, ao dizer, citando Plotino: “na doença, o corpo perde contato com a alma, e não se parece com ela.”(27)

 

 

 

Notas e referências bibliográficas:

(1) Este artigo contem a síntese do material apresentado pela autora no capítulo homônimo do livro “Integração Psicofísica – O Trabalho Corporal e a Psicologia de C.G. Jung”, (Ed. Robe/C.I. – São Paulo, 1995). Este capítulo, por sua vez, foi elaborado com base no trabalho apresentado sob o mesmo título no “Encontro do Sedes” realizado em 1991.
(2) Mais elementos sobre estes aspectos históricos são apresentados no capítulo 1 do mesmo livro citado no item anterior.
(3) McNeely, D. A., Tocar, Terapia do Corpo e Psicologia Profunda. Ed. Cultrix, 1a. edição, São Paulo, 1987.
(4) Definição do termo “somatoterapia”, segundo a autora: “Uso o termo somatoterapia para expressar um processo que ocorre entre o indivíduo e o terapeuta que emprega o movimento e centros físicos para alcançar seu objetivo mútuo: a descoberta dos aspectos da psique antes desconhecidos. O terapeuta usa o centro físico além da atenção tradicional aos processos psíquicos, a fim de incrementar o diálogo entre o consciente e o inconsciente.” Ib, pág. 17.
(5) Ib., pág. 36.
(6) Ib., pág. 37.
(7) Jung, C. G., A Prática da Psicoterapia, Ed. Vozes, 2a. Edição, Petrópolis, 1985, pág. 84, parágrafo 198.
(8) Jung, C. G., Fundamentos de Psicologia Analítica, Ed. Vozes, 5a. Edição, Petrópolis, 1989, perguntas e respostas relatadas ao final da primeira e segunda conferências, conforme será destacado na seqüência deste capítulo.
(9) Jung, C. G., Memórias, Sonhos, Reflexões, compilação e prefácio de Aniela Jaffé, Ed. Nova Fronteira, 4a. Edição, Rio de Janeiro, 1981, pág. 100.
(10) Jung, C. G., op. cit. em 8, pág. 84, parágrafo 194.
(11) A partir desse ponto, em nome da praticidade, a indicação das localizações referentes ao relato das conferências será inserida no próprio texto. O sinal “#” indicará o número do parágrafo de “Fundamentos de Psicologia Analítica” transcrito.
(12) A origem embrionária comum (ectodérmica) da pele e do sistema nervoso central é comentada por vários autores, conforme foi relatado no capítulo 9 – “A Calatonia” – do livro citado na referência 1.
(13) Recentemente observamos o surgimento de novas áreas de pesquisa científica, peculiarmente constituídas pela integração de disciplinas até então tidas como campos independentes e específicos de investigação. Um exemplo é a Psiconeuroimunologia, um novo campo – os primeiros trabalhos datam do início da década de 80 – em que já se investiga, a nível laboratorial, aspectos bastante acurados das correlações psicofísicas. Nos Estados Unidos o Institute of Noetic Sciences (2658, Bridgeway, Sausalito, California 94965) publica o boletim Investigations com informações a respeito do andamento de tais pesquisas.
(14) Ver nota no 16, no texto original, à pág. 22.
(15) Na seqüência do texto original Jung relata um exemplo e ilustra o que acaba de citar.
(16) Ver nota no 19, no texto original, pág. 29.
(17) Ver nota no 20, no texto original, pág. 30.
(18) Ver nota no 74, no texto original, pág. 151.
(19) No capítulo homônimo deste artigo, componente do livro citado na nota de número 1, é apresentada a reprodução integral dos 97 parágrafos selecionados em nossa pesquisa.
(20) Neumann, E., História da Origem da Consciência, Ed. Cultrix, 1a. Edição, São Paulo, 1990.
(21) Whitmont, E. C., Retorno da Deusa, Summus Editorial, 1a. Edição, São Paulo, 1991.
(22) Essa questão, relativa ao ressurgimento da consciência matriarcal, e suas implicações em diferentes níveis dos processos coletivos, vem recebendo nos últimos tempos a atenção de autores junguianos. Não apenas a importância da consideração do corpo para a mais completa compreensão dos dinamismos psíquicos, mas toda uma nova postura diante de questões básicas humanas decorre desta perspectiva. Uma mostra dessa bibliografia pode ser encontrada, por exemplo, nas matérias publicadas na revista da Sociedade Brasileira de Psicologia Analítica: Junguiana. Ou, ainda, em publicações mais recentes da área, onde toda uma ênfase sobre as questões relativas ao tema pode ser constatada.
(23) Ob. cit. no item 21, pág. 78.
(24) Jung, C.G., Seminário sobre: Assim falou Zarathustra, Clube Psicológico de Zurique, 1934/1939, tradução do prof. Pethö Sándor para estudos em grupo, págs. 51 e 52.
(25) Em McGuire, W., e R. F. C. Hull, C.G. Jung: Entrevistas e Encontros; Ed. Cultrix, São Paulo, 1982 cap.: “Nas fronteiras do conhecimento”, pág. 364.
(26) Conger, J. P., Jung e Reich – O Corpo como Sombra, Ed. Summus, 1a. Edição, São Paulo, 1993. A edição original inglesa data de 1988.
(27) Kreinheder, A., Conversando com a Doença – Um diálogo de Corpo e Alma, Summus Editorial, 1a. Edição, São Paulo, 1993, pág. 32.

 

Rosa Maria Farah é Psicóloga (CRP 06/1315) e Professora da Faculdade de Psicologia da PUC-SP, onde Coordena o Núcleo: “Integração Psicofísica”. Contatos com a autora: rfarah@uol.com.br

 

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ontspanningsmassage2001

Por Rosa Maria Farah

 

Observação: Este texto foi originalmente elaborado com o objetivo de apresentar aos nossos alunos uma visão sintética sobre a Calatonia e o trabalho desenvolvido por Pethö Sándor, criador desse método de trabalho psicoterapeutico.

Tento encontrar um bom modo de contar ao leitor, um pouco sobre esta forma de trabalho em psicoterapia. Se possível um modo claro e simples, como aquele utilizado por seu autor – Prof. Pethö Sándor – quando falava a respeito de seu método. Penso que uma boa maneira de iniciar nossa conversa possa ser através de um breve histórico sobre sua origem.

O Dr. Sándor era um médico – nascido na Hungria – que na época da segunda grande guerra mundial trabalhava no atendimento de feridos e refugiados em deslocamento pela Europa. Naquele período, dadas as precárias condições geradas pela guerra, com freqüência via-se diante de situações onde os recursos médicos, além de precários, eram de pouca ajuda no atendimento de seus pacientes. Embora sua especialidade fosse a Ginecologia/Obstetrícia, foi designado para o cuidado de pessoas portadoras dos mais variados traumatismos, conforme ele mesmo relatou, ao falar sobre o surgimento de seu método:

“Idealizou-se este método durante a segunda guerra mundial, com base nas observações feitas em casos de readaptação de feridos e congelados, no período posterior à grande retirada da Rússia. Num hospital da Cruz Vermelha foram atendidas as mais diferentes queixas na fase pós operatória, desde membros fantasma e abalamento nervoso, até depressões e reações compulsivas”. (1)

Era praticamente impossível, frente à estas pessoas, estabelecer um limite entre o traumatismo físico e o sofrimento psicológico que os atingia. Mas Sándor já estava atento às estreitas relações existentes entre nossos processos corporais e nosso funcionamento psicoemocional. Foi portanto nestas condições algo dramáticas de trabalho, que ele tentou utilizar, sem sucesso, os ‘métodos de relaxamento’ usuais na época, como por exemplo o método de Shultz. Porém, a gravidade das condições destes pacientes não lhes permitiam a concentração e a colaboração necessárias para a aplicação deste método. Foi quando Sándor observou o seguinte:

“Percebeu-se então, que além da medicação costumeira e dos cuidados de rotina, o contato bipessoal, juntamente com a manipulação suave nas extremidades e na nuca, com certas modificações leves quanto à posição das partes manipuladas, produzia descontração muscular, comutações vasomotoras e recondicionamento do ânimo dos operados, numa escala pouco esperada.” (2)

As duas citações acima foram extraídas de um texto dirigido à profissionais. Mas, se traduzirmos sua observação para uma linguagem do cotidiano, podemos dizer que, em síntese, ele está nos contando como e quando começou a perceber “a atuação terapeutica propiciada pelo contato suave atento e cuidadoso”, ajudando na recuperação daqueles pacientes.

Quem conhece um pouco da história pessoal do Dr. Sándor sabe o quanto ele mesmo, bem como sua família, foram duramente atingidos pelos horrores da guerra. No entanto, podemos perceber, nas entrelinhas da sua descrição, o tipo de conduta que o levou à estas observações: a atitude compassiva e amorosa que assumia diante do sofrimento de seus pacientes…!

Por mais três anos Sándor trabalhou na Alemanha, cuidando de pacientes com queixas psicológicas ou neuropsiquiátricas. Neste período já começava a sistematizar e fundamentar sua técnica – a primeira sequência dos toques sutis da Calatonia – com base nos conhecimentos da Psicologia e da Neurologia. Em 1949 emigrou para o Brasil, onde prosseguiu seu trabalho, atuando principalmente na área da Psicologia.

Vivendo já em São Paulo, como terapeuta e professor, passou a aplicar e ensinar a Calatonia, que passou a ser conhecida por seus alunos, como um “método de relaxamento”. E, como tal, passou a ser utilizada no atendimento psicoterapêutico.

Já sabemos como a Calatonia surgiu, e como chegou até nós. Mas, afinal, no que consiste? Como atua? No que ela difere de outros métodos de relaxamento? Qual sua utilidade? No significado do próprio termo encontramos alguns elementos para responder à estas questões:

Segundo o próprio Prof. Sándor, Calatonia é uma expressão que “… indica um tônus descontraído, solto, mas não apenas do ponto de vista estático e muscular. No original grego o verbo khalaó indica relaxação e também alimentação, afastar-se do estado de ira, fúria, violência, abrir uma porta, desatar as amarras de um odre, deixar ir, perdoar aos pais, retirar todos os véus dos olhos, etc.” (3)

Portanto, podemos dizer que a Calatonia, enquanto método de relaxamento visa, evidentemente, promover efeitos de soltura e/ou distensão muscular, ou seja a “regulação” do tônus. Mas sua atuação vai além do nível apenas muscular, promovendo também “reorganizações psico-fisiológicas” em vários níveis.

Vejamos como isto acontece: o procedimento básico da Calatonia consiste em uma série de “toques”, que o terapeuta realiza em vários pontos do corpo do cliente; A sequência de toques mais conhecida – pois foi a primeira ensinada por Sándor – é realizada em nove pontos da área dos pés, acrescida de um toque na nuca (região occipital). Estes toques são feitos em silêncio, de forma simples e suave, durante 1 a 2 minutos em cada um dos pontos citados. Portanto os estímulos realizados pelo terapeuta vão atuar, em princípio, sobre a pele da pessoa que os recebe.

Vale aqui pararmos um momento para mencionar algumas características muito especiais da nossa pele. Esta espécie de “envelope” que estabelece os limites do nosso corpo é, na verdade, altamente provida de minúsculas estruturas: os receptores nervosos. Estudos mais recentes sobre as particularidades e funções dos receptores nervosos da pele já fazem com que autores como Montagu (4) considerem a pele como um “órgão”, e não apenas um tecido que nos protege das intempéries…

Assim, segundo este enfoque, a pele é considerada como o nosso principal aparato sensorial. Não apenas porque os nossos órgãos dos sentidos sejam, na verdade, tecido cutâneo que se diferenciou (como acontece com as mucosas da boca, na percepção do paladar); Mas principalmente porque cada milímetro de nossa pele é provido de numerosos “receptores nervosos”, ou seja, estruturas neurológicas capazes de captar e conduzir os variados tipos de estímulos: calor, frio, pressão, etc. Como se fossem minúsculos radares, nos mantêm informados sobre a infinidade de estímulos à que somos submetidos à cada instante.

Mas existe ainda uma outra característica importante da pele, que diz respeito à sua própria origem e formação durante nosso desenvolvimento ainda no útero materno: As células que lhe dão origem provêm da mesma camada embrionária da qual se forma nosso sistema nervoso central, ou seja, a ectoderme. A descrição deste fato levou o pesquisador Montagu a escrever esta curiosa observação: “Portanto, o sistema nervoso é uma parte escondida da pele, ou ao contrário, a pele pode ser considerada como a porção exposta do sistema nervoso”. (5)

As implicações deste fato podem ser observadas na própria estrutura da nossa pele. Para ilustrar este comentário vamos apresentar no quadro a seguir uma síntese das descrições feitas pelo mesmo autor Montagu (6) sobre a constituição da estrutura da nossa pele. Vejamos como essa estrutura é altamente complexa e potencialmente “sensível” aos estímulos táteis:

Algumas Características da Estrutura da Pele:

a. O sentido do tato é o primeiro a ser desenvolvido no feto, podendo ser observado ainda no período embrionário, a partir da 6a. semana de vida intra-uterina.

b. Média de Corpúsculos de Meissmer presentes na epiderme por milímetro quadrado:

– Cerca de 80 em crianças.

– Cerca de 20 em adultos.

– Cerca de 4 em idosos.

c. Média de receptores nervosos presentes a cada 100mm2. de pele: Cerca de 640.000.

d. Pontos táteis por cm2 de pele: Cerca de 7 a 135.

e. Número de fibras nervosas oriundas da pele que entram na medula espinal, conduzindo estímulos aferentes: Superior a meio milhão.

f. Outras estruturas presentes em um pedaço de pele com 3 cm de diâmetro:

– 3 milhões de células.

– Entre 100 e 340 glândulas sudoríparas.

– 50 terminações nervosas.

– 90 cm de vasos sanguíneos.

Falando agora do ponto de vista da Psicologia, encontramos hoje em vários autores o reconhecimento da importância do contato – no sentido literal do termo – tanto para o adequado desenvolvimento de uma criança, quanto para a manutenção do equilíbrio psicofísico do adulto. Aliás, se olharmos um pouquinho para trás, vamos perceber que este nem é um achado tão recente da Psicologia: Jung já dizia, em 1935, que no tempo de nossos ancestrais a “consciência” humana formou-se a partir do “relacionamento sensorial da nossa pele com o mundo exterior” (7).

Pesquisadores como Neumann (8) ao estudarem o desenvolvimento infantil, expressaram uma idéia semelhante, ao afirmar que no recém nascido “noção de eu” forma-se gradativamente, a partir do contato que se estabelece entre a criança e sua mãe.

Voltando agora à forma de atuação da Calatonia: Já dissemos que os toques são realizados na pele. Estes estímulos vão portanto atuar sobre os inúmeros receptores nervosos ali existentes. E, mais ainda: vão se propagar naturalmente (9) (através das vias neurológicas aos quais estão conectados) para o sistema nervoso como um todo. Daí percebermos, na prática, que tal atuação se expressa de forma muito particular para cada pessoa com quem trabalhamos.

Para alguns, podem surgir, predominantemente, reações ao nível fisiológico e/ou motor (como “sensações”, ou movimentos mais ou menos sutis); Para outros em termos afetivo/emocionais, (na forma de recordações, associações, etc.); Para outros ainda podem ocorrer alterações do estado de consciência análogos àqueles promovidos pela ‘meditação’, com a eventual recordação de imagens. Imagens estas que, do ponto de vista psicoterapeutico, têm um valor semelhante ao valor dos sonhos.

Assim, a Calatonia atua potencialmente em vários níveis sobre a complexa estrutura psicofísica de cada indivíduo, trazendo à tona elementos, que podem ser elaborados dentro do contexto da psicoterapia. Além disso, pode atuar também promovendo “reequilibrações” do sistema psicofísico, através de processos mais sutís, e um tanto complexos para que os abordemos aqui. Para os leitores interessados neste aspecto, sugerimos a leitura dos casos clínicos relatados no livro “Técnicas de Relaxamento” (10), indicado ao final.

Mas, se aceitarmos que a principal meta da psicoterapia é criar condições para que a pessoa amplie a consciência que tem de si própria, a ponto de poder expressar tão plenamente quanto possível suas potencialidades individuais com equilíbrio e criatividade; Se aceitarmos ainda que cada pessoa é um todo indivisível e que seu corpo e seu psiquismo são apenas diferentes formas de expressão desta mesma unidade sincrônica, então podemos entender a função da Calatonia, como um importante recurso na facilitação do nosso acesso ao mundo interno do ser humano.

Conforme podemos perceber no parágrafo acima, a forma de trabalho terapêutico que Sándor desenvolveu trás implícita uma determinada maneira de entender tanto a natureza do ser humano, quanto a função da psicoterapia. De fato, a Calatonia, mais do que uma simples técnica, (que se define pelos seus procedimentos práticos) constitui-se hoje em um método de trabalho terapêutico. Método este que integra elementos da Psicologia Profunda (em especial as idéias de Jung) visando promover a integração psicofísica do indivíduo.

Pode ser importante ainda acrescentar aqui algo a respeito dos desenvolvimentos mais atuais deste método. Com relação aos toques descritos no início desta nossa conversa, cabe dizer que aquela foi a forma inicial da Calatonia. Ao longo de mais de quarenta anos de trabalho o Prof. Sándor foi acrescentando inúmeros outros procedimentos àquela sequência inicial, conhecida como “toques nos pés”: Mantendo sempre as características básicas da atuação (ou seja os estímulos táteis, realizados de forma suave) idealizou muitas novas formas de toques, além de realizar e transmitir aos seus alunos farta pesquisa sobre os processos anátamo/fisiológicos envolvidos na aplicação destes toques.

Finalmente, cabe dizer ainda que este método, embora tão estreitamente baseado em fundamentos psicológicos, não se constitui em um recurso de uso estritamente psicoterapêutico. Vários colegas, de áreas afins têm já relatado a sua efetiva utilidade em campos variados, tais como na Fonoaudiologia, na Fisioterapia, na Odontologia, na Pedagogia, etc.

O Prof. Sándor veio a falecer, de forma inesperada para nós, a 28 de Janeiro de 1992, ainda em plena atividade criativa. Seu trabalho no entanto continua através das atividades de vários grupos de estudos, conduzidos por seus ex-alunos. Prosseguem também, no Instituto Sedes Sapientiae de São Paulo, as atividades do curso de “Cinesiologia Psicológica”, ao qual Sándor vinha se dedicando com especial empenho nos últimos anos, promovendo a formação de novos terapeutas.

Referências Bibliográficas:

1. Em “Técnicas de Relaxamento”, Pethö Sándor e outros, Ed. Vetor; São Paulo: Capítulo sobre a Calatonia.

2. Ib.

3. Ib.

4. “Tocar: o Significado Humano da Pele”, A. Montagu, Ed. Summus; São Paulo.

5. Ib. Pág. 23.

6. Ib.

7. Em “Fundamentos de Psicologia Analítica”, C.G. Jung, Ed. Vozes; Petrópolis, pág. 5, parágrafo 14.

8. Neumann, E. : “A Criança – Estruturas e Dinâmica da Personalidade em Desenvolvimento desde o Início de sua Formação”, Ed. Cultrix; São Paulo.

9. Destacamos a forma “suave”, bem como a “propagação natural” dos estímulos táteis utilizados na Calatonia, porque estas características nos permitirão distinguí-la de outros métodos de relaxamento. Cada uma das demais técnicas já conhecidas utiliza-se de outros estímulos preferenciais. Mas em geral pressupõem, através de determinadas ‘instruções’, que o terapeuta dirija verbalmente o comportamento que deve ser realizado pelo cliente. Existe portanto, nestas formas de trabalho, algum padrão pre-estabelecido, acerca dos resultados que se pretende atingir com aquele procedimento, padrão este que é definido, obviamente, pelo terapeuta. Mesmo na maioria das formas de massagens utilizadas para fins de relaxamento, a atuação do terapeuta, visa “diluir a tensão” dos grupos musculares que manipula. Não se trata aqui de fazermos uma comparação avaliativa. Cada uma destas técnicas têm suas indicações úteis. Estamos apenas estabelecendo uma diferenciação importante quando se trata do trabalho corporal utilizado dentro da psicoterapia. No caso do uso psicoterapêutico a Calatonia é um método de relaxamento em que a direção e a medida do ritmo dos procedimentos são definidos e determinados individualmente pela própria estrutura psicofísica da pessoa que passa pelo processo.

10. Obra citada em 1, capítulos elaborados pelas terapeutas Beatriz Helena Marques Mauro e Maria Isabella de Santis. Além destes, poderão ainda ser consultados (nas bibliotecas universitárias da USP e PUC-SP) trabalhos de pesquisa para obtenção de títulos de mestrado e doutoramento, de vários ex-alunos de Sándor.

 

Rosa Maria Farah é Psicóloga (CRP 06/1315) e Professora da Faculdade de Psicologia da PUC-SP, onde Coordena o Núcleo: “Integração Psicofísica”. Contatos com a autora: rfarah@uol.com.br

 

 

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Katie BjÖrn – Amorfa – Oil painted, 1998.

 

 

Por Celso Barreto

 

Existem muitos pioneiros no trabalho da somaterapia, Freud, Sandor Ferenczi, Adler, Reich, Jung e outros.

O objetivo deste ensaio é apresentar C.G.JUNG como um dos pioneiros a abrir caminhos em uma abordagem de Integração “corpomente”, apesar de ainda em nossos dias, o ambiente acadêmico persistir com preconceitos para desenvolver esta abordagem.

Tenho informações que alguns profissionais da Psicologia Analitica já estão desenvolvendo este trabalho em forma de vivências, utilizando a fundamentação junguiana para a Integração Psicofísica.

Para iniciar a apresentação deste trabalho escolhi algumas falas de Jung proferidas em alguns seminários que esboçam a idéia corpomente segundo suas observações.

Relacionamento consciente – inconsciente – corpo

“A consciência é produto da percepção e orientação no mundo externo que provavelmente se localiza no cérebro e sua origem seria ectodérmica. No tempo de nossos ancestrais a consciência derivaria de um relacionamento sensorial da pele com o mundo externo. É bem possível que a consciência derivada dessa localização cerebral retenha tais qualidades de sensação e orientação”(Par.14 – Fund.Psic.Anal.Jung).

Obs: Tanto a pele quanto o sistema nervoso originam-se da ectoderme e também criam os órgãos dos sentidos: olfato; paladar; audição; visão; tato; ou seja , tudo o que acontece fora do organismo. Portanto o SN é uma parte escondida da pele, ou ao contrário, a pele pode ser considerada como a porção externa do SN.

“Nossos conteúdos inconscientes são potencialidades que podem vir a ser, mas que não são, porque não tem definição. Somente quando se tornam definidas elas podem aparecer. Nada é definido no inconsciente, enquanto algo estiver no inconsciente, nada pode ser dito sobre ele. Definição aparece quando a matéria aparece. De acordo com a filosofia Tântrica, a matéria é a definição do pensamento divino, o pensamento criador. Porém isto é meramente uma projeção psicológica, pois enquanto o pensamento de alguém não atingir um corpo, ele não é definido. Dar corpo aos pensamentos significa que se pode falar a respeito dos mesmos, pintá-los, mostrá-los, fazê-los aparecer claramente aos olhos do mundo.

Até mesmo certas doenças do corpo podem trazer o caráter da idéia, talvez representem a idéia de alguma coisa que simplesmente não pode ser engolida. Uma coisa que não pode ser aceita é representada por um espasmo da garganta, por exemplo, e pode ir tão longe que a pessoa pode não conseguir comer.

Então, tais idéias suspensas podem se expressar facilmente no corpo; em certos problemas de pele, perturbações do sistema nervoso periférico, talvez com anestesia, problemas de estomago e intestino, ou seja , diarréia ou constipação. As pessoas que não querem deixar algo ir embora podem produzir uma extraordinária constipação. Existem muitas coisas engraçadas a esse respeito, quase cômicas, tão óbvias que quase não se acredita, pois somos pouco inclinados a acreditar nas coisas óbvias, sempre achamos que a verdade precisa ser muito complicada, muito sutil. Se alguem fala algo muito simples, todo mundo pensa que não é verdade”

( Pgs.136,137 Assim Falou Zarathustra, Jung).

Exemplificando este texto de Jung, recebo sempre em meu consultório pessoas que persistem em não acreditar que as reações físicas que estão tendo, estão diretamente ligadas a sua vida psíquica, pois parece simples demais que tal situação ocorrida em sua vida possa estar afetando-o desta maneira. O que facilita meu trabalho é que estas pessoas geralmente já passaram pela mão de diversos especialistas da área da medicina e também já fizeram todos os exames necessários para diagnosticar que fisicamente eles não tem disfunção alguma do órgão ou parte afetada, receberam apoio medicamentoso e foram encaminhados para um psicólogo.

Apresentarei em seguida como Jung abordou a situação citada acima com um de seus clientes e depois como vejo a evolução deste trabalho nos tempos atuais para quem associa outras técnicas de apoio para auxiliar seus clientes a entrar em contato consigo próprio e sua vida interior(psique).

“Certa vez tratei um caso assim; o homem ficou reduzido a um esqueleto. Podia somente engolir duas xícaras de leite por dia, e para cada xícara necessitava duas horas, e toda vez que tomava um gole um pouco maior ele simplesmente recusava – precisava tomar aos golinhos. Ficava tão cansado que temia morrer. Ninguém sabia o que fazer, e então esse pobre homem acabou indo a uma feiticeira. Vejam, eu fui chamado como último recurso, quando o homem estava praticamente morto. Eu sou tão extremamente não científico, que posso curar um tal caso. Quando tal homem caiu eventualmente em minhas mãos eu perguntei sobre seus sonhos. Logicamente, eu sabia que ele não podia engolir alguma coisa, e naturalmente tinha as maiores resistências para chegar lá, mas seus sonhos me conduziram.

Sua noiva era representada como uma espécie de prostituta em seus sonhos, então eu lhe disse para ir para casa e perguntar a um amigo o que pensava da moça. E o primeiro homem para quem perguntou disse-lhe; “É claro todo mundo sabe, ela é simplesmente uma moça fácil”Ela havia tido relações sexuais com dois outros homens enquanto era sua noiva. Isto era o que ele não queria saber, estava convencido de que ela era a mais pura das virgens, vinda das melhores famílias. Bem depois de uma semana que ele se fora, recebi uma carta sua, bastante amarga dizendo: “Eu posso comer agora! o senhor tinha razão. tive de desistir do relacionamento. Penso que estou curado. Atenciosamente” Podia se ver sua emoção; ele não gostou da idéia, mas é o preço para nos curarmos”(Pags.136, Assim falou Zarathustra, Jung).

Este caso deixa muito claro o relacionamento consciente-inconsciente-corpo, mas nem sempre a evolução do caso chega ao término com resultados positivos , muitas vezes a pessoa faz a integração entre essas partes, mas não consegue alterar muito suas reações físicas, como se o corpo tivesse incorporado a nova forma de funcionar ou seja o desenvolvimento de complexos psiquicos resultará também em uma reaprendizagem corporal, seja de movimentos ou de funcionamento. É necessário utilizar-se também do auto conhecimento físico para que a pessoa sinta-se mais solta e mais leve.

Trabalhei com um homem que relatou ter vários problemas de contusão de ombro e pescoço, investiguei sua história de vida e o mesmo falou ser o filho mais velho, que teve de ajudar a todos da família, é extremamente religioso e fiel as leis de sua crença, casou-se e por vários motivos separou-se da mulher, encontrou outra mulher e vive com ela a anos e não consegue regularizar a situação com ela , porque casamento na igreja é uma vez só, então ele feriu as leis de Deus e vive sofrendo por isso. Trabalha em uma empresa onde é chefe de uma seção com muitos funcionários, sua responsabilidade e dever é de tanto peso, que chega a executar as tarefas dos funcionários com receio de que eles não a executem e isto venha a compremeter sua imagem de responsabilidade. Quando ele trazia suas dores para a terapia, eu pedia que exemplificasse por qual situações de stress ele havia passado naquela semana e de como ele reagia fisicamente. Ex; estava dirigindo e alguém falou algo que o desagradou, agarrou o volante com muita força e dirigiu assim durante um bom tempo, na sua mesa de trabalho recebe telefonemas de vários departamentos e agarra o telefone com muita força. Estas associações foram trazendo a consciência do paciente os aspectos de sua rigidez, de como ele agarrou todas as leis que eram apresentadas para ele com todas as suas forças psiquicas e físicas, mas isto não fez com que soltasse seu ombro. Começou a trabalhar com o que já havia conquistado em análise, houve um alívio do sofrimento que tinha imposto a sua alma, mas seu ombro continuava doendo. Iniciei trabalhos corporais com ele com o objetivo de mobilizar maior relaxamento muscular e passei exercícios para que ele fizesse todo dia, exercício que consistia em apertar o ombro o máximo possível e ir ganhando consciência dele ao soltá-lo lentamente. Em poucos dias ele trouxe um sonho (sic) “sonhei que saía de meu ombro um bicho branco em forma de lagarta, eu fiquei muito assustado, mas depois desse sonho não tive mais dores”

O paciente se reorganizou no trabalho delegando funções e responsabilidade a seus funcionários e confiando mais , casou-se com a mulher que morava com ele e deixou o tratamento.

Ao falar aqui sobre complexos acho necessário trazer um parágrafo de Jung sobre o assunto.

“…provavelmente os senhores já observaram que, ao me fazerem perguntas difíceis, não consigo responde-las imediatamente porque o assunto é importante, e o meu tempo de reação, muito longo. Começo a gaguejar e a memória não fornece o material desejado. Tais distúrbios são devidos a complexos – mesmo que o assunto tratado não se refira a um complexo meu.. Trata-se simplesmente de um assunto importante, tudo o que é acentuadamente sentido torna-se difícil de ser abordado, porque esses conteúdos encontram-se, de uma forma ou de outra, ligados com reações fisiológicas, com processos cardíacos, com o tônus dos vasos sanguíneos, a condição dos intestinos, a inervação da pele, a respiração. Quando houver um tônus alto, será como se esse complexo particular tivesse um corpo próprio e até certo ponto localizado em meu corpo, o que o tornará incontrolável por estar arraigado, acabando por irritar meus nervos. Aquilo que é dotado de pouco tônus e pouco valor emocional pode facilmente ser posto de lado porque não tem raízes. Não é aderente”(Parágrafo 148, Fundamentos da Psicologia Analítica, Jung).

Jung e sua leitura corporal

Ao aplicar o teste de associação de palavras, Jung comenta as características da respiração de uma pessoa durante a aplicação; ele observa as nuances de alteração do ritmo respiratório que sugerem a diferença de reação do indivíduo frente a complexos conscientes e inconscientes.

“Os presente diagramas ilustram muito bem as diferenças de reações entre os complexos consciente e os inconscientes. Em C, por exemplo, o complexo é consciente. A palavra estímulo atinge a pessoa causando uma inspiração profunda. Mas, quando atinge um complexo inconsciente, o volume da respiração é restrito, como se pode ver em D, I. Há um espasmo do tórax, quase não havendo respiração. Dessa forma prova-se empiricamente a diferença fisiológica entre reação consciente e outra inconsciente” (Parágrafo 134, Fundamentos da Psicologia Analítica, Jung).

Esses níveis de respiração são muito comuns em nosso trabalho diário, e a forma de trabalhar com isso tradicionalmente é auxiliar a pessoa a descobrir os valores simbólicos de sua vida psíquica, hoje além da palavra, podemos utilizar também do auto-reconhecimento corporal associado a situação complexa. É uma forma de encontrar outros caminhos para encontrar com o inconsciente (quando percebo ou torno consciente minha respiração contida, associo também o momento e situação do ocorrido identificando melhor minhas reações, isto é não somente no nível do pensamento, mas também em meu corpo).

Como Jung exemplificou no texto inicial deste ensaio “nossos conteúdos inconscientes são potencialidades que podem vir a ser, mas que não são, porque não tem definição”

Outra leitura corporal de Jung

“Se prestarmos bastante atenção em um homem que trabalha com as percepções sensoriais, veremos que as linhas de direção de seus olhos têm a tendência de convergir, de encontrar-se num determinado ponto, ao mesmo tempo, a expressão ou o olhar da pessoa intuitiva apenas cobre a superfície das coisas. Ela não olha fixamente, mas globaliza os objetos num todo, e entre as muitas coisas que percebe, estabelece um ponto na periferia do campo e visão, e isto constitui o pressentimento.

Com bastante segurança é possível dizer a partir dos olhos de uma determinada pessoa, se ela é intuitiva ou não. É inerente ao caráter do intuitivo o não prender-se à observação de detalhes, ele sempre busca apreender a totalidade da situação e então, repentinamente, qualquer coisa emerge dessa globalização. (parágro 30, Fund.Psicologia Analítica, Jung).

Mais uma vez, Jung nos mostra a amplitude de suas observações, nunca separando, sempre associando um ponto ao outro e criando integrações psicofísicas. De uma forma simples ele mostra como identificamos um tipo psicológico através dos movimentos dos olhos.

Pretendo aqui encerrar esse trabalho dizendo que o material apresentado, acho ser suficiente para esclarecer a Integração Psicofísica de C.G.Jung, mas existe muito material deste mesmo conteúdo em toda a sua vasta obra e abrange diversos níveis de entendimento.

Como ele mesmo diria “Todo psicoterapeuta não só tem seu método; ele próprio é esse método” o que indica as milhares de possibilidades de tratamento e cada um desenvolve a sua forma, baseando-se em fundamentação da Psicologia Analítica.

Celso Barreto
Psicólogo CRP 08/04493

Bibliografia para maiores Informações:

– A prática da Psicoterapia, C.G.Jung, Ed.Vozes
– Fundamentos da Psicologia Analítica, C.G.Jung, Ed.Vozes
– Seminários sobre: Assim Falou Zarathustra, C.G.Jung, Clube Psicólogico de Zurique. 

 

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