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Posts Tagged ‘Criatividade’

A Lovely Thought
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“Um pensamento Agradável” de Daniel Ridgway Knight

Autor: Denise Diniz Maia*

Palavras-chave: cultura, arte, ciência, imagens e símbolos.

“Jung é um dos fundadores da psicologia moderna além de ter sido um dos precursores para uma nova era. Ao reintroduzir a noção de Self em psicologia e na cultura, ele coloca o homem frente à sua verdadeira essência e lhe restitui a sua totalidade, possibilitando-lhe o contato com o seu centro”. (Léon Bonaventure)

 

 

As primeiras décadas do século XX foram um momento de intensa experimentação na literatura, nas artes e na psicologia. Artistas e escritores tentaram abolir os limites das representações para mostrar sua experiência interior, sonhos e fantasias.

Começa a acontecer uma maior percepção da importância dos fenômenos psíquicos, num anseio de renovação cultural e espiritual. Psicólogos começaram a observar o mesmo terreno e a ciência moderna também volta sua atenção à realidade subjetiva.

Jung, como um grande investigador do pensamento ocidental moderno, teve suas idéias inovadoras amplamente disseminadas, influenciando o consciente coletivo de toda uma época. Ele sempre esteve à frente de seu tempo, abrangendo em sua obra muitos e variados campos de atuação e provocando um interesse cada vez maior nas gerações mais jovens, que desejavam transformar a sociedade e ter um novo olhar também para o indivíduo.

Surge um interesse maior de teóricos, vindo de debates no âmbito da sociologia e da antropologia; outros pela ressonância de aspectos analíticos com as novas física, biologia, e os fenômenos da consciência. É importante ressaltar o diálogo entre as diversas áreas e ciências, uma comunicação interdisciplinar, onde a psicologia analítica tem muito a contribuir. Os encontros anuais de Eranos que aconteciam na época de Jung, contavam com a participação de teóricos de várias áreas, que se nutriam do pensamento junguiano e que também o influenciavam.

Os convidados se reuniam na casa de Olga Fröbe no lago Maggiore em Ascona, com o objetivo de manter acesa a chama do conhecimento e da reflexão, num momento de obscurecimento e paralização entre as duas guerras.

Olga era uma intelectual, estudiosa de símbolos, cujo desejo era promover um lugar de encontro entre o ocidente e o oriente.

Jung proferiu sua primeira conferência nos encontros, em 1933 e foram 14 no total, até 1952.

Muitos junguianos também participaram, como Emma Jung, Barbara Hannah, Jolande Jacobi, Toni Wolff e James Hilmann. De outras áreas podemos citar entre outros: Mircea Eliade, Károly Kerényi e Rudolph Otto.

Na Grécia antiga a palavra Eranos trazia o sentido de banquete, onde cada convidado apresentava-se trazendo um “presente intelectual”. Assim este se tornou um espaço para a reunião de cientistas, mitólogos, teólogos e filósofos para trocarem idéias sobre suas áreas.

A renovação cultural segundo Kerényi, vem do encontro e do diálogo entre os representantes das diversas ciências e as disciplinas do espírito.

Jung enfatizou a necessidade de se considerar todos os fatores que influenciam a vida psíquica, seja de ordem biológica, social ou espiritual, pois os acontecimentos não são só perceptíveis na realidade externa e distante, mas presentes no mundo interno de cada um. Desta forma a renovação do espírito coletivo só é alcançada por meio da consciência individual onde a elaboração do processo de individuação acontece em paralelo ao desenvolvimento histórico e cultural.

A psicologia analítica muito contribuiu para a compreensão e reavaliação dos símbolos, entendendo que existe uma conexão entre os mitos antigos e os inúmeros acontecimentos atuais além da percepção do grande anseio do homem de se reconectar com aspectos e valores espirituais negligenciados, numa busca de significado e sentido de vida. Esta contribuição foi imensa, ultrapassando a esfera acadêmica e abrangendo o sofrimento da alma e os mistérios da psique humana. Esta forma de compreensão marca o fim do racionalismo científico do século XIX, reforçando que não há uma verdade absoluta, mesmo nas ciências exatas, e que o olhar do pesquisador com toda sua subjetividade interfere no processo observado.

Jung ressaltava a grande importância da fantasia como manifestação psíquica espontânea não controlada pelo consciente e por isto livre em suas formas de expressão. O contato com esta fantasia permite a re-conexão com uma parte menos valorizada, porém de vital importância.

As manifestações artísticas têm esta capacidade de traduzir em fatos visíveis os movimentos predominantes de uma época, captando com antecedência as futuras mudanças do consciente coletivo e traçando assim a linha de um desenvolvimento futuro.

O artista é o interlocutor neste processo que com sua sensibilidade de captar a necessidade coletiva gera dentro de si a obra que irá nascer para o mundo.

As poderosas forças do inconsciente se manifestam em todas as atividades culturais por meio das quais o homem se expressa.

A teoria junguiana ampliou a visão de muitas áreas e sua influência se faz presente nas atividades culturais, no campo das artes, na teologia e na antropologia. Na física moderna, ressalta as implicações filosóficas e sua importância no estudo de nosso universo interior.

A fecundidade das idéias junguianas, a partir dos conceitos de arquétipo e de inconsciente coletivo, abre novas perspectivas sendo, uma das contribuições mais importantes, o entendimento do inconsciente não mais apenas como depositário de conteúdos reprimidos, mas como matriz criadora autônoma da vida psíquica. Cada uma das ciências relacionadas anteriormente têm seu campo de estudos com lei e características próprias, mas se pode reconhecer nelas a presença de configurações arquetípicas.

No domínio das ciências naturais, o físico Wolfgang Pauli assinalou a necessidade de se levar em conta a área de interrelação entre psique inconsciente e processos biológicos. Ele começou a estudar o papel do simbolismo arquetípico no campo científico, trazendo à luz conceitos importantes de unicidade entre as esferas físicas e psicológicas.

Disse Jung:

“A microfísica pesquisa o lado desconhecido da matéria do mesmo modo que a psicologia profunda investiga o desconhecido da psique. Mais cedo ou mais tarde a física nuclear e a psicologia do inconsciente se aproximarão cada vez mais, pois ambas, independentemente uma da outra e vindo de direções opostas, avançam em território transcendente, uma com o conceito de átomo, outra com o de arquétipo”.

Vai acontecendo uma proximidade entre trabalhos da psicologia analítica e da microfísica, onde os conceitos básicos da física como tempo, espaço, energia, matéria, etc… são originalmente idéias arquetípicas.

A noção de campo de energia pode ser comparada à noção de inconsciente, onde conteúdos psicológicos aparecem ordenados na área psíquica como partículas num campo magnético. Podemos falar assim de uma unidade psicofísica da realidade, o unus mundus, onde matéria e psique são um só.

Um dos princípios mais importantes observados é o de sincronicidade cuja explicação para os fenômenos não é apenas lógica e causal, mas uma conexão acausal, onde acontecimentos significativos vão sendo produzidos numa outra relação entre fatos psíquicos interiores e exteriores.

Assim, Jung introduziu a noção de propósito e significado que vai além das leis deterministas de causa e efeito.Enfim, todas estas idéias podem estar presentes na compreensão de novos fatos em muitos campos das ciências e nos fenômenos da vida cotidiana, trazendo uma visão mais ampla da realidade.

Em seus escritos, Jung abordou a relação da psicologia analítica e a obra de arte, indicando intersecções muito próximas entre a experiência artística e a psicológica.

Para ele, o processo criativo consiste na ativação do arquétipo até a finalização na obra acabada, num diálogo constante entre consciente e inconsciente, onde um jogo de opostos está sempre presente. E o artista, como foi dito anteriormente, é um homem coletivo que exprime a alma inconsciente da humanidade mergulhando profundamente no ato criador. Ele é um instrumento colocado à serviço da criação que precisa se expressar, de uma forma autônoma e independente da intenção do autor.

O artista dá forma e traduz, na linguagem de seu tempo, as imagens primordiais ou arquétipos, tornando acessíveis as fontes profundas da vida.

Este é um dos aspectos mais importantes da obra de arte pois, ao trazer à tona formas de que o coletivo mais necessita, ela vai educando o espírito da época. Assim, podemos compreender a arte como uma produtora de símbolos importantes e transformadores para a alma humana.

Jung demonstrou em sua vida um grande interesse por diversas culturas e pela história da arte, cuja presença se expressa na pluralidade de imagens que povoaram seu imaginário psíquico e que nutriram seu gosto pela diversidade da vida simbólica. Ele privilegiou, em sua vida pessoal e clínica, o contato com diversas formas artísticas, atribuindo às imagens e aos símbolos uma grande importância.

A partir de seus estudos analíticos podemos entender que a arte tem um lugar privilegiado pois ao escolhê-las, observá-las, reproduzí-las ou criá-las, nos recolhemos em nossas profundezas.

Como analistas e terapeutas, além de nos abastecermos com estas imagens, tornamos-nos mais criativos e sensíveis abrindo-nos para nossos pacientes na escuta de seus sonhos e no compartilhar de suas imagens.

Jung nos trouxe a descoberta da espontaneidade criativa da psique inconsciente como produtora de símbolos e por ela se deixou conduzir, permitindo que o inconsciente se expressasse em sua vida e em sua obra, trazendo à sua exposição científica, elementos sentimentais e imaginativos.

Este foi o duplo impacto de Jung em nosso mundo:

a) o efeito de sua personalidade e de sua obra e

b) o confronto com o inconsciente com o qual estava profundamente comprometido.

Bibliografia

Gaillard, C – Le Musée imaginaire de Jung, Paris, Stock, 1998

Jung, C.G. (1976) O C 9/1, O arquétipo e o inconsciente coletivo, Petrópolis,

Vozes, 2011

_____________________ – O homem e seus símbolos, Rio de Janeiro, Nova

Fronteira, 2008

_____________________ – word and image, New Jersey, Princeton/

Bollingen, 1979

*A autora, Denise Diniz Maia, é psicóloga, analista didata do Instituto Junguiano de São Paulo-IJUSP, filiado a Associação Junguiana do Brasil-AJB que é filiada da International Association for Analytycal Psychology-IAAP.

Fonte: http://ijusp.org.br/artigos/perspectivas-psicologicas-de-jung-sobre-as-ciencias-e-a-arte/

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Imagem: Premonición de Remedios Varo 

Por: Celia Gago

A Tecelã é uma imagem arquetípica freqüentemente representada na arte e na literatura, especialmente nos contos de fadas e mitos, através de figuras femininas – deusas, fadas, mulheres…. Pretendo aqui apresentar alguns relatos que exemplificam a correlação entre o processo de criação, como os trabalhos com fios e a literatura, e o processo de individuação feminina.

Desde os primórdios da civilização, podemos encontrar nos artefatos, como cestos e esteiras, trançados com fibras de folhas e cipós, as primeiras formas de tecelagem, talvez inspirados nas teias de aranhas e nos ninhos dos pássaros.

Considera-se que o trabalho feminino de preservação e manutenção da vida, da produção de artefatos de cerâmica e cestaria (ligada à função de nutrição), e dos primeiros tipos de roupa (ligada à proteção do corpo), foi um fator determinante na transformação do Homem natural num ser cultural.

As atividades femininas de tecelagem, fiação e bordado sempre puderam ser acompanhadas pela expressão espontânea de desejos, fantasias e lembranças, de passagem de tradições e memórias, de brincadeiras, risos e lamentos. Em muitas sociedades, levou a consolidar um espaço de encontro de experiências, solidariedade e cumplicidade. Espaço de cantos e narrativas. Nos momentos críticos da vida feminina, como o casamento e a gravidez, o enxoval bordado e tricotado pela família e amigas (hábito atualmente em desuso nas grandes cidades), se constitui num verdadeiro rito de passagem, evocando a imagem das Deusas Tecelãs, Senhoras do Destino, presentes em diferentes culturas.

Fiação e tecelagem na mitologia e nos contos de fadas

Para os homens das sociedades tradicionais, todas as atividades humanas e todos os artefatos têm um modelo mítico e foram ensinados pelas divindades. Esta atitude religiosa eleva e dignifica o trabalho humano, pois ao criar, segundo Eliade, o homem repete a cosmogonia.

A criatividade humana é, portanto, um reflexo do dom divino. Assim, por mais habilidoso que seja, o ser humano não deve pretender comparar-se à divindade. A confecção de tapetes, no Oriente, pode exemplificar essa atitude de humildade em relação à criatividade. Diz-se que os tapeceiros cometem sempre um erro, deliberadamente, porque a perfeição é um atributo divino.

Em muitos mitos de origem, a criação do universo resulta de atividades técnicas, como modelar a argila, talhar a madeira ou tecer. A tecelagem aparece com um símbolo recorrente da criação, tanto do universo como da vida humana. O próprio Cosmos, segundo Eliade, é concebido como um tecido, como uma enorme rede. “No Cosmos, como na vida humana, tudo está ligado através de uma textura invisível. […] Certas divindades são as mestras desses ‘fios’ que […] constituem uma vasta ‘amarração’ cósmica.” (ELIADE, 1991:112)

Por ser a tecelagem uma atividade basicamente feminina, quando a criação do mundo através dessa atividade é atribuída a um deus, ele compartilha com uma deusa da natureza a autoria da obra. O filósofo grego Ferekydes apresenta o mundo como um imenso pharos (manto) tecido por Zeus (deus do céu) e Ctônia (deusa da terra) e estendido sobre um carvalho, contendo toda a natureza. O mundo como um tecido aparece, na tradição hindu, na concepção do véu de Maya, deusa do mundo das aparências.

O mistério primordial de tecer e fiar tem sido projetado sobre a Grande Mãe, que, como o Grande Feminino que abrange toda a natureza, é a primeira forma de divindade, precedendo às representações masculinas. É Senhora do Tempo, e conseqüentemente, do Destino. Governa o crescimento e o tempo cíclico, a alternância dia-noite, a mudança das estações e os ciclos de menstruação e gravidez das mulheres. Como a Grande Fiandeira ou como uma tríade lunar, fia e trama não só a vida humana, mas também o destino do mundo.

Na Grécia, as Tecelãs do Destino são as Moîras. Segundo Hesíodo, são filhas da deusa primordial Noite (Nix, nascida do Caos), assim como as Erínias e as Queres. Numa segunda versão, são consideradas filhas de Zeus e Têmis. Inicialmente uma força primordial, “impessoal e inflexível, a Moîra é a projeção de uma lei que nem mesmo os deuses podem transgredir sem colocar em perigo a ordem universal.” (BRANDÃO,1991,vol.1:230-1) Mas após as epopéias homéricas, passa a ser representada como uma tríade, personificando o destino individual, a parte que cabe a cada um: Cloto (a que fia) segura o fuso e puxa o fio da vida; Láquesis (a sorteadora) enrola o fio e sorteia o nome de quem vai morrer; Átropos (a inflexível), corta o fio da vida.

Em Roma, as Parcas, deusas fiandeiras que originalmente presidiam ao nascimento, passaram a ser identificadas com as Moîras. Também eram três: Nona, Décima e Morta e presidiam respectivamente ao nascimento, casamento e morte.

O número de três, nove ou mais raramente, doze, é interpretado de diversas maneiras, se relacionando a etapas temporais, como começo-meio-fim, passado-presente-futuro, nascimento-vida-morte. Na mitologia nórdica, a deusa tríplice do destino é representada pelas Nornas, Urth, Weryhandi e Skuld, as tecelãs que fiam perto do poço de Urd, entre as raízes da Yggdrasil, a Árvore do Mundo. Na literatura inglesa, aparecem como o nome de Weird Sisters (Irmãs Destino).

No Egito, a deusa Net ou Neith, conhecida no Ocidente como Deusa Primordial e Onipotente, uma das deusas mais difundidas e antigas, era “homenageada com procissões à luz de tochas e com mistérios, como deusa da magia e da tecelagem, aquela que não nasceu, mas gerou a si mesma.” (NEUMANN, 1996:194)

Como todos os arquétipos, a figura da Grande Mãe, como Fiandeira do Destino, se apresenta tanto sob o seu aspecto luminoso e benevolente como sob o seu aspecto sombrio, terrível. Na mitologia germânica, as Valquírias, em número de doze, encarnam o aspecto terrível da Fiandeira do Destino. Elas cantam, enquanto tecem, num tear espectral, a morte dos guerreiros no campo de batalhas, tendo o sangue como matéria–prima.

Em várias culturas, a criadora cósmica, divindade dedicada à fiação e à tecelagem, é representada pela aranha. Como epifania lunar, a aranha evoca, pela fragilidade de sua teia, uma realidade de aparência ilusória, enganadora. Sendo Senhora do Destino, tem função divinatória. Em algumas crenças, tem o papel de intercessora, fazendo a ligação com o plano celeste, ligando criatura e criador. Entre os navajos, a Mulher Aranha ou Mulher Mutante é a responsável pela manutenção do universo, fiando e tecendo continuamente a vida. Nessa cultura, as aranhas nunca são mortas, pois seria uma ofensa às Avós ou antepassadas.

A ligação entre a aranha e a divindade tecelã está presente também, na mitologia grega, na história de Aracne, a mortal que desafiou a deusa Atená. Sob o epíteto de Ergáne, “Obreira”, Atená era patrona de diferentes técnicas, entre elas a ourivesaria e os trabalhos femininos de fiação, tecelagem e bordado. Nas festas das Kalkeîa (festas dos trabalhadores em metais) as “Obreiras” de Atená, assim como as meninas denominadas Arréforas, iniciavam a confecção da túnica sagrada, que seria oferecida, num rito solene, no encerramento de sua festa mais importante, as Panatenéias. O tempo decorrido entre essas duas festas era de nove meses, o que insinua uma correlação entre a criação do tecido e a gestação.

Nos contos de fadas encontramos freqüentemente o tema e o simbolismo da fiação e da tecelagem, como nas histórias Os seis cisnes e A bela adormecida. Neste, as fadas que comparecem ao batizado da criança reportam às Queres, irmãs das Moîras (às vezes confundidas com essas), que presidiam aos ritos de nascimento na Grécia antiga.

As fadas têm, entre os seus atributos, o dom da tecelagem de tecidos mágicos, de invisibilidade, do destino. Uma lenda européia fala sobre as fadas protetoras dos bosques que teciam tecidos maravilhosos. Para algum indiscreto que as surpreendesse à noite, quando iam se banhar, o tecido transformava-se em mortalha. Mas se um homem tinha a felicidade de agradá-las, elas lhe davam um fio mágico para que não se perdesse na floresta.

Percebemos nessa lenda resquícios do mito de Ariadne em sua função de guia, que permite a saída do labirinto / bosque, símbolo do inconsciente. Aqui, fica bem evidente o duplo caráter benévolo / maligno dessas entidades, herdeiras diretas das fiandeiras míticas.

Platão utilizou, para representar o mundo, um símbolo ligado à fiação: o fuso, cujo movimento uniforme induz à rotação do conjunto cósmico. Segundo o Timeu, a deusa Nêmesis está sentada no centro do cosmo cujo eixo “gira em torno do seu útero como uma roca.”( FRANZ, 2003:129).

O tear pode simbolizar uma entidade que mantém a ordem cósmica, e sua produção, o fio da vida. Na tradição islâmica, o tear é símbolo da estrutura e do movimento do universo. Nas tradições populares, também se observam ritos que comparam o tecer ao criar vida. Na África do Norte, nas regiões montanhosas, em qualquer choupana humilde há um tear simples: dois rolos de madeira sustentados por dois montantes. O rolo de cima é o rolo do céu e o de baixo, o rolo da terra. Quando o trabalho de tecelagem está pronto, os fios que o prendem são cortados, enquanto se pronuncia a mesma bênção feita pelas parteiras, ao cortar o cordão umbilical dos recém-nascidos.

Matéria prima da tecelagem, o fio, e por extensão os nós e laços, estão sempre presentes nos mitos e superstições e são utilizados na medicina popular, nos ritos, nas feitiçarias e como amuletos. Sendo ambivalentes, como todos os símbolos, os nós podem tanto provocar como evitar e curar as doenças, impedir ou facilitar o parto, trazer ou afastar a morte. Em algumas culturas, o homem não deve usar nenhum nó nos momentos críticos: nascimento, casamento e morte.

Outro símbolo que se interliga ao do fio da vida é o do labirinto. “O labirinto é concebido , às vezes, como um nó que deve ser desatado”.(ELIADE, 1991:114) “Em todos os lugares, o objetivo do homem é libertar-se das ‘amarras’: a iniciação mística do labirinto […] corresponde à iniciação filosófica, metafísica, cuja intenção é rasgar o véu da ignorância e libertar a alma das correntes da existência” (ELIADE, 1991:115)

Fiar, tecer, narrar, criar

“Às mulheres não foi dado durante séculos escrever. Elas traçavam sinais de criação usando linhas enfiadas em finos orifícios, em teares, manipulando pequenos instrumentos de fabricação caseira. Com isso, transfiguravam o mundo, escrevendo signos que substituíam as palavras.”(ALMEIDA, 2006)

No mito e na arte, a tecelagem pode aparecer como uma forma de narrativa. Em culturas de diversos lugares e épocas, os painéis e tapeçarias são, não somente ornamentos, mas também documentos, traduzindo, em imagens tecidas, fatos históricos, mitológicos ou cenas da vida cotidiana.

No mito de Aracne, o que suscita a ira da deusa Atená, além da arrogância daquela mortal, é o tema de sua tapeçaria, a narrativa das aventuras amorosas de Zeus. Atená castiga a sua rival fazendo com que ela se arrependa e de tão culpada, se enforque. Mas por piedade ou para que ela pagasse eternamente pela sua arrogância, Atená a transforma numa aranha.

Outro mito grego exemplifica a tecelagem como narrativa. É a história de Filomena, raptada e violada por seu cunhado Tereus. Ele lhe corta a língua para impedir que o delate e a tranca numa torre. Mesmo prisioneira, a moça consegue tecer sua história e faz com que a tapeçaria chegue às mãos de sua irmã que, compreendendo a mensagem, consegue encontrá-la e buscar justiça.

Ovídio narra, nas Metamorfoses, a história das filhas de Mínias, que eram devotas de Minerva (Atená) e que se recusam a participar dos cultos orgiásticos. Durante os festivais de Baco (Dioniso), continuam a tecer, enquanto contam histórias para se entreter e aliviar o trabalho pesado. Dessa forma, usam as atividades paralelas da tecelagem e da narrativa como uma forma de resistência, em defesa de sua liberdade de culto e opinião.

No simbolismo de algumas palavras, podemos observar a analogia entre as atividades de fiar e tecer e a narrativa. Nos Upanixades, a palavra sutra, que designa o fio que liga todos os seres, o mundo terreno e o espiritual, significa também os textos búdicos. Na Índia, shruti e smriti tanto significam urdidura e trama quanto os frutos das faculdades intuitiva e discursiva. Em chinês, o caractere composto de mi (fio grosso) e de king (curso d’água subterrâneo) designa tanto a urdidura do tecido quanto os livros essenciais; wei é ao mesmo tempo o comentário desses livros e a trama.

Em nosso idioma, também utilizamos, como vocabulário literário, termos que remetem ao ofício da tecelagem, como trama, enredo, texto, fio da narrativa. Ana Maria Machado utiliza esse simbolismo para descrever seus sentimentos durante o processo de criação: “Quando estou escrevendo alguma obra de ficção mais complexa, sempre fico assim, me sentindo muito ligada a tudo que está se criando na natureza em volta de mim. Além disso, a noção de que existe uma estrutura subjacente, um projeto inconsciente segundo o qual se ordena a criação, é uma velha obsessão de quem escreve. Nem chega a haver novidade alguma em associar essa força regente a elementos de tecelagem e tapeçaria.” (MACHADO, 2006)

Criação e individuação

Jung apontou, ao longo de sua obra, a importância das atividades expressivas para a objetivação das imagens oriundas do inconsciente (pessoal e coletivo). Para ele, os símbolos concretizados pelas imagens pintadas, desenhadas, esculpidas ou representadas de qualquer forma material, representavam a síntese entre a consciência e o inconsciente. E atribuía às mãos uma certa “autonomia”, pois segundo suas palavras, “há pessoas que nada vêem ou escutam dentro de si, mas suas mãos são capazes de dar expressão concreta aos conteúdos do inconsciente .”(JUNG, 1982:171) Por isso, ele valorizava o fazer criativo tanto no seu processo de individuação como no de seus pacientes.

Criar pode ser prazeroso, mas o ato da criação, assim como a gestação da idéia ou sentimento pode trazer dor e sofrimento. Mesmo quando esteticamente belas, nossas produções podem denunciar os aspectos mais sombrios de nossa alma.

Para criar, é preciso ter coragem, principalmente para destruir o que já é conhecido e organizado, para buscar novas configurações. No entanto, depois e enquanto fazemos um trabalho criativo, podemos, além de vivenciar o prazer e as dificuldades na sua realização, nos tornar mais conscientes de nosso funcionamento psíquico.

Quando não é utilizada adequadamente, a energia psíquica disponível para o desenvolvimento da consciência, para o processo de individuação, para a criação, pode se tornar veículo de sofrimento e destruição.

Na lenda irlandesa da Aveleira (DICTA E FRANÇOISE,1983: 154) _ que apresenta elementos semelhantes aos dos mitos de Aracne e de Ariadne _ o fio que simboliza o produto da atividade criativa, do investimento da energia psíquica, se transforma em instrumento de auto-destruição. Conta essa lenda que uma fada, guardiã de um tesouro escondido num bosque sagrado, apaixonou-se por um príncipe que nele se aventurou, entregando-lhe um fio mágico para que não se perdesse. Em troca, deveria se casar com ela.. Ele conseguiu executar sua tarefa com êxito, mas alegando que não poderia ter filhos com uma ninfa dos bosques, recusou-se a desposá-la. Magoada, ela se enforcou num arbusto que passou a dar frutos de ouro.

Quando a criatividade é utilizada de forma positiva pode ser, além de fonte de prazer, veículo de saúde. “Bordar e narrar têm um caráter curativo, ordenador. Ao bordar, ao contar e reinventar um novo traçado para a sua própria história é possível mudar esta história, reinventar um novo desenho.”(ALMEIDA, 2006)

O espaço analítico pode ser simbolizado pelo espaço de criação, da fiação e tecelagem e narrativa de memórias, onde a matéria–prima é a própria vida, sendo tecida e re-tecida dia-a-dia. Espaço de transformação dos modelos herdados em concepções inéditas e únicas.

Comentando a visita que fez ao Museu Freud, Ana Maria Machado diz como “foi comovente descobrir um tear montado no escritório de sua filha Anna, entre o divã e os livros. Os fios da narrativa que cura se teciam nesse ambiente, no alvorecer da presença feminina na psicanálise.” (MACHADO, 2006)

Foi através da imagem das fiandeiras que melhor pude, num momento da minha análise, expressar meus sentimentos sobre essa relação.

Fiandeiras

Um tênue fio nos liga
de segredos e esperanças
como um cordão que alimenta
e ameaça romper-se
a qualquer hora.

Fio de vida e de morte
um tênue fio das Moiras
construído passo a passo
de ilusões e memória.

Construtoras do destino
tecelãs de nossas vidas
fiamos juntas, sozinhas,
tecidos de eternidades.

Fiando às vezes silêncios
os fios se embaraçam,
dão nós e arrebentam…

E do Nada surgem, então,
como de mãos invisíveis,
lãs quentes, jutas rudes, sedas suaves…

E voltamos a tecer,
num trabalho incessante,
fiandeiras de nós mesmas,
tecidos de nossas almas.

Penélope e a moça tecelã

O trabalho contínuo de Penélope, tecendo e desfiando, dia e noite, sem completar sua tarefa, tem sido associado, às vezes, à rotina das tarefas domésticas femininas, que não leva a nenhuma realização pessoal, nenhum crescimento psíquico. No entanto, o mito mostra que esse trabalho repetitivo foi uma estratégia escolhida pela heroína, esperando o retorno do marido, numa tentativa de “parar o tempo”.

Podemos imaginar que Penélope tenha sido inspirada por Atená, já que era essa deusa que protegia o retorno de Odisseu (Ulisses). Porém, o padrão cíclico que estabeleceu, tal qual os ritmos da natureza, revela, mais do que uma tática racional, uma profunda conexão com sua essência feminina. A sua tão decantada fidelidade, é, acima da lealdade ao marido, uma fidelidade a si mesma, à manutenção da sua autonomia.

Quando entregou Penélope em casamento a Ulisses, Ikarios, que não queria separar-se da filha, seguiu o casal numa carruagem, implorando que ela voltasse. Ulisses deixou a Penélope a decisão entre segui-lo ou voltar com o pai. Para Carolyn Heilbrun, ao ter a opção de acompanhar ou não o marido destinado a ela, Penélope tem uma condição excepcional em sua cultura, o que vai se refletir nos seus movimentos de tecer e desfiar. “Ficou em casa, mas viajou a um lugar novo de experiência, e criou uma narrativa nova.”(MACHADO, 2006) Esta frase, referente a Penélope, serve também para resumir a história da personagem de A moça tecelã (COLASANTI, 1982).

O conto começa a partir da etapa de inteireza, auto-suficiência e conexão com a natureza em que vive a personagem. Do controle total sobre sua vida e sua criação, passa à descoberta da incompletude e solidão, à busca do companheiro, à fantasia da maternidade. Ela, que fiava livremente todos os seus sonhos, se torna prisioneira dos desejos do homem criado pela sua própria fantasia. Exigindo que ela teça sem cessar, ele não permite que sua obra continue sendo uma fonte de prazer e o resultado da sua liberdade de escolha e criatividade. Felizmente, ele não pôde impedi-la de manter sob seu controle o tear, prolongamento de suas mãos e de sua alma. Aparentemente, ela está dominada pelo animus, mas se mantém em contato com a fonte de sua criatividade.

Do mesmo modo que os símbolos do inconsciente, que parecem eclodir num “passe de mágica”, a jovem tecelã desperta do torpor em que se encontrava e descobre o caminho de volta. O fio que desmancha é como o do novelo de Ariadne, mostrando a saída do labirinto. Retoma o controle de sua obra e de sua vida. Desfaz o que teceu e chega de novo ao ponto de partida, porém transformada.

Penélope e a moça tecelã, ao tecer e desfiar a seu próprio gosto, mantendo, sob a forma de fio no tear, o controle de suas vidas, estão conectadas com sua verdadeira natureza. A natureza Feminina representada pela Grande Mãe primordial, detentora dos poderes de criação e destruição, de morte e vida. Senhora do Destino.

Respondem, através da fiação e da tecelagem, o enigma proposto a Artur, que atravessa os séculos, como um grande segredo a ser revelado para os homens: “Sabe o que realmente quer a mulher? Ela quer ser senhora de sua própria vida!” (JOHNSON, 1991:98)

A vivência do arquétipo da Grande Mãe como Tecelã do Destino é extremamente importante para homens e mulheres. Por seu duplo aspecto, positivo e negativo, tanto pode estimular a enfrentar as dificuldades como impedir de lutar pela realização de desejos e necessidades.

Se o Destino for vivenciado como promissor, pode estimular o investimento de energia para alcançar as metas, mas, se for vivenciado como vazio ou trágico, pode levar à desistência e ao fracasso. Em contraposição a esse aspecto de fatalidade, o Destino pode ser vivenciado como resultado das escolhas que vão sendo tomadas ao longo da Vida, do potencial de responsabilidade que se tiver realizado.

Cada um de nós pode, sem afrontar a Grande Tecelã, tomar nas mãos seu pequeno tear individual e fiar, tecer, narrar, criar sua própria história.

REFERÊNCIAS�
ALMEIDA, L. Genealogias femininas in JARDIM, Rachel. O penhoar chinês.
Disponível em: http://www.ucm.es/info/especulo/numero24/genealog.htm.
Acessado em 27/06/2006 �
BRANDÃO, J. Mitologia grega. Vol.1. Petrópolis: Vozes, 1991
COLASANTI, M. Doze reis e a moça no labirinto de vento. Rio de Janeiro: Nórdica, 1982.
DICTA e FRANÇOISE. Mitos e tarôs – a viagem do mago. São Paulo: Pensamento, 1983.
ELIADE, M. Imagens e símbolos. São Paulo: Martins Fontes, 1991
FRANZ, M.L. Mitos de criação. São Paulo: Paulus, 2003.
JOHNSON, R. A. Feminilidade perdida e reconquistada. São Paulo: Mercuryo, 1991
JUNG, C.G. A natureza da psique. O. C. v. VIII /2. Petrópolis: Vozes, 1982.
MACHADO, A. M. O tao da teia –sobre textos e têxteis
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Autora: Celia Gago
Psicóloga clínica (CRP 05/959) Arteterapeuta
Pós-graduada em Teoria e prática junguiana (UVA)
Licenciada em História da Arte
e-mail: celiagago@gmail.com

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