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Imagem: Angelo Musgo

FONTE: KELEMAN, S. MITO & CORPO: UMA CONVERSA COM JOSEPH CAMPBELL. TRADUÇÃO: BOLANHO, D. M. EDITORA: SUMMUS EDITORIAL, 1999.

Existem lugares solitários onde podemos esconder nossas assombrações com aquela sensação de inviolabilidade que apenas os loucos conseguem construir. Esses lugares solitários costumam a nos seduzir com seu conforto e ao mesmo tempo nos prender como quando se cai em uma armadilha.

 Eu sei que você já deve ter estado nesses lugares solitários por muitos e muitos anos. Tem gente que nunca saiu de seus labirintos simplesmente porque nem consegue imaginar que existe algo fora desse espaço privado e confortável, onde nossa mente pode se isolar do mundo exterior como se fossemos apartados, cindidos, separados.

A ilusão do quarto privado nos diz que nossa mente está em nosso corpo, como alguém está sozinho em um quarto. Protegidos por grossas paredes e uma porta trancada com cadeado. É como se esse alguém, nesse lugar solitário e confortável, olhasse o mundo à distância pelas janelas desse quarto.

As paredes do quarto são nossos ossos, nossos músculos, nossa pele, nossas fronteiras. As janelas são nossos sentidos e o solitário dentro daquela sala vazia é cada um de nós.

Essa imagem, moderna, derivada de um conjunto bem articulado de teorias e concepções sobre o mundo e a alma humana, que derivam de Descartes, Locke, Leibniz e até Shakespeare, nos presenteou com a segurança de nossa solidão e com uma curiosa alucinação de onipotência mental.

O dualismo corpo-mente nos presenteou com a terra devastada. Com a impressão de que temos um corpo como quem tem uma moeda no bolso. O esquecimento do corpo é um tópico bem estudado na filosofia contemporânea. Nossa impressão de deslocamento, nossas sensação de exílio, a ideia de uma prisão física para uma alma imortal (que remonta as antigas seitas órficas e ao gnosticismo cristão dos primeiros séculos) nos ofertou um mote forte para o abandono do corpo, com a desconcertante impressão de que não estamos comprometidos com esse mundo e que o corpo, como parte da história biológica da terra, é apenas um invólucro provisório de nossa essência, uma capa protetora para um Eu intangível que se esconde por trás de suas paredes.

Joseph Campbell percebeu essa síndrome moderna e chamou o estado de nossa corporeidade contemporânea de terra devastada. Quando Stanley Keleman, coordenador do Centro para estudos energéticos em Berkeley, Califórnia, encontrou-se com Campbell e em sua parceria, entabulou uma longa conversa sobre corporeidade e mito, um caminho de escape da terra devasta começou a ser pensado.

A ideia é que os mitos são criados não em função da mente, mas sim em resposta a determinadas sugestões do corpo é o fio de Ariadne de nosso quarto privado. Como um sonho coletivo, o mito nos apresenta uma chave para compreendermos a relação com nossos corpos e para que possamos abandonar o estado de alienação em que nos encontramos diante do fluxo biológico da terra e reencontrar um lugar menos solitário para se estar nesse mundo.

O mito de Parsifal e do Graal é o mote do livro de Keleman em suas conversas com Campbell (Mito e corpo: uma conversa com Joseph Campbell – Summus Editorial). A conexão de nosso Self com nosso corpo ancestral, um corpo coletivo que remota a tempos onde a memória das vidas individuais e particulares não pode chegar é expressa através da narrativa mítica. O mais interessante das intuições de Campbell a partir da história de Parsifal e da busca pelo Graal é que nossas vidas privadas, a história de nossas individualidades e de nossas experiências pessoais não podem ser contadas sem o apelo a uma narrativa, a uma trama que une diversos personagens que se sucedem e que aparecem marcados em nossos corpos, na infância, na adolescência, na juventude, na vida adulta, na velhice…  Arthur Schopenhauer explicou isso uma vez dizendo: “o mundo é como um sonho sonhado por um único sonhador, no qual todos os personagens estão sonhando também. Eles estão sonhando suas vidas e tudo se coordena em uma harmonia misteriosa”.

Existem muitos personagens corporais em nossas histórias. Existe o velho sábio, o jovem guerreiro, a grande mãe. Existem nossos próprios personagens pessoais que misteriosamente se conectam aos personagens dos mitos que compõe nossa experiência coletiva. Macunaíma, Beowulf, Parsifal, Gilgamesh… não importam os nomes, suas narrativas se fundem com as nossas e suas histórias nos apresentam a chave para nos livrarmos do confortável e vazio lugar solitário de nossa própria mente. Para que possamos reaprender a ser nosso corpo e semear novamente nossa terra devastada com algum tipo novo e revigorante de esperança.

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110901_jacci_yoga_097-2Imagem:  Google.

Autor: Artur Thiago Scarpato**

 

A relação entre anatomia e subjetividade é um tema básico da Psicologia Formativa de Stanley Keleman. Este autor estuda as formas somáticas, que são as constantes transformações morfológicas e anatômicas do corpo que se produzem ao longo da existência acompanhado pelas transformações psicológicas. Na concepção kelemaniana a vida é um processo constante de construção de formas somáticas, desde o processo embriológico na formação do ser humano até o final da vida. Essas transformações não são guiadas apenas por um programa já dado geneticamente, mas as formas somáticas refletem a própria produção da existência, com todos os seus acontecimentos, encontros e relacionamentos.

“O estudo da forma humana revela sua história genética e emocional. A forma reflete a natureza dos desafios individuais e como eles afetam o organismo humano….a postura ereta é acompanhada de uma história emocional de vínculos parentais e separações, proximidade e distanciamento, aceitação e rejeição. Uma pessoa pode incorporar a densidade compacta que reflete desafio ou um peito murcho que expressa vergonha. A anatomia humana é, assim, mais do que uma configuração bioquímica; é uma morfologia emocional. Formas anatômicas produzem um conjunto correspondente de sentimentos humanos”. (Keleman, 1992 p.72)

Keleman deixa de lado os modelos clássicos do aparelho psíquico e parte em busca da experiência encarnada, o corpo sendo criado e criando existência, sendo produzido e se produzindo e o psiquismo como uma parte deste processo somático-existencial.

Na visão kelemaniana, o psiquismo é uma função do corpo, o corpo sente, o corpo pensa, o corpo imagina, o corpo sonha. Nesta concepção, a anatomia e o psiquismo estão absolutamente enredados. Keleman propõe uma anatomia emocional, cognitiva, existencial. O psiquismo está estruturado a partir da organização morfológica do corpo todo e não apenas restrito ao cérebro ou a algum espírito imaterial.

Os estados subjetivos – sentimentos, pensamentos, estados de consciência – são estados do corpo. Como diz Keleman: “todas as sensações, todas as emoções, todos os pensamentos são, de fato, padrões organizados de movimento”.(Keleman, 1995, p 17).

O corpo cria imagens e símbolos de si e do mundo e assim se torna capaz de dialogar consigo mesmo e com os outros. Estas imagens são geradas no córtex cerebral a partir de um diálogo das diferentes camadas somáticas.

O diálogo do corpo consigo mesmo permite ativar um processo de auto-gerenciamento, onde é possível identificar, compreender e modular as formas somáticas, dialogando com os efeitos somáticos das experiências vividas, num modo de participar ativamente da construção da própria existência.

Keleman propõe a Metodologia dos Cinco Passos, processo onde pretende-se influenciar as atitudes, comportamentos e estados internos através da ação modulatória sobre a organização das formas somáticas. Este trabalho está focado na identificação do “como” um determinado comportamento é organizado somaticamente.

Ajuda-se o cliente primeiro a identificar o que ele faz, qual a imagem da situação (passo 1), depois a identificar como ele faz isto através de suas organizações somáticas, intensificando volitivamente com a ajuda da musculatura estriada, discriminando os afetos, estados cognitivos e esboços motores de ação organizados (passo 2). Depois começa-se a desintensificar e desorganizar as formas previamente intensificadas (passo 3) e a observar e receber de volta os efeitos desta desorganização – imagens, sentimentos, lembranças, etc. (passo 4). A partir daí pode-se reconhecer as formas que emergem como diferenciações sobre as formas anteriores (passo 5) ou então retorna-se aos padrões anteriores.

Através deste método de trabalho, atuando diretamente sobre as formas somáticas – organizadoras da experiência subjetiva – procura-se reorganizar comportamentos, atitudes e modos de ser e ensinar uma participação volitiva do sujeito em seu processo de vida, pelo aprendizado das regras da produção somática de existência.

A clínica formativa realiza uma cartografia das formas somáticas de uma pessoa para compreender e atuar sobre:

Os efeitos dos acontecimentos no sujeito.

Os modos habituais de lidar com estes efeitos e a cristalização somática da história de vida em formas estereotipadas, em modos fixos de lidar com as situações, em atitudes padrões.

O estabelecimento de um autodiálogo construtivo, de uma participação volitiva para o restabelecimento do processo formativo.

A partir do reconhecimento de como a pessoa está organizando somaticamente a sua experiência, ela poderá aprender a desorganizar e reorganizar estes modos. Fazer mais e fazer menos constituem um caminho para desorganizar padrões de ação estereotipados, abrindo a possibilidade para a emergência de sensações, sentimentos e novos padrões de ação. A pessoa pode então investir volitivamente neste processo, reconhecendo padrões, desorganizando formas e investindo em formas somáticas emergentes, na intenção de criar e estabilizar novos padrões de ação.

No processo clínico formativo, assim como no trabalho diário de cada um consigo mesmo, opera-se um manejo constante com as formas somáticas utilizando-se a Metodologia dos Cinco Passos.

Cada configuração de forma somática está relacionada a diferentes experiências subjetivas. O pensamento formativo oferece uma importante ferramenta para podermos participar ativamente deste processo, dialogando com os efeitos das experiências em nossos corpos, influindo em nossos comportamentos, aprendendo a navegar no devir.

 

BIBLIOGRAFIA:

Keleman, Stanley. Anatomia Emocional, Summus, São Paulo, 1992

Keleman, S. Corporificando a Experiência, Summus, São Paulo, 1995

Keleman, S. Amor e Vínculos, Summus, São Paulo, 1996

 

Notas:

* Artigo publicado na Revista Psicologia Brasil, ano 3 n 27, p 30-31, 2005.

 

**Autor: Artur Thiago Scarpato: Psicólogo clínico (PUC SP). Mestre em Psicologia Clínica (PUC SP). Possui quatro especializações na área de Psicologia: Especialização em Psicologia da Reabilitação pelo HC FMUSP, Especialização em Cinesiologia Psicológica pelo Instituto Sedes Sapientiae, Especialização em Teoria e Técnica Reichiana pelo Pulsar – Centro de Estudos Energéticos e Especialização em Educação Somática Existencial pelo Centro de Educação Somática Existencial. Trabalha em consultório particular com psicoterapia individual e de grupo. Autor de diversos artigos na área.

 

Retirado do site: http://www.psicoterapia.psc.br/scarpato/formacao.html

 

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Por Nara Trevizan


Neste artigo, trago uma proposta de pesquisa na interface entre a Arquitetura e a Psicologia dentro de uma abordagem reichiana, buscando obter diretrizes para aproximar a intervenção arquitetônica nos espaços residenciais às necessidades, desejos e traços de caráter de seus usuários.(…)

Esse assunto sempre me pareceu vasto e fascinante(…) já que todos nós habitamos “um lugar” e, porque nossa casa é um universo único, onde os significados tomam forma e são distribuídos obedecendo uma ordem que revela quem somos e como nos posicionamos nesse espaço que nos acolhe e protege.

O usuário quando se apropria de “seu lugar”, busca através de um conjunto de símbolos e signos, marcar este território imprimindo nele uma identidade própria. (…)

 Um método para auxiliar a identificar essa adequação cognitiva entre homem-ambiente pode ser a leitura reichiana do caráter da pessoa(…).

 (…)Segundo Reich (1995), caráter significa o modo de agir de uma pessoa. Inclui-se nesse modo de agir o tom de voz, postura, vestimenta, etc. Dessa forma, uma pessoa irá se relacionar com outras pessoas e objetos de acordo com os seus traços de caráter. O mesmo se diz a respeito de suas preferências na decoração de seus ambientes residenciais.

Caráter esquizóide
Têm como comportamento básico a esquiva e a racionalização. Geralmente, são pessoas frias, distantes, reservadas. Em relação às suas preferências pela decoração do ambiente onde vivem, percebem-se a busca por cores frias como o azul, lilás e branco com detalhes em cores puras ou ambientes monocromáticos. Quando houver o uso de estampas, percebe-se o gosto por desenhos geométricos e uma preferência por móveis em metal, ou madeira escura, pisos limpos e brilhantes, poucos móveis nos ambientes e iluminação sóbria, tudo isso, condizente com o ser traço de caráter, esquizóide. Uma residência com esse perfil é, geralmente, discreta e reservada, e poderá oscilar entre os estilos conservador e futurista passando pelo alternativo, desde que mantenha espaços bem compartimentados e definidos e com poucos móveis (estilo clean) para evitar muita “poluição” visual. É muito difícil ter muitos moradores nesta casa, no máximo, um casal com um ou dois filhos, onde sala de leitura e meditação são cómodos quase obrigatórios.

Caráter oral
São pessoas mais extrovertidas, amáveis e ótimas anfitriãs. Os moradores, cujo traço de caráter que predomina é o oral, preferem mais receber os amigos do que fazer uma visita. Sãs preferências por cores quentes para os detalhes decorativos como o ocre, laranja, bordo, estampas florais e fibras naturais deixam seus ambientes muito aconchegantes. Produzem ambientes que geralmente nos faz lembrar da infância, muito bem cuidados nos pequenos detalhes, mas que nem sempre, a ordem faz parte da rotina. É um local acolhedor, tranquilo e muito bonito em sua simplicidade, sendo a sala e cozinha, os locais mais movimentados da casa (se possível em espaços próximos ou integrados), com paredes em cores suaves e alegres, como o amarelo, bege, rosa.

Caráter obsessivo-compulsivo
São pessoas conservadoras e apegadas ao tradicional e com um gosto exacerbado pela ordem. Apresentam um gosto por uma casa organizada, prática e cheia de normas, onde tudo deve ser funcional e sóbrio, com uma decoração básica em móveis de madeira bem tradicionais, e cores sóbrias e neutras em todos os ambientes e uso do verde musgo, bordo ou azul nos detalhes da decoração onde a simetria é quase sempre valorizada. Num projeto arquitetônico, para essetipo de caráter, escritório, despensas, armários muito bem estudados em sua função e distribuição tem particular importância.

 Caráter masoquista
Têm como traço marcante em seu comportamento a ansiedade, sentimento de culpa e uma tendência ao desapego pelos bens materiais. Geralmente têm uma grande preocupação com o próximo. Não é difícil encontrar entre os moradores de uma casa alguém com esse perfil. Geralmente são profissionais da área médica, religiosa, educacional, social ou voluntário em alguma instituição. Apresentam preferência por ambientes bem despojados e integrados, muito colorido nos detalhes, com vasos de plantas e floreiras, cores claras e discretas, móveis de diversos estilos, fibras naturais que transmitem um aspecto muito acolhedor e amistoso. No projeto arquitetônico, o quarto de hóspedes e varandas fazem parte sem dúvida, da lista, se não de necessidades, pelo menos de desejos.

 Caráter fálico-narcisista
São pessoas alegres, agitadas, dinâmicas e cheias de movimento. São moradores que têm muito “jogo de cintura” para trabalhar com as mudanças constantes em suas vidas. São pessoas que não gostam de monotonia. Por este motivo, estão sempre trocando os móveis de lugar e fazendo reformas. Local para prática de esporte e malhacão é sempre bem vindo, assim como projetos arrojados e originais. Gostam de conforto e luxo, por isso trabalham muito para conseguir prosperar. Cuidam muito bem da casa, nunca a deixam deteriorada, bagunçada ou suja. São ótimos anfitriões e amigos fazendo que a sala de estar, de televisão e cozinha sejam os locais preferidos da casa. Tudo o que for relacionado a conforto e status será uma boa ideia nesse local, porque é o esperado passar uma vibração de sucesso, riqueza, solidez material, segurança e poder.

Caráter histérico
São pessoas alegres, falantes e inquietas com tendência a gostar de coisas diferentes, exóticas e chamativas como ambientes com espelhos, luzes, metais, brilho, cores fortes e vibrantes, texturas e materiais nobres. E por seus proprietários serem pessoas dinâmicas e inquietas, faz com que sempre estejam mudando algo na casa – pinturas, móveis ou pequenas reformas. No projeto arquitetônico, é importante prever espaços amplos ou multifuncionais, porque muitas festas e reuniões serão dadas nesta casa, fazendo que a sala de estar ou espaço social e banheiros sejam os locais mais valorizados da casa, assim como, armários ou locais especiais para guardar roupas, brinquedos , equipamentos e móveis componíveis e de fácil remanejamento.

Na Integra aqui!

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POR FELIPE SALLES XAVIER

Nosso corpo é uma ferramenta imaginal de contato com as emoções, com os elementos da natureza que o formam, com a alma e com a mente, repetindo a história de sua criação. Para uma explicação do corpo arquetípico foi utilizada questões da Cabala no plano expressivo da manifestação do arquétipo.

 

A palavra Cabala significa “Tradição”, ela é um sistema de compreensão do mundo místico judaico, onde se acreditava que seria possível entender Deus. Mas, com o passar dos anos a Cabala evolui como forma de compreensão da organização do esquema corporal da vida, sendo chamada também de a Árvore da Vida.

 

A árvore é um símbolo sagrado encontrado nas mais diversas culturas em diferentes épocas, ela faz parte do inconsciente coletivo. Segundo a psicóloga Angelita Scárdua, ela representa a estrutura do universo, seus galhos representam a conexão com as dimensões superiores e sagradas da existência humana, já as raízes simbolizam a ligação com os aspectos inferiores, primitivos e básicos e funcionais da vida. Seus frutos dão a ela atributos positivos do eterno.

 

Sempre damos significados a algo tentado explicar a nossa própria existência, e uma forma pela qual fazemos isso é na utilização da Metáfora Espacial, que é algo simples que nos auxilia a compreensão arquetípica dos símbolos. Ela se refere às dimensões físicas, “à cima”, “a baixo”, “esquerda” e “direita”, todos estes tem uma associação em diversas áreas inclusive com o corpo.

 

Quando falamos que estamos nos sentindo bem, felizes ou com outros sentimentos positivos dizemos que nos percebemos para “cima”, e quando estamos nos sentindo mal, tristes dizemos que nos sentimos para “baixo”. Podemos ver que sempre usamos os significados da metáfora espacial em nossas vidas.

 

Na religião, nos contos-de-fada, na mitologia podemos ver que associamos o sagrado, o divino, o espiritual, o bondoso, o superior e os deuses com o espaço geográfico do alto, e quando falamos de mal, desonesto, sujo, diabo ou seres maléficos e as perdas, ligamos a idéia do espaço geográfico do subterrâneo e inferior.

 

Com essa explicação torna-se mais fácil entender o sentido filosófico e existencial da Árvore da Vida no sentido cabalístico. Na parte superior da árvore cabalística localizada na cabeça vemos a Coroa e na parte inferior localizado nos pés e pernas vemos o Reino, o que simbolicamente demonstra a conexão do sagrado com o mundano. Há também na cabala a separação do lado esquerdo com a escuridão e impureza, e no lado direito temos a fonte da luz e da pureza.

 

Sempre associamos inconscientemente a parte esquerda do corpo com algo negativo, pois biologicamente e culturalmente não desenvolvemos este lado, evoluímos desenvolvendo o lado direito. O lado esquerdo mostra no esquema corporal o coração que é símbolo da emoção e também é o lado do inconsciente, pois é o lado menos trabalhado, e nele existem muitas emoções perdidas e não trabalhadas, por isso o associamos ao impuro e ao escuro, pois está mal resolvido e escondido. Também está associado à mãe.

 

Já o lado direito é naturalmente o lado mais desenvolvido na maioria das pessoas, é o lado do “trabalho” porque evoluímos utilizando essa parte do corpo, portanto é a zona do consciente, da luz, pois é o que conhecemos e temos a percepção mais avançada.

 

A luz é o símbolo típico do conhecimento em todas e quaisquer mitologias, contos-de-fada e religiões. Isso também é biológico, basta olhar para os tempos ancestrais, nesta época fazíamos tudo durante a parte clara do dia, porque era menos perigoso e nos permitia boa visão das coisas ao nosso redor, já à noite não tínhamos auxilio da luz para enxergar nada, existiam inimigos a espreita, feras e o desconhecido. Por isso damos a luz o símbolo do conhecimento e as trevas o significado de sombrio, perigo e maléfico. Também está associado ao pai.

 

A esquematização simbólica da Cabala se organizou de acordo com a experiência evolutiva humana. Segundo o livro Zohar (Esplendor) – um livro místico judaico – ensina que a alma humana se divide em três elementos básicos o Nefesh que se associa aos instintos desejos corporais e é a parte inferior e animal da alma. O Ru’ach é associado às virtudes morais e a habilidade de distinguir o bem e o mal, é a parte mediana do espírito. E o Neshamah é a parte que nos separa claramente das outras formas de vida, relaciona-se com o intelecto, permite que o individuo tenha consciência de Deus.

 

E com Raaya Meheimna – um livro posterior ao Zohar – ainda incluem mais dois níveis. O Chayyah que nos permite ter a percepção do divino e o Yehidah que possibilita ao homem a união máxima com Deus, é a parte mais superior da alma. Isso deixa mais clara a árvore cabalística na Metáfora Espacial.

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Katie BjÖrn – Amorfa – Oil painted, 1998.

 

 

Por Celso Barreto

 

Existem muitos pioneiros no trabalho da somaterapia, Freud, Sandor Ferenczi, Adler, Reich, Jung e outros.

O objetivo deste ensaio é apresentar C.G.JUNG como um dos pioneiros a abrir caminhos em uma abordagem de Integração “corpomente”, apesar de ainda em nossos dias, o ambiente acadêmico persistir com preconceitos para desenvolver esta abordagem.

Tenho informações que alguns profissionais da Psicologia Analitica já estão desenvolvendo este trabalho em forma de vivências, utilizando a fundamentação junguiana para a Integração Psicofísica.

Para iniciar a apresentação deste trabalho escolhi algumas falas de Jung proferidas em alguns seminários que esboçam a idéia corpomente segundo suas observações.

Relacionamento consciente – inconsciente – corpo

“A consciência é produto da percepção e orientação no mundo externo que provavelmente se localiza no cérebro e sua origem seria ectodérmica. No tempo de nossos ancestrais a consciência derivaria de um relacionamento sensorial da pele com o mundo externo. É bem possível que a consciência derivada dessa localização cerebral retenha tais qualidades de sensação e orientação”(Par.14 – Fund.Psic.Anal.Jung).

Obs: Tanto a pele quanto o sistema nervoso originam-se da ectoderme e também criam os órgãos dos sentidos: olfato; paladar; audição; visão; tato; ou seja , tudo o que acontece fora do organismo. Portanto o SN é uma parte escondida da pele, ou ao contrário, a pele pode ser considerada como a porção externa do SN.

“Nossos conteúdos inconscientes são potencialidades que podem vir a ser, mas que não são, porque não tem definição. Somente quando se tornam definidas elas podem aparecer. Nada é definido no inconsciente, enquanto algo estiver no inconsciente, nada pode ser dito sobre ele. Definição aparece quando a matéria aparece. De acordo com a filosofia Tântrica, a matéria é a definição do pensamento divino, o pensamento criador. Porém isto é meramente uma projeção psicológica, pois enquanto o pensamento de alguém não atingir um corpo, ele não é definido. Dar corpo aos pensamentos significa que se pode falar a respeito dos mesmos, pintá-los, mostrá-los, fazê-los aparecer claramente aos olhos do mundo.

Até mesmo certas doenças do corpo podem trazer o caráter da idéia, talvez representem a idéia de alguma coisa que simplesmente não pode ser engolida. Uma coisa que não pode ser aceita é representada por um espasmo da garganta, por exemplo, e pode ir tão longe que a pessoa pode não conseguir comer.

Então, tais idéias suspensas podem se expressar facilmente no corpo; em certos problemas de pele, perturbações do sistema nervoso periférico, talvez com anestesia, problemas de estomago e intestino, ou seja , diarréia ou constipação. As pessoas que não querem deixar algo ir embora podem produzir uma extraordinária constipação. Existem muitas coisas engraçadas a esse respeito, quase cômicas, tão óbvias que quase não se acredita, pois somos pouco inclinados a acreditar nas coisas óbvias, sempre achamos que a verdade precisa ser muito complicada, muito sutil. Se alguem fala algo muito simples, todo mundo pensa que não é verdade”

( Pgs.136,137 Assim Falou Zarathustra, Jung).

Exemplificando este texto de Jung, recebo sempre em meu consultório pessoas que persistem em não acreditar que as reações físicas que estão tendo, estão diretamente ligadas a sua vida psíquica, pois parece simples demais que tal situação ocorrida em sua vida possa estar afetando-o desta maneira. O que facilita meu trabalho é que estas pessoas geralmente já passaram pela mão de diversos especialistas da área da medicina e também já fizeram todos os exames necessários para diagnosticar que fisicamente eles não tem disfunção alguma do órgão ou parte afetada, receberam apoio medicamentoso e foram encaminhados para um psicólogo.

Apresentarei em seguida como Jung abordou a situação citada acima com um de seus clientes e depois como vejo a evolução deste trabalho nos tempos atuais para quem associa outras técnicas de apoio para auxiliar seus clientes a entrar em contato consigo próprio e sua vida interior(psique).

“Certa vez tratei um caso assim; o homem ficou reduzido a um esqueleto. Podia somente engolir duas xícaras de leite por dia, e para cada xícara necessitava duas horas, e toda vez que tomava um gole um pouco maior ele simplesmente recusava – precisava tomar aos golinhos. Ficava tão cansado que temia morrer. Ninguém sabia o que fazer, e então esse pobre homem acabou indo a uma feiticeira. Vejam, eu fui chamado como último recurso, quando o homem estava praticamente morto. Eu sou tão extremamente não científico, que posso curar um tal caso. Quando tal homem caiu eventualmente em minhas mãos eu perguntei sobre seus sonhos. Logicamente, eu sabia que ele não podia engolir alguma coisa, e naturalmente tinha as maiores resistências para chegar lá, mas seus sonhos me conduziram.

Sua noiva era representada como uma espécie de prostituta em seus sonhos, então eu lhe disse para ir para casa e perguntar a um amigo o que pensava da moça. E o primeiro homem para quem perguntou disse-lhe; “É claro todo mundo sabe, ela é simplesmente uma moça fácil”Ela havia tido relações sexuais com dois outros homens enquanto era sua noiva. Isto era o que ele não queria saber, estava convencido de que ela era a mais pura das virgens, vinda das melhores famílias. Bem depois de uma semana que ele se fora, recebi uma carta sua, bastante amarga dizendo: “Eu posso comer agora! o senhor tinha razão. tive de desistir do relacionamento. Penso que estou curado. Atenciosamente” Podia se ver sua emoção; ele não gostou da idéia, mas é o preço para nos curarmos”(Pags.136, Assim falou Zarathustra, Jung).

Este caso deixa muito claro o relacionamento consciente-inconsciente-corpo, mas nem sempre a evolução do caso chega ao término com resultados positivos , muitas vezes a pessoa faz a integração entre essas partes, mas não consegue alterar muito suas reações físicas, como se o corpo tivesse incorporado a nova forma de funcionar ou seja o desenvolvimento de complexos psiquicos resultará também em uma reaprendizagem corporal, seja de movimentos ou de funcionamento. É necessário utilizar-se também do auto conhecimento físico para que a pessoa sinta-se mais solta e mais leve.

Trabalhei com um homem que relatou ter vários problemas de contusão de ombro e pescoço, investiguei sua história de vida e o mesmo falou ser o filho mais velho, que teve de ajudar a todos da família, é extremamente religioso e fiel as leis de sua crença, casou-se e por vários motivos separou-se da mulher, encontrou outra mulher e vive com ela a anos e não consegue regularizar a situação com ela , porque casamento na igreja é uma vez só, então ele feriu as leis de Deus e vive sofrendo por isso. Trabalha em uma empresa onde é chefe de uma seção com muitos funcionários, sua responsabilidade e dever é de tanto peso, que chega a executar as tarefas dos funcionários com receio de que eles não a executem e isto venha a compremeter sua imagem de responsabilidade. Quando ele trazia suas dores para a terapia, eu pedia que exemplificasse por qual situações de stress ele havia passado naquela semana e de como ele reagia fisicamente. Ex; estava dirigindo e alguém falou algo que o desagradou, agarrou o volante com muita força e dirigiu assim durante um bom tempo, na sua mesa de trabalho recebe telefonemas de vários departamentos e agarra o telefone com muita força. Estas associações foram trazendo a consciência do paciente os aspectos de sua rigidez, de como ele agarrou todas as leis que eram apresentadas para ele com todas as suas forças psiquicas e físicas, mas isto não fez com que soltasse seu ombro. Começou a trabalhar com o que já havia conquistado em análise, houve um alívio do sofrimento que tinha imposto a sua alma, mas seu ombro continuava doendo. Iniciei trabalhos corporais com ele com o objetivo de mobilizar maior relaxamento muscular e passei exercícios para que ele fizesse todo dia, exercício que consistia em apertar o ombro o máximo possível e ir ganhando consciência dele ao soltá-lo lentamente. Em poucos dias ele trouxe um sonho (sic) “sonhei que saía de meu ombro um bicho branco em forma de lagarta, eu fiquei muito assustado, mas depois desse sonho não tive mais dores”

O paciente se reorganizou no trabalho delegando funções e responsabilidade a seus funcionários e confiando mais , casou-se com a mulher que morava com ele e deixou o tratamento.

Ao falar aqui sobre complexos acho necessário trazer um parágrafo de Jung sobre o assunto.

“…provavelmente os senhores já observaram que, ao me fazerem perguntas difíceis, não consigo responde-las imediatamente porque o assunto é importante, e o meu tempo de reação, muito longo. Começo a gaguejar e a memória não fornece o material desejado. Tais distúrbios são devidos a complexos – mesmo que o assunto tratado não se refira a um complexo meu.. Trata-se simplesmente de um assunto importante, tudo o que é acentuadamente sentido torna-se difícil de ser abordado, porque esses conteúdos encontram-se, de uma forma ou de outra, ligados com reações fisiológicas, com processos cardíacos, com o tônus dos vasos sanguíneos, a condição dos intestinos, a inervação da pele, a respiração. Quando houver um tônus alto, será como se esse complexo particular tivesse um corpo próprio e até certo ponto localizado em meu corpo, o que o tornará incontrolável por estar arraigado, acabando por irritar meus nervos. Aquilo que é dotado de pouco tônus e pouco valor emocional pode facilmente ser posto de lado porque não tem raízes. Não é aderente”(Parágrafo 148, Fundamentos da Psicologia Analítica, Jung).

Jung e sua leitura corporal

Ao aplicar o teste de associação de palavras, Jung comenta as características da respiração de uma pessoa durante a aplicação; ele observa as nuances de alteração do ritmo respiratório que sugerem a diferença de reação do indivíduo frente a complexos conscientes e inconscientes.

“Os presente diagramas ilustram muito bem as diferenças de reações entre os complexos consciente e os inconscientes. Em C, por exemplo, o complexo é consciente. A palavra estímulo atinge a pessoa causando uma inspiração profunda. Mas, quando atinge um complexo inconsciente, o volume da respiração é restrito, como se pode ver em D, I. Há um espasmo do tórax, quase não havendo respiração. Dessa forma prova-se empiricamente a diferença fisiológica entre reação consciente e outra inconsciente” (Parágrafo 134, Fundamentos da Psicologia Analítica, Jung).

Esses níveis de respiração são muito comuns em nosso trabalho diário, e a forma de trabalhar com isso tradicionalmente é auxiliar a pessoa a descobrir os valores simbólicos de sua vida psíquica, hoje além da palavra, podemos utilizar também do auto-reconhecimento corporal associado a situação complexa. É uma forma de encontrar outros caminhos para encontrar com o inconsciente (quando percebo ou torno consciente minha respiração contida, associo também o momento e situação do ocorrido identificando melhor minhas reações, isto é não somente no nível do pensamento, mas também em meu corpo).

Como Jung exemplificou no texto inicial deste ensaio “nossos conteúdos inconscientes são potencialidades que podem vir a ser, mas que não são, porque não tem definição”

Outra leitura corporal de Jung

“Se prestarmos bastante atenção em um homem que trabalha com as percepções sensoriais, veremos que as linhas de direção de seus olhos têm a tendência de convergir, de encontrar-se num determinado ponto, ao mesmo tempo, a expressão ou o olhar da pessoa intuitiva apenas cobre a superfície das coisas. Ela não olha fixamente, mas globaliza os objetos num todo, e entre as muitas coisas que percebe, estabelece um ponto na periferia do campo e visão, e isto constitui o pressentimento.

Com bastante segurança é possível dizer a partir dos olhos de uma determinada pessoa, se ela é intuitiva ou não. É inerente ao caráter do intuitivo o não prender-se à observação de detalhes, ele sempre busca apreender a totalidade da situação e então, repentinamente, qualquer coisa emerge dessa globalização. (parágro 30, Fund.Psicologia Analítica, Jung).

Mais uma vez, Jung nos mostra a amplitude de suas observações, nunca separando, sempre associando um ponto ao outro e criando integrações psicofísicas. De uma forma simples ele mostra como identificamos um tipo psicológico através dos movimentos dos olhos.

Pretendo aqui encerrar esse trabalho dizendo que o material apresentado, acho ser suficiente para esclarecer a Integração Psicofísica de C.G.Jung, mas existe muito material deste mesmo conteúdo em toda a sua vasta obra e abrange diversos níveis de entendimento.

Como ele mesmo diria “Todo psicoterapeuta não só tem seu método; ele próprio é esse método” o que indica as milhares de possibilidades de tratamento e cada um desenvolve a sua forma, baseando-se em fundamentação da Psicologia Analítica.

Celso Barreto
Psicólogo CRP 08/04493

Bibliografia para maiores Informações:

– A prática da Psicoterapia, C.G.Jung, Ed.Vozes
– Fundamentos da Psicologia Analítica, C.G.Jung, Ed.Vozes
– Seminários sobre: Assim Falou Zarathustra, C.G.Jung, Clube Psicólogico de Zurique. 

 

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homem-colorido

Por Sonia Regina Lyra

 

Nos Seminários que JUNG escreveu sobre NIETZSCHE, Jung nos propõe um modelo de extrema importância. Os Seminários foram dados no período de 1934 a 1939. Nesta época ainda não estava suficientemente desenvolvido o conceito de sincronicidade o que fez com que Jung não adentrasse o bastante a questão do Corpo Sutil vindo a designá-lo simplesmente como “inconsciente somático” para diferenciá-lo do inconsciente psíquico.

 

Quando trata do corpo nas Obras Completas, por exemplo, tratando-se de sonhos ou de alquimia, esse normalmente é visto como símbolo de uma realidade psíquica ou de um complexo. Jung estava porém, completamente cônscio de quão difíceis são as questões levantadas a partir do corpo, o que aparece claramente em seus Seminários sobre Nietzsche, onde foi obrigado a ocupar-se mais profundamente desta questão uma vez que para Nietzsche, o Si-mesmo podia ser vislumbrado no corpo; podendo inclusive aparecer como uma identificação entre o Si-mesmo e o corpo.

 

O modelo aqui proposto por Jung, de modo muito sintético, afirma que existe uma ligação entre consciência e inconsciente, que de um lado conduz ao reino puramente espiritual e de outro, ao corpo e à matéria. Usa para este modelo o espectro apontando em duas direções opostas: os instintos e os arquétipos, cabendo ao instinto o infra-vermelho e ao arquétipo o ultra-violeta, compondo assim o que denominou de arquétipo psicóide. Se é visto como ultra-violeta, se vai em direção ao espírito, vem a ser inconsciente psíquico; se é visto como infra-vermelho, se vai em direção à matéria, vem a ser inconsciente somático. Jung diz:

 

“You see, when we speak of the unconscious we mean the psychological unconsciuos, which is a possible concept; we are then dealing with certais factors in the unconscious which we really can understand and discriminate. But the part of the unconscious which is designated as the subtle body becomes more and more identical with the functioning of the body, and therefore it grows darker and darker and ends in the utter darkness of matter; that aspect of the unconscious is exceedingly incomprehensible. I only mentioned it because in dealing with Nietzsche’s concept of the self, one has to include a body, so one must include not only the shadow – the psychological unconscious – but also the physiological unconsious, the so-called somatic unconscious which is the subtil body”. Lecture VIII, 1935.

 

Em suas Obras completas Jung geralmente traz como correlatos a imaginação e o inconsciente psíquico. Assim a Terra, por exemplo,  pode aparecer como símbolo do arquétipo materno; enquanto nos Seminários, Jung a propõe como a própria realidade da matéria, como corpo. Com isto, Jung está afirmando que o Si-mesmo é tanto corpo quanto psique, e que, o corpo lhe é apenas uma manifestação exterior. A alma surge então como “a vida do corpo”; se não pode viver em seu próprio corpo, o Si-mesmo, por assim dizer, rebela-se ou revela-se, atuando através dos sintomas.

 

Ao tratar o corpo como dimensão do Si-mesmo, Jung não está fazendo referência apenas à modalidade fisicamente experimentada, como ocorre atualmente no mundo moderno. Diz-se que há uma dedicação abusiva com relação ao corpo e todo tipo de exercícios e cremes para mantê-lo, conservá-lo. Não se trata disto. Trata-se do “corpo sutil” ou seja, do sintoma como símbolo; do somático como lugar de revelação do psíquico, porque o corpo e a psique são dois aspectos de uma mesma realidade.

 

O “ver”, é considerado semelhante àquilo descrito por Carlos Castañeda em seu encontro com Dom Juan. Trata-se de um ver imaginário mas simultaneamente, corpóreo, no sentido de ser experimentado em uma relação muito estreita com o corpo. Trata-se da distinção que os alquimistas faziam entre “imaginatio vera” e “fantástica”. Em alquimia esta “imaginatio vera” era de suma importância para levar a opus à termo.

 

Sonia Regina Lyra

Crp 08/0745

Junho de 2005.

 

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frida_kahlo_the_love_embrace_of_the_universe_1949 

 Por Marfiza Ramalho Reis

 

Em cada silêncio do corpo identifica-se

a linha do sentido universal

que a forma breve e transitiva imprime

a solene marca dos deuses

e do sonho.

                 Carlos Drummond de Andrade

 

Palavras-chave: corpo, psique, sincronicidade, arquétipo, auto-imagem.

Para além da importância de um suporte teórico e técnico, estamos sempre nos defrontando com os mistérios da relação analítica; os tantos momentos em que sentimos a insuficiência da nossa formação técnica e teórica para compreender os símbolos daquela relação.  Intentando compreender  o relacionamento “unido” entre analista e paciente, condição primeira para que se desenvolva  o processo, Von Franz (1980) constata a existência da sympathia, nesse relacionamento, referindo-se ao fato de duas pessoas partilharem juntas a mais variada gama de emoções, participarem da mesma experiência.  No entanto, embora afirme a sympathia, admite a impossibilidade de explicá-la, já que esta constitui o mistério do encontro em que a discrição se impõe, como ocorre em qualquer outra relação de amor.

 

Essa experiência compartilhada nos diz que representamos a figura de transferência muito mais por gestos, mímicas ou timbre de voz do que pelo que falamos.  Jung afirmou que “o horizonte da alma vai muito além do consultório” e que só podemos ajudar um paciente a compreender-se como um indivíduo, se pudermos, na condição de  analistas, estabelecer o confronto com as idéias coletivas – a psique objetiva.

 

Meu interesse – despertado pelo meu processo analítico e a calatonia  (Sandor, 1974) – está voltado para essas duas vertentes:  a arquetípica e a corporal.  Minha preocupação orienta-se no sentido de perceber melhor a “vivência intuitiva da unicidade” (Von Franz, 1980), o ponto em que matéria e psique encontram-se, pois como mostrou Jung (1917), são dois aspectos de uma mesma realidade. 

 

A relação sincronística entre o corpo e o universo 

Jung (1904), investigando as relações entre psicologia e fisiologia, usou galvanômetros para medir as respostas corporais durante testes de associações.  Mostrou com isso que as reações da pele mudavam, quando complexos estavam presentes.  Ele teorizou sobre as relações mente/corpo, interpretou sonhos fisiologicamente e estudou  o significado da kundalini Yoga.  Talvez o mais importante conceito de Jung sobre essa relação tenha sido sua idéia de sincronicidade — um princípio de relações acausais. 

 

Como a psique e a matéria estão encerradas em um só e mesmo mundo, e além disso se acham permanentemente em contato entre si, e em última análise, se assentam em fatores transcendentes e  irrepresentáveis, há não só a possibilidade, mas até mesmo uma certa probabilidade de que a matéria e a psique sejam dois aspectos diferentes de uma só e mesma coisa.  Os fenômenos da sincronicidade, ao que me parece, apontam nessa direção. (Jung,1917: .220)

 

 

Os fenômenos sincronísticos demonstraram, como mostra Jaffé (1982), que o ser se baseia numa essência até agora desconhecida, que é tanto material como psíquica.  Não sendo, portanto, antagonismos irreconciliáveis o mundo exterior e o interior, o espiritual e o físico, mas aspectos do fundo psicóide da realidade em que ambos se baseiam.  Esse modelo do universo remete-nos à visão intuitiva do mundo da alquimia, à idéia do unus mundus.

 

A relação sincronística entre o corpo e o universo aparece nas teorias orientais, como um mapa do universo.  O ser humano é um espelho do campo à sua volta, e a estrutura desse campo é dada pela constelação de planetas ou arquétipos do tempo.   O conceito do corpo como uma manifestação do universo é também mostrado na Astrologia, onde partes do corpo são governadas pelos planetas.  Como disse Jung (1961), “… nossa psique é estruturada à imagem da estrutura do mundo, e o que ocorre num plano maior se produz também no quadro mais íntimo e subjetivo da alma”.  O homem satisfaz, segundo ele,  a necessidade da expressão mítica, quando possui uma representação que explique suficientemente o sentido da existência humana no cosmos, representação que provém da totalidade da alma, isto é, da cooperação do consciente e do inconsciente.  “A carência de sentido impede a plenitude da vida e significa portanto, doença”.

 

Experienciamos o inconsciente através do corpo.  O corpo fala  tanto no seu tremor, temperatura e rubor quanto na rigidez que  procura ocultar os sentimentos.  Jung, em “Nietzche’s Zarathustra”, referiu-se ao si-mesmo como corpo e psique, sendo o corpo a manifestação externa do si-mesmo e a alma, a vida do corpo.  Ressalta que, se não representarmos o si-mesmo em sua natureza ímpar, na vida, ele se rebela, manifestando-se de forma negativa em sintomas somáticos e fobias.  A linguagem corporal é como a onírica: anuncia e denuncia, fornecendo, assim, símbolos à consciência.  C. D. Andrade (1984) compreendeu essa relação ao escrever:

A metafísica do corpo se entremostra nas imagens.

A alma do corpo modula em cada fragmento a sua música de esferas e essências além da simples carne e simples unha

 

No Ocidente 

No Ocidente, a separação corpo/alma, levou a Ciência a investigar o corpo como uma máquina, como um organismo racional, sendo o comportamento determinado por suas partes mecânicas.  A partir do sec. XIX, começa a reverter-se a idéia de que o corpo é a soma de suas partes e a admitir-se que as partes é que são governadas pela totalidade.  A Medicina já admite que as patologias dependem da relação psique/soma.  Hipócrates, o pai da moderna medicina, também acreditava em energias corporais – o Enormon e o Physis,  que eram os poderes responsáveis pela força bruta natural do corpo e a habilidade para curar-se.  Meier, citado por Jaffé (1982), aproveitou a idéia do corpus subtile para esclarecer as relações psicossomáticas.   Sugere essas relações como fenômenos sincronísticos; “o arquétipo ordenador seria algo integral ou uma inteireza tanto física como psíquica, enfim um corpus subtile”.

 

Reich redescobriu a idéia  de energia do corpo sutil, buscando maior conhecimento sobre os fundamentos da vida humana dentro do dinamismo universal que ele chamava “o oceano cósmico de energia orgônica”.  Para ele, cada músculo rígido contém a história e o significado de sua existência, expressando conflitos latentes.

 

Pesquisadores de biofeedback, hoje, creditam a Jung a descoberta do que chamam Skin talk, que, embora empregando instrumentos para amplificar os sinais corporais, tem semelhanças com as meditações orientais, sendo seu objetivo o controle dos sinais somáticos.

 

Mindell (1984) fala do Dreambody como sendo uma sensação corporal interna conectada a fantasias, tendo como sinônimo Shakti , Kundalini, Mercúrio e Chi.  Para ele o Dreambody é criado pelas experiências individuais, descrições pessoais de sinais, sensações e fantasias que não estão necessariamente de acordo com as coletivas definições materialísticas.

 

A idéia de imagem corporal foi elaborada por Shilder (1950) no seu esforço de integrar o pensamento biológico e o psicanalítico.  Define a imagem corporal como “a imagem que formamos mentalmente do nosso corpo, o modo como o vemos”.  Segundo ele, há sensações que nos são dadas, vemos parte da superfície do corpo, temos impressões táteis, térmicas e de dor.  Há sensações que vêm dos músculos e seus tecidos circundantes, indicando deformações dos músculos; sensações provenientes das inervações dos músculos e sensações provenientes das vísceras.  Para Shilder, as sensações provenientes do interior do corpo não têm significado intrínseco antes de serem conectadas à imagem corporal.

 

Todos nós temos uma imagem mental de nossa própria aparência  que é algo mais que uma imagem no espelho, e pode ou não aproximar-se  muito da nossa aparência real.  A imagem do corpo abrange a visão que temos de nós mesmos não só fisicamente, mas também fisiológica, sociológica e psicologicamente.

 

No Oriente

Nas religiões orientais, como o Budismo e o Induísmo, o corpo aparece como um instrumento para alcançar a salvação; o objetivo é transformar o corpo para transcender suas limitações e conseguir a liberação.

 

Na filosofia chinesa, aparece a idéia de que planetas e arquétipos simbolizam experiências, fantasias e sensações relacionadas com partes do corpo.  Deuses governam os principais centros do corpo e a doença acontece quando esses deuses retiram-se e retornam às suas residências planetárias.  Nesse pensamento filosófico, aparece a idéia de um campo de vibrações no chi, que quer dizer gás ou éter e denota a energia ou breath (sopro) que anima o universo. Os níveis do chi aparecem através do corpo: a energia vital, percebida através da respiração e da concentração sendo de fundamental importância para o treinamento taoísta do tai chi chuan.   Tai chi é traduzido como o grande extremo, o supremo, o mais alto e grandioso.  Corresponde à lei suprema do cosmos que preside a alternância e união do yin e do yangChuan refere-se ao corpo físico, à ação, e seus movimentos levam à interação do yin e do yang, fazendo circular a nossa energia e renovando os elementos do nosso corpo.

 

Em  “I Ching” —  o livro das mutações – sugere-se a concepção de que a totalidade do mundo dos fenômenos está baseada no antagonismo polar das energias.  O criativo e o receptivo, a unidade e a duplicidade, a luz e a sombra, o positivo e o negativo, o masculino e o feminino são fenômenos das energias polarizadas que produzem toda alternância e transformação.  A idéia é de um princípio de relação universal e harmônica entre o microcosmo e o macrocosmo.

 

A idéia do Tao é de um campo de força permeando o universo, fenômeno que não pode ser reconhecido e entendido.  Os depoimentos são meras referências a uma vivência espontânea indizível.  Como escrito no “Tao Te King”: “Quem o conhece não fala dele e quem fala dele não o conhece”.

 

Cotejando o pensamento taoista com o junguiano, podemos constatar que, para Jung, toda vivência baseia-se na atribuição de sentido e o Tao é justamente “o sentido que confere significado a tudo quanto é e, desse modo, chama tudo quanto é para a existência”  (Tao Te King).  Através de vivências, tais como meditação, relaxamento, estados hipnagógicos, imaginação ativa, em que experiências religiosas (religare) acontecem, pode chegar-se à compreensão do que os chineses chamam “realização do Tao” e Jung denomina “obtenção da vida consciente”.

 

No Budismo Mahayana, através do recolhimento e da meditação, chega-se a um estado no qual a psique ultrapassa o consciente, que eles chamam  samadhi.  Os  ioguis chamam de “corpo sutil” e  Mindell (1984),  de dreambody.  Para este autor, a natureza gasosa, fluídica e rítmica do dreambody experienciado por um iogui contrasta com o conceito consciente do corpo como uma máquina fantástica com um espírito oculto.  Afirma que, “como os chakras da Hatha Yoga, os circuitos, pontos e centros imaginários do sistema do corpo sutil parecem ser experiências arquetípicas que surgem em decorrência de exercícios”.   Um dos conceitos importantes para os alquimistas, que apontam para a unidade psicofísica era a imaginatio, a atividade da fantasia em relação ao opus.   Em “Psicologia e Alquimia”, Jung ressalta a importância da  imaginatio  para a compreensão  do opus (o trabalho).

 

Corpo arquetípico 

Em “O Segredo da flor de ouro”, Jung mostra que só é possível compreender aspectos metafísicos quando podemos torná-los objeto da psicologia, e que sua admiração pelos grandes filósofos do Oriente baseia-se na sua crença de que eles fazem psicologia simbólica e que seria um erro, portanto, tomá-los  literalmente. 

 

A idéia do ‘corpo diamantino’,  do corpo alento incorruptível que nasce na flor de ouro, ou no espaço da polegada quadrada, é uma dessas afirmações metafísicas. Esse corpo é como os demais, um símbolo de um fato psicológico muito importante, o qual, por ser objetivo, aparece primeiramente projetado em formas dadas através de experiências da vida biológica: fruto, embrião, criança, corpo vivente, etc.  Tal fato pode expressar-se melhor pelas palavras: ‘não sou eu que vivo, mas sou vivido’. (Jung, 1971 p.64 )                              

 

Essas vivências via corpo objetivo nos levam a pensar num “corpo arquetípico”.  Quando sinais corporais como, por exemplo, espasmos, dores e outros sintomas localizam-se em certas áreas do corpo  (estômago, membros, cabeça, coração, etc.),  podemos intuir como manifestação do “corpo arquetípico” utilizando o físico como símbolo.  Através da concentração e de técnicas corporais como o relaxamento, também surgem sensações  conectadas a fantasias que parecem expressar arquétipos. Assim, podemos considerar  a tradicional tripartição do corpo, cabeça, tronco e membros, relacionada a algumas representações arquetípicas.

 

Sabemos que, como não se podem descrever as funções de um órgão  sem considerar as funções de um outro, o mesmo acontece com os arquétipos.  Há uma relação vital entre eles.  Não podemos pensar na Grande Mãe e no Pai sem o Filho, e na individuação (anima/animus) sem a pujança do Herói.  Cada situação de vida é simbólica e cada símbolo representa uma situação da vida.  Assim como o desenvolvimento corporal, o psíquico também é dirigido pela dominância transpessoal, fenômeno que chamamos de “arquétipo”.

 

Um completo sistema de funções psíquicas é acionado quando imagens arquetípicas são evocadas na psique.  A primeira vivência é a da Grande Mãe, e ninguém discorda da importância desse relacionamento mãe/criança, na longa caminhada da vida.  A psicologia mostra-nos que a experiência e conhecimento que a criança começa a ter no mundo e com o mundo inicia-se com o simbolismo do corpo.  A vivência tônica do recém-nascido com a mãe ou substituta é de crucial importância no desenvolvimento da personalidade.  Em “The Child”,  Neuman ressalta a importância dessa experiência não só para o indivíduo, mas também para a humanidade.  De acordo com ele, falar no caráter cósmico do corpo-imagem, no qual a criança está fundida numa unidade com a mãe e o mundo, é equivalente a dizer que o primeiro relacionamento toma lugar num campo unificado onde não há delimitação corporal como símbolo de individuação.  A participation mystique entre a mãe e a criança orienta um através do outro.

 

É a fase matriarcal, cuja linguagem simbólica nos diz que a realização do desejo predomina; é a natureza espiritual da mulher, é o tempo lunar, a fertilidade, o tronco, o ventre, a matriz, o centro onde irradia a sociedade corporal.  O lugar do tan tien (centro psíquico do umbigo)  é a região central onde se cria e conserva a energia vital.  A coluna vertebral, que faz a ligação do céu e terra, é também a Kundalini com a possibilidade  de atualização do fogo serpentino (Laya-Yoga).  É o lugar do coração, do inconsciente, da intuição, dos instintos da vida e do relacionamento.  O lugar de toda fecundidade: a mulher – a Grande Deusa – matéria-prima.

 

Assim como as plantas, nós, humanos, retiramos nossa vitalidade, força e estabilidade da base – da mãe terra.  Sem um chão firme e sólido, como caminhar?  Como fortalecer os músculos das pernas e dos braços – ser criança – se não houver uma sustentação para agir?  Em “Pais e Mães”,  Hillman diz que “o laço original de espírito e matéria é personificado pelo abraço apertado ou pela conjunção erótica entre mãe e filho”  mostra-nos, também, que o desenvolvimento da consciência não se dá para fora da matéria (mãe) nem contra ela, mas é sempre um trabalho mercurial envolvido com ela.  Simbolicamente penso como um jogo de braços e pernas ligados ao tronco buscando o “viver”; a criança que quer experimentar, exercitar sua espontaneidade, libertar-se.

 

De posse da configuração adulta,  o ser humano continua a lidar com a questão da auto-imagem: seu corpo como símbolo, tanto no contexto individual quanto no social.  Todas as facetas da adaptação social e da personalidade estão afetadas pela configuração e o funcionamento do corpo, ligadas à impressão causada nos outros e em si mesmo.

 

Fundamental nessa caminhada é a outra vivência: a do comando do ego, um sistema diferenciado de consciência representado pela cabeça – o homem por excelência.  Seria a  consciência patriarcal que, depois da escuridão lunar, traz a luz do dia, o sol, com seu tempo quantitativo e pensamentos abstratos e científicos.

 

Concluindo, assim como cabeça, tronco e membros relacionam-se,  o masculino,  o feminino e a  criança completam-se na unidade do ser humano sob a regência do transpessoal: os arquétipos.

 

Como entender os movimentos da batuta? Às vezes são suaves, sutis; em outros momentos, fortes e agressivos, como no “Bolero” de Ravel.  Difícil imaginar sentir e ouvir essa música numa reunião social ou num  “papo de comadres”; mas ouvi-la relaxados e de olhos fechados é como se a batuta deslizasse no corpo, despertando e movimentando a energia  yinyang.  Ouvir o arquétipo ou o deus que se anuncia é voltar-se para o mundo interno, para o si mesmo e atender ao “instinto de verdade” (Von Franz, 1980), que possibilita a conexão com o si mesmo e a consciência imediata do que é certo e verdadeiro para a personalidade: a verdade sem reflexão.

 

Através da sua vida e obra, Jung revela que só essa atitude de coragem para ver além é que permite o encontro com forças úteis adormecidas no mais profundo do ser.  Segundo ele, a reação necessária e requerida expressa-se em representações configuradas arquetipicamente:  “O encontro consigo mesmo significa, a princípio, o encontro com a própria sombra”.  É o encontro com o outro em nós – anima/animus – comportando-se de modo autônomo e interferindo em nossas vidas como algo estranho, ora ajudando, ora perturbando, ou até mesmo destruindo, assim como os demais arquétipos.

 

Na difícil caminhada da vida, do sobe e desce montanhas, dos mergulhos em águas frias e quentes, da noite e do dia, paira sempre a esperança de que o velho sábio constele em nós. “O sábio” não é realizado em nenhuma personalidade histórica; na realidade, trata-se de uma idéia que ultrapassa o tempo e da qual cada um pode participar na medida da sua concordância interior. Em certo sentido, o sábio é comparado à idéia judaica do Messias.

 

Se, em cada ser humano, mortal e limitado, habita a esperança de realizar um dia o ideal — a constelação do sábio –, a trajetória da vida transforma-se, então, numa vivência de espera.  “Devemos deixar as coisas acontecerem psiquicamente.  Eis uma arte que muita gente desconhece” (Jung, 1971), mas sobre a qual fala a sensibilidade poética de Adélia Prado (Tulha ): … “Mais belo que o épico é o homem pacientemente esperando a hora em que Deus for servido.  Enquanto isso, as andorinhas pousam nos fios, as gotas de chuva caem…..” 

 

SINOPSE

A partir da relação transferencial, a autora procura compreender o encontro entre matéria e psique, baseando-se nos pressupostos da psicologia analítica de que são dois aspectos de uma mesma realidade.  A relação sincronística entre o corpo e o universo é mostrada tanto  nos conceitos junguianos, nas pesquisas científicas do Ocidente, assim como nas teorias orientais.  Considera   algumas vivências no corpo físico – tanto as que se apresentam como sintomas quanto as provocadas a partir de técnicas de exercícios corporais —  como possíveis manifestações do “corpo arquetípico”.  Assim, relaciona a tradicional tripartição do corpo cabeça, tronco e membros a representações arquetípicas e à sua predominância no desenvolvimento da personalidade.

 

ABSTRACT 

Departing from  tranference relationship, the author tries to understand the conection between matter and psique,  based on the analytical psycology premisses that both are aspects of the same reality.  The synchronicity relationship between the body and the universe is depicted not only in Jung concepts, but also in Western scientific search, as well as in oriental theories.  The experiences of the physical body are regarded as possible reflections of the “archetypal body”.   The procedure thus entangles the traditional division of head, body and members to archetypal representations and importance in the developed   of personality. 

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS                

ANDRADE, C. D.   ( 1984)  O corpo.  Rio de Janeiro. Record. 1984.

 

HILLMAN, J    (1973). Pais e Mães – Seis estudos sobre o fundamento arquetípico da  família.                                  Rio de Janeiro:  Achiamé,  1979.

 

JAFFÉ,A.  (1982 )  Ensaios sobre a psicologia de C. G. Jung.  São Paulo.  Cultrix.1995.

 

JUNG, C. G.  (1917).  Psicologia do inconsciente.  O.C. VII.  Petrópolis:  Editora Vozes,  1981.

 

_____  (1943).  Psicologia e alquimia.  O C. XII.  Petrópolis: Editora Vozes, 1991.

 

  ____  (1961).  Memórias, sonhos e reflexões.  Rio de Janeiro:  Editora Nova Fronteira,  1964.

 

——-  & WILHELM,R.  (1971)  O Segredo da flor de ouro – um livro de vida chinês.

            Petrópolis. Vozes. 1986.

 

——–   Nietzsche’s Zarathustra.  Bolligen Series XCIX, vol. I.

 

MINDEL,A.   (1984)  Dreambody.  The body’s role in revealing the shelf.  London,

               Routledge Kegan Paul.  1984.

 

NEUMANN,E.   The Child.  New York. G.P. Putnan’s Sons.  1970.

 

SANDOR, P. & outros.   (1974)  Técnicas de relaxamento.  São Paulo.  Vetor.  1982.

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WILHELM, R.    Tao-te-king.  São Paulo.  Pensamento.  1978. 

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