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Posts Tagged ‘Carl G. Jung’

PASSIONATE FLAMENCO

Imagem:  Passionate Flamenco

Por: Vera Cristina Marcellino*

ISSN 1516-0793

Pouco vivenciamos nossos corpos em movimento de uma forma consciente sobre os significados que cada gesto cotidiano pode carregar. Em linguagem psicanalítica diríamos um movimento carregado de valor, de sentido, algo que vem cheio de afetividade, que nos liga a um estado  mais profundo que a consciência cotidiana poderia observar. A surpresa é que o corpo, mesmo  em estado cotidiano não deixa nunca de estar carregado de sentido.

O movimento é a expressão particular de cada pessoa, revelando involuntariamente, suas mais íntimas características psíquicas.

Ele traz consigo, invariavelmente, aspectos conscientes e inconscientes, culturais, sociais, afetivos, simbólicos e assimila informações. O corpo, ao contrário do clichê, nome de livro, não só fala. O corpo também tem memória, escuta e elabora, pensa, simboliza, identifica sentidos, aquilo que de alguma forma tem valor para o indivíduo.

Considerando a experiência sensível do movimento uma oportunidade para a elaboração interna e dessa elaboração desenvolver o conhecimento das próprias habilidades, de seu repertório expressivo e, simultaneamente, integrar processos psíquicos ainda não conscientes, poderemos destacar que o corpo compreende à sua maneira como integrar e expressar esses processos. Ele tem uma linguagem própria que foge de códigos pré-estabelecidos ou racionais.

É raro encontrar uma abordagem terapêutica que integre os aspectos simbólicos que o corpo vivencia aos aspectos expressivos e integrativos desses símbolos através do movimento corporal.

Há técnicas terapêuticas que utilizam o corpo como recurso para psicoterapia; há terapias corporais, mas ainda é muito escasso no Brasil um trabalho que atinja simultaneamente essa unidade psicofísica através de processos artísticos, mais apropriadamente, processos da dança, ou do movimento expressivo, que no contexto da psicologia de Carl Gustav Jung poderemos chamar de Terapias Expressivas.

O princípio essencial da dança como técnica expressiva é a autonomia do indivíduo em investigar-se em movimento de tal forma que identifique a si mesmo, ou seja: descubra seu corpo e seus aspectos sensíveis e simbólicos.

No desenvolvimento desse trabalho identificamos que, articular o corpo, às emoções, às imagens simbólicas, ao mesmo tempo em que o movimento é buscado em sua forma mais crua, ele, o corpo, transborda elementos que se alimentam mutuamente: significados se desdobram em movimentos, movimentos resgatam significados.

Para Jung o processo criativo consiste (até onde nos é dado segui-lo) numa ativação mais profunda do inconsciente e numa elaboração e formalização na obra acabada. À camada mais profunda do inconsciente, nesse contexto, C. G. Jung refere-se aos árquétipos, marcas do inconsciente coletivo partilhadas pela humanidade e que resgata no indivíduo um senso de unidade, de ter um lugar no mundo. É paradoxal, mas emocionante. Para ele, a arte seria então, uma forma de tornar mais acessível e consciente esse processo de percepção de elementos não facilmente verbalizáveis e não cognitivos; forma de conhecimento mais complexo e total por ser vivencial.

Os conteúdos simbólicos podem, pela vivência poética da dança, ser requisitados para um diálogo sincero de aproximação, de acolhimento e de transformação. O resultado é: equilíbrio emocional, equilíbrio corporal.

Podemos identificar semelhanças entre os processos criativos e sensíveis e o conceito de processo de individuação que C. G. Jung propõe ao longo de sua obra. Uma vivência sensível permite acessar um universo mítico e arcaico no movimento que torna-se expressivo e integrativo em si mesmo. Dá sentido e integra no indivíduo aqueles aspectos sombrios escondidos às sete chaves, mas que, por ser vivencial, só a pessoa em processo descobre, não é necessário verbalizar, aqui, na maioria das vezes, as palavras são dispensáveis, mas a escuta faz parte do ambiente acolhedor que pretendemos oferecer. Ainda segundo Jung, nossa meta como seres humanos é a Individuação, um processo natural de amadurecimento.  É o caminho da plenitude, do encontro do Si-mesmo ou Self. Quando Jung fala de individuação, refere-se ao caminho que é orientado pelos símbolos arquetípicos (incluindo imagens mitológicas) que emergem espontaneamente, de acordo com a natureza do indivíduo.

Todos nós temos nossas identificações simbólicas com algum aspecto comum à humanidade, esses momentos de identificação não são mensuráveis. A arte possibilita esses momentos de encontro.

Ainda rara como terapia no Brasil, a dança está apresentando resultados surpreendentes na área de saúde mental, sua expansão está tardia, já que desde os primórdios da humanidade é através do movimento (corpo expressivo) que o ser humano percebe, identifica, explora e relaciona-se com o mundo, com o cosmos, com o outro e consigo mesmo.

*Vera Cristina Marcellino, Mestre em Artes pela Unicamp, Bacharel e Licenciada em Dança pela Unicamp. Facilitadora de recursos expressivos em arte-terapia (dança. Aborda e pesquisa a articulação e diálogo entre performance-art,  somma psíquico e psicologia analítica.

 LINK: www.symbolon.com.br/artigos/A_danca_e_a_psicologia_junguiana.doc

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Imagem: O Retorno de Perséfone de Frederic Leighton (1891).

Por Alexandre Quinta Nova Teixeira

 1 – O MITO:

No Olimpo ( lugar onde moravam os deuses ) Deméter se casa com Zeus e geram Core (a jovem). Um dia Core estava brincando em Elêusis (lugar onde mora os mortais) e vê uma flor de narciso no qual ela fica encantada e acaba cheirando esta flor. Ao cheirar esta flor Core fica tonta (NARKÉ=Narcótico) então a terra se abre e Plutão vem numa carruagem para raptar Core e leva-la para o Hades ( mundo dos mortos), pois Plutão se apaixonou por Core.

Deméter sente a falta de sua filha e fica louca a sua procura. Com isto Deméter (Mãe Terra) sai do Olimpo e vai em busca de sua filha pelo o mundo inteiro. Durante nove dias e nove noites a deusa fica a procurar sua filha sem nenhuma pista. Enquanto Deméter está a procura de sua filha a terra fica sem vegetação e sem fertilidade.

No décimo dia Hélio (deus do sol) diz a Deméter que viu Core ser seqüestrada em Elêusis por Plutão. Com isto Deméter se transforma em uma ama e vai conhecer Céleo e Metanira, que são reis de Elêusis , e cuida do filho do casal ( Demofonte ). Deméter decide transformar Demofonte em deus , para adotá-lo, levando ele ao fogo para sua purificação, mas sua mãe descobre e impede este processo com um grito.

Deméter diz que só volta ao Olimpo quando encontrar sua filha e pede a Zeus. Este manda Hermes, o deus do caduceu de ouro, ir para Hades e convencer Plutão de devolver a filha de Deméter. Então Hermes convencer ao irmão de Zeus à devolver Perséfone, mas este dá uma romã para ela comer. Deméter vai ao encontro de Core e ao abraça-la Deméter sente sua filha diferente e pergunta se ela comeu algo em Hades. Core diz que comeu uma romã e por causa disso ela terá que passar um terço do ano em Hades . Com isto Core se transforma em Perséfone que é esposa de Plutão.

Antes de voltar ao Olimpo Deméter ensina os seus rituais para Célio e seu filho Triptólemo . Ao voltar ao Olimpo a terra volta a ter vegetação e a ser fértil.

Célio funda os grandes mistérios de Elêusis que faziam parte dos rituais de fertilidade da Grécia no anos 1500 AC até 300 DC. Nestes mistérios qualquer pessoa que falasse grego poderia participar. Os iniciantes assistiam o mistério que era apresentado pelos sacerdotes. No final do mistério acontece a ” GRANDE VISÃO ” que era apresentada a espiga de milho, que simboliza a fertilidade. Depois de assistir ao mistério não se podia falar de nada o que aconteceu ou a pessoa seria desmentida

Antes de se passar para os grandes mistérios tinha que se passar pelos pequenos mistérios e a ponte de Guéfria, onde se falava vários palavrões até chegar aos grandes mistérios.

2 – INTERPRETAÇÃO DO MITO:

Antes de amplificar este mito eu darei o significado dos principais deuses do mito (Deméter , Perséfone e Plutão).

Deméter significa ” a mãe-terra “. Esta deusa simboliza um excesso de proteção. Ela traz o dom da empatia, compreensão emocional e física das necessidades da pessoa. Tem a tendência de tratar os outros como se fossem seus filhos e sua preocupação principal está centrada na família. Deméter é regida pelo Eros(amor), o não-verbal, saciando as necessidades de seus filhos e tem como principio o corpo e o material. Em síntese Deméter representa o arquétipo da mãe.

Perséfone é a rainha do mundo dos espíritos onde existe o que há de mais profundo no psiquismo humano. Ela vive no Hades e entra em contato com os conteúdos reprimidos, estando num fase profunda do inconsciente.

Plutão é o rei do Hades. Com isto ele rege o mundo inconsciente e as riquezas interiores. Sua missão é conduzir as pessoas para o caminho do auto-conhecimento e a integração levando-as ao seu processo de individuação. Este deus é regido pelo logos ( leis e limites ), ética, principio espiritual, voltada ao verbal e ao auto-conhecimento. Plutão representa o arquétipo do pai.

Podemos amplificar este mito com a fase inicial do desenvolvimento do homem.

No inicio quando Core ainda era um feto havia uma simbiose entre a Deméter e Core. Nesta fase Jung se refere ao termo “URÓBOROS” onde temos como símbolo a serpente que morde a própria cauda e o inicio da vida. No uróboros o feto vive em equilíbrio e totalidade. O corpo da mãe e da criança se misturam onde não podemos definir um e outro.

Quando a criança nasce, nós não conhecemos todas as forças que entrelaçam, cercam e enredam os relacionamentos entre mãe e o bebe pequeno. Só a mulher tem o dom da fertilidade dando a luz e a vida de um novo ser. O mesmo acontece entre Deméter e Core. A menina tinha o amor, a proteção e a satisfação das suas necessidades que só a Grande Mãe pode proporcionar ao sua filha. Com isto não só Core mas todos as crianças pequenas vivem no Olimpo, ou seja “O paraíso da infância “, que simboliza a consciência. Nesta fase o bebe assume uma posição horizontal vivenciando o arquétipo da mãe que foi representado no mito pela Deméter “A MÃE-TERRA”.

Quando Core cheira a flor de narciso ela fica tonta e desta forma é seqüestrada por Plutão. Com isto a flor de narciso simboliza uma armadilha para que Core seja raptada.

Este rapto está relacionado a primeira experiência sexual onde Core sai do” paraíso da infância ” para entra em contato com o mundo dos mortos ou o seu inconsciente. Com este rapto Core (a jovem) se transforma em Perséfone que é a esposa de Plutão e rainha do inferno. Por ser rainha do inconsciente ela lida com o que tememos e reprimimos. Se ela estiver muito aflorada pode levar a uma psicose. Com isto Perséfone entra em contato com o arquétipo do pai.

Deméter sente falta de sua filha e Zeus manda que busque Perséfone. Plutão permite volte a se encontrar com a mãe mas dá uma semente de romã para ela comer. Esta semente representa simbolicamente a sexualidade e a repressão de Plutão sobre Perséfone. Por causa desta semente Perséfone fica sempre entre o consciente e o inconsciente.

Este mito é constelado em pessoas com traços infantis sempre precisando de outras pessoas para tomar as decisões por ela. No caso de Perséfone ela depende da mãe ou do marido. Desta forma ela não tem maturidade, tendo a recusa a crescer. Por isto ela tem medo de assumir sua própria individualidade.

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Por Jean Monbourquette

Apprivoiser son ombre. Le côté mal aimé de soi

Québec, Novalis, 2001

Excertos adaptados

 

 

A minha sombra é minha amiga ou minha inimiga? Tudo depende da forma como a considero, como me relaciono com ela. Quando a encontramos pela primeira vez, surge como uma inimiga. O desafio é transformá-la em nossa amiga.

 

A sombra e a auto-estima

Carl Jung lembra que o psiquismo humano é um espaço de lutas íntimas: É sabido que os dramas mais emocionantes e mais estranhos não são os que se passam no teatro, mas sim no coração de todos os homens e mulheres. Estes vivem sem chamar a atenção e não deixam transparecer de forma alguma os conflitos tumultuosos que os habitam, a não ser que se tornem vítimas de uma depressão cujas causas eles próprios ignoram.(1)

 

É fundamental que reintegremos a nossa sombra. Quem recusar este trabalho sobre si mesmo arrisca-se a ter desequilíbrios psicológicos sérios. Terá tendência para se sentir stressado e deprimido, viverá atormentado por um sentimento vago de angústia, de insatisfação consigo próprio e de culpabilidade. Ficará sujeito a toda a espécie de obsessões e será susceptível de se deixar arrastar pelos seus impulsos: ciúme, cólera mal gerida, ressentimentos, desvios sexuais, gula, etc.

 

Entre as dependências humanas mais comuns encontramos o alcoolismo e a toxicodependência, que tantos danos causam nas sociedades modernas. Sam Naifeh, num excelente artigo sobre as causas da dependência, afirma: A dependência é um problema da sombra.(2) De facto, a atracção compulsiva pelo álcool e pelas drogas provém da busca incoerente do lado sombrio do nosso ser. Acusamos as substâncias tóxicas de serem a causa de desgraças humanas, mas, na verdade, elas são apenas a sua causa indirecta, pois permitem ao seu utilizador ultrapassar os limites da consciência.

 

Assim, por uns momentos, o utilizador pode identificar-se com o lado sombrio de si mesmo, lado esse que o atrai constantemente. A parte sóbria do alcoólico sentir-se-á permanentemente insatisfeita enquanto não encontrar a parte alcoólica escondida na sombra.

 

Domar a Sombra para manter relações sociais sãs

 

Perturbações causadas pela projecção da sombra

Se a sombra não for reconhecida e acolhida, não só criará obsessões como forçará a sua entrada no consciente sob a forma de projecções sobre as outras pessoas.

 

Quais são os efeitos da projecção da sombra sobre os que nos rodeiam? Sob a influência das projecções da sua sombra, uma pessoa deturpa a sua percepção do real. Atribui aos outros os traços ou qualidades que não quer ver em si. Terá então tendência para idealizar os portadores das suas projecções, para desprezá-los ou para temê-los. Em resumo, o “projector” chegará a ter medo das projecções da sua sombra. Vê-la-á em pessoas que, aos seus olhos, serão fascinantes ou ameaçadoras, como se o seu olhar fosse um espelho deformante.

 

Quando tais fenómenos ocorrem nas relações sociais, há que esperar conflitos. Por uma curiosa lei de reflexão da luz, as projecções reflectem-se no próprio projector e apoderam-se dele. A pessoa cai sob o fascínio ou a repulsa da sua própria sombra.

 

À semelhança de um pugilista que treina tentando acertar na sua sombra, estará condenada a executar um contínuo e esgotante exercício de shadow boxing (3).

 

Resolução dos conflitos criados pela projecção da sombra

Se alguém projecta os seus próprios defeitos ou fraquezas sobre outra pessoa, dificilmente conseguirá tolerar ou amar essa outra pessoa, quer ela seja o patrão, o vizinho, o cônjuge, ou o filho. Este semelhante há-de enervá-lo e há-de dominá-lo. Referimo-nos aqui à maior parte dos conflitos interpessoais e das disputas profissionais.

 

Para Carl Jung, a tomada de consciência das nossas projecções sobre os outros e do seu reflexo em nós produz não só uma melhoria nas relações interpessoais, mas também um efeito benéfico em toda a sociedade. Segundo Jung, todo o homem que se esforça por estar de acordo com a sua sombra, a fim de reintegrar as suas projecções, faz algo que beneficiará o mundo: Por mais ínfimo que esse trabalho nos pareça, através dele conseguimos encontrar soluções para os enormes e inultrapassáveis problemas do nosso tempo (4).

 

 

 

A moral da lei e a criação de “bodes expiatórios”

Erich Neumann considera que uma ética preocupada apenas em determinar o que é bem e o que é mal é deficiente, porque não ajuda a pessoa a descobrir em si as raízes do mal e a munir-se de meios para as suprimir. Em oposição a esta ética, a que chama A Velha Ética, Neumann propõe uma outra – A Nova Ética – na qual o essencial da formação da consciência moral consiste em realizar a integração da sua sombra.

 

Neumann vê neste trabalho psico-espiritual um elemento determinante para a formação de uma verdadeira consciência moral. Longe de projectar nos outros as tendências desordenadas da sua sombra, o novo ser moral reconhece-as em si, assume a responsabilidade por elas e depois integra-as numa vida moral coerente.

 

A Velha Ética leva eventualmente à criação de uma mentalidade de “bode expiatório”, mentalidade que se manifesta, em primeiro lugar, no plano da vida pessoal, como fonte de antipatias e de conflitos de natureza relacional. Por vezes, essa mentalidade corre o risco de tomar proporções gigantescas quando transpostas a uma escala nacional. A este nível, a sombra tenderá a ver o diabo nas nações vizinhas e depois assume a missão de as destruir. Não terá sido esta a origem de numerosos conflitos armados ao longo da história? Pela mesma lógica, os estrangeiros, as minorias e as pessoas “diferentes” serão o alvo preferencial de projecções e transformar-se-ão em “bodes expiatórios”.

 

Para Neumann, só uma Nova Ética irá possibilitar às nações reconhecerem as suas próprias tendências perversas em vez de as projectarem. Será preciso recordar que as projecções da sombra colectiva não são inofensivas mas podem gerar perseguições e hecatombes, como o extermínio dos judeus pelos nazis?

 

(1) C.G. Jung, Psychology and Religion: West and East. (Collected Works,7), Bollingen Series, Princeton University Press, 1938, p. 528.

(2) S. Naifeh, “Archetypal Foundations of Addiction and Recovery”, in Journal of Analytical Psychology, 40, 1995, p.148.

(3) Exercício de boxe simulado com a sombra.

(4) C.G. Jung, op. cit., p.140.

 

 

A concepção junguiana da sombra 

 

Jung à descoberta da teoria da sombra

Jung, bem familiarizado com a psicanálise freudiana, conhecia a existência do mundo recalcado do inconsciente. Mas a ideia de este ser formado por recalcamentos de entidades psicológicas pessoais não era do seu agrado. Precisava de ir mais longe.

 

As suas pesquisas sobre os mitos, os sonhos, as desilusões psicóticas e ainda o estudo de desenhos feitos por povos primitivos e por crianças, levaram-no à conclusão de que existe um outro inconsciente mais profundo, “o inconsciente colectivo”. Jung define-o como a memória de um conjunto de imagens ou de motivos, inata e comum a toda a humanidade. Chamou a estas configurações universais “arquétipos” porque se encontram em todas as civilizações. Para ele, a sombra era um desses arquétipos fundamentais.

 

 

Formação de uma sombra mordaz e desagregada

Para sermos mais precisos quanto à natureza da sombra, podemos dizer que se assemelha a variadas constelações, cada uma delas constituindo um “complexo psíquico”. Por sua vez, cada complexo é composto por um conjunto organizado de imagens, palavras e emoções, formando uma estrutura autónoma e dissociada do eu consciente. Esta estrutura constitui uma “sub-personalidade” comparável a uma “personagem” de uma peça de teatro, autónoma, independente do encenador e dotada da sua própria personalidade.

 

Estes complexos surgem muitas vezes nos sonhos do homem. Por vezes exercem sobre ele uma influência tão forte que ele se sente literalmente possuído. Desta forma, o homem faz o que não quer e não pode fazer aquilo que desejaria, como lamenta S. Paulo ao falar do “homem velho” que há em si(*).

(*) Carta de S. Paulo aos Romanos 7, 19.

 

Três atitudes a evitar no trabalho com a sombra

 

Identificar-se com o ser ideal, excluindo a sombra

Que acontece a quem se identifica exclusivamente com o seu ser ideal? Uma tal identificação leva não só à negação das pulsões da sombra, mas também à negação da própria existência da sombra. Além disso, a pessoa que o fizer tem de obedecer rigorosamente aos códigos do seu meio social. Levada pelo medo de ser excluída, vai criar uma ansiedade incontrolável à menor infracção das regras que protagonizar. Muito atenta às expectativas, reais ou imaginárias, do seu meio e extremamente preocupada em cuidar da sua imagem perante a sociedade, acabará por renunciar a satisfazer as suas aspirações mais autênticas.

 

Identificar-se só com a sombra

Uma outra forma de actuar consiste em privilegiar o lado sombrio de si próprio e obedecer indiscriminadamente às pulsões. Quem opta por esta solução, fica muito rapidamente prisioneiro da sombra. Adopta toda a espécie de comportamentos reprováveis: comportamentos desviantes, instintivos, primitivos, infantis e regressivos. A vida em sociedade tornar-se-ia impossível para essa pessoa, porque daria livre curso às suas tendências sádicas, invejosas, ciumentas, sexuais e outras. Em resumo, quem aceitar tornar-se a sua própria sombra, condena-se a viver subjugado pelos seus desejos.

 

O romance de Robert Louis Stevenson, The Strange Case of Dr. Jekyll and Mr. Hyde, ilustra bem o perigo da identificação total com o lado sombrio. John Sanford, analista junguiano, fez uma análise penetrante desta história na qual o herói, o Dr. Henry Jekyll, sucumbe ao fascínio progressivo exercido pela sua sombra. Ao beber uma poção que ele mesmo preparara, o generoso médico transforma-se, pouco a pouco, numa pessoa sórdida, Edward Hyde.

 

Depois das primeiras tentativas de identificação com a sombra, isto é, com o seu alter-ego que é Hyde, Jekyll dá-se conta do perigo que corre e apressa-se a justificar a sua história de desdobramento, que pode, supõe ele, conduzi-lo à degradação moral. O médico tenta convencer-se de que está a fazer esta experiência em nome da ciência e, para tranquilizar a consciência, qualifica de “inofensiva” tal transformação. Chega mesmo ao ponto de ver nela apenas uma diversão. Na verdade, o perigoso convívio com o seu “duplo”, Hyde, proporciona-lhe um certo prazer, que pode, pensa, levá-lo a fazer jogadas sem consequências.

 

John Sanford, no seu comentário da obra, prova que o erro fundamental do Dr. Jekyll foi aceitar tornar-se a sua sombra. Longe de procurar uma tensão fecunda com o seu “duplo”, Jekyll recusa o desconforto dessa situação e prefere perder-se em Edward Hyde (*). Não será que o libertino faz o mesmo quando diz que a melhor forma de se libertar de uma tentação é ceder-lhe?

 

À medida que Jekyll se compraz cada vez mais em tornar-se Hyde, aquele cede progressivamente às exigências desta personagem tenebrosa. As suas frequentes decisões de parar com esta situação – até chega a retomar a prática religiosa – não são capazes de o libertar do poder de Hyde. Atinge então um ponto de não retorno em que todos os princípios morais e o domínio de si lhe escapam por completo. Fica à mercê de forças diabólicas contra as quais já nada pode. Impotente para resistir às suas pulsões de sadismo, chega a matar o colega, o bom Dr Carow.

 

A aventura do Dr. Jekyll ilustra bem o fracasso a que nos conduz a capitulação perante as pulsões da sombra. Esta atitude, longe de resolver a tensão moral, não ajuda em nada à reintegração da sombra.

 

Identificar-se ora com o ser, ora com a sombra

Neste caso, o indivíduo leva normalmente uma vida moral exemplar. A sua reputação de cônjuge, de pai e de cidadão modelo faz inveja a todos. Depois surgem momentos de fadiga e de depressão. As pessoas tomam então liberdades em relação aos seus princípios morais. Estes desvios temporários do comportamento assumem formas variadas, com graus de gravidade muito diversos: extravagâncias amorosas, aventuras sexuais, acessos de cólera, excesso de bebida, pequenas patifarias, calúnias, maledicências, etc.

 

Tais pessoas, seduzidas momentaneamente pela tentação, voltam a cair em si, arrependem-se das suas faltas, e tomam boas resoluções até reincidirem. Estão, com efeito, prisioneiras de um ciclo infernal. Recordo o caso de alguém, reputado pela sua incansável dedicação. Após períodos de trabalho intenso, deixava-se invadir por uma das suas sub-personalidades sombrias, que o levava aos maus caminhos da desordem sexual. Durante vários anos conheceu períodos de generosidade alternando com períodos de desvios sexuais.

 

Divididas entre as aspirações do ser e os impulsos da sombra, as pessoas correm o risco de naufragar ciclicamente num marasmo psicológico e espiritual e de ficarem prisioneiras de um círculo vicioso.

 

A denúncia das projecções doentias

O próprio Jesus Cristo denunciou aquilo que podemos considerar hoje o carácter nocivo das projecções da sombra, já que abominava os juízos malévolos contra o próximo.

A tal respeito fez afirmações que continuam actuais: Porque assinalas o cisco que está no olho do teu irmão e não vês a trave que está no teu olho? Como podes dizer ao teu irmão: ‘Irmão, espera. Eu tiro o cisco que tens no olho’, se tu não vês a trave que tens no teu? Homem de juízo perverso, tira primeiro a trave do teu olho! E então verás melhor para tirares o cisco que está no olho do teu irmão.(**)

Jesus exprime assim, à sua maneira, o que procurávamos demonstrar neste capítulo: antes de julgarmos os outros, pensando que estamos a ajudá-los, melhor seria resolvermos trabalhar sobre nós mesmos e aprendermos a recuperar as projecções da nossa sombra.

 

Cristo denuncia as projecções malévolas porque conhece os seus efeitos sobre aqueles a quem se dirigem. Fá-lo, nomeadamente, aquando do episódio da mulher adúltera maltratada por um grupo de homens. Uma mulher acabava de ser apanhada em flagrante delito de adultério. Os homens que a levaram junto do Mestre estavam a fazer dela “bode expiatório” das suas próprias faltas sexuais. Com uma frase lapidar, Jesus inverte a situação; interpela-os, fá-los tomar consciência da projecção e convida-os a assumir a responsabilidade das próprias faltas: Aquele dentre vós que nunca pecou atire a primeira pedra.(***)

 

Mas a denúncia das projecções maldosas lançadas sobre os outros não se faz sem perigo, porque pode atrair sobre o denunciante a vingança das pessoas assim postas em causa. O destino que Jesus teve de sofrer ilustra-o bem.

 

(*) C. Zweig, J. Abrams (eds.), Meeting the Shadow: The Hidden Power of the Dark Side of Human Nature, Los Angeles, Jeremy P. Tarcher, 1991.

(**) Lucas 6, 41 – 43.

(***) João 8, 7.

 

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