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Posts Tagged ‘Abordagem Junguiana’

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Pintura: “The Journey – His Story” de Christopher Clark

AUTORA: RAMONA SCHOERPF

Jung diz que é muito importante o analista estar inteiro no processo analítico e que é na relação entre analista e analisando, quando esta se transforma numa relação entre eu—tu, que se pode chegar ao homem inteiro. E é nesse espaço do instante vivido que gostaria de refletir acerca da postura do analista e na enorme potencia curadora que pode existir quando este espaço é valorizado pelo analista.

Lendo o livro Psicologia e Alquimia, um ponto que achei muito interessante foram algumas colocações de Jung acerca do lugar do analista no processo analítico. Jung (2012 c) diz que é muito importante o analista estar inteiro no processo, ou seja, que é a partir dessa inteireza que o processo analítico pode verdadeiramente ocorrer.

““Arts totum requirit hominem!” (a Arte requer o homem inteiro!), exclama um velho alquimista. Justamente é este “homo totus” que se procura. O esforço médico, bem como a busca do paciente, perseguem esse “homem total” oculto e ainda não manifesto, que é também o homem mais amplo e futuro. No entanto, o caminho correto que leva a totalidade é infelizmente feito de desvios e extravios do destino. Trata-se da “longíssima via”, que não é uma reta, mas uma linha que serpenteia, unindo os opostos à maneira do caduceu, senda cujos meandros labirínticos não nos poupam do terror. Nessa via ocorrem experiências que se consideram de “difícil acesso”. Poderíamos dizer que elas são inacessíveis por serem dispendiosas, uma vez que exigem de nós o que mais tememos, isto é, a totalidade. Aliás, falamos constantemente sobre ela – sua teorização é interminável -, mas a evitamos na vida real. Prefere-se geralmente cultivar a “psicologia de compartimentos”, onde uma gaveta nada sabe do que a outra contém”. (Jung, 2012 c, pág. 12-13)

Trago tais reflexões porque acho muito importante tentarmos nos aproximar o máximo possível dessa relação que ocorre no aqui e no agora no consultório, para podermos a partir desse clareamento trabalhar o que ocorre na transferência e contratransferência.

Murray Stein (1992) fala de um modelo xamânico de cura na contratransferência, onde, citando Jung (1946*) diz que “seus comentários esparsos acerca da dinâmica da transferência/contratransferência na análise seguem em larga medida este modelo: os analistas se contaminam pelas doenças de seus analisandos e então promovem a cura curando-se a si mesmos e administrando o remédio que produzem em si ao analisando pela “influência”. Na análise, este processo xamânico de cura é, evidentemente, levado a cabo num plano psíquico, ao invés de físico. Conforme descrito por Jung, trata-se de uma interação muito complexa e sutil, que abarca a personalidade inteira de ambos os parceiros numa espécie de combinação alquímica de elementos psíquicos”. (Murray, 1992, pág. 73 – Cf. 1946*)

Em seu livro Psicologia e Alquimia, Jung (2012 c) escreve que “ninguém mexe com fogo ou veneno sem ser atingido em algum ponto vulnerável; assim, o verdadeiro médico não é aquele que fica ao lado, mas sim dentro do processo”.

Portanto, uma importante reflexão de Jung é sua fala sobre a relação que se estabelece durante a análise, assumindo que tal relação existe e que é nesta relação que temos a possibilidade de estarmos inteiros.

*JUNG, C.G. 1946. The psychology of the transference. In: Collected Works, 16:163-323. Princeton:Princeton University Press, 1966

“O trabalho analítico conduzirá mais cedo ou mais tarde ao confronto inevitável entre o eu e o tu, e o tu e o eu, muito além de qualquer pretexto humano; assim, pois, é provável e mesmo necessário que tanto paciente quanto o médico sintam o problema na própria pele. (…) Tanto para o médico como para o paciente, o “ficar pendente”, ou a dependência pode tornar-se algo indesejável, incompreensível e até mesmo insuportável, sem que isso signifique algo de negativo para a vida. Pelo contrário, pode até ser uma dependência (um “ficar pendente”) de caráter positivo: se por um lado parece um obstáculo aparentemente insuperável, por outro, representa uma situação única, exigindo um esforço máximo que compromete o homem total.” (Jung, 2012 c, pág. 18)

Se observarmos com atenção todo o trabalho de Jung (2012 c), veremos o quanto se debruçou sobre qualquer tema por ele elaborado, onde nos coloca a importância dessa inteireza dentro do processo analítico.

“E é preciso não esquecer que foi através da paciência indizível dos pesquisadores que a nova ciência conseguiu erigir um conhecimento mais profundo da natureza da alma; certos resultados terapêuticos inesperados foram obtidos graças à perseverança abnegada do médico”. (Jung, 2012 c, pág.18)

Jung se debruçava em cima da historia de seus pacientes e é essa intensidade, essa paixão, esse amor pela cura que faz com que eu me interesse e tenha desejo de me debruçar perante sua obra! Jung estava inteiro em todos os processos que estudava. Não se descobriria a cura para tantas doenças se não fossem a insistência de alguns poucos, que mesmo passando por inúmeras dificuldades, continuavam persistindo!

Rolando Toro (2005 b), criador do sistema Biodanza, nos fala que o “fracasso da psiquiatria e da psicologia é a dificuldade que possuem de amar o louco”.

Este “amar o louco” seria essa inteireza de estarmos entregues ao processo analítico. É preciso se importar com a pessoa que esta a nossa frente, é preciso se debruçar e entrar dentro desse sofrimento junto com o paciente para conseguir sentir o que se passa verdadeiramente. Precisamos ser verdadeiros xamas. Se não consigo me comover perante o sofrimento do outro, devo encaminha-lo para outra pessoa que o possa.

Muitas vezes é o que a pessoa me desperta que me diz como ela esta se movimentando pela vida. E o quanto mais conseguirmos estar atentos a esta relação com nosso analisando, mas fácil nos daremos conta do que estamos sentindo. E este sentir nos diz de nossa contratransferência, podendo ao mesmo tendo nos auxiliar no que estes sentimentos que despertam em mim no momento podem dizer do movimento do paciente.

A partir dai cabe ao analista verificar até que ponto é válido usar tais dados na relação transferencial.

Nathan Schwartz-Salant (1992) também fala sobre a importância da transferência em seu artigo, citando o ponto de vista de Jung sobre o papel do analista.

“(…) muitas vezes, recorre-se às reações do analista para busca de informações sobre o paciente, e o que este diz ou sonha é reconhecido como indicação de percepção precisa do analista e do estado do processo analítico”. (Schwartz, 1992, pág. 9)

Na biodança fala-se que não é necessário somente o contato, mas sim a conexão para podermos nos transformar. James A. Hall (1992) também fala disso em seu artigo Sonhos e transferência/contratransferência: o campo transformador, onde faz uma citação de Jung, onde este diz que ”(…) o verdadeiro médico não se coloca fora de seu trabalho, mas está sempre no meio dele.”

Algo que sempre me fascinou na Biodança foi a valorização do instante vivido, e o quanto Rolando Toro, se debruçou em cima desse conceito, que denominou vivência.

Para Rolando Toro (1968), vivência é “a experiência vivida com grande intensidade por um individuo em um lapso de tempo aqui – agora (‘gênese atual’) abarcando as funções emocionais, cenestésicas e orgânicas”. Para ele, vivência é o instante vivido no aqui e agora com total intensidade e entrega, é quando conseguimos realmente estar inteiros. E é nessa inteireza que existe a possibilidade da transformação acontecer.

Segundo Toro (2005 a), “a vivência constitui-se na experiência original de nós mesmos, da nossa identidade, anterior a qualquer elaboração simbólica ou racional”. É no ato de estarmos inteiros que nos transformamos, pois saímos de nosso modo racional para vivenciar o inédito.

Penso que o ato de ser analisado é também uma tentativa de chegarmos a este homem inteiro que nos fala Jung (2012 c). Entramos num processo profundo de analise interna para sabermos quais aspetos podem estar “trancando” ou bloqueando a livre expressão do meu ser. E à medida que vamos entrando nesse processo interno vemos o quanto levamos conosco de vivências passadas que nos impedem de usufruir o presente.

Então quando Jung (2012 c) nos diz que a arte requer o homem inteiro, esta nos colocando que tanto o analista como o analisando está na busca desse “homem total”, que anseia por se expressar livremente.

Este estar inteiro vai muito além de se reconhecer como um ser único e singular, porque exige também da pessoa um desfazer-se de tudo aquilo que já não serve mais na sua caminhada de individuação. Exige um desfazer-se de aspectos que não fazem mais parte de sua caminhada atual. E é nesse aspecto que surge um dos principais papéis do analista, auxiliar o analisando a se dar conta do já não serve mais na sua caminhada.

Rolando Toro (2005 a) fala que colocar-se no lugar do outro é um ato de lucidez. E esse ato de lucidez (sempre que possível) se dá através do analista dentro do processo analítico. Como na maioria das vezes o analisando busca analise por encontrar-se perdido em alguns caminhos que só consegue andar em círculos, é a lucidez do analista dentro do caminhar do analisando que ira lhe proporcionar a possibilidade de um novo olhar para a sua caminhada. Mas essa lucidez somente poderá ocorrer quando o analista se permitir entrar no processo.

O modo, portanto, pelo qual o analista se coloca nesse processo pode fazer toda a diferença. Quanto mais inteiro o analista estiver, ou seja, mais presente no momento da analise, mais fácil será para este vivenciar o que ocorre na transferência / contratransferência.

Segundo Góis (1997), participação é o oposto de opressão. O papel do analista, portanto, não deixa ser um papel de libertador de padrões internos que não servem mais para a caminhada atual de seu analisando.

A mudança é algo vivo, que nos modifica enquanto vamos vivendo. E o ato terapêutico não é algo a parte onde fazemos uma pausa para relatar apenas acontecimentos significativos de nossa vida, ele também faz parte do que estou vivendo e, portanto, à medida que vou me aprofundando e me entregando nesse processo, vai mostrando também como interajo com o outro e com o mundo. É um processo alquímico!

Só olhando…

Vem, olha no meu olho. Deixa pra lá o que você pensa que eu sou. O que você gostaria que eu fosse. Tenta ver, tenta sentir, te permite ver o que eu sou de verdade. Me dá um minuto da tua vida antes de me definir. E eu mudo todo o dia um pouco, nunca sou igual. E você só vai ver se tiver tempo de ficar me olhando. Tempo de estar comigo no aqui e agora. E se você fizer isso vamos sempre nos entender porque sempre vamos nos ver de verdade.

Vem, olha no meu olho.

 

BIBLIOGRAFIA

GÓIS, Cezar Wagner de Lima. 1997. Vivência em Biodanza in org Flores, Feliciano. Cadernos de Biodança. Porto Alegre.

JUNG, Carl Gustav. 2012 c. Psicologia e Alquimia / tradução e revisão literária Dora Mariana Ribeiro Ferreira da Silva; revisão Técnica, Jette Bonaventure – 6 ed. – Petrópolis, RJ : Vozes.

STEIN, Murray & SCHWARTZ-SALANT, org. 1992. Transferência – Contratransferência / tradução Rosas de Oliveira; revisão técnica Marcia Tabone – São Paulo, SP : Editora Cultrix Ltda.

TORO, Rolando. 2005 a. Biodanza. 2 ed. – São Paulo : Olavobras.

TORO, Rolando. 1968. A vivência. Curso de formação docente em Biodanza. Sistema Rolando Toro – Chile.

WARNKEN, Cristián. 2005 b. Entrevista a Rolando Toro em el programa “La Belleza del pensar”. Chile.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

FLORES, Feliciano Edi Vieira, org. 2006. Educação biocêntrica : aprendizagem visceral e integração afetiva. Porto Alegre : Evangraf.

JUNG, C.G. 2012. Ab-reação, análise dos sonhos e transferência. Tradução de Maria Luiza Appy; revisão técnica Jette Bonaventure. 8 ed. – Petrópolis, RJ.

JUNG, C.G. 2012. Freud e a psicanálise. Tradução de Lúcia Mathilde Endlich Orth; revisão técnica Jette Bonaventure – 6 ed. – Petrópolis, RJ : Vozes.

STEIN, Murray. 2006. Jung : O mapa da alma : uma introdução. Tradução Álvaro Cabral; revisão técnica Marcia Tabone – 5 ed. – São Paulo : Cultrix.

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A Lovely Thought
Imagem: 
“Um pensamento Agradável” de Daniel Ridgway Knight

Autor: Denise Diniz Maia*

Palavras-chave: cultura, arte, ciência, imagens e símbolos.

“Jung é um dos fundadores da psicologia moderna além de ter sido um dos precursores para uma nova era. Ao reintroduzir a noção de Self em psicologia e na cultura, ele coloca o homem frente à sua verdadeira essência e lhe restitui a sua totalidade, possibilitando-lhe o contato com o seu centro”. (Léon Bonaventure)

 

 

As primeiras décadas do século XX foram um momento de intensa experimentação na literatura, nas artes e na psicologia. Artistas e escritores tentaram abolir os limites das representações para mostrar sua experiência interior, sonhos e fantasias.

Começa a acontecer uma maior percepção da importância dos fenômenos psíquicos, num anseio de renovação cultural e espiritual. Psicólogos começaram a observar o mesmo terreno e a ciência moderna também volta sua atenção à realidade subjetiva.

Jung, como um grande investigador do pensamento ocidental moderno, teve suas idéias inovadoras amplamente disseminadas, influenciando o consciente coletivo de toda uma época. Ele sempre esteve à frente de seu tempo, abrangendo em sua obra muitos e variados campos de atuação e provocando um interesse cada vez maior nas gerações mais jovens, que desejavam transformar a sociedade e ter um novo olhar também para o indivíduo.

Surge um interesse maior de teóricos, vindo de debates no âmbito da sociologia e da antropologia; outros pela ressonância de aspectos analíticos com as novas física, biologia, e os fenômenos da consciência. É importante ressaltar o diálogo entre as diversas áreas e ciências, uma comunicação interdisciplinar, onde a psicologia analítica tem muito a contribuir. Os encontros anuais de Eranos que aconteciam na época de Jung, contavam com a participação de teóricos de várias áreas, que se nutriam do pensamento junguiano e que também o influenciavam.

Os convidados se reuniam na casa de Olga Fröbe no lago Maggiore em Ascona, com o objetivo de manter acesa a chama do conhecimento e da reflexão, num momento de obscurecimento e paralização entre as duas guerras.

Olga era uma intelectual, estudiosa de símbolos, cujo desejo era promover um lugar de encontro entre o ocidente e o oriente.

Jung proferiu sua primeira conferência nos encontros, em 1933 e foram 14 no total, até 1952.

Muitos junguianos também participaram, como Emma Jung, Barbara Hannah, Jolande Jacobi, Toni Wolff e James Hilmann. De outras áreas podemos citar entre outros: Mircea Eliade, Károly Kerényi e Rudolph Otto.

Na Grécia antiga a palavra Eranos trazia o sentido de banquete, onde cada convidado apresentava-se trazendo um “presente intelectual”. Assim este se tornou um espaço para a reunião de cientistas, mitólogos, teólogos e filósofos para trocarem idéias sobre suas áreas.

A renovação cultural segundo Kerényi, vem do encontro e do diálogo entre os representantes das diversas ciências e as disciplinas do espírito.

Jung enfatizou a necessidade de se considerar todos os fatores que influenciam a vida psíquica, seja de ordem biológica, social ou espiritual, pois os acontecimentos não são só perceptíveis na realidade externa e distante, mas presentes no mundo interno de cada um. Desta forma a renovação do espírito coletivo só é alcançada por meio da consciência individual onde a elaboração do processo de individuação acontece em paralelo ao desenvolvimento histórico e cultural.

A psicologia analítica muito contribuiu para a compreensão e reavaliação dos símbolos, entendendo que existe uma conexão entre os mitos antigos e os inúmeros acontecimentos atuais além da percepção do grande anseio do homem de se reconectar com aspectos e valores espirituais negligenciados, numa busca de significado e sentido de vida. Esta contribuição foi imensa, ultrapassando a esfera acadêmica e abrangendo o sofrimento da alma e os mistérios da psique humana. Esta forma de compreensão marca o fim do racionalismo científico do século XIX, reforçando que não há uma verdade absoluta, mesmo nas ciências exatas, e que o olhar do pesquisador com toda sua subjetividade interfere no processo observado.

Jung ressaltava a grande importância da fantasia como manifestação psíquica espontânea não controlada pelo consciente e por isto livre em suas formas de expressão. O contato com esta fantasia permite a re-conexão com uma parte menos valorizada, porém de vital importância.

As manifestações artísticas têm esta capacidade de traduzir em fatos visíveis os movimentos predominantes de uma época, captando com antecedência as futuras mudanças do consciente coletivo e traçando assim a linha de um desenvolvimento futuro.

O artista é o interlocutor neste processo que com sua sensibilidade de captar a necessidade coletiva gera dentro de si a obra que irá nascer para o mundo.

As poderosas forças do inconsciente se manifestam em todas as atividades culturais por meio das quais o homem se expressa.

A teoria junguiana ampliou a visão de muitas áreas e sua influência se faz presente nas atividades culturais, no campo das artes, na teologia e na antropologia. Na física moderna, ressalta as implicações filosóficas e sua importância no estudo de nosso universo interior.

A fecundidade das idéias junguianas, a partir dos conceitos de arquétipo e de inconsciente coletivo, abre novas perspectivas sendo, uma das contribuições mais importantes, o entendimento do inconsciente não mais apenas como depositário de conteúdos reprimidos, mas como matriz criadora autônoma da vida psíquica. Cada uma das ciências relacionadas anteriormente têm seu campo de estudos com lei e características próprias, mas se pode reconhecer nelas a presença de configurações arquetípicas.

No domínio das ciências naturais, o físico Wolfgang Pauli assinalou a necessidade de se levar em conta a área de interrelação entre psique inconsciente e processos biológicos. Ele começou a estudar o papel do simbolismo arquetípico no campo científico, trazendo à luz conceitos importantes de unicidade entre as esferas físicas e psicológicas.

Disse Jung:

“A microfísica pesquisa o lado desconhecido da matéria do mesmo modo que a psicologia profunda investiga o desconhecido da psique. Mais cedo ou mais tarde a física nuclear e a psicologia do inconsciente se aproximarão cada vez mais, pois ambas, independentemente uma da outra e vindo de direções opostas, avançam em território transcendente, uma com o conceito de átomo, outra com o de arquétipo”.

Vai acontecendo uma proximidade entre trabalhos da psicologia analítica e da microfísica, onde os conceitos básicos da física como tempo, espaço, energia, matéria, etc… são originalmente idéias arquetípicas.

A noção de campo de energia pode ser comparada à noção de inconsciente, onde conteúdos psicológicos aparecem ordenados na área psíquica como partículas num campo magnético. Podemos falar assim de uma unidade psicofísica da realidade, o unus mundus, onde matéria e psique são um só.

Um dos princípios mais importantes observados é o de sincronicidade cuja explicação para os fenômenos não é apenas lógica e causal, mas uma conexão acausal, onde acontecimentos significativos vão sendo produzidos numa outra relação entre fatos psíquicos interiores e exteriores.

Assim, Jung introduziu a noção de propósito e significado que vai além das leis deterministas de causa e efeito.Enfim, todas estas idéias podem estar presentes na compreensão de novos fatos em muitos campos das ciências e nos fenômenos da vida cotidiana, trazendo uma visão mais ampla da realidade.

Em seus escritos, Jung abordou a relação da psicologia analítica e a obra de arte, indicando intersecções muito próximas entre a experiência artística e a psicológica.

Para ele, o processo criativo consiste na ativação do arquétipo até a finalização na obra acabada, num diálogo constante entre consciente e inconsciente, onde um jogo de opostos está sempre presente. E o artista, como foi dito anteriormente, é um homem coletivo que exprime a alma inconsciente da humanidade mergulhando profundamente no ato criador. Ele é um instrumento colocado à serviço da criação que precisa se expressar, de uma forma autônoma e independente da intenção do autor.

O artista dá forma e traduz, na linguagem de seu tempo, as imagens primordiais ou arquétipos, tornando acessíveis as fontes profundas da vida.

Este é um dos aspectos mais importantes da obra de arte pois, ao trazer à tona formas de que o coletivo mais necessita, ela vai educando o espírito da época. Assim, podemos compreender a arte como uma produtora de símbolos importantes e transformadores para a alma humana.

Jung demonstrou em sua vida um grande interesse por diversas culturas e pela história da arte, cuja presença se expressa na pluralidade de imagens que povoaram seu imaginário psíquico e que nutriram seu gosto pela diversidade da vida simbólica. Ele privilegiou, em sua vida pessoal e clínica, o contato com diversas formas artísticas, atribuindo às imagens e aos símbolos uma grande importância.

A partir de seus estudos analíticos podemos entender que a arte tem um lugar privilegiado pois ao escolhê-las, observá-las, reproduzí-las ou criá-las, nos recolhemos em nossas profundezas.

Como analistas e terapeutas, além de nos abastecermos com estas imagens, tornamos-nos mais criativos e sensíveis abrindo-nos para nossos pacientes na escuta de seus sonhos e no compartilhar de suas imagens.

Jung nos trouxe a descoberta da espontaneidade criativa da psique inconsciente como produtora de símbolos e por ela se deixou conduzir, permitindo que o inconsciente se expressasse em sua vida e em sua obra, trazendo à sua exposição científica, elementos sentimentais e imaginativos.

Este foi o duplo impacto de Jung em nosso mundo:

a) o efeito de sua personalidade e de sua obra e

b) o confronto com o inconsciente com o qual estava profundamente comprometido.

Bibliografia

Gaillard, C – Le Musée imaginaire de Jung, Paris, Stock, 1998

Jung, C.G. (1976) O C 9/1, O arquétipo e o inconsciente coletivo, Petrópolis,

Vozes, 2011

_____________________ – O homem e seus símbolos, Rio de Janeiro, Nova

Fronteira, 2008

_____________________ – word and image, New Jersey, Princeton/

Bollingen, 1979

*A autora, Denise Diniz Maia, é psicóloga, analista didata do Instituto Junguiano de São Paulo-IJUSP, filiado a Associação Junguiana do Brasil-AJB que é filiada da International Association for Analytycal Psychology-IAAP.

Fonte: http://ijusp.org.br/artigos/perspectivas-psicologicas-de-jung-sobre-as-ciencias-e-a-arte/

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