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Archive for the ‘Vida’ Category

Imagem: Premonición de Remedios Varo 

Por: Celia Gago

A Tecelã é uma imagem arquetípica freqüentemente representada na arte e na literatura, especialmente nos contos de fadas e mitos, através de figuras femininas – deusas, fadas, mulheres…. Pretendo aqui apresentar alguns relatos que exemplificam a correlação entre o processo de criação, como os trabalhos com fios e a literatura, e o processo de individuação feminina.

Desde os primórdios da civilização, podemos encontrar nos artefatos, como cestos e esteiras, trançados com fibras de folhas e cipós, as primeiras formas de tecelagem, talvez inspirados nas teias de aranhas e nos ninhos dos pássaros.

Considera-se que o trabalho feminino de preservação e manutenção da vida, da produção de artefatos de cerâmica e cestaria (ligada à função de nutrição), e dos primeiros tipos de roupa (ligada à proteção do corpo), foi um fator determinante na transformação do Homem natural num ser cultural.

As atividades femininas de tecelagem, fiação e bordado sempre puderam ser acompanhadas pela expressão espontânea de desejos, fantasias e lembranças, de passagem de tradições e memórias, de brincadeiras, risos e lamentos. Em muitas sociedades, levou a consolidar um espaço de encontro de experiências, solidariedade e cumplicidade. Espaço de cantos e narrativas. Nos momentos críticos da vida feminina, como o casamento e a gravidez, o enxoval bordado e tricotado pela família e amigas (hábito atualmente em desuso nas grandes cidades), se constitui num verdadeiro rito de passagem, evocando a imagem das Deusas Tecelãs, Senhoras do Destino, presentes em diferentes culturas.

Fiação e tecelagem na mitologia e nos contos de fadas

Para os homens das sociedades tradicionais, todas as atividades humanas e todos os artefatos têm um modelo mítico e foram ensinados pelas divindades. Esta atitude religiosa eleva e dignifica o trabalho humano, pois ao criar, segundo Eliade, o homem repete a cosmogonia.

A criatividade humana é, portanto, um reflexo do dom divino. Assim, por mais habilidoso que seja, o ser humano não deve pretender comparar-se à divindade. A confecção de tapetes, no Oriente, pode exemplificar essa atitude de humildade em relação à criatividade. Diz-se que os tapeceiros cometem sempre um erro, deliberadamente, porque a perfeição é um atributo divino.

Em muitos mitos de origem, a criação do universo resulta de atividades técnicas, como modelar a argila, talhar a madeira ou tecer. A tecelagem aparece com um símbolo recorrente da criação, tanto do universo como da vida humana. O próprio Cosmos, segundo Eliade, é concebido como um tecido, como uma enorme rede. “No Cosmos, como na vida humana, tudo está ligado através de uma textura invisível. […] Certas divindades são as mestras desses ‘fios’ que […] constituem uma vasta ‘amarração’ cósmica.” (ELIADE, 1991:112)

Por ser a tecelagem uma atividade basicamente feminina, quando a criação do mundo através dessa atividade é atribuída a um deus, ele compartilha com uma deusa da natureza a autoria da obra. O filósofo grego Ferekydes apresenta o mundo como um imenso pharos (manto) tecido por Zeus (deus do céu) e Ctônia (deusa da terra) e estendido sobre um carvalho, contendo toda a natureza. O mundo como um tecido aparece, na tradição hindu, na concepção do véu de Maya, deusa do mundo das aparências.

O mistério primordial de tecer e fiar tem sido projetado sobre a Grande Mãe, que, como o Grande Feminino que abrange toda a natureza, é a primeira forma de divindade, precedendo às representações masculinas. É Senhora do Tempo, e conseqüentemente, do Destino. Governa o crescimento e o tempo cíclico, a alternância dia-noite, a mudança das estações e os ciclos de menstruação e gravidez das mulheres. Como a Grande Fiandeira ou como uma tríade lunar, fia e trama não só a vida humana, mas também o destino do mundo.

Na Grécia, as Tecelãs do Destino são as Moîras. Segundo Hesíodo, são filhas da deusa primordial Noite (Nix, nascida do Caos), assim como as Erínias e as Queres. Numa segunda versão, são consideradas filhas de Zeus e Têmis. Inicialmente uma força primordial, “impessoal e inflexível, a Moîra é a projeção de uma lei que nem mesmo os deuses podem transgredir sem colocar em perigo a ordem universal.” (BRANDÃO,1991,vol.1:230-1) Mas após as epopéias homéricas, passa a ser representada como uma tríade, personificando o destino individual, a parte que cabe a cada um: Cloto (a que fia) segura o fuso e puxa o fio da vida; Láquesis (a sorteadora) enrola o fio e sorteia o nome de quem vai morrer; Átropos (a inflexível), corta o fio da vida.

Em Roma, as Parcas, deusas fiandeiras que originalmente presidiam ao nascimento, passaram a ser identificadas com as Moîras. Também eram três: Nona, Décima e Morta e presidiam respectivamente ao nascimento, casamento e morte.

O número de três, nove ou mais raramente, doze, é interpretado de diversas maneiras, se relacionando a etapas temporais, como começo-meio-fim, passado-presente-futuro, nascimento-vida-morte. Na mitologia nórdica, a deusa tríplice do destino é representada pelas Nornas, Urth, Weryhandi e Skuld, as tecelãs que fiam perto do poço de Urd, entre as raízes da Yggdrasil, a Árvore do Mundo. Na literatura inglesa, aparecem como o nome de Weird Sisters (Irmãs Destino).

No Egito, a deusa Net ou Neith, conhecida no Ocidente como Deusa Primordial e Onipotente, uma das deusas mais difundidas e antigas, era “homenageada com procissões à luz de tochas e com mistérios, como deusa da magia e da tecelagem, aquela que não nasceu, mas gerou a si mesma.” (NEUMANN, 1996:194)

Como todos os arquétipos, a figura da Grande Mãe, como Fiandeira do Destino, se apresenta tanto sob o seu aspecto luminoso e benevolente como sob o seu aspecto sombrio, terrível. Na mitologia germânica, as Valquírias, em número de doze, encarnam o aspecto terrível da Fiandeira do Destino. Elas cantam, enquanto tecem, num tear espectral, a morte dos guerreiros no campo de batalhas, tendo o sangue como matéria–prima.

Em várias culturas, a criadora cósmica, divindade dedicada à fiação e à tecelagem, é representada pela aranha. Como epifania lunar, a aranha evoca, pela fragilidade de sua teia, uma realidade de aparência ilusória, enganadora. Sendo Senhora do Destino, tem função divinatória. Em algumas crenças, tem o papel de intercessora, fazendo a ligação com o plano celeste, ligando criatura e criador. Entre os navajos, a Mulher Aranha ou Mulher Mutante é a responsável pela manutenção do universo, fiando e tecendo continuamente a vida. Nessa cultura, as aranhas nunca são mortas, pois seria uma ofensa às Avós ou antepassadas.

A ligação entre a aranha e a divindade tecelã está presente também, na mitologia grega, na história de Aracne, a mortal que desafiou a deusa Atená. Sob o epíteto de Ergáne, “Obreira”, Atená era patrona de diferentes técnicas, entre elas a ourivesaria e os trabalhos femininos de fiação, tecelagem e bordado. Nas festas das Kalkeîa (festas dos trabalhadores em metais) as “Obreiras” de Atená, assim como as meninas denominadas Arréforas, iniciavam a confecção da túnica sagrada, que seria oferecida, num rito solene, no encerramento de sua festa mais importante, as Panatenéias. O tempo decorrido entre essas duas festas era de nove meses, o que insinua uma correlação entre a criação do tecido e a gestação.

Nos contos de fadas encontramos freqüentemente o tema e o simbolismo da fiação e da tecelagem, como nas histórias Os seis cisnes e A bela adormecida. Neste, as fadas que comparecem ao batizado da criança reportam às Queres, irmãs das Moîras (às vezes confundidas com essas), que presidiam aos ritos de nascimento na Grécia antiga.

As fadas têm, entre os seus atributos, o dom da tecelagem de tecidos mágicos, de invisibilidade, do destino. Uma lenda européia fala sobre as fadas protetoras dos bosques que teciam tecidos maravilhosos. Para algum indiscreto que as surpreendesse à noite, quando iam se banhar, o tecido transformava-se em mortalha. Mas se um homem tinha a felicidade de agradá-las, elas lhe davam um fio mágico para que não se perdesse na floresta.

Percebemos nessa lenda resquícios do mito de Ariadne em sua função de guia, que permite a saída do labirinto / bosque, símbolo do inconsciente. Aqui, fica bem evidente o duplo caráter benévolo / maligno dessas entidades, herdeiras diretas das fiandeiras míticas.

Platão utilizou, para representar o mundo, um símbolo ligado à fiação: o fuso, cujo movimento uniforme induz à rotação do conjunto cósmico. Segundo o Timeu, a deusa Nêmesis está sentada no centro do cosmo cujo eixo “gira em torno do seu útero como uma roca.”( FRANZ, 2003:129).

O tear pode simbolizar uma entidade que mantém a ordem cósmica, e sua produção, o fio da vida. Na tradição islâmica, o tear é símbolo da estrutura e do movimento do universo. Nas tradições populares, também se observam ritos que comparam o tecer ao criar vida. Na África do Norte, nas regiões montanhosas, em qualquer choupana humilde há um tear simples: dois rolos de madeira sustentados por dois montantes. O rolo de cima é o rolo do céu e o de baixo, o rolo da terra. Quando o trabalho de tecelagem está pronto, os fios que o prendem são cortados, enquanto se pronuncia a mesma bênção feita pelas parteiras, ao cortar o cordão umbilical dos recém-nascidos.

Matéria prima da tecelagem, o fio, e por extensão os nós e laços, estão sempre presentes nos mitos e superstições e são utilizados na medicina popular, nos ritos, nas feitiçarias e como amuletos. Sendo ambivalentes, como todos os símbolos, os nós podem tanto provocar como evitar e curar as doenças, impedir ou facilitar o parto, trazer ou afastar a morte. Em algumas culturas, o homem não deve usar nenhum nó nos momentos críticos: nascimento, casamento e morte.

Outro símbolo que se interliga ao do fio da vida é o do labirinto. “O labirinto é concebido , às vezes, como um nó que deve ser desatado”.(ELIADE, 1991:114) “Em todos os lugares, o objetivo do homem é libertar-se das ‘amarras’: a iniciação mística do labirinto […] corresponde à iniciação filosófica, metafísica, cuja intenção é rasgar o véu da ignorância e libertar a alma das correntes da existência” (ELIADE, 1991:115)

Fiar, tecer, narrar, criar

“Às mulheres não foi dado durante séculos escrever. Elas traçavam sinais de criação usando linhas enfiadas em finos orifícios, em teares, manipulando pequenos instrumentos de fabricação caseira. Com isso, transfiguravam o mundo, escrevendo signos que substituíam as palavras.”(ALMEIDA, 2006)

No mito e na arte, a tecelagem pode aparecer como uma forma de narrativa. Em culturas de diversos lugares e épocas, os painéis e tapeçarias são, não somente ornamentos, mas também documentos, traduzindo, em imagens tecidas, fatos históricos, mitológicos ou cenas da vida cotidiana.

No mito de Aracne, o que suscita a ira da deusa Atená, além da arrogância daquela mortal, é o tema de sua tapeçaria, a narrativa das aventuras amorosas de Zeus. Atená castiga a sua rival fazendo com que ela se arrependa e de tão culpada, se enforque. Mas por piedade ou para que ela pagasse eternamente pela sua arrogância, Atená a transforma numa aranha.

Outro mito grego exemplifica a tecelagem como narrativa. É a história de Filomena, raptada e violada por seu cunhado Tereus. Ele lhe corta a língua para impedir que o delate e a tranca numa torre. Mesmo prisioneira, a moça consegue tecer sua história e faz com que a tapeçaria chegue às mãos de sua irmã que, compreendendo a mensagem, consegue encontrá-la e buscar justiça.

Ovídio narra, nas Metamorfoses, a história das filhas de Mínias, que eram devotas de Minerva (Atená) e que se recusam a participar dos cultos orgiásticos. Durante os festivais de Baco (Dioniso), continuam a tecer, enquanto contam histórias para se entreter e aliviar o trabalho pesado. Dessa forma, usam as atividades paralelas da tecelagem e da narrativa como uma forma de resistência, em defesa de sua liberdade de culto e opinião.

No simbolismo de algumas palavras, podemos observar a analogia entre as atividades de fiar e tecer e a narrativa. Nos Upanixades, a palavra sutra, que designa o fio que liga todos os seres, o mundo terreno e o espiritual, significa também os textos búdicos. Na Índia, shruti e smriti tanto significam urdidura e trama quanto os frutos das faculdades intuitiva e discursiva. Em chinês, o caractere composto de mi (fio grosso) e de king (curso d’água subterrâneo) designa tanto a urdidura do tecido quanto os livros essenciais; wei é ao mesmo tempo o comentário desses livros e a trama.

Em nosso idioma, também utilizamos, como vocabulário literário, termos que remetem ao ofício da tecelagem, como trama, enredo, texto, fio da narrativa. Ana Maria Machado utiliza esse simbolismo para descrever seus sentimentos durante o processo de criação: “Quando estou escrevendo alguma obra de ficção mais complexa, sempre fico assim, me sentindo muito ligada a tudo que está se criando na natureza em volta de mim. Além disso, a noção de que existe uma estrutura subjacente, um projeto inconsciente segundo o qual se ordena a criação, é uma velha obsessão de quem escreve. Nem chega a haver novidade alguma em associar essa força regente a elementos de tecelagem e tapeçaria.” (MACHADO, 2006)

Criação e individuação

Jung apontou, ao longo de sua obra, a importância das atividades expressivas para a objetivação das imagens oriundas do inconsciente (pessoal e coletivo). Para ele, os símbolos concretizados pelas imagens pintadas, desenhadas, esculpidas ou representadas de qualquer forma material, representavam a síntese entre a consciência e o inconsciente. E atribuía às mãos uma certa “autonomia”, pois segundo suas palavras, “há pessoas que nada vêem ou escutam dentro de si, mas suas mãos são capazes de dar expressão concreta aos conteúdos do inconsciente .”(JUNG, 1982:171) Por isso, ele valorizava o fazer criativo tanto no seu processo de individuação como no de seus pacientes.

Criar pode ser prazeroso, mas o ato da criação, assim como a gestação da idéia ou sentimento pode trazer dor e sofrimento. Mesmo quando esteticamente belas, nossas produções podem denunciar os aspectos mais sombrios de nossa alma.

Para criar, é preciso ter coragem, principalmente para destruir o que já é conhecido e organizado, para buscar novas configurações. No entanto, depois e enquanto fazemos um trabalho criativo, podemos, além de vivenciar o prazer e as dificuldades na sua realização, nos tornar mais conscientes de nosso funcionamento psíquico.

Quando não é utilizada adequadamente, a energia psíquica disponível para o desenvolvimento da consciência, para o processo de individuação, para a criação, pode se tornar veículo de sofrimento e destruição.

Na lenda irlandesa da Aveleira (DICTA E FRANÇOISE,1983: 154) _ que apresenta elementos semelhantes aos dos mitos de Aracne e de Ariadne _ o fio que simboliza o produto da atividade criativa, do investimento da energia psíquica, se transforma em instrumento de auto-destruição. Conta essa lenda que uma fada, guardiã de um tesouro escondido num bosque sagrado, apaixonou-se por um príncipe que nele se aventurou, entregando-lhe um fio mágico para que não se perdesse. Em troca, deveria se casar com ela.. Ele conseguiu executar sua tarefa com êxito, mas alegando que não poderia ter filhos com uma ninfa dos bosques, recusou-se a desposá-la. Magoada, ela se enforcou num arbusto que passou a dar frutos de ouro.

Quando a criatividade é utilizada de forma positiva pode ser, além de fonte de prazer, veículo de saúde. “Bordar e narrar têm um caráter curativo, ordenador. Ao bordar, ao contar e reinventar um novo traçado para a sua própria história é possível mudar esta história, reinventar um novo desenho.”(ALMEIDA, 2006)

O espaço analítico pode ser simbolizado pelo espaço de criação, da fiação e tecelagem e narrativa de memórias, onde a matéria–prima é a própria vida, sendo tecida e re-tecida dia-a-dia. Espaço de transformação dos modelos herdados em concepções inéditas e únicas.

Comentando a visita que fez ao Museu Freud, Ana Maria Machado diz como “foi comovente descobrir um tear montado no escritório de sua filha Anna, entre o divã e os livros. Os fios da narrativa que cura se teciam nesse ambiente, no alvorecer da presença feminina na psicanálise.” (MACHADO, 2006)

Foi através da imagem das fiandeiras que melhor pude, num momento da minha análise, expressar meus sentimentos sobre essa relação.

Fiandeiras

Um tênue fio nos liga
de segredos e esperanças
como um cordão que alimenta
e ameaça romper-se
a qualquer hora.

Fio de vida e de morte
um tênue fio das Moiras
construído passo a passo
de ilusões e memória.

Construtoras do destino
tecelãs de nossas vidas
fiamos juntas, sozinhas,
tecidos de eternidades.

Fiando às vezes silêncios
os fios se embaraçam,
dão nós e arrebentam…

E do Nada surgem, então,
como de mãos invisíveis,
lãs quentes, jutas rudes, sedas suaves…

E voltamos a tecer,
num trabalho incessante,
fiandeiras de nós mesmas,
tecidos de nossas almas.

Penélope e a moça tecelã

O trabalho contínuo de Penélope, tecendo e desfiando, dia e noite, sem completar sua tarefa, tem sido associado, às vezes, à rotina das tarefas domésticas femininas, que não leva a nenhuma realização pessoal, nenhum crescimento psíquico. No entanto, o mito mostra que esse trabalho repetitivo foi uma estratégia escolhida pela heroína, esperando o retorno do marido, numa tentativa de “parar o tempo”.

Podemos imaginar que Penélope tenha sido inspirada por Atená, já que era essa deusa que protegia o retorno de Odisseu (Ulisses). Porém, o padrão cíclico que estabeleceu, tal qual os ritmos da natureza, revela, mais do que uma tática racional, uma profunda conexão com sua essência feminina. A sua tão decantada fidelidade, é, acima da lealdade ao marido, uma fidelidade a si mesma, à manutenção da sua autonomia.

Quando entregou Penélope em casamento a Ulisses, Ikarios, que não queria separar-se da filha, seguiu o casal numa carruagem, implorando que ela voltasse. Ulisses deixou a Penélope a decisão entre segui-lo ou voltar com o pai. Para Carolyn Heilbrun, ao ter a opção de acompanhar ou não o marido destinado a ela, Penélope tem uma condição excepcional em sua cultura, o que vai se refletir nos seus movimentos de tecer e desfiar. “Ficou em casa, mas viajou a um lugar novo de experiência, e criou uma narrativa nova.”(MACHADO, 2006) Esta frase, referente a Penélope, serve também para resumir a história da personagem de A moça tecelã (COLASANTI, 1982).

O conto começa a partir da etapa de inteireza, auto-suficiência e conexão com a natureza em que vive a personagem. Do controle total sobre sua vida e sua criação, passa à descoberta da incompletude e solidão, à busca do companheiro, à fantasia da maternidade. Ela, que fiava livremente todos os seus sonhos, se torna prisioneira dos desejos do homem criado pela sua própria fantasia. Exigindo que ela teça sem cessar, ele não permite que sua obra continue sendo uma fonte de prazer e o resultado da sua liberdade de escolha e criatividade. Felizmente, ele não pôde impedi-la de manter sob seu controle o tear, prolongamento de suas mãos e de sua alma. Aparentemente, ela está dominada pelo animus, mas se mantém em contato com a fonte de sua criatividade.

Do mesmo modo que os símbolos do inconsciente, que parecem eclodir num “passe de mágica”, a jovem tecelã desperta do torpor em que se encontrava e descobre o caminho de volta. O fio que desmancha é como o do novelo de Ariadne, mostrando a saída do labirinto. Retoma o controle de sua obra e de sua vida. Desfaz o que teceu e chega de novo ao ponto de partida, porém transformada.

Penélope e a moça tecelã, ao tecer e desfiar a seu próprio gosto, mantendo, sob a forma de fio no tear, o controle de suas vidas, estão conectadas com sua verdadeira natureza. A natureza Feminina representada pela Grande Mãe primordial, detentora dos poderes de criação e destruição, de morte e vida. Senhora do Destino.

Respondem, através da fiação e da tecelagem, o enigma proposto a Artur, que atravessa os séculos, como um grande segredo a ser revelado para os homens: “Sabe o que realmente quer a mulher? Ela quer ser senhora de sua própria vida!” (JOHNSON, 1991:98)

A vivência do arquétipo da Grande Mãe como Tecelã do Destino é extremamente importante para homens e mulheres. Por seu duplo aspecto, positivo e negativo, tanto pode estimular a enfrentar as dificuldades como impedir de lutar pela realização de desejos e necessidades.

Se o Destino for vivenciado como promissor, pode estimular o investimento de energia para alcançar as metas, mas, se for vivenciado como vazio ou trágico, pode levar à desistência e ao fracasso. Em contraposição a esse aspecto de fatalidade, o Destino pode ser vivenciado como resultado das escolhas que vão sendo tomadas ao longo da Vida, do potencial de responsabilidade que se tiver realizado.

Cada um de nós pode, sem afrontar a Grande Tecelã, tomar nas mãos seu pequeno tear individual e fiar, tecer, narrar, criar sua própria história.

REFERÊNCIAS�
ALMEIDA, L. Genealogias femininas in JARDIM, Rachel. O penhoar chinês.
Disponível em: http://www.ucm.es/info/especulo/numero24/genealog.htm.
Acessado em 27/06/2006 �
BRANDÃO, J. Mitologia grega. Vol.1. Petrópolis: Vozes, 1991
COLASANTI, M. Doze reis e a moça no labirinto de vento. Rio de Janeiro: Nórdica, 1982.
DICTA e FRANÇOISE. Mitos e tarôs – a viagem do mago. São Paulo: Pensamento, 1983.
ELIADE, M. Imagens e símbolos. São Paulo: Martins Fontes, 1991
FRANZ, M.L. Mitos de criação. São Paulo: Paulus, 2003.
JOHNSON, R. A. Feminilidade perdida e reconquistada. São Paulo: Mercuryo, 1991
JUNG, C.G. A natureza da psique. O. C. v. VIII /2. Petrópolis: Vozes, 1982.
MACHADO, A. M. O tao da teia –sobre textos e têxteis
Disponível em: http://www.htp.scielo.br/php?script=sci_artetext&piAcessado em 26/06/2006.
NEUMANN, E. A grande mãe. São Paulo: Cultrix, 1996.

Autora: Celia Gago
Psicóloga clínica (CRP 05/959) Arteterapeuta
Pós-graduada em Teoria e prática junguiana (UVA)
Licenciada em História da Arte
e-mail: celiagago@gmail.com

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Imagem: O Retorno de Perséfone de Frederic Leighton (1891).

Por Alexandre Quinta Nova Teixeira

 1 – O MITO:

No Olimpo ( lugar onde moravam os deuses ) Deméter se casa com Zeus e geram Core (a jovem). Um dia Core estava brincando em Elêusis (lugar onde mora os mortais) e vê uma flor de narciso no qual ela fica encantada e acaba cheirando esta flor. Ao cheirar esta flor Core fica tonta (NARKÉ=Narcótico) então a terra se abre e Plutão vem numa carruagem para raptar Core e leva-la para o Hades ( mundo dos mortos), pois Plutão se apaixonou por Core.

Deméter sente a falta de sua filha e fica louca a sua procura. Com isto Deméter (Mãe Terra) sai do Olimpo e vai em busca de sua filha pelo o mundo inteiro. Durante nove dias e nove noites a deusa fica a procurar sua filha sem nenhuma pista. Enquanto Deméter está a procura de sua filha a terra fica sem vegetação e sem fertilidade.

No décimo dia Hélio (deus do sol) diz a Deméter que viu Core ser seqüestrada em Elêusis por Plutão. Com isto Deméter se transforma em uma ama e vai conhecer Céleo e Metanira, que são reis de Elêusis , e cuida do filho do casal ( Demofonte ). Deméter decide transformar Demofonte em deus , para adotá-lo, levando ele ao fogo para sua purificação, mas sua mãe descobre e impede este processo com um grito.

Deméter diz que só volta ao Olimpo quando encontrar sua filha e pede a Zeus. Este manda Hermes, o deus do caduceu de ouro, ir para Hades e convencer Plutão de devolver a filha de Deméter. Então Hermes convencer ao irmão de Zeus à devolver Perséfone, mas este dá uma romã para ela comer. Deméter vai ao encontro de Core e ao abraça-la Deméter sente sua filha diferente e pergunta se ela comeu algo em Hades. Core diz que comeu uma romã e por causa disso ela terá que passar um terço do ano em Hades . Com isto Core se transforma em Perséfone que é esposa de Plutão.

Antes de voltar ao Olimpo Deméter ensina os seus rituais para Célio e seu filho Triptólemo . Ao voltar ao Olimpo a terra volta a ter vegetação e a ser fértil.

Célio funda os grandes mistérios de Elêusis que faziam parte dos rituais de fertilidade da Grécia no anos 1500 AC até 300 DC. Nestes mistérios qualquer pessoa que falasse grego poderia participar. Os iniciantes assistiam o mistério que era apresentado pelos sacerdotes. No final do mistério acontece a ” GRANDE VISÃO ” que era apresentada a espiga de milho, que simboliza a fertilidade. Depois de assistir ao mistério não se podia falar de nada o que aconteceu ou a pessoa seria desmentida

Antes de se passar para os grandes mistérios tinha que se passar pelos pequenos mistérios e a ponte de Guéfria, onde se falava vários palavrões até chegar aos grandes mistérios.

2 – INTERPRETAÇÃO DO MITO:

Antes de amplificar este mito eu darei o significado dos principais deuses do mito (Deméter , Perséfone e Plutão).

Deméter significa ” a mãe-terra “. Esta deusa simboliza um excesso de proteção. Ela traz o dom da empatia, compreensão emocional e física das necessidades da pessoa. Tem a tendência de tratar os outros como se fossem seus filhos e sua preocupação principal está centrada na família. Deméter é regida pelo Eros(amor), o não-verbal, saciando as necessidades de seus filhos e tem como principio o corpo e o material. Em síntese Deméter representa o arquétipo da mãe.

Perséfone é a rainha do mundo dos espíritos onde existe o que há de mais profundo no psiquismo humano. Ela vive no Hades e entra em contato com os conteúdos reprimidos, estando num fase profunda do inconsciente.

Plutão é o rei do Hades. Com isto ele rege o mundo inconsciente e as riquezas interiores. Sua missão é conduzir as pessoas para o caminho do auto-conhecimento e a integração levando-as ao seu processo de individuação. Este deus é regido pelo logos ( leis e limites ), ética, principio espiritual, voltada ao verbal e ao auto-conhecimento. Plutão representa o arquétipo do pai.

Podemos amplificar este mito com a fase inicial do desenvolvimento do homem.

No inicio quando Core ainda era um feto havia uma simbiose entre a Deméter e Core. Nesta fase Jung se refere ao termo “URÓBOROS” onde temos como símbolo a serpente que morde a própria cauda e o inicio da vida. No uróboros o feto vive em equilíbrio e totalidade. O corpo da mãe e da criança se misturam onde não podemos definir um e outro.

Quando a criança nasce, nós não conhecemos todas as forças que entrelaçam, cercam e enredam os relacionamentos entre mãe e o bebe pequeno. Só a mulher tem o dom da fertilidade dando a luz e a vida de um novo ser. O mesmo acontece entre Deméter e Core. A menina tinha o amor, a proteção e a satisfação das suas necessidades que só a Grande Mãe pode proporcionar ao sua filha. Com isto não só Core mas todos as crianças pequenas vivem no Olimpo, ou seja “O paraíso da infância “, que simboliza a consciência. Nesta fase o bebe assume uma posição horizontal vivenciando o arquétipo da mãe que foi representado no mito pela Deméter “A MÃE-TERRA”.

Quando Core cheira a flor de narciso ela fica tonta e desta forma é seqüestrada por Plutão. Com isto a flor de narciso simboliza uma armadilha para que Core seja raptada.

Este rapto está relacionado a primeira experiência sexual onde Core sai do” paraíso da infância ” para entra em contato com o mundo dos mortos ou o seu inconsciente. Com este rapto Core (a jovem) se transforma em Perséfone que é a esposa de Plutão e rainha do inferno. Por ser rainha do inconsciente ela lida com o que tememos e reprimimos. Se ela estiver muito aflorada pode levar a uma psicose. Com isto Perséfone entra em contato com o arquétipo do pai.

Deméter sente falta de sua filha e Zeus manda que busque Perséfone. Plutão permite volte a se encontrar com a mãe mas dá uma semente de romã para ela comer. Esta semente representa simbolicamente a sexualidade e a repressão de Plutão sobre Perséfone. Por causa desta semente Perséfone fica sempre entre o consciente e o inconsciente.

Este mito é constelado em pessoas com traços infantis sempre precisando de outras pessoas para tomar as decisões por ela. No caso de Perséfone ela depende da mãe ou do marido. Desta forma ela não tem maturidade, tendo a recusa a crescer. Por isto ela tem medo de assumir sua própria individualidade.

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(Imagem da Internet – Autor desconhecido)


Por Angelita Scardua

Primeiramente, podemos pensar na moradia como parte de duas de nossas necessidades básicas: proteção e segurança. De um lar, contudo, espera-se mais do que a função de simples abrigo. Nós temos a expectativa, consciente ou inconsciente, de que a casa que habitamos nos ofereça conforto, paz, estabilidade e, principalmente, nos ajude a ter mais felicidade. Mas como transformar cimento, tijolos, telhas, tinta, etc., num espaço que possa nutrir nossos corpos, corações e mentes?

A sociedade de consumo viabiliza a existência de vários profissionais dispostos a nos ajudar a ter uma casa que expresse nossos anseios de habitar: arquitetos, decoradores, designers, e por aí vai. Na prática, porém, poucos profissionais da área saberiam explicar o que pode transformar uma casa num lar. Quando oferecem soluções para a organização, decoração, montagem…construção de uma casa, os experts em moradia tendem, na média, a seguir as tendências do mercado. Via de regra, as tendências em questão são fruto de pesquisas das indústrias de construção civil, têxtil, iluminação, etc. Melhor dizendo, as tendências surgem, quase sempre, para justificar os gastos das indústrias com pesquisas que levam a novos materiais e técnicas. Muitas vezes essas inovações podem ser ótimas para o consumidor final, muitas vezes não! O amianto, só para citar um exemplo recente, foi usado largamente nas construções do mundo até que se descobrisse uma correlação entre esse material e a incidência de tumores malignos. Outras vezes, as inovações teconológicas criam tendências que melhoram a vida doméstica de forma geral, favorecendo nossas busca por bem-estar e qualidade de vida. É o caso, por exemplo, dos materiais renováveis, do uso da energia solar, dos vidros temperados, e muitas outros.

Ainda assim, de que forma os “profissionais da casa” podem nos ajudar a erigir um lar? Se pensarmos que a idéia de lar implica, em boa parte, a expressão da nossa individualidade, o desejo de afirmarmos nossa condição social e cultural e a representação dos nossos valores pessoais; o mínimo de conhecimento psicológico, tanto ao nível da espécie – o ser humano – quanto ao nível do indivíduo – o sujeito que demanda a casa – deveria ser parte essencial da formação daqueles que constroem casas. Quem sabe, anum futuro próximo se estabeleça uma abertura conceitual de ambos os lados para a existência de um trabalho interdisciplinar? Ou, pelo menos, o interesse numa produção teórico-prática que buscasse efetivamente o diálogo entre áreas como Arquitetura, Design, Decoração, Engenharia Civil, Psicologia, Antropologia, Sociologia, História, etc.

No campo da Psicologia, do qual me sinto confortável para falar, há estudos sobre os efeitos do ambiente na vida das pessoas, e vice-versa. Esses estudos abarcam desde aspectos genéticos como as neurociências da percepção, até fatores subjetivos como as características de personalidade subsidiadas por formações inconscientes. Uma vertente interessante, e a princípio mais palatável para não psicólogos, são os estudos no campo da Psicologia Ambiental, que se baseiam nos mecanismos evolutivos que favoreceram a constituição da espécie humana. Sabe-se hoje, por exemplo, que a sensação de conforto e felicidade no que diz respeito ao habitar vincula-se aos instintos primários que nos leva(ra)m à luta pela sobrevivência. Como assim? Para entender isso melhor, seguem alguns exemplos:

A busca de refúgio: a sobrevivência de nossos antepassados dependia da capacidade de encontrar lugares seguros, que fornecessem abrigo dos elementos naturais e proteção contra os predadores. Assim, tendemos a preferir lugares acolhedores, que dão a sensação de conter, abrigar, acolher…como ocorre com telhados  de muitas águas e variações na altura, com moradias de espaços compartimentados e privativos. Tanto é que a tendência dos lofts, por exemplo, por mais que tenha sido enaltecida pela mídia especializada, não logrou tornar-se uma regra de moradia, nem mesmo para uma minoria significativa. Alguns arquitetos, como Frank Lloyd Wright, são mestres em criar habitações cheias de espaços com essa característica de “refúgio”. Muitos profissionais, atualmente, seguem esses princípios optando por uma disposição dos móveis e por uma escolha de materiais – como madeira, pedra e outros – que promovem a sensação de conforto e segurança.

A importância da visibilidade: para os nossos antepassados, sobreviver numa savana africana implicava capacidade de antever as ameaças circundantes. Para fazer esses tipo de “previsão”, os humanos sempre dependeram da visão do que ocorria nas redondezas. Não é à toa que ao longo da história humana, os lugares altos semprem foram uma escolha para a construção de castelos, fortalezas e todo tipo de espaço para a defesa. Ou seja, ao mesmo tempo que precisamos nos recolher/refugiar, precisamos saber o que nos ronda a fim de que possamos nos defender. Assim, mesmo hoje, entre nós, há uma certa predileção por espaços amplos, tetos altos, luminosidade, etc. O mesmo vale pelo encantamento que ainda sentimos com casas erigidas em colinas, montanhas e, até mesmo, pelo fascínio susictado pelos arranha-céus das grandes metrópoles no imaginário moderno.

A atração pelo desconhecido: experimentos psicológicos sugerem que os humanos possuem uma forte atração pelo mistério. O que parece fazer sentido, já que descobrir, desvendar, conhecer, etc., são interesses inerentes à própria evolução da espécie. Sem tais interesses estaríamos todos, neste exato momento, habitando cavernas e vestindo a pele de animais mortos (alguns ainda o fazem, sei lá porquê!). Nossa sobrevivência como espécie está diretamente associada ao nosso interesse pelo que é desconhecido, misterioso. É a vontade de conhecer que nos impulsiona a realizar coisas, seja cruzar os oceanos ou fiar o algodão. Talvez, por isso, tendamos a nos sentir atraídos por corredores, escadas, nichos…espaços que “prometem” a revelação de algo mais que nos escapa à primeira vista. Hallsde entrada, sólidas portas; caminhos de acesso à entrada da casa com curvas, esquinas, cantos; cortinas que não ocultam totalmente os ambientes mas velam seus conteúdos…Enfim, casas com pequenos “segredos” parecem nos atrair e encantar.

A conexão com a natureza: no âmbito da investigação científica há sólidos indícios de que imagens de paisagens naturais podem melhorar o humor e, conseqüentemente, causar impacto positivo na saúde dos seres humanos. Um estudo clássico nessa área revelou que pacientes em recuperação cirúrgica, quando instalados em quartos com vista para a natureza, sentiam menos dor e se recuperavam mais rápido do que aqueles acomodados em quartos comuns. É claro que nem todo mundo pode habitar uma casa com vista privilegiada mas, certamente, isso é algo que a maioria de nós gostaria de fazer. Cultivar plantas em casa, morar próximo à agua – seja mar, cachoeira, rio, lago, etc., – ornar paredes com fotografias e pinturas de paisagem, criar um animal de estimação…são maneiras de nos mantermos em contato com a natureza e, ao mesmo tempo, de alegrar o nosso cotidiano. No passado remoto, para os nossos ancestrais, lugares cercados de vegetação e água era a garantia segura de fonte de alimentos, ou seja, de sobrevivência. No mais, o que seria da nossa história como espécie sem a companhia de nossos alegres companheiros de caçada, os cães.

A preferência pela simetria: uma das idéias dominantes atualmente nas neurociências é que o nosso cérebro se sente recompensado com padrões. Essa parece ser uma herança do nosso profundo vínculo original com a natureza. Do ponto de vista biológico, o equilíbrio das proporções, a regularidade e a ordem parecem sinalizar boas condições para a perpetuação da espécie. Tanto no âmbito da atração por um parceiro sexual quanto pela escolha de um lugar adequado para se viver, a existência de formas ordenadas e padronizadas parecem sinalizar confiabilidade. Pense bem: habitar um local no qual as estações seguem um fluxo regular possibilita um melhor planejamento das temporadas de caça, semeadura, colheita, recolhimento, etc. Similarmente, pesquisas recentes sobre a atração sexual têm demonstrado que o nosso cérebro tende a interpretar um corpo simétrico e bem proporcionado com genes mais saudáveis. Logo, simetria, ordem, equilíbrio e proporção parecem estar, do ponto de vista evolutivo, intimamente associados a tudo aquilo que no longo prazo possa ser confiável, produtivo e seguro. Não é a toa que ambientes com arrumação simétrica tendem a nos parecer mais aprazíveis. Paredes, tapetes, móveis, luminárias, janelas, portas, quadros…qualquer elemento de decoração que segue um padrão, seja de cor, textura, forma, tamanho, etc., parece agradar aos nossos olhos.

À procura do centro: nossos ancestrais caçadores e coletores – posteriormente agricultores e pastores – não teriam nos legado seus genes, e garantido nossa passagem por aqui, se em algum momento da dura rotina cotidiana eles não tivessem podido parar e repousar. O descanso é parte essencial da nossa sobrevivência, é o momento no qual nos permitimos ser mais do que animais. O repouso, o descanso, o ócio, são momentos em que podemos refletir, vagar… mergulhar no campo imaginário das nossas especulações, sonhos, desejos e delírios. O espaço que favorece essa “humanização” diária é o que podemos chamar de “centro”, o lugar de recolhimento, de auto-conexão. Casas que oferecem espaços preservados, ou seja, distantes de entradas, corredores e locais de passagem, nos parecem mais relaxantes. Não precisa necessariamente ser um cômodo, pode ser apenas uma poltrona num canto da sala, um banco num jardim, uma cama adequadamente posicionada. Às vezes, a simples mudança da iluminação de um ambiente pode proporcionar esse oásis imaginativo. Um dado interessante sobre o efeito da disposição dos móveis numa casa é que alguns experimentos psicológicos demonstraram que nossas escolhas fora de casa – dos locais por onde queremos andar, em quais preferimos parar e o que buscamos olhar – são afetadas pela organização dos espaços em nossos lares. Simbolicamente falando, nossa motivação para explorar o mundo tem a intensidade e a dimensão dos sonhos que a nossa casa nos permite abrigar.

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Por Angelita Scardua

Psicologia do Design de Interiores é um ramo recente da Psicologia Ambiental. Baseia-se em resultados de pesquisas científicas e em experimentação. O fundamento essencial dessa área é o amplo universo de investigação neurocientífica das emoções humanas. Dito de outra maneira, ocupa-se de entender como os seres humanos reagem, no nível emocional e cognitivo, à forma com que os espaços interiores – residenciais e comerciais, individuais e coletivos – são organizados. A partir disso, a Psicologia do Design de interiores visa contribuir para que os lares e estabelecimentos comerciais sejam espaços promotores de bem-estar e qualidade de vida. Não se pode confundir a Psicologia do Design de interiores com a Ergonomia. Enquanto a Ergonomia volta-se para a criação de ambientes funcionais, a Psicologia do Design de interiores tem a árdua tarefa de tentar criar ambientes mais felizes, espaços que priorizem as emoções e as vivências positivas.

Ainda, a Psicologia do Design de interiores também tem sido utilizada para auxiliar profissionais do mercado imobiliário na venda e alocação de imóveis, principalmente no que diz respeito à decoração das casas a serem negociadas. No canal de TV à cabo A&E há um reality show, Sell This House (Casa à Venda), no qual o designer Roger Hazard utiliza os princípios da Psicologia do Design de interiores para ajudar pessoas a venderem seus imóveis. Similarmente, os mesmos conhecimentos têm sido utilizados por lojas que trabalham com artigos de decoração para promover uma melhor adequação dos produtos ao perfil e às necessidades e expectativas do cliente.

A Psicologia do Design de interiores foi o primeiro passo no sentido de utilizar os conhecimentos propiciados pela Psicologia Positiva na Psicologia Ambiental. Ou seja, a primeira tentativa de promover felicidade a partir da interação homem-ambiente. Apesar de ter sido a primeira, essa vertente não é a única a ocupar-se de tornar meros moradores em habitantes mais felizes. Recentemente, surgiu nos EUA a onda do happy décor!

O happy décor, segue a enxurrada de propostas, em todos os âmbitos da cultura contemporânea, que prometem a felicidade num pacote bem arrumado. Da perfumaria à culinária, da literatura ao setor bancário, quase todas as formas de produção humana nesse início de século têm adotado o discurso da felicidade prêt-àporter. Tendo por resolução produzir felicidade com cores intensas e ambientes profusamente iluminados, o happy décor surge como a alternativa da hora para quem quer decorar a casa e, ao mesmo tempo, se sentir em dia com as as mais recentes tendências de comportamento e estilo de vida  contemporâneas…Afinal, só no ano de 2007, 100 instituições americanas ofereceram cursos sobre a felicidade.

Mas não é só de fast-self-h(elp)appy-décor que vive o mundo da arquitetura. Alguns estudos, bem mais sérios, na área tentam entender a relação entre arquitetura e felicidade. O filósofo Alain Botton, por exemplo, publicou um livro, em 2007, sobre o papel da arquitetura na promoção de felicidade. Em seu livro A arquitetura da Felicidade, o autor nos convida a abrir os olhos para essa curiosa relação, raramente percebida. Botton defende que o que buscamos numa obra de arquitetura não está tão longe do que procuramos num amigo. Ao construir uma casa ou decorar um cômodo, as pessoas querem mostrar quem são, lembrar de si próprias e ter sempre em mente como elas poderiam idealmente ser. O lar, portanto, não é um refúgio apenas físico, mas também psicológico, o guardião da identidade de seus habitantes.

Assim como Botton, outros estudiosos procuram levar a sério a investigação da relação entre felicidade e arquitetura. Dentre eles, há psicólogos sociais, experimentais, evolutivos e ambientais como Gary W. Evans, da Universidade Cornell, em Nova York, que realiza estudos profícuos na área. Num deles, Evans identificou que o bem-estar numa casa é, em grande parte, dependente da possibilidade que os moradores têm de fazer mudanças na casa. Para ele, essa autonomia decisória quanto à organização da casa cria um elo emocional entre o morador e o imóvel. Não é a toa que a as pesquisas sobre satisfação com a moradia apontam para o fato de que os proprietários costumam ser mais satisfeitos com seus lares do que os inquilinos. Evans também conseguiu demonstrar que determinadas mudanças nas características da casa podem melhorar a percepção subjetiva dos moradores e dar lugar a sentimentos positivos. Ele concluiu, por exemplo, que a falta de privacidade numa casa contribui para o estresse. A sensação de perda do espaço individual pode ser originada por elementos como paredes muito finas, janelas mal posicionadas e varanda muito aberta.

A necessidade de privacidade é um aspecto recorrente nos estudos sobre os efeitos do ambiente no bem-estar subjetivo das pessoas. Por exemplo, os psicólogos Oddvar Skjaeveland, da Universidade de Bergen, na Noruega, e Tommy Gärling, da Universidade de Gutemburgo, na Suécia, defendem que deve haver áreas de transição entre o espaço privado(a casa) e o público(a rua), para transmitir segurança e tranqüilidade. Seja como for, identificar os fatores que promovem bem-estar, sentimentos e emoções positivas, sensações agradáveis e satisfação com o lar tem sido a meta dos psicólogos envolvidos na formulação de uma arquitetura da felicidade. Com isso, o foco da casa passa a ser o indivíduo e não apenas conceitos abstratos de estética ou funcionalidade.

Como defende Botton, o autor do livro Arquitetura da Felicidade, esses dois aspectos não são independentes nem excludentes. Ou seja, para ele, as construções não deveriam ser desenhadas apenas para funcionar de tal ou tal modo, mas também para refletir um ideal de beleza e transmitir mensagens. Segundo o filósofo, a funcionalidades essencial dos prédios deve ser a psicológica. Um banheiro que não funciona direito incomoda tanto quanto um que não atenda à função estética e expressiva. Talvez, por isso, os psicólogos da arquitetura da felicidade afirmem que para que alguém seja feliz com sua casa não é preciso gastar rios de dinheiro. Respeitar as características e particularidades do morador já é um passo. O outro é respeitar as necessidades inerentes à nossa condição biológica. Deixar a luz natural adentrar a casa, por exemplo, não serve apenas para aquecer os ambientes e realçar as cores das paredes, tecidos e  móveis, mas também para ajudar o nosso organismo a regularizar os ciclos cotidianos dependentes de hormônios – como o ciclo vigília-sono – e isso, coincidentemente, melhora o nosso humor!

 

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Imagem:
Site Decoração de Casa

Por Glaucus Cianciardi

Objetos conferem sentidos aos espaços; peças e cores que escolhemos para nossa casa revelam não apenas preferências como características de personalidade e modos de pensar.

Parte da história da vida das pessoas está escrita na  decoração de seu lar – e carrega informações, como hieróglifos a serem desvendados. A escolha de estilos, cores, composições e peças oferece pistas sobre os traços da personalidade dos moradores de uma casa. Como bem coloca o analista junguiano James Hillman (1926): “Existe relação entre  nossos hábitos e nossas habitações, entre o interior de nossas vidas e o dos lugares onde vivemos”. Por meio do  estudo mais aprofundado da decoração do lar, é possível fazer uma leitura da personalidade e dos hábitos de seus ocupantes.

Desde a pré-história, o ser humano tem necessidade de imprimir sua marca no espaço onde habita, registrando sua passagem e seu domínio territorial. Nas cavernas de Lascaux, na França, por exemplo, foram descobertos em 1942 desenhos feitos há mais de 15 mil anos. Ou seja: desde os primórdios da civilização as pessoas já buscavam contar sua  história, imprimir sua marca e demarcar seu espaço por meio de pintura nas paredes das cavernas.

As figuras desenhadas não se repetem, o que expressa nosso impulso ancestral de nos diferenciar dos demais,  personificar ambientes e comunicar algo ao grupo social, decorando o lugar onde vivemos.

Uma casa, por si só, não é um lar. É um objeto arquitetônico inanimado, destinado ao abrigo do ser humano; somente após um processo etológico de domínio territorial tal espaço se transforma em lar. A decoração faz parte dessa  apropriação espacial. Decorar é, com a mediação de objetos, conferir sentidos a um lugar, tornando-o mais significativo que um simples abrigo; é tornar público o modo privado de ser de cada indivíduo; é apropriar-se do espaço, submetendo-o aos desígnios de quem o habita, de forma que o reflita tal qual um espelho a sua imagem e semelhança.

Como ressalta o arquiteto canadense-americano de origem polonesa Witold Rybczynski em seu livro Casa, pequena história de uma idéia (Record, 1999), a palavra “lar” reúne o significado de casa e família, de moradia e abrigo, de  propriedade e afeição. Esse pensamento pode ser complementado pelo arquiteto finlandês Juhani Pallasmaa, quando afirma que o lar é um espaço que integra memórias e imagens, desejos e sentimentos, passado e presente; é o lugar dos nossos rituais e ritmos pessoais de todos os dias.

Cada indivíduo possui uma forma de imprimir sua marca no espaço onde habita, revelando sua personalidade e os seus aspectos emocionais. Não seria exagero dizer que é uma forte agressão impedir que alguém imprima sua marca o espaço onde habita, que identificando e personificando sua moradia. Em seu livro Da Bauhaus ao nosso caos, o  jornalista americano Tom Wolfe descreve a profunda insatisfação dos trabalhadores franceses com os apartamentos funcionais de um conjunto operário em Pessac, na França, projetado por Charles Le Corbusier, por serem extremamente cúbicos, assépticos, frios e incongruentes com o tipo de vida dos moradores.


Objetos são impregnados de significados e ajudam as pessoas a se apropriar dos ambientes.

Arquitetos, designers de interiores e decoradores parecem por vezes tiranos por querer impingir aos clientes as suas  verdades estéticas e ergométricas. Talvez lhes falte entender que a casa é mais do que uma expressão arquitetônica, que traz em seus volumes, linhas e cores referências psicológicas e sociológicas de quem a habita. Como bem expressa o filósofo Gaston Bachelard, “a casa é o nosso canto do mundo; ela é, como se diz amiúde, o nosso primeiro universo”.  E, como tal, revela nossa identidade, assim como uma impressão digital. Se não for dessa forma, vira cenário – e não lar. Não é morada, é apenas moradia.

A casa, da mesma forma que o próprio ser humano, passa por ciclos: nasce, cresce e morre; muda de acordo com a alma e as vicissitudes da vida de seus ocupantes, acompanhando as suas transformações. Assim, quando se idealiza sua ocupação, a primeira ideia é que, ao fim da construção nem tudo esteja pronto para morar. Se a casa for habitada, seus hábitos também a habitarão, mas eles não chegam antes do morador. “É no exercício de morar que ela se apronta, conforme os hábitos dos moradores”, afirma o arquiteto Juan Pablo Rosenberg.

Apesar de ser um imóvel, a casa não é estática. Ela muda, de acordo com a alma dos seus moradores, acompanhando as suas transformações, expondo a reciclagem de valores por meio de novos arranjos e espaços, cores e tecidos, seus móveis e lustres, planos e lembranças. Mas é importante que essa mudança não seja superficial – e sim a oportunidade  e renovação interior, de revisão do passado para refutar tudo aquilo que não mais diz respeito ao  indivíduo, mas pode preservar sua memória e a de sua família. É difícil avaliar, porém, até que ponto as pessoas têm consciência de que reformam suas casas por uma necessidade interior de renovação; ou se a renovação interior é o  que fomenta a alteração dos espaços. O fato é que há uma correspondência entre o interno e o externo. Nossas casas podem ser consideradas extensões de nós mesmos.

As que não mudam há muitos anos costumam refletir a rigidez, o medo e a insegurança de seus ocupantes. Por outro  lado, a mudança constante pode revelar fragilidade emocional e inconstância de quem a ocupa. Como diz o decorador Germano Mariutti: “Entendo o cigano que leva a casa nas costas, mas não compreendo a pessoa que muda a  decoração a cada seis meses; (…) a casa tem de ser durável e estável”. Estabilidade esta que paulatinamente sinaliza  a necessidade de mudança, conforme a vida se processa; pois reestruturar a casa, esvaziar gavetas, arrumar armários, limpar porões e desobstruir os cômodos possibilitam a manifestação do vazio – e o vazio é o único lugar onde as coisas podem acontecer. Daí vem o fascínio pela casa nova, com novas possibilidades, com sua beleza imaculada, como a vida deveria ser.

Afinal, “beleza é uma promessa de felicidade”, escreve Allain de Botton. O papel da decoração, porém, extravasa a  promessa de beleza, sua função é fazer com que os ambientes caibam de forma física, social e psíquica no cotidiano das pessoas, comunicando quem são ou quem pretendem aparentar ser. Também é uma forma de comunicar às pessoas onde começam e terminam os limites de cada membro da família.

Cortinas leves

A casa possui uma forma de comunicação não verbal que acaba por delinear a personalidade de seus moradores. Diz o arquiteto Sig Bergamin: “Ela tem sua própria voz; é uma tolice não tentar ouvi-la.” Ouvir essa voz significa decodificar a identidade de seus moradores, suas histórias, hábitos e costumes. Cada casa é única e deve, portanto, ser pensada de forma individualizada, em detrimento do ego do profissional que a projeta e das tendências de mercado, pois a casa é reveladora: identifica o arquétipo de seus moradores.

Uma residência bem iluminada, colorida, com cortinas leves e espaços interligados pode indicar que seu habitante é extrovertido e esfuziante; já lugar entulhado de objetos, com cores pastel, pesadas cortinas e compartimentos segmentados costuma fazer pensar em uma personalidade mais introvertida. Tecidos rústicos podem revelar  despretensão, enquanto fazendas brilhantes apontam, em muitos casos, prepotência, arrogância ou desejo de impressionar o outro.

Mas nada pode ser avaliado de maneira separada, pois cada elemento decorativo é peça de um quebra-cabeça em busca de decodificação. Cada espaço possui um significado psicológico: a sala tem conotação social, das trocas, das relações; é o local onde se faz a transição entre o interno e o externo, onde se utilizam máscaras sociais na intenção de revelar aos outros quem desejamos ser. A sala de jantar carrega um aspecto formal, onde se busca a socialização da  família com os seus convidados, estão implícitos a organização e as normas de etiqueta. Já a cozinha representa o útero da casa, o afeto, a nutrição, é também o espaço das transformações profundas. Os quartos são os lugares onde se sonha e onde a sexualidade pode ser expressa de forma mais livre – referem-se ao inconsciente, à subjetividade, ao corpo e aos prazeres.

Sentar na cama de outra pessoa sem que haja proximidade suficiente para isso é uma indelicadeza, uma vez que o leito é um lugar de intimidade, que resguarda sonhos e segredos. Já o banheiro é o espaço do desnudamento, onde se tiram as roupas e as máscaras sociais se desfazem, tornando o indivíduo mais vulnerável, e surge a imagem do verdadeiro eu, frágil e sem artifícios.

Não por acaso, os caracóis sempre fascinam as crianças por poder carregar suas casas nas costas. Sociedades  itinerantes, como ciganos, que transportam seu mundo em carroças, ou os tuaregues com suas cabanas também atraem interesse: esses povos – que a qualquer momento se vão – despertam um misto de atração e intolerância. Talvez o fascínio venha do anseio humano por domínio total sobre a casa – e estendendo esse controle sobre si mesmo.

 

Glaucus Cianciardi é é mestre em arquitetura e urbanismo pelo Instituto Presbiteriano Mackenzie; pós-graduado em história da arte pela Fundação Armando Álvares Penteado. Atualmente é coordenador do curso superior tecnológico de design de interiores da Universidade Cidade de São Paulo, professor de design de interiores, design gráfico e design de produtos do Centro Universitário Belas Artes, professor de programas de aperfeiçoamento da Câmara de Arquitetos, Ycom Formação Continuada e da Academia de Engenharia e Arquitetura (AEA).

 

Artigo Publicado na revista Mente & Cérebro

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 Imagem: O Jardim das Delícias Terranas de Hieronymus Bosch

Por Fabrício Fonseca Moraes*

 

Arquétipo é um dos principais conceitos junguianos. Entretanto, frequentemente vemos grandes confusões feitas com esse conceito. Assim, vou tentar apresentar a forma como pessoalmente compreendo a idéia de arquétipo, discutindo um pouco da teoria para torna-lo mais claro.

 

Arquétipo : O termo

O termo arquétipo foi utilizado por Jung pela primeira vez em 1919, em Londres, num simpósio intitulado “Instinto e Inconsciente”. O termo arquétipo já era conhecido da filosofia e, suas origens, poderiam remontar até Platão. Essa relação histórica com o Platonismo gerou um preconceito em relação a concepção de Jung. Em sua etimologia, o termo arquétipo é formado pelo termo arkhé, oriundo do grego, que significaria primeiro, antigo, regente, dominante, original; e typos, também oriundo do grego, que significaria marca, impressão, molde ou modelo. Desde modo, o termo arquétipo exprimiria a idéia de um molde, marca ou modelo original.

 

Arquétipo na Psicologia Analítica

Apesar do termo só ter sido introduzido em 1919, a idéia de arquétipo já estava presente nas publicações de 1912, onde Jung relatava seus estudos acerca das “imagens primordiais”, imagens que se manifestam na psique e que poderíamos observar uma relação com a mitologia. Por volta, de 1917, Jung começa a se referir dominantes do inconsciente coletivo.

Num primeiro momento, Jung relaciona ou mesmo justifica a teoria dos arquétipos considerando a teoria da evolução. Deve-se notar quem em 1912, por ocasião de palestras no EUA, Jung visitou manicômios destinados aos negros, para pode estudar os sonhos e delírios desses pacientes, o que ele pode notar era que os conteúdos eram semelhantes aos de seus pacientes na Suiça e, alguns delírios e percebeu claro paralelo com a mitologia grega.

Para Jung,  a universalidade dessas representações psiquicas estavam relacionadas com a história do homem. Segundo ele,

Assim como o corpo humano representa todo um museu de órgãos com uma longa história evolutiva, devemos esperar que o espírito também esteja assim organizado, em vez de ser um produto sem história. Por “história” não entendo aqui o fato de nosso espírito se construir por meio de tradições inconscientes (por meio da linguagem etc.), mas entendo antes sua evolução biológica, pré-histórica e inconsciente no homem arcaico, cuja psique ainda era semelhante à dos animais. Esta psique primitiva constitui o fundamento de nosso espírito, assim como nossa estrutura corporal se baseia na anatomia geral dos animais mamíferos. (JUNG, 2000a, p. 229-230)

Isso implica em dizer que os arquétipos não estão relacionados a nada metafísico, mas, sim são expressões do processo evolutivo, quem imprimiram padrões de basais de organização do psiquismo.  Esses padrões basais podemos reconhecer nos animais como instintos. Os arquétipos, seriam

(…) instintos centralmente representados, ou seja, que se manifestam como imagens. Os arquétipos só tomam a forma de imagens onde a consciência está presente; noutros termos, o auto-retrato configurado dos instintos é um processo psíquico de ordem superior. Pressupõe um órgão capaz de perceber essas imagens primordiais. (NEUMANN, 1995, p.215).

A referencia a imagens, num primeiro momento, podemos pensar nas imagens dos sonhos, as imagens em alunicações de pacientes psicóticos. Entretanto, devemos compreender que essas imagens (sonhos e alucinações) são representações visuais que atingem a consciência. É fundamental que compreendamos para Jung,  IMAGENS são REPRESENTAÇÕES, não apenas visualizações. As imagens arquetípicas, que prefiro chamar de representações arquetípicas, pode ser cinestésicas, assim sentidas no corpo, a analise bioenergética nos propicia uma percepção clara disso, pois, p.ex., através um dado exercício, é possível acessar o mesmo conteúdo emocional em indivíduos de diferentes culturas ou diferentes lugares do mundo. Ou seja, através de um movimento compatível com a dinâmica própria do arquétipo é possível ativa-lo ou ativar sua representação na esfera pessoal, essa pode se manifestar como imagens (sonhos, visões), sensações cinestésicas ou emoções/lembranças.

De forma geral, quando o arquétipo isto é, um padrão de organização psíquica basal, é ativado ele vai mobilizar  o individuo por inteiro, modificando a forma do individuo perceber ou reagir à realidade, isso porque sua força ou energia tende a engolfar o ego.

Assim, compreendo que o arquétipo é um padrão basal de organização psíquica, assim, o psiquismo se organiza em torno desses padrões, fazendo com que todos os indivíduos em toda parte tenham uma organização psíquica semelhante. Deste modo, falar em arquétipo significa reconhecer que temos uma predisposição a determinados comportamentos, assim como a predisposição a aprendizagem. Deve-se notar que essas predisposições são comuns a toda humanidade. Esses padrões vão assumir a forma da cultura em que o individuo se encontra(mas, sua essência permanece a mesma em toda cultura). Como por exemplo, a maternagem, ela se manifesta em todas as culturas e se caracteriza essencialmente pelo cuidado e nutrição da prole, contudo, o tempo e a forma como a mãe vai cuidar e nutrir de seus filhos, depende da cultura onde está inserida.

Há tantos arquétipos quantas situações típicas na vida. Intermináveis repetições imprimiram essas experiências na constituição psíquica, não sob a forma de imagens preenchidas de um conteúdo, mas precipuamente apenas formas sem conteúdo, representando a mera possibilidade de um determinado tipo percepção e ação. Quando ocorre na vida algo que corresponde a um arquétipo, este é ativado e surge uma compulsão que se impõe a modo de uma reação instintiva contra toda razão e vontade, ou produz um conflito de dimensões eventualmente patológicas. Isto é, uma neurose. (JUNG, 2000b, p.58).

 

Representações arquetípicas

Segundo Jung, seria

provável que a verdadeira natureza do arquétipo é incapaz de tornar-se consciente, quer dizer, é transcendente, razão pela qual eu a chamo de psicóide. Além disto, qualquer arquétipo torna-se consciente a partir do momento em que é representado, e por esta razão difere, de maneira que não é possível determinar, daquilo que deu origem a essa representação (JUNG, 2000c, p77)

Como podemos ver, o arquétipo não pode se tornar consciente por ser psicóide (isto é, quase psíquico, o arquétipo esta na zona limítrofe entre o físico e psíquico, por isso transcendente). Conforme disse acima, as chamadas “imagens arquetípicas” são “representações” do arquétipo. Para evitar confusões, prefiro me referir às manifestações do arquétipo apenas como “Representações arquetípicas”. Compreendo como as principais formações arquetípicas:

1 – Complexos : Os complexos de tonalidade afetiva ou complexos ideoafetivos são agrupamentos de ideias, pensamentos, imagens em torno de um núcleo arquetípico. Os complexos são como atualizações dos arquétipos na vida pessoal. Como dissemos, os arquétipos são padrões de organização psíquica, assim, as experiências individuais que possuem afinidade com um padrão arquetípico são atraídas e formam um conglomerado, que organizam e orientam nossas memórias de lembranças vividas, assim como orientam a percepção das experiências. Através dos complexos podemos apreender as dinâmicas arquetípicas e como elas organizam e orientam nossa vida.

2 – Símbolos culturais: Chamo de símbolos culturais todos os elementos que se mantém como referencia da cultura. Como os contos de fadas, mitos, provérbios, imagens, monumentos que expressam a dinâmica arquetípica. Segundo Jung,”o arquétipo é sempre uma espécie de drama sintetizado” (EVENS, 1973, p. 55), por isso, muitas das narrativas mítico-religiosas nos afeta, assim como as obras de arte que expressam um cena ou situação que similar a padrão arquetípico. Os símbolos culturais são importantes pois, servem de referencia para a constelação dos arquétipos em nossa vivência pessoal.

3 – Símbolos pessoais:  Os símbolos pessoais são formações que eclodem do inconsciente, intimamente relacionado com o momento do qual um individuo vive. Esses símbolos podem ser situações, pessoas, locais, lembranças, musicas, enfim, qualquer coisa que tenha uma similaridade arquetípica ou que sobre ao qual o arquétipo inconsciente tenha se projetado. O símbolo pessoal tem o objetivo de  possibilitar a passagem de energia do inconsciente para a consciência, com a finalidade de organizar e/ou dar um direcionamento ao Ego.

 

 EVANS,R.Entrevistas com Jung e as Reações de Ernest Jones.Rio de janeiro:eldorado,1973.

NEUMANN, E. História da Origem da Consciência, São Paulo: Cultrix Editora, 1995

JUNG, C.G. Vida Simbólica Vol. I, Vozes, 2ª Ed., Petrópolis, RJ, 2000a.

JUNG, C.G. Os Arquétipos e o Inconsciente Coletivo, Vozes, Petrópolis, RJ, 2000b.

JUNG, C.G.Natureza da Psique, Vozes, Petrópolis, RJ, 2000c

 

 Fabricio Fonseca Moraes é Psicólogo Clínico de Orientação Junguiana, Especialista em Teoria e Prática Junguiana (UVA/RJ), Especialista em Psicologia Clínica e da Família (Saberes, ES). Atua em Vitória desde 2003.

Contato: 27 – 9316-6985.

e-mail: fabriciomoraes@yahoo.com.br

Twitter:@FabricioMoraes

 

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Imagem: Rachel Weisz Como Branca de Neve por Annie Leibovitz

Por Fabrício Fonseca Moraes*

Um conceito importante para a psicologia analítica é o “símbolo. É quase impossível falar qualquer coisa em psicologia analítica sem tocar direta ou indiretamente em símbolos.  Isso faz com que vejamos o uso do termo de uma forma, muitas vezes, equivocada. Vamos pensar alguns aspectos dos símbolos:

1) Etimologia de Símbolo

A palavra símbolo vem do termo grego symbolon, que por sua vez estava relacionado com o verbo symballein que era “lançar com”, “lançar junto” ou fazer coincidir. O termo significava união, pacto, amizade. Símbolo na antiga Grécia representava um compromisso entre duas pessoas. Era comum, por exemplo, a divisão ao meio de uma moeda na ocasião da separação de dois amigos ou de duas pessoas que tinham um compromisso entre si, para que quando no futuro elas se reencontrassem a moeda partida seria símbolo do compromisso do passado.

Na Ilíada de Homero, no Canto VII, temos um exemplo interessante do sentido do símbolo. Nesse canto é relatado uma pausa na batalha entre os exércitos, sendo então proposta uma luta entre o melhor dos Aqueus e o melhor dos troianos. Assim Ájax, o melhor dos Aqueus, e Hector (ou Heitor) o melhor dos troianos iniciaram um combate feroz, e quando era chegada a noite, hora que era proibida pelos deuses de haver combate,  eles discutem o fim de seu combate. Heitor, diz:

“(…) Vamos por fim ao combate e à luta, por hoje. Mais adiante, à luta voltaremos até que faça a escolha, entre nós, o demônio da fortuna e a vitória caiba a um dos dois. Já cai a noite; cumpre guardar a noite. (…) Troquemos, pois, dons memoráveis, para que alguém, Troiano ou Grego, possa vir a dizer: `Combateram-se os dois na peleja devora-corações. Separaram-se amigos.`” Falou. E deu sua espada ao Dânao, cravejada em prata, com talim bem trabalhado e bainha; Ájax o cinturão – púrpura fulgurante – lhe ofertou. Separaram-se então. Aos Aqueus um se dirigiu; outro, à multidão troiana. (HOMERO, 2002, pág. 282-3)

Nesse fragmento da Ilíada devemos observar a frase “separaram-se amigos”. Olhando o contexto percebemos claramente que “amigos” como aparece no texto em nada se relaciona com o conceito de amigos que temos nos dias atuais. Essa amizade dita por Homero, tem como símbolo ou marca de reconhecimento os “dons memoráveis”, a espada e o cinturão. A troca desse presentes é o símbolo o reconhecimento e respeito mútuo, reconhecimento que seria cantado tanto por gregos e troianos.

O símbolo indica o reconhecimento, aponta para este algo em comum. Heitor e Ájax mesmo em lados opostos estavam unidos pela batalha travada, e simbolizada pela troca de armas.

Outro exemplo, mais próximo e conhecido é o símbolo do peixe utilizado pelos cristãos dos primeiros séculos para se reconhecerem, quando se encontravam, um fazia um risco curvilíneo e o interlocutor completava o desenho com outro risco curvilíneo formando um peixe (símbolo do peixe estava relacionado a palavra ICHTHYS, peixe em grego,  cujas letras que eram consideradas como acróstico para Iesous Christos Theou Hyous Soter – Jesus Cristo, de Deus o filho, Salvador). eles se reconheceriam como cristãos. Em outras versões, uma pessoa escrevia no chão a letra grega alfa (a), que guarda similaridade com o peixe, e o interlocutor apagaria o desenho, de igual modo eles se reconheceriam como cristãos reconhecendo-se como “cristãos”.

O símbolo historicamente representa a união, um elo que une entre dois iguais que foram separados, indicando uma identidade entre ambos.

2) Símbolo na Psicologia Analítica

Os junguianos muitas vezes são questionados sobre “significado” de símbolos, ou de forma caricata são aqueles que reconhecem símbolos em tudo. Por isso, devemos ter cautela no estudo de símbolos.  O primeiro passo para pensarmos o símbolo na psicologia analítica é fazermos a diferenciação entre sinal e símbolo, pois eles possuem uma relação muito próxima.

Os sinais indicam/informar convenções ou relações naturais. No geral, possuem um significado determinado.  Por outro lado, o símbolo possui vários significados. Devemos compreender que o símbolo ser expresso por um sinal, isto é, uma marca ou ícone, entretanto, o significado ou sentido do símbolo será sempre subjetivo. O sinal por sua vez, tende a apontar a um significado objetivo, determinado pela cultura. Assim, todo símbolo é um sinal, mas, nem todo sinal é um símbolo. Deste modo, para a psicologia analítica compreende que os símbolo indica algo que não pode (pelo menos não momentaneamente) ser expresso pela linguagem comum, indicando para algo desconhecido.

Colocando em outros termos, o símbolo possui um icone (ou sinal) que está relacionado com a consciência (ou seja, é percebido ou representado na consciência) e outro aspecto que é sua indeterminação corresponde a sua relação com o inconsciente. Assim, os símbolos possuem uma natureza intermediária ou transcendente, constituindo uma outra realidade. No símbolo a consciência e o inconsciente estão integrados.

Nessa perspectiva um simbolo pode ser uma imagem(icone), local, situação, musica, sensações e etc… todos os elementos sobre os quais o inconsciente possa se projetar atribuindo significado pode se tornar simbólico. Os símbolos são sempre formados a partir do inconsciente, a consciência não cria símbolos, mas sinais.   

a) Símbolos  Culturais

 Os símbolos culturais são representações arquetípicas que orientam a cultura. Os símbolos culturais estão relacionados geralmente relacionados com as religiões. Devemos lembrar que  uma religião não é Um simbolo, mas um sistema simbólico. Quando uma religião subjulga outra, o símbolos são substituídos(ou absorvidos) por outros da matriz arquetípica correspondente. Outros, podem se manter como contos de fada ou nos mitos. 

b) Símbolos  Individuais

 Os símbolos pessoais são formações que eclodem do inconsciente, intimamente relacionado com o momento do qual um individuo vive. O símbolo muitas vezes se constela como uma resolução de conflito. É um elemento integrador, que supera um possivel conflito possibilitando o funcionamento da dinâmica psíquica.  Um aspecto fundamental, é considerar que um símbolo somente é para quem o percebe, “depende da atitude da consciência que observa se alguma coisa é simbolo ou não(…)” (JUNG, 1991, p.445)

c) Transformadores de Energia

Jung se referia aos símbolos como transformadores de energia, pois tinham a função de transmitir a energia entre a consciência e o inconsciente. Isso significa dizer que os símbolos possuem a função de nutrir a consciência e o ego. Os símbolos canalizam a energia do inconsciente para a consciência, aglutinando a energia e deixando disponível para a ego. Isso especialmente importante, pois, quanto maior a energia disponível ao ego, maior o potencial de ação ou ao exercício da vontade.

d) Função Transcendente

Função Transcendente foi o conceito que Jung adotou (importando da matemática) para expressar a tendência da consciência e do inconsciente em se unir.Toda vez que falamos de símbolos estamos falando de função transcendente, ou melhor, esta se exprime ou se manifesta pelos simbolos. O que é importante para pensarmos a psicoterapia. Pois, a mudança da atitude da consciência ocorre na medida que a que a função transcedente se manifesta, como expressão da resolução do conflito. No texto intitulado “A Função Transcedente” Jung também relaciona a função transcendente com a transferência, pois, esta é uma tentativa do inconsciene em mudar a atitude da consciência (superação do conflito) através da projeção de conteúdos inconscientes no terapeua/analista que favoreceria essa mudança. Assim, a relação terapêutica seria simbólica, isto é, constituiria um símbolo para o cliente.

Por isto, na prática é o médico adequadamente treinado que faz de função transcendente para o paciente, isto é, ajuda o paciente a unir a consciência e o inconsciente e, assim, chegar a uma nova atitude. Nesta função do médico está uma das muitas significações importantes da transferência: por meio dela o paciente se agarra à pessoa que parece lhe prometer uma renovação da atitude; com a transferência, ele procura esta mudança que lhe é vital, embora não tome consciência disto.(JUNG, 1998, p. 74)

 

Referencias

JUNG, C.G. A DINAMICA DO INCONSCIENTE, Ed. Vozes, Petrópolis, RJ, 1998.

JUNG, C.G. TIPOS PSICÓLOGICOS  Ed. Vozes, Petrópolis, RJ, 1991.

HOMERO, ILIADA– tradução Haroldo Campos; 3 ed.; São Paulo: Arx, 2002.

 

Fabrício Fonseca Moraes é Psicólogo Clínico de Orientação Junguiana, Especialista em Teoria e Prática Junguiana (UVA/RJ), Especialista em Psicologia Clínica e da Família (Saberes, ES). Atua em Vitória desde 2003.

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e-mail: fabriciomoraes@yahoo.com.br

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