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Por Sandra Gomes – Psicóloga Junguiana

 Ao eleger Zeus e Hera como símbolos do casamento “per excellence”, os gregos reconhecem que, longe de ser uma união tranqüila, ela é uma relação conflituosa baseada em rivalidades. Zeus manteve, mesmo depois de casado, inumeráveis aventuras amorosas e Hera vingou-se de maneira fria e cruel de todas as amantes de seu marido.

A triangulação amorosa constitui-se num dos principais conflitos enfrentados pelos casais do mundo de hoje e podemos tomar o clássico triângulo amoroso da mitologia grega – Sêmele, Zeus e Hera – como modelo para alguns desses conflitos.

Para a psicologia junguiana o estudo dos mitos é de extrema importância, pois eles representam as matrizes arquetípicas do comportamento humano.

Segundo o mito, Zeus, o pai dos deuses, amou a jovem princesa Sêmele e disfarçado sob a forma humana manteve com ela uma relação clandestina. A vingança de Hera, após a descoberta do romance, não tardou a chegar. Consegue aproximar-se de Sêmele, sob a forma de sua ama, fazendo-a acreditar que ganharia honras celestes se convencesse Zeus a mostrar-se em sua forma divina.

Persuadido por Sêmele, na visita seguinte que faz a ela, Zeus se mostra com os símbolos do seu poder olímpico: as nuvens, a chuva, o vento, o trovão e o seu raio fulminante. Não suportando esse poder, Sêmele é fulminada pelo relâmpago. De seu ventre, grávido de seis meses, Zeus retira a criança enxertando-a em sua própria coxa, mantendo-a até o dia do nascimento. Essa criança foi o deus Dioniso que libertou Sêmele dos infernos e com ela, tornada imortal, ascendeu ao céu dos deuses.

Acompanhando as narrativas míticas, inclusive a que pertence a história de Sêmele, iremos perceber que o relacionamento entre Zeus e Hera acontece sempre numa luta perpétua pelo poder.

Esse tipo de luta também existe nas uniões terrestres embora, muitas vezes, seja dissimulada por trás de pequenos e grandes conflitos. No entanto, faz-se oportuno lembrar Jung quando afirma que “onde reina o amor não existe vontade de poder, e onde predomina a vontade de poder, está faltando amor”.

O relacionamento pode ser prejudicado se a luta pelo poder é um padrão constante. Muita energia é consumida, pois quanto mais tempo dura essa luta, maior é o medo da derrota. Os envolvidos no relacionamento sentem-se então compelidos a buscar fontes de ajuda no exterior que possam atuar como aliadas.

De maneira bem semelhante ao nosso casal divino, os casais em conflito buscam, no caso do “homem – Zeus”, a amante como aliada, enquanto que a “mulher – Hera” busca uma maneira de vingar-se do marido investindo contra a amante. Protege-se de um confronto consigo mesma empregando toda a sua energia no ódio e no desejo de vingança.

Para ela o conflito na relação e a morte do amor são questões por demais dolorosas a serem enfrentadas. Mas é preciso lembrar que todos os acontecimentos precisam ser examinados por mais difícil que seja a situação. Este exame deve ser feito também nas suas formas arquetípicas.

Cada participante do triângulo deve confrontar-se com as questões pendentes que foram levantadas em si mesmos. A jovem “amante – Sêmele” precisa enxergar e integrar os aspectos Hera em si. Hera zela pelo compromisso e a amante, de certo modo, evita vivenciá-lo.

O “homem – Zeus” precisa descobrir o feminino em si despertado pela amante e na “mulher-Hera” os aspectos reprimidos da jovem amante precisam ser redescobertos e vivenciados.

Não esqueçamos que, desse triângulo, uma criança sobrevive. Essa criança é Dioniso, o deus da transformação. Simbolicamente essa criança representa a nova força criativa a ser encontrada no que nasceu com eles e entre eles. A transformação deverá unir o desejo com a responsabilidade pelo que foi criado.

Os mitos são permeados por uma sabedoria que pode revelar o verdadeiro caminho do amor. A sacralidade desse sentimento permitirá que sensualidade e compromisso caminhem juntos. Aprendendo a linguagem do amor, compreenderemos que todo relacionamento sobrevive assim como Dioniso, se for criativo, renovando-se a cada dia.

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Por: Otilia B. Rosario

“A liberdade interior dos desejos corriqueiros

A libertação da ação e do sofrimento

A liberação da compulsão interior e exterior,

Por uma graça de senso, uma luz branca

tranqüila e em movimento”

(T.S. Eliot)


Genealogia

Para uma melhor compreensão da genealogia de Héstia, a deusa da lareira, recorremos a Hesíodo e a sua teogonia que é ao mesmo tempo a sua concepção da origem do Cosmo.

Segundo esse admirável poeta grego a segunda geração divina tem seu início com a união de Crono e Réia e é deste hierosgamos que são gerados Héstia, Hera, Deméter, Hades, Posídon e Zeus.

À semelhança de seu pai, Urano, Crono, foi profeticamente avisado de que um de seus filhos ocuparia o seu lugar, ante essa ameaça, age de forma tão tirânica quanto Urano e engole seus descendentes logo após o nascimento. Indignada com tamanha crueldade, Réia decide salvar o filho mais novo (Zeus) e quando este nasce, coloca em seu lugar uma pedra envolvida em panos que é engolida por Crono.

Réia entrega o filho aos cuidados de Curetes e das Ninfas e este, quando atinge a idade adulta, inicia a luta contra Crono. Propondo-se a libertar os irmãos das entranhas inóspitas do pai, Zeus, seguindo os conselhos de Métis (Prudência) que lhe entrega uma droga maravilhosa, obriga Crono a vomitar os filhos que havia engolido.

Héstia é, portanto, a primeira filha da segunda geração divina e ao mesmo tempo a derradeira por ter sido a última a ser expelida por Crono.

O mito

Héstia, em grego “heuein” (passar pelo fogo, consumir) pertence a mesma família etimológica que Vesta, em latim, cuja fonte é o indo-europeu “wes” (queimar), é a personificação da lareira, venerada pelos gregos no centro do altar, da habitação, da cidade e também da lareira como fogo do centro da terra e do universo.

À semelhança de Atena e Artemis, Héstia é também uma deusa virgem pois embora cortejada por Apolo e Posídon nunca cedeu a qualquer deles, obtendo de Zeus a prerrogativa de guardar para sempre a virgindade.

Por direito de progenitura era uma entre as doze divindades olímpicas principais, mas não fez nenhum protesto quando Dionísio crescendo em proeminência toma o seu lugar entre os doze notáveis do Olimpo.

Entretanto, apesar de sua discrição e de sua preferência pelo anonimato, Héstia foi sempre acumulada de honras não só pelo pai dos deuses, mas por todas as divindades, tornando-se a única deusa cultuada em todas as casas dos homens e nos templos de todos os deuses, pois nenhum lar, nenhum templo ficava santificado sem a sua presença. Héstia era tanto uma presença espiritual como um fogo sagrado que proporcionava iluminação, calor e aquecimento para o alimento.

É a menos conhecida dos deuses olímpicos. Héstia e sua equivalente romana Vesta nunca foram representadas em forma humana, mas sim pela chama viva no centro do lar, do templo, da cidade, sendo seu símbolo um círculo, pois suas primeiras lareiras eram redondas, assim como os seus templos.

Enquanto os outros imortais viviam num vaivém constante, Héstia manteve-se imóvel no Olimpo, essa imobilidade, entretanto, fez com que não representasse papel algum no mito, permanecendo mais como um princípio abstrato, a idéia da lareira, do que como uma divindade pessoal, sobre essa peculiaridade de Héstia, em ser paradoxalmente a primeira do Olimpo e ao mesmo tempo a mais obscura, sobre essa ausência de história a seu respeito, Ovídio assim se refere:

“Durante muito tempo julguei idiotamente que existiam imagens de Vesta: aprendi depois que não existe nenhuma sob sua cúpula abaulada. Sua imagem e seu lugar são idênticos. Não havia imagens em seu templo. Havia apenas o fogo sagrado sobre a terra.”

Sua presença era sempre solicitada nos acontecimentos importantes da vida grega, segundo Homero, sem o fogo sagrado de Héstia não haveria festas para a humanidade pois ninguém poderia iniciar o primeiro e o derradeiro gole do vinho doce como mel sem uma oferenda à deusa da lareira.

Quando dois jovens se uniam pelo casamento, a mãe da noiva acendia uma tocha em sua casa e a transportava diante do casal até sua nova casa, para que acendessem a primeira chama em seu lar, tornando-o, por este ato, sagrado. Da mesma forma, cada cidade-estado grega tinha uma lareira comum com um fogo sagrado cultivado no edifício principal, ao redor do qual se congregava o povo. Quando alguém deixava a sua cidade natal, levava consigo o fogo sagrado de tal forma que onde quer que um casal se aventurasse a estabelecer um novo lar , Héstia vinha com eles, ligando o lar antigo ao novo, simbolizando o espírito de continuidade de ligação.

Da mesma forma em Roma a chama sagrada de Vesta unia todos os romanos numa única família. Em seus templos o fogo sagrado era cuidado pelas virgens vestais , que em certo sentido eram as representações humanas de Héstia, eram suas imagens vivas, transcendendo à escultura e à pintura.

As meninas escolhidas para serem vestais eram levadas ao templo, em geral, com menos de seis anos de idade e lá cortavam-se-lhe os cabelos e as vestiam de modo igual e o que quer que fosse distinto e individual que nelas existisse era apagado. Eram mantidas à distância de outras pessoas e honradas, porém deveriam, de modo semelhante à deusa preservar a sua castidade, com terríveis conseqüências para quem violasse as regras impostas.

Uma vestal que tivesse relações sexuais com um homem profanava a deusa e era punida com o sepultamento em vida, numa área pequena e sem ar no subsolo, com luz, óleo, alimento e um lugar para dormir. A terra sobre ela era nivelada, como se nada existisse embaixo.

Héstia e sua relação com Hermes e Apolo

A relação de Héstia com esses deuses não se dá a nível pessoal envolvendo os dramas e tragédias comuns nas ligações que se estabeleciam entre os outros deuses olímpicos, mas sim em termos de uma associação em torno de um espaço sagrado, de um centro, um ponto de convergência, um ponto de aquecimento.

Como já o dissemos, Héstia era venerada no centro das cidades e dos lares gregos e por essa peculiaridade apresentava-se como uma pilha de carvão em brasa, localizada no onphalos (umbigo) de Delfos, cidade consagrada a Apolo considerada o centro do mundo pelos gregos.

Também com Hermes essa deusa compartilha a imagem do fogo sagrado no centro. Hermes (Mercúrio) era o espírito alquímico, imaginado como o fogo elementar . Tal fogo era considerado a fonte do conhecimento intuitivo, simbolicamente localizado no centro da Terra.

Uma outra associação que se pode fazer entre Héstia e Hermes também se refere à sacralização de um espaço. Na Grécia antiga, na parte externa de todos os lares, como uma proteção contra qualquer invasão maléfica existia o “Herma” um pilar que representava Hermes. Vemos assim Hermes e Héstia associados na proteção de um espaço sagrado, enquanto o primeiro protege o exterior a segunda guarda o espaço interior. O pilar e o anel em forma de círculo representam os princípios masculino e feminino respectivamente.

Jean Shinoda Bolen nos lembra que “quando Héstia e Hermes eram honrados nos lares e nos templos, os valores femininos de Héstia eram os mais importantes e ela recebia as mais altas honras. Na época havia uma dualidade complementar. Héstia desde então foi desvalorizada e esquecida. Seus fogos sagrados não são mais cuidados e o que ela representa não é mais honrado.

Quando os valores femininos dessa deusa são esquecidos e desonrados, a importância do santuário interior, da interiorização para encontrar significado e paz, e da família com santuário e fonte de calor ficam diminuídos ou são perdidos. Além disso, o sentimento de uma ligação básica com os outros desaparece, como desaparece também a necessidade dos cidadãos de uma cidade, país ou da terra se ligarem por um elo espiritual comum.”

Os símbolos de Héstia:

Simbologia do fogo

Segundo Junito de Souza Brandão, a maior parte dos aspectos simbólicos do fogo está sintetizada no hinduismo. Agni, Indra e Súrya representam as chamas do nível telúrico, do intermediário e celestial, ou seja, o fogo comum, o raio e o sol, existem ainda mais duas representações: Vaishvanara que é o fogo da penetração ou da absorção e o fogo da destruição representado por um outro aspecto do próprio Agni.

Consoante o I Ching o fogo corresponde ao sul, à cor vermelha, ao verão e ao coração, sendo que sob este último aspecto ora pode representar a paixão, ora o espírito ou o conhecimento intuitivo.

Tanto no antigo quanto no novo testamento o fogo é elemento que purifica e limpa, tornando-se o veículo que separa o puro do impuro (essa é também a visão da alquimia), destruindo eventualmente este último.

O fogo sacrificial do hinduismo é substituído por Buda pelo fogo interior, que é simultaneamente conhecimento penetrante, iluminação e destruição do invólucro carnal.

O aspecto destruidor do fogo também comporta uma conotação negativa e o domínio do fogo é também uma função diabólica. Observe-se a propósito da forja: seu fogo é ao mesmo tempo de demiurgo e do demônio.

O fogo tem também o aspecto de regeneração e renovação, em muitas culturas primitivas, os inumeráveis ritos de purificação certamente configuram os incêndios dos campos que se revestem, em seguida, de um tapete verde de natureza viva, não é necessário comentar a correspondência psicológica que essa imagem nos traz.

Segundo Bachelard existem duas direções ou constelações psíquicas na simbologia do fogo, de acordo com sua origem, conforme é obtido pela percussão ou pelo atrito. No primeiro caso está intimamente ligado ao relâmpago, à flecha (portanto ao princípio espiritual) e possui um valor de purificação e iluminação e se opõe nesse sentido ao fogo sexual obtido pela fricção, assim como a chama purificadora se contrapõe ao centro genital da lareira matrilinear, como a exaltação da luz celeste se distingue do ritual de fecundidade agrária. Na sua dimensão simbólica o fogo obtido pela percussão representa a etapa mais importante da intelectualização do cosmo e afasta mais e mais o homem de sua condição animal.

Para os Astecas o fogo terrestre, ctônico representa a força profunda que permite a união dos opostos, a ascensão, a sublimação da água impura em água celestial, a água pura e divina. O fogo é o motor, o grande responsável pela regeneração periódica. O fogo que simboliza Héstia é também ctônico, vindo das profundezas da Terra, é uma chama que nutre ao mesmo tempo que ilumina a vida psíquica.

Simbologia do círculo (um espaço sagrado localizado no centro)

Barbara Kirksey, em seu texto “Héstia um fundamento de enfoque psicológico” introduz seu estudo sobre a deusa com uma pergunta: “Qual o centro para os deuses e para os próprios gregos?” E recorre a Héstia para responder a essa questão, pois que esta era venerada no centro dos lares, das cidades e do mundo, como assim consideravam o onphalos de Delfos.

A importância de Héstia na vida psicológica advém de sua habilidade em mediar a alma, dando-lhe um lugar onde se congregar, um ponto de junção em que a alma e o mundo se misturam.

É através da presença mediúnica de Héstia que a moradia do mundo do homem é psicológica. O ato de imaginar, atividade psicológica por excelência, não está separado do mundo. As moradias que criamos e onde moramos interior (sonhos e fantasias) e exteriormente manifestam um aspecto de nossa alma. A casa mais do que a paisagem é um estado psíquico. As moradias do mundo cotidiano falam dos lugares de nossa alma, revelam um lado íntimo de nossa psique.

A alma sob a perspectiva de Héstia se nos revela em termos de metáforas espaciais, assim a patologia que se manifesta através da linguagem da deusa da lareira contém frases referentes ao espaço: “Fora da base, fora do centro, incapaz de se fixar, distanciada, sem um tapete sob os pés, numa demonstração de que sem os valores de Héstia e do seu poder de integração a alma é incapaz de encontrar um lugar onde morar.

Uma das fantasias relacionadas à patologia da alma e que se faz muito presente desde os povos primitivos é a da perda da alma. Cícero afirmava que a alma doente era aquela que não podia alcançar ou persistir, estava sempre perdida. Quando perdida a alma não tem ligação psíquica com Héstia e sua centralidade. A alma não pode ir para casa porque não há um lugar para se retornar. Nesse contexto a ausência de Héstia representa uma ameaça muito grande para a integridade da psique, com sua multidão de imagens e a influência delas. Sem Héstia não pode haver concentração na imagem e não há limites que distingam a intimidade da moradia interior e do mundo externo, pois não há uma casa psíquica que ofereça paredes protetoras que tornem possível as celebrações da vida, o alimento para a alma.

Sem a presença de Héstia, que se pode observar em certas desordens transitórias da psicose, particularmente das esquizofrenias não existe separação entre os espaços de dentro e de fora, não há barreiras protetoras, que possibilite a permanência das imagens de tal modo que o mundo psíquico todo é vivenciado como transitório e fugaz.

As imagens de sonhos comuns em pacientes esquizofrênicos latentes revelam esse desarranjo profundo em termos de um espaço habitável apresentados imagisticamente como a Terra ou como um edifício. Jung cita algumas dessas imagens tais como: “a terra transformando-se em água, o chão ondulando sob os pés do paciente, o fim do mundo ou as paredes aumentando e curvando-se.

Barbara Kirksey acredita que essa frágil coesão e insegurança está relacionada com a ausência da capacidade mediadora de Héstia, que acolhe e centraliza os acontecimentos aleatórios num espaço comum e aqui cabe relembrar o mito realçando o fato de ser essa deusa a primogênita e ao mesmo tempo a última, espécie de figura alfa-ômega da psique. Sua ausência ameaça toda a estrutura psíquica da personalidade em caos.

Assim como Hermes exerce a função mediadora que conecta e move a alma, também Héstia tem uma função coesiva na alma que preserva o elemento de plenitude e permite ao indivíduo imaginar “em paz”

A lareira redonda de Héstia com um fogo sagrado no centro é uma forma de mandala, símbolo da integridade e da totalidade.

Héstia e sua função de guardiã das imagens

De acordo com o relato de Ovídio, Paládio, uma imagem de Atena em vestes guerreiras, era guardada por Vesta em seu templo localizado em Roma. Tal imagem havia sido roubada de Tróia e acreditava-se que a ela se devia a preservação do império. Vesta foi designada a guardiã dessa imagem de Minerva, graças ao seu poder de iluminação que nunca falha, um poder que tudo vê e que assim preservava com sua luz a integridade do império.

A força de Héstia difere das outras duas deusas virgens Atena e Ártemis, pois enquanto estas manifestam seu poder sob a forma de atos de afirmação, Héstia ilumina e sua luz proporciona proteção e nutrição às imagens.

Jean Shinoda Bolen nos diz ser uma características das deusas virgens a visão e a percepção focada, mas enquanto Atena e Ártemis dirigem sua luz para o exterior, Héstia a direciona para o interior e quando o enfoque se volta para o interior, em direção a um centro espiritual a vida adquire um significado maior, tem-se um ponto de referência interior que nos permite permanecer firmes no meio da confusão, da desordem, da afobação do dia-a-dia.

Quando se fala em capacidade de iluminar, vem-nos à mente a questão do lugar para onde se dirige essa luz, ou seja, qual o seu foco e, segundo Ovídio, a palavra para terra em latim é focus e a terra (focus) em latim é assim chamada por suas chamas e porque ela nutre todas as coisas.

No ramo da ciência que estuda os fenômenos da propagação da luz, a óptica, foco é o ponto no qual os raios se encontram depois de refletidos ou refratados e também o ponto do qual os raios podem originar-se. Foco, portanto, é o ponto de separação e ao mesmo tempo de convergência do raio. A origem desse ponto expressa-se pela figura mítica de Héstia.

Uma outra definição da palavra foco que se associa mais estreitamente com a vida psicológica vem do teatro moderno. No teatro, foco é a parte mais iluminada do palco e é nesse espaço mais iluminado que se desenvolve a trama que dá sentido à peça. Também em nossa vida psíquica aqueles caracteres que aparecem em nossas experiências psicológicas mais brilhantemente iluminados são o foco, que dão sentido ao drama de nossa vida.

Pode-se dizer que Héstia não participa do drama como personagem, como figura, mas é ela que se encarrega da iluminação e se levarmos a sério a crença antiga da proteção através da iluminação é Hestia que nos oferece a proteção necessária para que possamos iluminar e centralizar essas figuras (imagens) nos cenários do nosso consciente.

Uma outra definição que se dá à palavra foco e que também se relaciona com a vida psíquica é a que considera foco como aquele ponto ou posição em que um objeto precisa situar-se, a fim de que a imagem produzida pelas lentes seja clara e bem definida.

Focalizar está em oposição a interpretar a imagem, porque a ação de focalizar prende-se muito mais ao movimento das lentes buscando uma melhor definição da imagem do que a uma mudança de posição desta. O ajuste é, portanto, nosso. A imagem conserva o seu espaço, sendo o processo de focalizar que leva a pessoa a uma relação definitiva com a imagem, a partir da qual esta ganha iluminação e clareza. Retornar à imagem a patir de várias direções é uma tentativa de encontrar o foco, ou seja, isto é uma figuração ao modo de Héstia.

A condição de guardiã das imagens de Héstia faz-nos entrar em conexão com um outro aspecto dessa divindade, o da hospitalidade. Propiciando um lugar de união de congregação, Héstia oferece hospitalidade às imagens, elas são como espíritos que se corporificam ou se personificam através do acolhimento e do aconchego da lareira de Héstia. Personificar é um modo de conhecer é uma possibilidade de se estabelecer um relacionamento fecundo com o inconsciente.

Para encerrar esta compilação de textos de autores conforme bibliografia, anexa, gostaríamos de fazê-lo com algumas estrofes da poesia “Todas as Vidas” de Cora Coralina que sabia como poucos hospedar as imagens, dando-lhes vida, calor e encanto, bem ao modo de Héstia.

Vive dentro de mim Vive dentro de mim
uma cabocla velha a mulher roceira.
de mau olhado, – Enxerto da terra
acocorada ao pé do borralho meio casmurra.
olhando pra o fogo. Trabalhadeira.
Benze quebranto Madrugadeira.
Bota feitiço… Analfabeta.
Ogum, Orixá. Bem parideira.
Macumba,terreiro Bem criadeira.
Ogã, pai-de-santo… Seus doze filhos.
Seus vinte netos..
Vive dentro de mim
a mulher do povo. Vive dentro de mim
Bem proletária. a mulher da vida.
Bem linguaruda, Minha irmãzinha…
desabusada , sem preconceitos tão desprezada,
de casca grossa, tão murmurada…
de chinelinhas, Fingindo alegre seu triste fado.
e filharada.
Todas as vidas dentro de mim:
Na minha vida –
A vida mera das obscuras.

BIBLIOGRAFIA:

BOLEN, Jean Shinoda, “As Deusas e a Mulher” – Edições Paulinas – SP 1990

BRANDÃO, Junito de Souza, “Mitologia Grega”, volume I – Editora

Vozes – Petrópolis – 1991

CORA CORALINA, “Poemas dos Becos de Goiás e Estórias Mais” – Editora

Global – SP – 1985

HILLMAN, James, “Encarando os Deuses”- Editora Cultrix/Pensamento – SP – 1980

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Os números de 2010

Os duendes das estatísticas do WordPress.com analisaram o desempenho deste blog em 2010 e apresentam-lhe aqui um resumo de alto nível da saúde do seu blog:

Healthy blog!

O Blog-Health-o-Meter™ indica: Este blog está em brasa!.

Números apetitosos

Imagem de destaque

Um navio de carga médio pode transportar cerca de 4.500 contentores. Este blog foi visitado 14,000 vezes em 2010. Se cada visita fosse um contentor, o seu blog enchia cerca de 3 navios.

Em 2010, escreveu 13 novo artigo, aumentando o arquivo total do seu blog para 35 artigos. Fez upload de 24 imagens, ocupando um total de 6mb. Isso equivale a cerca de 2 imagens por mês.

O seu dia mais activo do ano foi 6 de novembro com 173 visitas. O artigo mais popular desse dia foi Algumas Palavras Sobre Símbolos.

De onde vieram?

Os sites que mais tráfego lhe enviaram em 2010 foram google.com.br, search.conduit.com, pt-br.wordpress.com, grupopapeando.wordpress.com e orkut.com.br

Alguns visitantes vieram dos motores de busca, sobretudo por psicologia junguiana, relacionamentos amorosos, calatonia, psicologia da felicidade e psicologia corporal

Atracções em 2010

Estes são os artigos e páginas mais visitados em 2010.

1

Algumas Palavras Sobre Símbolos maio, 2010

2

Psicologia Junguiana outubro, 2008

3

O Avanço Da Psicoterapia Corporal janeiro, 2009
1 comentário

4

A ÁRVORE COMO SÍMBOLO E A DIMENSÃO VERTICAL DA EXISTÊNCIA maio, 2010
1 comentário

5

Currículo janeiro, 2009
3 comentários

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 Imagem: O Jardim das Delícias Terranas de Hieronymus Bosch

Por Fabrício Fonseca Moraes*

 

Arquétipo é um dos principais conceitos junguianos. Entretanto, frequentemente vemos grandes confusões feitas com esse conceito. Assim, vou tentar apresentar a forma como pessoalmente compreendo a idéia de arquétipo, discutindo um pouco da teoria para torna-lo mais claro.

 

Arquétipo : O termo

O termo arquétipo foi utilizado por Jung pela primeira vez em 1919, em Londres, num simpósio intitulado “Instinto e Inconsciente”. O termo arquétipo já era conhecido da filosofia e, suas origens, poderiam remontar até Platão. Essa relação histórica com o Platonismo gerou um preconceito em relação a concepção de Jung. Em sua etimologia, o termo arquétipo é formado pelo termo arkhé, oriundo do grego, que significaria primeiro, antigo, regente, dominante, original; e typos, também oriundo do grego, que significaria marca, impressão, molde ou modelo. Desde modo, o termo arquétipo exprimiria a idéia de um molde, marca ou modelo original.

 

Arquétipo na Psicologia Analítica

Apesar do termo só ter sido introduzido em 1919, a idéia de arquétipo já estava presente nas publicações de 1912, onde Jung relatava seus estudos acerca das “imagens primordiais”, imagens que se manifestam na psique e que poderíamos observar uma relação com a mitologia. Por volta, de 1917, Jung começa a se referir dominantes do inconsciente coletivo.

Num primeiro momento, Jung relaciona ou mesmo justifica a teoria dos arquétipos considerando a teoria da evolução. Deve-se notar quem em 1912, por ocasião de palestras no EUA, Jung visitou manicômios destinados aos negros, para pode estudar os sonhos e delírios desses pacientes, o que ele pode notar era que os conteúdos eram semelhantes aos de seus pacientes na Suiça e, alguns delírios e percebeu claro paralelo com a mitologia grega.

Para Jung,  a universalidade dessas representações psiquicas estavam relacionadas com a história do homem. Segundo ele,

Assim como o corpo humano representa todo um museu de órgãos com uma longa história evolutiva, devemos esperar que o espírito também esteja assim organizado, em vez de ser um produto sem história. Por “história” não entendo aqui o fato de nosso espírito se construir por meio de tradições inconscientes (por meio da linguagem etc.), mas entendo antes sua evolução biológica, pré-histórica e inconsciente no homem arcaico, cuja psique ainda era semelhante à dos animais. Esta psique primitiva constitui o fundamento de nosso espírito, assim como nossa estrutura corporal se baseia na anatomia geral dos animais mamíferos. (JUNG, 2000a, p. 229-230)

Isso implica em dizer que os arquétipos não estão relacionados a nada metafísico, mas, sim são expressões do processo evolutivo, quem imprimiram padrões de basais de organização do psiquismo.  Esses padrões basais podemos reconhecer nos animais como instintos. Os arquétipos, seriam

(…) instintos centralmente representados, ou seja, que se manifestam como imagens. Os arquétipos só tomam a forma de imagens onde a consciência está presente; noutros termos, o auto-retrato configurado dos instintos é um processo psíquico de ordem superior. Pressupõe um órgão capaz de perceber essas imagens primordiais. (NEUMANN, 1995, p.215).

A referencia a imagens, num primeiro momento, podemos pensar nas imagens dos sonhos, as imagens em alunicações de pacientes psicóticos. Entretanto, devemos compreender que essas imagens (sonhos e alucinações) são representações visuais que atingem a consciência. É fundamental que compreendamos para Jung,  IMAGENS são REPRESENTAÇÕES, não apenas visualizações. As imagens arquetípicas, que prefiro chamar de representações arquetípicas, pode ser cinestésicas, assim sentidas no corpo, a analise bioenergética nos propicia uma percepção clara disso, pois, p.ex., através um dado exercício, é possível acessar o mesmo conteúdo emocional em indivíduos de diferentes culturas ou diferentes lugares do mundo. Ou seja, através de um movimento compatível com a dinâmica própria do arquétipo é possível ativa-lo ou ativar sua representação na esfera pessoal, essa pode se manifestar como imagens (sonhos, visões), sensações cinestésicas ou emoções/lembranças.

De forma geral, quando o arquétipo isto é, um padrão de organização psíquica basal, é ativado ele vai mobilizar  o individuo por inteiro, modificando a forma do individuo perceber ou reagir à realidade, isso porque sua força ou energia tende a engolfar o ego.

Assim, compreendo que o arquétipo é um padrão basal de organização psíquica, assim, o psiquismo se organiza em torno desses padrões, fazendo com que todos os indivíduos em toda parte tenham uma organização psíquica semelhante. Deste modo, falar em arquétipo significa reconhecer que temos uma predisposição a determinados comportamentos, assim como a predisposição a aprendizagem. Deve-se notar que essas predisposições são comuns a toda humanidade. Esses padrões vão assumir a forma da cultura em que o individuo se encontra(mas, sua essência permanece a mesma em toda cultura). Como por exemplo, a maternagem, ela se manifesta em todas as culturas e se caracteriza essencialmente pelo cuidado e nutrição da prole, contudo, o tempo e a forma como a mãe vai cuidar e nutrir de seus filhos, depende da cultura onde está inserida.

Há tantos arquétipos quantas situações típicas na vida. Intermináveis repetições imprimiram essas experiências na constituição psíquica, não sob a forma de imagens preenchidas de um conteúdo, mas precipuamente apenas formas sem conteúdo, representando a mera possibilidade de um determinado tipo percepção e ação. Quando ocorre na vida algo que corresponde a um arquétipo, este é ativado e surge uma compulsão que se impõe a modo de uma reação instintiva contra toda razão e vontade, ou produz um conflito de dimensões eventualmente patológicas. Isto é, uma neurose. (JUNG, 2000b, p.58).

 

Representações arquetípicas

Segundo Jung, seria

provável que a verdadeira natureza do arquétipo é incapaz de tornar-se consciente, quer dizer, é transcendente, razão pela qual eu a chamo de psicóide. Além disto, qualquer arquétipo torna-se consciente a partir do momento em que é representado, e por esta razão difere, de maneira que não é possível determinar, daquilo que deu origem a essa representação (JUNG, 2000c, p77)

Como podemos ver, o arquétipo não pode se tornar consciente por ser psicóide (isto é, quase psíquico, o arquétipo esta na zona limítrofe entre o físico e psíquico, por isso transcendente). Conforme disse acima, as chamadas “imagens arquetípicas” são “representações” do arquétipo. Para evitar confusões, prefiro me referir às manifestações do arquétipo apenas como “Representações arquetípicas”. Compreendo como as principais formações arquetípicas:

1 – Complexos : Os complexos de tonalidade afetiva ou complexos ideoafetivos são agrupamentos de ideias, pensamentos, imagens em torno de um núcleo arquetípico. Os complexos são como atualizações dos arquétipos na vida pessoal. Como dissemos, os arquétipos são padrões de organização psíquica, assim, as experiências individuais que possuem afinidade com um padrão arquetípico são atraídas e formam um conglomerado, que organizam e orientam nossas memórias de lembranças vividas, assim como orientam a percepção das experiências. Através dos complexos podemos apreender as dinâmicas arquetípicas e como elas organizam e orientam nossa vida.

2 – Símbolos culturais: Chamo de símbolos culturais todos os elementos que se mantém como referencia da cultura. Como os contos de fadas, mitos, provérbios, imagens, monumentos que expressam a dinâmica arquetípica. Segundo Jung,”o arquétipo é sempre uma espécie de drama sintetizado” (EVENS, 1973, p. 55), por isso, muitas das narrativas mítico-religiosas nos afeta, assim como as obras de arte que expressam um cena ou situação que similar a padrão arquetípico. Os símbolos culturais são importantes pois, servem de referencia para a constelação dos arquétipos em nossa vivência pessoal.

3 – Símbolos pessoais:  Os símbolos pessoais são formações que eclodem do inconsciente, intimamente relacionado com o momento do qual um individuo vive. Esses símbolos podem ser situações, pessoas, locais, lembranças, musicas, enfim, qualquer coisa que tenha uma similaridade arquetípica ou que sobre ao qual o arquétipo inconsciente tenha se projetado. O símbolo pessoal tem o objetivo de  possibilitar a passagem de energia do inconsciente para a consciência, com a finalidade de organizar e/ou dar um direcionamento ao Ego.

 

 EVANS,R.Entrevistas com Jung e as Reações de Ernest Jones.Rio de janeiro:eldorado,1973.

NEUMANN, E. História da Origem da Consciência, São Paulo: Cultrix Editora, 1995

JUNG, C.G. Vida Simbólica Vol. I, Vozes, 2ª Ed., Petrópolis, RJ, 2000a.

JUNG, C.G. Os Arquétipos e o Inconsciente Coletivo, Vozes, Petrópolis, RJ, 2000b.

JUNG, C.G.Natureza da Psique, Vozes, Petrópolis, RJ, 2000c

 

 Fabricio Fonseca Moraes é Psicólogo Clínico de Orientação Junguiana, Especialista em Teoria e Prática Junguiana (UVA/RJ), Especialista em Psicologia Clínica e da Família (Saberes, ES). Atua em Vitória desde 2003.

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