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Archive for the ‘Relacionamentos Amorosos’ Category


Video Clipe: My Chemical Romance – I Don’t Love You

 

Por Vanilde Gerolim Portillo

Para a Psicologia Analítica, o arquétipo da anima (termo em latim para alma),constitui o lado feminino no homem, e o arquétipo do animus(termo em latim para mente ou espírito), constitui o lado masculino na psique da mulher. Ambos os sexos possuem aspectos do sexo oposto, não só biologicamente, através dos hormônios e genes, como também, psicologicamente através de sentimentos e atitudes.

Sendo a persona a face externa da psique, a face interna, a formar o equilíbrio são os arquétipos da anima e animus. O homem traz consigo, como herança, a imagem de mulher. Não a imagem de uma ou de outra mulher especificamente, mas sim uma imagem arquetípica, ou seja, formada ao longo da existência humana e sedimentada através das experiências masculinas com o sexo oposto.

Cada mulher, por sua vez, desenvolveu seu arquétipo de animus através das experiências com o homem durante toda a evolução da humanidade.

Embora, anima e animus desempenhem função semelhante no homem e na mulher, não são, entretanto, o oposto exato. Segundo Humbert, “Anima e animus não são simétricos, têm seus efeitos próprios: possessão pelos humores para a anima inconsciente, pelas opiniões para o animus inconsciente.”

A anima, quando em estado inconsciente pode fazer com que o homem, numa possessão extrema, tenha comportamento tipicamente feminino, como alterações repentinas de humor, falta de controle emocional.

Em seu aspecto positivo a anima, quando reconhecida e integrada à consciência, servirá como guia e despertará, no homem o desejo de união e de vínculo com o feminino e com a vida. A anima será a “mensageira do inconsciente” tal como o deus Hermes da mitologia Grega.

A valorização social do comportamento viril no homem, desde criança, e o desencorajamento do comportamento mais agressivo nas mulheres, poderá provocar uma anima ou animus subdesenvolvidos e potencialmente carregados de energia, atuando no inconsciente.

Um animus atuando totalmente inconsciente poderá se manifestar de maneira também negativa, provocando alterações no comportamento e sentimentos da mulher. Segundo Jung: “em sua primeira forma inconsciente o animus é uma instância que engendra opiniões espontâneas, não premeditadas; exerce influência dominante sobre a vida emocional da mulher.”

O animus e a anima devidamente reconhecidos e integrados ao ego, contribuirão para a maturidade do psiquismo. Jung salienta que o trabalho de integração da anima é tarefa difícil. Diz ele: “Se o confronto com a sombra é obra do aprendiz, o confronto com a anima é obra-prima. A relação com a anima é outro teste de coragem, uma prova de fogo para as forças espirituais e morais do homem. Jamais devemos esquecer que, em se tratando da anima, estamos lidando com realidades psíquicas, as quais até então nunca foram apropriadas pelo homem, uma vez que se mantinham foram de seu âmbito psíquico, sob a forma de projeções.”

Anima e animus são responsáveis pelas qualidades das relações com pessoas do sexo oposto. Enquanto inconscientes, o contato com estes arquétipos são feitos em forma de projeções.

O homem, quando se apaixona por uma mulher, está projetando a imagem da mulher que ele tem internalizada. É fato que a pessoa que recebe a projeção é portadora, como dizia Jung, de um “gancho” que a aceita perfeitamente. O ato de apaixonar-se e decepcionar-se, nada mais é do que projeção e retirada da projeção do objeto externo. Geralmente o que se ouve é que a pessoa amada deixou de ser aquela por quem ele se apaixonou, quando na verdade ela nunca foi, só serviu como suporte da projeção de seus próprios conteúdos internos.

Para o homem a mãe é o primeiro “gancho” a receber a projeção da anima, ainda quando menino, o que se dá inconscientemente. Depois, com o crescimento e sua saída do ninho, o filho vai, aos poucos, retirando esta projeção e lançando-a a outras mulheres que continua sendo um processo inconsciente.

A qualidade, do relacionamento mãe-filho, será essencial e determinará a qualidade dos próximos relacionamentos, com outras mulheres. Salienta Jung: “Para o filho, a anima oculta-se no poder dominador da mãe e a ligação sentimental com ela dura às vezes a vida inteira, prejudicando gravemente o destino do homem ou, inversamente, animando a sua coragem para os atos mais arrojados.”

Jung define projeção da seguinte forma: “um processo inconsciente automático, através do qual um conteúdo inconsciente para o sujeito é transferido para um objeto, fazendo com que este conteúdo pareça pertencer ao objeto. A projeção cessa no momento em que se torna consciente, isto é, ao ser constatado que o conteúdo pertence ao sujeito.”

 

Vanilde Gerolim Portillo – Psicóloga Clínica – Pós-Graduada e Especialista Junguiana – Atende em seu consultório em São Paulo: (11) 2979-3855

 

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 Imagem: Charles H. Sylvester, Journeys Through Bookland. Chicago: Bellows-Reeve Company, 1909


Wagner de Menezes Vaz
Psicólogo e Pós-graduando em Teoria e Terapia Junguiana pela Universidade Estácio de Sá/Rubedo
wmvaz@yahoo.com

Rafael Rodriguez
Psicólogo e Pós-graduando em Teoria e Terapia Junguiana pela Universidade Estácio de Sá/Rubedo
rafaelrodriguez@globo.com

 

Trabalho originalmente apresentado no evento Contos de Andersen – Leituras Psicológicas, promovido pela Rubedo em junho de 2008.

Em 1843, Hans Christian Andersen publica este que é o seu mais famoso conto e, posteriormente, sendo traduzido para o inglês e o alemão, obtém grande receptividade o que o projetaria definitivamente como um renomado escritor. Filho de sapateiro e de lavadeira, apesar das dificuldades, nunca desistiu de seu interesse pela arte.

A infância pobre teve grande influência em seus escritos. Que sentimentos se ocultavam por trás deste homem castigado pela vida e que, até aquele momento, não havia se revelado com grande sucesso em sua carreira literária? Teria sido este o motivo da criação de seu “Patinho Feio” que se tornou um belo cisne e que atingiu a felicidade quando amadureceu?

O “Patinho Feio” é considerado o conto mais autobiográfico de suas obras. Como disse um de seus biógrafos, Jens Andersen (2005, tradução nossa), “[…] mais que qualquer outro conto antes contado, este seria sobre ele.” Não tanto pelo fato dele também não possuir atributos estéticos como o patinho feio, mas porque tal sucesso, coincidentemente, só veio com o lançamento deste conto, já adulto, aos 38 anos de idade, chamando a atenção de todos para o grande escritor de contos de fada, romances, e até mesmo de livros de viagem que ele era. Andersen pode até ter sido rejeitado pela Grande Mãe da vida, por conta de sua infância difícil e pobre, mas não por seus pais.

Vejamos algumas passagens do conto. Uma ave que nasce em um ninho que não é o de sua espécie sofre rejeição de todos ao seu redor, exceto de sua mãe que demonstra, a princípio, uma clara esperança que seu filho se torne o mais bonito e o melhor nadador, até finalmente cair no discurso social e desejar não vê-lo mais devido à sua feiúra. Assim, sem opção, ele sai para a vida sozinho e sem rumo, pretendendo viver sem saber como, sobreviver sem saber por que, procurando viver longe de um lugar onde o rejeitaram. Porém, sabendo que nunca deixaria de ser o feio e considerado persona non grata por todos de sua comunidade, ele se torna o espelho do que lhe atribuíram ser.

Quando os filhotes nascem, a primeira coisa que buscam é um rosto no qual se mirar. Ao se defrontar com este rosto, eles o reconhecerão como sendo o de sua mãe. E os patinhos irão segui-la até estarem maduros. O que chama a atenção neste conto de Andersen é a questão da identidade e de como esta é construída a partir do reflexo. Mario Jacoby (1984, p.47) irá se referir a isto como ressonância empática, conceito este desenvolvido por Kohut. Então vejamos: a primeira reação da mãe ao ver seu filho desengonçado foi de espanto. E foi através desta reação, através do reflexo especular materno, que travou seu primeiro contato com o mundo. O mundo lhe dizia: – “Como és feio!”. Uma ferida narcísica se faz presente – existem outros mais afortunados, com mais sorte e possibilidades. São mais bonitos e contam com a aceitação social.

Uma ferida narcísica é uma ferida emocional, difícil muitas vezes de ser curada. Ela é um impeditivo à construção de uma identidade e, por conseguinte, dificulta a criação de uma maneira própria de viver. As animosidades constantes entre a mãe e o patinho feio acabaram por forçar a um corte prematuro dos laços afetivos. A falta de um sentimento de pertença, que confere identidade ao indivíduo, inexiste no patinho feio. Não existem laços que o liguem à sua família e nem tampouco à sua comunidade. Sua auto-estima fica comprometida. No conto, ao fugir pelas moitas, o patinho feio espanta os pássaros aninhados, afirmando para si: “Deve ser porque sou tão feio!”. A identidade se constrói mediante a formação de laços sociais e, por conseguinte, no diálogo com a alteridade. Caricaturalmente, a ausência de laços favorece o patinho feio, de forma que ele afirma: “[…] Sou tão feio que nem o cachorro me quis morder”. Neste caso a estratégia de acatar o discurso da feiúra atua como uma defesa narcísica a fim de proteger o Ego da dor.

A natureza muitas vezes pode parecer cruel proporcionando experiências desafiadoras ao recém-nascido, porém sua sobrevivência dependerá desta sua capacidade de adaptação. A mamãe pata como uma representante do discurso social procura transmitir os valores. Ela diz: “Vejam só! Assim é o mundo!”. Fisicamente um pato deve ter atributos que o caracterize como tal e suas funcionalidades devem estar operantes. É assim que se comporta um pato. O nosso personagem destituído, para aquele meio específico, dos atributos esperados não tem o reconhecimento do seu entorno de que ele era de fato um pato. Seus atributos confundem sua família e a vizinhança. A mãe se encontra perturbada; seu instinto de mãe entra em atrito com os valores sociais. No começo, ela defende seu rebento procurando, compensatoriamente, ressaltar-lhes as qualidades – “[…] Se quer que o diga, nada até um pouco melhor […] é um pato macho, e aí não importa tanto”. Ao mesmo tempo em que seu instinto materno a conduz a um comportamento protetor para com o desajeitado, ela tem dúvidas com relação a ser ele um de sua espécie. Os valores se impõem – “[…] Larga-o aí e ensina os outros filhotes a nadar”. A identidade grupal torna-se ameaçada ante a consciência das diferenças.

Sendo assim, o patinho teve uma vida miserável até atingir sua maturidade, correndo risco de vida o tempo todo, sendo perseguido e depreciado. Por conta disto, sente medo de tudo, até de quem não lhe quer mal; sente-se um sem-lugar no mundo, ou melhor, ocupa esta posição de não-aceito, não-visto, não-querido.

Numa tarde de fim de outono, o patinho feio avistou à beira do lago aves enormes e alvas que levantavam vôo rumo a terras mais quentes e sentiu uma irresistível vontade de acompanhá-las. Citando o conto: “Como poderia ter ousado desejar para si uma tal delícia [a de voar como os cisnes] ele que já se teria dado por muito feliz se os patos o tivessem tolerado em sua companhia, pobre bichinho feio?”. Neste episódio o patinho feio descobre o que é a felicidade; por aquelas aves sente uma identificação inexplicável, mas que gera um sentimento de nostalgia “não-vivida”, uma melancolia do desconhecido, como se seu inconsciente gritasse em sua surdez. Diante deste ímpeto pela felicidade, e após passar por possibilidades de aceitação, experiências tristes e aterradoras que só reforçavam a utopia de um dia ser feliz, decide no início da primavera, após novamente avistar os cisnes, entregar-se a sua pulsão de vida (ou seria de morte?) e arriscar sua inútil existência de dor à possibilidade de estar perto das criaturas mais felizes da Terra, por um instante que fosse, como se pudesse se contagiar de tanta alegria, e podendo mesmo ser ferido até a morte por aqueles grandes pássaros. Mal percebeu ele que também havia se tornado um grande pássaro e, como Narciso, somente ao ver seu reflexo na água do lago, foi capaz de se apaixonar por si mesmo e reconhecer a magnitude de seu ser. Só a partir deste momento sentiu alívio e satisfação por ter vivido tudo o que viveu, pois o que lhe aguardava após o enamoramento pela vida seria venturoso. Agora era elogiado como o mais belo dos belos. A experiência de contemplar sua imagem refletida na água foi de fato uma experiência numinosa e redentora.

Uma dinâmica muito parecida e comum ocorre na sociedade ocidental pós-moderna, no que tange ao papel do localizador para um problema familiar ou social, geralmente em um dos integrantes da família ou da sociedade. Algumas patologias psíquicas familiares e grupais são, fazendo-se uma análise atenta, centradas em indivíduos específicos, geralmente um dos filhos, ou moradores de rua, por exemplo, mirando-os como os culpados pela desordem, ou os doentes destacados do todo. Nunca como o retrato da doença coletiva ou o espelho de um traço comum a todos os integrantes de tal coletividade. Filhos drogadictos, pais problemáticos, sujeitos exageradamente “avoados” ou acomodados, esotéricos e fanáticos religiosos, obsessivos e sistemáticos, hoje em dia toda diferença é um “gancho” para eleger um localizador de problemas.

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(Texto extrato do livro “A Mulher Ferida”)

 

Por Linda Schierse Leonard, 1997

 

 

À medida que fui chegando mais perto da adolescência, os sentimentos confusos a respeito de meu pai cristalizara-se em ódio.  Desidentifiquei-me por completo dele e tentei me tornar avessa a tudo que representava. Na escola, era a aluna “Caxias”, esforçada, séria. Apesar de ser a “queridinha dos professores” também conseguia dar-me bem com os colegas, sendo agradável e alegre, retraída e maleável. Por fora, era doce e séria; por dentro, era aquela confusão terrível: um ódio virulento contra meu pai, a vergonha invencível de ser sua filha e o temor de que alguém viesse a descobrir quem eu era de fato.

 

Depois de reconhecer em mim esses dois extremos opostos comecei a analisar os padrões psicológicos que denominei a eterna menina (a puella aeterna) e a amazona de couraça.

 

À primeira vista, essas mulheres parecem muito bem-sucedidas: profissionais confiantes, donas de casa satisfeitas, estudantes despreocupadas, divorciadas disponíveis. Porém, logo abaixo da camada fina de sucesso ou de contentamento, está uma pessoa machucada, encontra-se o desespero oculto, acumulam-se os sentimentos de solidão e de isolamento, há o medo de serem abandonadas e rejeitadas, guardam-se as lágrimas e a ira.

 

À medida que a filha vai crescendo, sua evolução emocional e espiritual sofre uma profunda influência de seu relacionamento com o pai. Ele é a primeira figura masculina de sua vida e o elemento crucial na formação dos parâmetros pelos quais se pautará para relacionar-se com o lado masculino de sua pessoa e, em última instância, com os homens.

 

Um dos papéis paternos é conduzir a filha do protegido ambiente materno e doméstico até o mundo exterior, ajudando-a a enfrentá-lo em seus conflitos. Funciona como modelo de autoridade, de responsabilidade, de tomada de decisões, de objetividade, de ordem e de disciplina.

 

Alguns pais erram por indulgência. Por não terem estipulado limites para si próprios, por não terem sentido sua própria autoridade interior e não terem estabelecidos um critério interno de ordem e disciplina, constituem modelos inadequados para a filha. Tais homens são os “eternos meninos” (os puer aeternus). Aqueles que se identificam fortemente com esse deus da juventude permanecem fixados nos estágios adolescentes do desenvolvimento. Podem ser sonhadores românticos que evitam os conflitos da vida prática, incapazes de se comprometer. São homens que costumam viver no reino das possibilidades, evitando a dimensão concreta das coisas; sua vida é sempre provisória. O pai que é um eterno menino tem, em geral, uma “mãe” como esposa.

 

Quando o pai é fraco ou indulgente e a mãe é forte e controladora, a filha tem um duplo problema. Não só o pai não consegue funcionar como modelo masculino como não enfrenta a esposa nem ajuda a filha se diferenciar dela.

 

A eterna menina é uma mulher que permaneceu psicologicamente menininha. O mais freqüente é que aja e pareça inocente, desamparada e passiva. Pode também se revoltar, mas, em sua rebeldia, continua sendo vítima desamparada que oscila entre sentimentos de autocomiseração, de depressão e de inércia. Com grande freqüência, a mulher que permanece uma eterna menina não conseguiu identificar e integrar as qualidades que um pai positivo pode ajudá-la a desenvolver: consciência, disciplina, coragem, tomadas de decisão, autovalorização, direção.

 

A “amazona de couraça” é um padrão contrastante na vida de muitas mulheres. Numa dimensão de desenvolvimento, encontro-o quando surge como reação contra a prática inadequada do homem como pai, que ocorre tanto em nível pessoal como cultural. Quando reagem contra o pai negligente, essas mulheres em geral identificam-se em nível de ego com as funções masculinas ou paternas. Nessa medida, desenvolvem uma poderosa identidade de ego masculina, mas essa identidade masculina é, em geral, uma concha de proteção, uma armadura ou couraça contra a dor do abandono ou da rejeição pelo pai, uma proteção contra sua própria suavidade, fraqueza e vulnerabilidade.  Nas mulheres em geral, ambos os padrões coexistem.  Talvez a maior ferida que o homem sofra seja a de não admitir sua própria ferida: ser incapaz de chorar.

 

A eterna menina

 

Esse papel passivo é um dos caminhos para as mulheres que vivem o padrão da “eterna menina”.  A dificuldade para esse tipo de puella é que ela tenta viver por completo no domínio das possibilidades, ignorando as limitações e as realidades dos outros e de si mesma.A ênfase muito excessiva na conquista da atenção e da admiração dos homens pode aparecer tanto na bonequinha queridinha como na despreocupada e desajustada. A ênfase na imaginação marca a puella tímida e frágil, assim como a despreocupada, embora esta concretize no mundo os vôos de sua imaginação, ao passo que a menina de vidro afasta-se do mundo para dentro de sua imaginação.

 

Um elemento comum a todos esses padrões pueris é o apego ou a uma inocência ou a uma culpa absolutizada, que são os dois lados de uma mesma moeda, capaz de alimentar a dependência de outrem que reforce ou condene os atos. Existe em todos a relutância em responsabilizar-se pela própria existência, a ausência de tomadas de decisões e de discriminações; é o outro que se incumbe disso. O relacionamento com os limites e as fronteiras também é precário: ou a recusa em aceitá-los ou a sua “ilimitada” aceitação.

 

A puella conduz sua vida no âmbito das possibilidades, e evita a realidade dos compromissos.

A puella precisa aceitar seu potencial de força e desenvolvê-lo a fim de efetuar a concretização do mesmo; precisa ainda comprometer-se com seu ser misterioso e singular. A adaptação do ego da puella foi, precisamente, ser fraca: ser passiva e desempenhar o papel desejado para ela e pelos outros. O que se exige de uma puella em seu processo de autotransformação é que renuncie a seu apego á dependência, à inocência e à impotência infantis e que aceite a força que já está ali: que realmente se valorize. Se ela aceitar sua força e poder, sua inocência de menina irá se manifestar como ela jovial e feminino, como vigor, como espontaneidade e abertura a novas experiências que possibilitem um relacionamento criativo e produtivo.

 

A amazona de couraça

 

Se uma mulher teve um pai negligente ou irresponsável, ou seja, não presente emocionalmente para sua filha, um dos padrões que costuma emergir é o da reação contra ele. Nesses casos, é provável que a filha rejeite o pai ( e até mesmo os homens em geral) em nível consciente, pois a experiência lhe revela que ele não é confiável. Quando não ocorre essa reação psicológica, a tendência é a identificação inconsciente com o princípio masculino. A amazona se identifica com a força e o poder masculinos.

 

Talvez um dos modos mais freqüentes de reagir a um pai irresponsável seja fazer o que ele não fez dos setores de trabalho e realizações. A questão crucial é perceber o valor que tem a religação com o feminino, compreendendo o que é que é essencial para ser mulher e valorizando esse dado.

 

Dentro desse padrão de guerreira, o pai e , em geral, todos os outros homens são rejeitados e desprezados como seres fracos, e a filha acha que só ela é forte o suficiente para fazer o que precisa ser feito. A ironia está em que o caminho dessa força é moldado por um modelo masculino e, por isso, o feminino ainda continua sendo desvalorizado por esse tipo de mulher. É bastante comum perceber-se em tais mulheres os dentes rangendo, a determinação inabalável. Para as que vivem segundo esse tipo de existência, a vida se torna uma missão e uma série de batalhas a serem vencidas, em vez de uma sucessão de momentos a serem desfrutados. O principal traço da amazona de couraça é seu desejo de controlar. Estar no controle torna as coisas seguras. Junto com o controle, no entanto, costuma vir uma dose exageradas de responsabilidades, deveres e a sensação de exaustão.

 

Um outro aspecto da transformação da amazona de couraça é se libertar da idéia de que precisa ser como um homem para ter poder. Se a amazona não pretende ter um esgotamento, precisa suavizar sua couraça; com isso terá mais facilidade em encontrar uma forma criativa de relacionar-se com o feminino e com a feminilidade dos homens. Essa parece ser também uma questão crítica para nosso momento histórico, porque a mulher de couraça, na luta por seus direitos, tem precisado realizar essa batalha com os homens num confronto direto de poderes em oposição. Tem sido preciso que ela empunhe a espada e lute como homem. No entanto, como Orual, com sua espada, escudo e máscara, fica destituída de relacionamentos.

 

Talvez, pelo fato de sua identificação primária ser com o masculino, sua couraça posa ser suavizada por uma figura masculina amorosa.

 

IRA

 

A ira pode ser uma força essencial para redimir o pai e transformar o feminino. É comum que, quando há uma grande ira decorrente de uma relação negativa com o pai, ela também seja vivenciada com o parceiro amoroso. Ás vezes, devido à rejeição e ao abandono sentidos a partir da ira do pai, as lágrimas e a ternura FICAM VELADAS, JUNTO COM A RAIVA.

 

 As lágrimas pertencem à mulher ferida. Essas lágrimas congeladas são capazes de transformar o homem em pedra; o coração da mulher também pode ficar duro como pedra.

 

A CURA

 

São muitas as mulheres privadas de uma vida emocionalmente rica por ter medo de receber o que os outros têm para lhe dar. Ela pode dar recebendo e pode adaptar-se e acomodar-se aos outros, permitindo dessa forma o diálogo nesses relacionamentos. A menina de vidro pode inspirar a criatividade em si e nos outros, caso não se entregue à sua tendência de recuar diante da vida. A busca de desafios e aventuras por parte da despreocupada é uma força que leva a mudanças e á investigação de novas possibilidades. A força da desajustada está em sua capacidade de questionar os valores coletivos consagrados. A superstar, com sua disciplina e capacidade de vencer, mostra ao mundo a força e a competência femininas.

 

A capacidade que a filha conscienciosa tem de ser responsável e de tolerar a adversidade é uma qualidade essencial á estabilidade da vida, do trabalho e das relações.  A tendência da mártir para dar e sacrificar-se é essencial à vida criativa e aos relacionamentos. A rainha guerreira está sintonizada em sua ira e auto-afirmação. Sabe como lutar para sobreviver e pode tomar conta de si mesma.  Redimir o pai exige que seja reconhecido o valor que ele tem a oferecer.  Nesse sentido, a redenção do pai pode desencadear o re-sonhar o pai, ou seja, uma fantasia feminina a respeito do que ele poderia ser e fazer.

 

As mulheres precisam contar suas histórias. Precisam dizer aos homens o que esperam deles.

 

Na qualidade de guia, deve oferecer-lhe tanto apoio como conselhos, e encorajá-la a ser independente e investigar as coisas por si mesma. Ao acreditar em sua força, beleza, inteligência e capacidade, se orgulhará dela. Entretanto, não deverá projetar seus próprios desejos insatisfeitos em sua filha, nem se mostrar dependente, ou exageradamente protetor. Deve, em vez disso, afirmar a singularidade dela como indivíduo, respeitando e valorizando sua pessoa, sua personalidade, sem porém esperar que assuma responsabilidades além das que sua idade lhe permitir.

 

Se o pai respeitasse sua esposa como parceira forte, independente e competente, e não tratasse a esposa como filha, sendo autoritário, nem como mãe, sendo-lhe submisso, estaria apresentando um modelo de bom relacionamento conjugal para a filha e também um modelo do respeito que o homem e a mulher devem ter um pelo outro.  O pai fornece o elo para uma relação segura com o sexo oposto, os homens.  Redimir o pai é também redimir o feminino em si mesma; é de fato valorizar essa modalidade.

 

A puella costuma adotar uma visão coletiva do feminino aceitando suas projeções e sendo o que o outro quer. A amazona de couraça, ao imitar o masculino, desvaloriza o feminino na medida em que, de maneira implícita, aceita o masculino como superior.  As mulheres estão começando a se dar conta de que os homens sempre definiram a feminilidade através de suas expectativas conscientes do que as mulheres podem ou não fazer através de suas projeções inconscientes nelas. Isso teve como resultado uma visão distorcida não só das mulheres, mas também do lado feminino interior dos homens.

 

O espírito feminino, que tem a coragem de encarar tanto a ferida como o poder da ira e das lágrimas, pode curá-los ao dar o devido valor ao poder cíclico natural do crescimento sazonal e á capacidade que a natureza tem de receber as novas sementes da criatividade.

 

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Por Felipe Salles Xavier

 Anima&Animus

Do ponto de vista junguiano os conceitos Yin e Yang da filosofia oriental expressam valores do simbolismo de nossa psique, ilustram o funcionamento psicológico que deriva do conflito entre opostos na estrutura de nossa mente. Na filosofia chinesa eles caracterizam polaridades de diversos opostos, bem x mal, masculino x feminino, racional x emocional, consciente x inconsciente, entre tantos outros.

 

De acordo com essa forma de pensamento tudo o que existe no universo deriva desse conflito de opostos, mas o conflito não é negativo, é unificador, tornando-se é uma tentativa de combinar equilibradamente as partes do Yin e Yang.  Desse ponto de vista, nada é apenas um aspecto e se o é, se torna doentio. O ideal é utilizar todos os opostos para vivenciarmos diversas habilidades humanas.

 

Em seu livro Ponto de Mutação, o físico austríaco Fritjof Capra reuni conceitos da prática oriental com a física quântica e definiu certas característica. Yin é a capacidade de energia receptiva, cooperativa, solidária, emocional, ou seja, é a capacidade feminina da psique. Já Yang é a capacidade externa, agressiva, expansiva, competitiva, ação e mostra o lado mais animal e masculino do ser humano.


Na visão junguiana essas características ilustram Animus e Anima. Todo arquétipo tem sua base na experiência biológica humana. Nós somos gerados da parceria que existem entre o homem e a mulher, para existirmos precisamos do espermatozóide masculino e do ventre feminino. Assim recebemos cargas genéticas de ambos os sexos. Nossa existência se da na junção de questões básicas do DNA, somos formados a partir de 23 cromossomos masculinos e 23 femininos, totalizando 46 cromossomos numa célula chamada zigoto, dessa unificação nascem os seres humanos.

 

Os hormônios masculinos que habitam a alma feminina são a testosterona e o andrógeno, eles fazem parte da musculatura, ajudam a regular o sistema reprodutor e auxiliam que o processo da gravidez aconteça saudavelmente. No homem os hormônios femininos são a progesterona e o estrogênio, o que da ao homem auxiliam no processo energético, na massa corporal e gordura corporal. Biologicamente um habita o corpo do outro. E por termos estas bases genéticas e biológicas, herdamos também a estrutura psíquica.

 

Enfim, Animus é o arquétipo que organiza as experiências do masculino, todos os homens já são animus, pois biologicamente identificam-se através do corpo com esse arquétipo. A Anima é o arquétipo responsável pelo feminino, as mulheres ao nascerem já se identificam com essa imagem. Entretanto podem ocorrer exceções que causam disfunções psicológicas em nossas estruturas.

 

Mas, esses arquétipos vivem enquanto realidades psicológicas nos seus opostos. Todo homem possui dentro de si uma imagem do feminino, da mulher, da mãe e isso é a sua Anima, ela ensina ao homem a entrar em contato com seus lados subjetivos. E o mesmo ocorre com a mulher mas sua figura interna é o Animus que é o masculino, o homem, o pai e auxiliando o contato com o lado físico e real.  

 

Nas pessoas com um desequilíbrio entre essas funções, não existe um meio termo, ou se vivencia o lado Yin (Anima) ou o lado Yang (Animus). Isso ocorre pelo fato já dito acima, os complexos materno e paterno, por causa da inversão de papeis familiares há também um erro na percepção do feminino e masculino das mulheres. 

 

Exemplos são as mulheres que procuram homens mais velhos para se envolverem afetivamente, a nível inconsciente procuram um pai que cuide delas, e eles com a energia do complexo paterno negativo atuando acabam sendo esta imagem psíquica. Ou então, as mulheres que se envolvem com homens que procuram mães, elas dominam esses homens, os sufocam, tratando-os como crianças, isso porque a nível inconsciente procuram ser mães dos parceiros.

 

A também o perfil de mulheres que valorizam demais o corpo e o sexo como se fosse à única coisa que tem a oferecer, isso é patológico, pois a própria mulher desconhece o feminino, e muitas dessas mulheres podem exercer o complexo materno negativo, traindo ou escolhendo homens que as traiam e as desvalorizem.

 

Já nos homens, eles podem ser homens indecisos, às vezes preferem interromper o relacionamento, tendo medo de se machucarem emocionalmente, sendo assim, trocam rapidamente de parceiras, sempre buscando relacionamentos seguidamente, se envolvendo apenas sexualmente, entretanto, isso é uma forma de defesa ao amor, pois inconscientemente tem a idéia de que não são bons para receberem isso.

 

Ou ainda, podem ser possuídos pelo complexo materno negativo, invocando a imagem arquetípicas do Don Juan, estes geralmente seguem assim procurando uma mãe-deusa, uma mulher perfeita que os faça apaixonar fortemente. Isso tudo é uma dinâmica inconsciente para os homens que são acometidos por esta imagem, eles não percebem que estão sendo manipulados por forças interiores, e além do mais, existe também uma cultura brasileira que reforça esse comportamento com diversos estímulos ambientais, fazendo as pessoas acreditarem que isso é ser homem.

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