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Archive for the ‘Psicologia Positiva’ Category

 

Por Angelita Scardua

Psicologia do Design de Interiores é um ramo recente da Psicologia Ambiental. Baseia-se em resultados de pesquisas científicas e em experimentação. O fundamento essencial dessa área é o amplo universo de investigação neurocientífica das emoções humanas. Dito de outra maneira, ocupa-se de entender como os seres humanos reagem, no nível emocional e cognitivo, à forma com que os espaços interiores – residenciais e comerciais, individuais e coletivos – são organizados. A partir disso, a Psicologia do Design de interiores visa contribuir para que os lares e estabelecimentos comerciais sejam espaços promotores de bem-estar e qualidade de vida. Não se pode confundir a Psicologia do Design de interiores com a Ergonomia. Enquanto a Ergonomia volta-se para a criação de ambientes funcionais, a Psicologia do Design de interiores tem a árdua tarefa de tentar criar ambientes mais felizes, espaços que priorizem as emoções e as vivências positivas.

Ainda, a Psicologia do Design de interiores também tem sido utilizada para auxiliar profissionais do mercado imobiliário na venda e alocação de imóveis, principalmente no que diz respeito à decoração das casas a serem negociadas. No canal de TV à cabo A&E há um reality show, Sell This House (Casa à Venda), no qual o designer Roger Hazard utiliza os princípios da Psicologia do Design de interiores para ajudar pessoas a venderem seus imóveis. Similarmente, os mesmos conhecimentos têm sido utilizados por lojas que trabalham com artigos de decoração para promover uma melhor adequação dos produtos ao perfil e às necessidades e expectativas do cliente.

A Psicologia do Design de interiores foi o primeiro passo no sentido de utilizar os conhecimentos propiciados pela Psicologia Positiva na Psicologia Ambiental. Ou seja, a primeira tentativa de promover felicidade a partir da interação homem-ambiente. Apesar de ter sido a primeira, essa vertente não é a única a ocupar-se de tornar meros moradores em habitantes mais felizes. Recentemente, surgiu nos EUA a onda do happy décor!

O happy décor, segue a enxurrada de propostas, em todos os âmbitos da cultura contemporânea, que prometem a felicidade num pacote bem arrumado. Da perfumaria à culinária, da literatura ao setor bancário, quase todas as formas de produção humana nesse início de século têm adotado o discurso da felicidade prêt-àporter. Tendo por resolução produzir felicidade com cores intensas e ambientes profusamente iluminados, o happy décor surge como a alternativa da hora para quem quer decorar a casa e, ao mesmo tempo, se sentir em dia com as as mais recentes tendências de comportamento e estilo de vida  contemporâneas…Afinal, só no ano de 2007, 100 instituições americanas ofereceram cursos sobre a felicidade.

Mas não é só de fast-self-h(elp)appy-décor que vive o mundo da arquitetura. Alguns estudos, bem mais sérios, na área tentam entender a relação entre arquitetura e felicidade. O filósofo Alain Botton, por exemplo, publicou um livro, em 2007, sobre o papel da arquitetura na promoção de felicidade. Em seu livro A arquitetura da Felicidade, o autor nos convida a abrir os olhos para essa curiosa relação, raramente percebida. Botton defende que o que buscamos numa obra de arquitetura não está tão longe do que procuramos num amigo. Ao construir uma casa ou decorar um cômodo, as pessoas querem mostrar quem são, lembrar de si próprias e ter sempre em mente como elas poderiam idealmente ser. O lar, portanto, não é um refúgio apenas físico, mas também psicológico, o guardião da identidade de seus habitantes.

Assim como Botton, outros estudiosos procuram levar a sério a investigação da relação entre felicidade e arquitetura. Dentre eles, há psicólogos sociais, experimentais, evolutivos e ambientais como Gary W. Evans, da Universidade Cornell, em Nova York, que realiza estudos profícuos na área. Num deles, Evans identificou que o bem-estar numa casa é, em grande parte, dependente da possibilidade que os moradores têm de fazer mudanças na casa. Para ele, essa autonomia decisória quanto à organização da casa cria um elo emocional entre o morador e o imóvel. Não é a toa que a as pesquisas sobre satisfação com a moradia apontam para o fato de que os proprietários costumam ser mais satisfeitos com seus lares do que os inquilinos. Evans também conseguiu demonstrar que determinadas mudanças nas características da casa podem melhorar a percepção subjetiva dos moradores e dar lugar a sentimentos positivos. Ele concluiu, por exemplo, que a falta de privacidade numa casa contribui para o estresse. A sensação de perda do espaço individual pode ser originada por elementos como paredes muito finas, janelas mal posicionadas e varanda muito aberta.

A necessidade de privacidade é um aspecto recorrente nos estudos sobre os efeitos do ambiente no bem-estar subjetivo das pessoas. Por exemplo, os psicólogos Oddvar Skjaeveland, da Universidade de Bergen, na Noruega, e Tommy Gärling, da Universidade de Gutemburgo, na Suécia, defendem que deve haver áreas de transição entre o espaço privado(a casa) e o público(a rua), para transmitir segurança e tranqüilidade. Seja como for, identificar os fatores que promovem bem-estar, sentimentos e emoções positivas, sensações agradáveis e satisfação com o lar tem sido a meta dos psicólogos envolvidos na formulação de uma arquitetura da felicidade. Com isso, o foco da casa passa a ser o indivíduo e não apenas conceitos abstratos de estética ou funcionalidade.

Como defende Botton, o autor do livro Arquitetura da Felicidade, esses dois aspectos não são independentes nem excludentes. Ou seja, para ele, as construções não deveriam ser desenhadas apenas para funcionar de tal ou tal modo, mas também para refletir um ideal de beleza e transmitir mensagens. Segundo o filósofo, a funcionalidades essencial dos prédios deve ser a psicológica. Um banheiro que não funciona direito incomoda tanto quanto um que não atenda à função estética e expressiva. Talvez, por isso, os psicólogos da arquitetura da felicidade afirmem que para que alguém seja feliz com sua casa não é preciso gastar rios de dinheiro. Respeitar as características e particularidades do morador já é um passo. O outro é respeitar as necessidades inerentes à nossa condição biológica. Deixar a luz natural adentrar a casa, por exemplo, não serve apenas para aquecer os ambientes e realçar as cores das paredes, tecidos e  móveis, mas também para ajudar o nosso organismo a regularizar os ciclos cotidianos dependentes de hormônios – como o ciclo vigília-sono – e isso, coincidentemente, melhora o nosso humor!

 

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Por Angelita Scardua

 

Abraham Maslow, o criador da Psicologia Humanista e da Hierarquia das Necessidades, que era esperto e também humano, entendeu as particularidades próprias da nossa espécie. Àquelas que nos ajudam a entender o que é que nos motiva. Ele percebeu que as nossas necessidades íam além do substrato fisiológico. Tanto é que ele acreditava que nossa visão de futuro é dependente das necessidades que ainda não conseguimos satisfazer. Ou seja, uma pessoa que tenha sofrido privações econômicas por um longo período de tempo, ou que tenha sido abandonada quando criança, pode “fixar-se” nas Necessidades de Segurança por boa parte da vida e, assim, condicionar todos os seus planos de vida à busca de uma condição segura. É por essa perspectiva que Maslow compreende a neurose. Uma criança negligenciada emocionalmente pode tornar-se um adulto doentiamente ciumento, por exemplo!

A partir do ponto de vista de Maslow, se, teoricamente, os humanos são mais pretensiosos do que os outros animais quanto ao propósito de suas vidas, como alguém que tem comida, amor, saúde, etc., sente-se motivado para continuar se desenvolvendo? Para explicar isso, Maslow apostou numa nova categoria de necessidades humanas, as B-Needs, ou Necessidades de Ser. Essa categoria de necessidades é também conhecida como “motivação para o crescimento” ou “auto-realização”. As pessoas que atingem esse nível foram chamadas por Maslow de “auto-realizadoras”. Especificando:

1- Necessidades de auto-realização: se referem ao contínuo desejo de desenvolver potencialidades, de “ser tudo que podemos ser”. São os desejos, sonhos, fantasias, planos que nos impelem a nos tornarmos tudo aquilo que, efetivamente, podemos ser. Daí o termo auto-realização. Para ser auto-realizador, um ser humano precisa já ter dado conta, minimamente, das outras quatro categorias de necessidades. Caso contrário, não é possível dedicar-se ao desenvolvimento dos potenciais. Com fome, não dá para pensar em “sentido da vida”; sentindo-se solitário – que não é o mesmo que estar sozinho – fica difícil dedicar-se à busca de significado. Para Maslow, numa sociedade tão demandante, materialista e consumista como a que vivemos, poucas pessoas são capazes de sentirem-se satisfeitas em suas necessidades…sempre há uma necessidade para satisfazer! Além disso, como os recursos são limitados sempre haverá alguém que, por mais que se empenhe, não logrará satisfazê-las. É por isso que ele defendia que apenas 2% da população mundial seria auto-realizadora.

Maslow – assim como você está se perguntando agora – também se perguntou o que poderia caracterizar as pessoas auto-realizadoras? Para responder a essa pergunta, ele realizou uma extensa investigação psicológica a partir da biografia de pessoas já mortas e da análise de entrevistas com alguns vivos que, na sua visão, pareciam ter superado a motivação unicamente voltada para a satisfação das necessidades voltadas apenas à sobrevivência. O que Maslow concluiu disso nos ajuda, hoje, a ver que as pessoas auto-realizadoras:

– São “Centradas na realidade”: capazes de distinguir o que é falso e enganoso do que é real e genuíno.

– São “Centradas em problemas”: tratam as dificuldades da vida como problemas que precisam de soluções, e não como frustrações pessoais com as quais devessem se irritar e se conformar.

– Possuem “percepção diferente de meios e fins”: sentem que os fins não necessariamente justificam os meios, mas que os meios podem ser fins em si mesmos. Ou seja, que a jornada pode ser muito mais importante que o destino.

– Apreciam a solidão: sentem-se confortáveis em estar sozinhas.

– Apreciam relações pessoais profundas: poucos amigos próximos e sinceros são preferidos a relações superficiais com muitas pessoas.

– Apreciam a autonomia: gozam, e necessitam, de uma relativa independência das necessidades físicas e sociais.

– Resistem à aculturação: não são suscetíveis à pressão social de serem “bem ajustados” ou de se adequarem ao padrão.

– Têm senso de humor: conseguem fazer piada de si próprios ou da condição humana, sem que isso dependa de divertir-se às custas de alguém.

– Aceitam a si-mesmo e aos outros: o que as predispõem a aceitar o outro como ele é, ao invés de tentar mudá-lo. O mesmo se aplica as próprias atitudes. Se alguma característica pessoal não é prejudicial, elas a aceitam e a reconhecem como uma peculiaridade pessoal. Por outro lado, elas são fortemente motivadas a mudar características negativas próprias que podem ser mudadas.

– Possuem espontaneidade e simplicidade: preferindo ser elas mesmas a serem pretensiosas ou artificiais.
– Têm senso de humildade e respeito: algo que Maslow também chamou de “valores democráticos”, caracterizado pela abertura à diversidade.

– Têm “human kinship“: o que denota um sentimento de fraternidade para com a raça humana, significando interesse social, compaixão e empatia.

– Têm forte senso ético: conotando uma certa dose de espiritualidade sem, necessariamente, estar associado a religiões convencionais.

– Têm admiração: habilidade de ver as coisas, até mesmo as coisas comuns, com entusiasmo e encantamento.

– São criativas: recorrem mais freqüentemente a soluções e visões inventivas e originais.

– Vivem experiências culminantes: as peak experiences são experiências que podem ocorrer a todas as pessoas, mas tendem a ser mais comuns para os auto-realizadores. Nessas experiências, nos percebemos muito pequenos ou muito grandes. Saímos de nós-mesmos e nos sentimos unos com a vida, ou com a natureza, ou com Deus. São experiências que tendem a deixar marcas profundas na nossa vida, conferindo propósito e significado à experiência e, em geral, transformando-nos para melhor. São as chamadas de “experiências místicas”, familiares a muitas tradições religiosas e filosóficas.

Não se iluda! Os auto-realizadores não são perfeitos. Maslow identificou muitas falhas e problemas nessas pessoas ao longo de suas pesquisas. Culpa e ansiedade, perder-se nos próprios pensamentos, bondade excessiva e episódios de crueldade, frieza e mau humor podem ocorrer com certa freqüência entre os auto-realizadores. O diferencial otimizador desse tipo de pessoa é que os seus valores fluem sem esforço, as qualidades aparecem como traços de personalidade, são espontâneas e naturais. Talvez, por isso, parece fácil para eles transcender muitas das dicotomias que são inerentes à percepção da maioria como, por exemplo, as diferenças entre espiritual e físico, ou entre egoísmo e altruísmo, ou entre o masculino e o feminino. Nesse sentido os auto-realizadores se aproximam muito da definição de criatividade proposta pela Psicologia Positiva.

Pessoas auto-realizadoras têm necessidades especiais, as metanecessidades, ou B-needs, que é o que realmente as motiva. Eis o que elas precisam em suas vidas para serem felizes:

Verdade; Beleza; Unidade, Completude, Transcendência de opostos; Singularidade; Vitalidade; Perfeição; Justiça; Ordem; Simplicidade; Riqueza; Ausência de esforço; Auto-suficiência; Sentido

Ok! Já sei o que você está pensando – todo mundo precisa dessas coisas. De fato. Mas se você estiver endividado, com fome, com dor, ou numa rua escura, sozinho, num bairro perigoso, no meio da noite, muito dificilmente você vai priorizar alguma dessas metanecessidades. Esse é o ponto! Maslow acreditava que poucas pessoas estavam interessadas nesses valores. Não que as outras pessoas – a maioria da humanidade – sejam más. Mas, talvez, elas ainda não tenham conseguido atender às suas necessidades básicas, ou, apenas estejam focadas demais nas demandas fisiológicas. E veja bem, esse aprisionamento pode ocorrer mesmo quando a pessoa tem as condições de atender aos seus anseios materiais, seja porque estão “animalizadas” por traumas e experiências ruins, ou por estarem demasiadamente submetidas às demandas do grupo social. É o caso, por exemplo, de uma pessoa rica que investe todo o seu tempo e energia em sexo, comida, compras ou festas, etc. Do ponto de vista da Hierarquia das Necessidades, não importa se a sua necessidade premente é de feijão com arroz ou de blinis com caviar; se a necessidade que te motiva na maior parte do tempo é comer, então sua vida e escolhas são guiadas por uma necessidade fisiológica, básica e inferior.

Quando o auto-realizador não consegue satisfazer as metanecessidades, ele desenvolve metapatologias. De forma resumida, ser forçado a viver sem esses valores, faz com que a pessoa auto-realizadora desenvolva depressão, falta de esperança, desgosto, alienação e um certo grau de cinismo.

É possível que o próprio Maslow fosse uma pessoa auto-realizadora, e que durante boa parte da vida não pode satisfazer suas metanecessidades. Digo isso porque, como psicóloga, acredito que temos curiosidade para compreender aquilo que diz respeito a nossa própria experiência de vida. Da mesma forma, somos mais competentes para entender a dor que também sentimos. No mais, os relatos do próprio Maslow me dão a sensação de que ele se via como uma alma aprisionada, um espírito habitando um mundo muito menor do que as suas potencialidades. Veja o que ele disse sobre a própria infância:

“Fui um garoto tremendamente infeliz… Minha família era miserável e minha mãe era uma criatura horrível… Cresci dentro de bibliotecas e sem amigos… Com a infância que tive, é de se surpreender que eu não tenha me tornado um psicótico.”

 

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Jornalista Náira Malze Entrevistando Angelita Scárdua – Psicóloga da Felicidade

 

Psicóloga diz que a felicidade está no autoconhecimento e na maneira como nos relacionamos com o mundo.

 

A felicidade, sempre desejada e cantada em verso e prosa, é mais do que um objetivo na vida da psicóloga Angelita Corrêa Scárdua. É o tema sobre o qual ela faz pesquisas. Seguindo a linha da psicologia positiva – não por acaso chamada também de psicologia da felicidade. Nesses estudos, Angelita chegou a várias conclusões. Uma delas é de que o brasileiro não é tão feliz quanto se imagina. Outra é que a felicidade depende mais das relações que estabelecemos e menos do quanto temos na conta bancária para gastar.

 

O que é psicologia positiva?

É uma abordagem psicológica americana criada nos anos 80, pelo psicólogo Martin Seligman. Essa linha dedica-se a estudar a construção de pensamentos positivos, e o que se pode fazer para ter experiências e emoções saudáveis; e a vida, mais feliz. Por isso também é chamada de psicologia da felicidade.

 

Na prática o que quer dizer?

Para a psicologia positiva, mesmo que você tenha aprendido a ter uma visão negativa da vida, não está condenado a ser um adulto infeliz. Não importa quantos anos você tenha. É possível mudar a forma de perceber o mundo e a sei mesmo.

 

O que isso tinha a ver com a sua pesquisa?

Eu já participava de uma pesquisa de neurociências sobre desenvolvimento, emoção e percepção, tinha finalidades com a teoria de Jung (Carl Jung, psiquiatra que defende que o sujeito se desenvolve até o fim da vida)e, juntando à psicologia positiva, fui investigar o imaginário cultural brasileiro sobre o que é ser brasileiro. Há o mito de que ele é feliz, mas nós identificamos que o brasileiro não acredita que possa mudar a própria vida. Em vez disso, atribui essa responsabilidade a algo ou alguém externo como provedor dessa felicidade.

 

Mas o brasileiro não se enxerga com positividade?

Quando é perguntado sobre o que é bom no país, ele se refere à natureza – praias, clima, mulheres… ou seja, a idéia é que, o que temos de positivo não foi construído, mas dado. Quando a pergunta é o que pode mudar o país, aparece uma contradição: a crença na educação. Quer dizer, o que temos de positivo não é construído. Já o necessário para mudar requer esforço pessoal,mas não é valorizado. Isso leva as pessoas a buscarem as alternativas mais cômodas. E, claro, atrapalha a felicidade.

 

Então o brasileiro não é feliz?

Aqui, e nas culturas latinas, é comum confundir alegria com felicidade. São coisas diferentes. A alegria é o estado emocional- afetivo de uma satisfação momentânea, como a festa de casamento ou comprar o carro dos sonhos.

 

E felicidade?

É um estado no qual você se sente de bem consigo mesmo e realizado com o que tem. É comum pensar que uma pessoa feliz não tem sofrimento,mas não é verdade. A diferença está em funcionar positivamente e entender que problemas são temporários e superáveis.

 

Qual a relação de felicidade com qualidade de vida?

Por vivermos numa sociedade consumista, há a fantasia de que o consumo traz felicidade. E aí quando se fala em qualidade de vida- e na pessoa ter lazer, ter uma alimentação saudável, se exercitar, fazer todos os check-ups é comum associar qualidade a um certo padrão socioeconômico.E, riqueza à felicidade. Mas todas as pesquisas mostram que não existe relação direta entre riqueza e felicidade.

 

Mas a qualidade de vida pode variar com a riqueza?

Sim, ela é variável. Para uma pessoa, pode significar pagar o melhor restaurante da cidade.Para outra,subir a laje e improvisar uma churrasqueira. A qualidade de vida varia em função das suas expectativas de vida. A questão é: se eu me imponho tarefas que me sobrecarregam, vou romper com a qualidade de vida. E sem qualidade, a felicidade fica difícil.

 

Por que é tão difícil sair do discurso e incorporar qualidade no dia a dia?

Por causa do imediatismo, tendemos a associar satisfação a consumo. Então, se não estou bem, é porque falta algo que pode ser consumido e que me traz uma satisfação temporária , mas imediata . Adotar um padrão assim demonstra profunda imaturidade psicológica e a capacidade de postergar a satisfação. Ou seja, de entender que o prazer vem depois de certo esforço. E a qualidade de vida depende disso.

 

A falta de tempo é uma justificativa para essa imaturidade?

Sim, dar desculpas por sua falta de tempo passa a idéia de uma pessoa com a agenda cheia de muitos compromissos. E alguém com esse perfil na nossa sociedade é valorizado. Pega bem dizer “eu não tenho tempo”. É uma desculpa padrão, mas na verdade tempo é uma questão de prioridade.

 

E é realmente possível se dedicar com qualidade a todas as áreas da vida?

Sim. Acontece que por conta dessa percepção imediatista, muitos não estão dispostos a fazer um compromisso consigo mesmo pela felicidade. Por exemplo, quem está infeliz no casamento, se parar e avaliar o que está errado, percebe que precisa mudar alguns aspectos. E que dá trabalho, leva tempo. Mas a maioria não tem maturidade para se comprometer, investir a longo prazo e busca uma saída imediata. Pode ser uma amante, uma cirurgia plástica, o trabalho…

 

Mas investir no casamento aumenta a chance de ser feliz?

Muito. Todas as pesquisas de felicidade comprovam isso. Numa relação estável em que haja cumplicidade, companheirismo, afinidade e intimidade, a pessoa se sente livre para se expressar integralmente. E tem a certeza de que será amada independente de quem seja. Isso é fundamental para a felicidade.

 

Você atende principalmente a pessoas na meia idade. Nessa faixa etária, a busca pela felicidade é mais urgente?

É. Jung traz a idéia que, a partir dos 35 anos, vivenciamos um processo psicológico que seria o ápice do desenvolvimento humano. É a metanóia ou “crise da meia idade”, quando a pessoa faz uma avaliação de tudo que viveu e passa a se perguntar se valeu a pena. Isso pode gerar um conflito intenso. E, junto das marcas do tempo no corpo, mostra que a vida tem um prazo. É um momento crucial, hora de nos realizarmos como seres humanos.

 

Como uma segunda chance?

Sim, o momento de resgatar quem é você, o que quer, o que busca. E não o que o país ou a igreja ou a sociedade determinaram. A decisão implica em rupturas e perdas e por isso gera uma crise. Por isso nem todos escolhem o caminho da felicidade, porque o caminho da felicidade é o de ser você mesmo, mas isso tem um preço.

 

Hoje, ao mesmo tempo em que se buscam avanços para o futuro, fala-se em resgatar valores simples. Como explicar essa contradição?

Mesmo com a desigualdade gerada pelo capitalismo, nunca se teve tanto acesso a tantas coisas como hoje. Saúde, moradia férias, bens de consumo. Ao mesmo tempo, nunca os índices de felicidade foram tão mornos. Para se ter uma idéia, pesquisas dos Estados Unidos e da Grã-Bretanha mostraram que, nesses países, hoje se consome cinco vezes mais, mas o índice de felicidade está estagnado, desde a década de 50.

 

Por quê?

Com tantas promessas da tecnologia e da ciência, por um momento acreditamos que conseguir controlar o corpo, as doenças, o envelhecimento, morar em casas superconfortáveis e dirigir carros velozes nos tornaria felizes. Mas pensar assim é focar na nossa porção animal, preocupada com a sobrevivência da espécie.

 

E a outra porção?

O ser humano tem um lado que anseia pela divindade e por transcender a condição animal de trabalhar-reproduzir-sobreviver. Ele quer enlevo, satisfação, leveza,o que não é contemplado pela ciência, porque o que satisfaz são coisas muito simples. Como uma flor, o pôr-do-sol, aquele sentimento de que a vida pode ser mágica em alguns momentos. É a beleza da vida, a essência. A sensação de que a vida é mais que apenas sobreviver. Isso é dado pelas coisas simples da vida.

 

Posso dizer que elas promovem a felicidade?

Sim, coisas simples como ter uma vida estável, amigos de verdade, tomar um banho de chuva. Ter prazer pela vida. Ter uma atividade que traz satisfação e a sensação de que você  faz algo por um mundo melhor. É acreditar em algo melhor que a vida cotidiana, por isso a espiritualidade é tão importante para a felicidade. São coisas simples que nos dão a sensação de que a vida pode ser leve, mesmo nos momentos mais difíceis.

 

Mas mesmo as coisas simples podem ser confundidas pelo consumismo?

Podem. Com a falta de sentido nas coisas materiais, a gente resgata lembranças felizes, por exemplo, na casa da avó tomando leite com café quentinho, na caneca de esmalte, enquanto está chovendo. Muitas pessoas tentam recuperar isso comprando canequinhas, porque devido a valores consumistas, a gente de novo acredita que pode comprar a felicidade, adotando determinados comportamentos, como uma fórmula. Contudo a felicidade não está na canequinha de esmalte, mas na sensação de estar protegido, guardado ,amado. Porque no fim das contas, a principal fonte de felicidade e de infelicidade está nas relações que estabelecemos com as outras pessoas e com o mundo.

 

 

“Não existe felicidade se você não for capaz de reconhecer quem você é e o que é importante para si mesmo.”

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