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Archive for the ‘Psicologia Humanista’ Category

Por : Bárbara Gehrke Rohde, Psicóloga e Arteterapeuta – CRP 07/15404

Primeiramente vamos pensar na arte como forma de expressão do ser humano. Poderíamos supor que o homem das cavernas já utilizava a arte como meio de catarse, uma forma de colocar pra fora seus sentimentos e emoções. E muitas foram às manifestações de dor, angústias, luta, morte, vitórias e alegrias representadas nas paredes das cavernas (pinturas rupestres), o que nos faz pensar em projeções do inconsciente representadas por imagens e símbolos. “A arte é quase tão antiga quanto o homem” (Fischer 1971, p. 21).

As artes em geral têm o poder de alcançar emoções profundas, como refere Brown (2000), elas podem mudar a maneira como você se sente em relação ao mundo e a si mesmo. A arteterapia consegue examinar a forma como você olha para si mesmo e para o mundo. Seja trabalhando com argila, palavras ou teclas de um piano, um artista constrói um mundo de símbolos que libera emoções e idéias. Todos nós temos símbolos que representam nossos pensamentos e sentimentos.

Pessoalmente, considero a arteterapia uma “ferramenta a mais” para meu trabalho com psicoterapia. Um processo terapêutico de utilização da arte, que incluo o relaxamento, meditação, pintura, modelagem, desenho, costura, dança, teatro, marionetes, enfim, toda representação artística. Posso utilizá-la em psicoterapia individual, de grupo, com diferentes idades e tipos psicológicos, facilitando o entendimento do sujeito desde a anamnese até o tratamento psíquico em si. É utilizada em escolas, organizações e na área clínica (hospitais, consultórios, instituições psiquiátricas, etc). E também por profissionais da área da saúde, educação e artes.

Trabalho com a arteterapia de abordagem Junguiana, sobre esta, aponta Philippini (2000), que Jung, em sua obra, descreveu amplamente como, nas culturas mais diversas, etapas do processo de individuação eram codificadas em símbolos com temáticas similares e estas representações do inconsciente coletivo repetidas em mitos, contos, tradições religiosas, tratados alquímicos e ritos de passagem de locais geograficamente distantes. Estas imagens recorrentes em toda a humanidade reaparecem em sonhos, desenhos, pinturas, esculturas e nos símbolos produzidos através da imaginação ativa e nas técnicas de visualização e meditação.

Psicologia e Arte: “Apesar de sua incomensurabilidade existe uma estreita conexão entre esses dois campos que pede uma análise direta. Essa relação baseia-se no fato de a arte, em sua manifestação, ser uma atividade psicológica e, como tal, pode e deve ser submetida a considerações de cunho psicológico; pois, sob este aspecto, ela, como toda atividade humana oriunda de causas psicológicas, é objeto da psicologia” (Jung, 1971, p.54).

Conforme Philippini (2000), a arteterapia resgata a promoção, a prevenção e a expansão da saúde. A arteterapia auxilia a resgatar desbloquear e fortalecer potenciais criativos, através de formas de expressão diversas, ademais facilita que cada um encontre, comunique e expanda a seu próprio caminho criativo e singular, favorecendo a expressão, a revelação e o reconhecimento do mundo interno e inconsciente. Destaca ainda, que em arteterapia com abordagem Junguiana, o caminho será fornecer suportes materiais adequados para que a energia psíquica plasme símbolos em criações diversas. Estas produções simbólicas retratam múltiplos estágios da psique, ativando e realizando a comunicação entre inconsciente e consciente. Este processo colabora para a compreensão e resolução de estados afetivos conflitivos, favorecendo a estruturação e expansão da personalidade através do processo criativo.

E Osório (in Valladares, 2003) salienta que a arteterapia é uma prática terapêutica que trabalha com a intersecção de vários saberes, como educação, saúde e ciência, buscando resgatar a dimensão integral do homem. A arte se propõe a algo pessoal e único, e expressa a linguagem do inconsciente.

Segundo Valladares (2003), a arteterapia na teoria Junguiana, propicia o fornecimento de materiais expressivos diversos e adequados para a criação de símbolos presentes no universo imagético singular de cada cliente, universo que se traduz em produções simbólicas que retratam estruturas psíquicas internas do inconsciente pessoal e coletivo. A arteterapia facilita a entrada no psiquismo humano por infinitas possibilidades da arte e através da linha Junguiana o surgimento dos símbolos abre caminho para o trabalho do arteterapeuta.

E finalmente é importante lembrar que somente psicólogos ou psiquiatras com formação em psicoterapia poderão utilizar a arteterapia na psicoterapia, sobre isto, Païn (1996), sublinha que a arte em psicoterapia é realizada, sobretudo, por profissionais específicos da psicologia. Freqüentemente, neste processo, considera-se a atividade plástica secundária, pois o efeito terapêutico sobrevém somente das trocas verbais em torno do conteúdo da obra. Utiliza-se a expressão plástica, neste caso, como meio de atender a comunicação verbal ou como a única maneira de estabelecer uma comunicação, caso em que a representação simbólica é ignorada.

Não precisamos ser artistas ou conhecer as técnicas das artes para fazer arteterapia, basta ter motivação para o autoconhecimento.

REFERÊNCIAS:

Brown, D. (2000). Arte Terapia: fundamentos. São Paulo: Vitória Régia.

Fischer, E. (1971). A necessidade da arte. (3ª ed.) Rio de Janeiro: Zahar Editores.

Jung, C. G. (1971). O espírito na arte e na ciência. (3ª ed.) Petrópolis: Vozes.

Païn, S. e Jarreau, G. (1996). Teoria e técnica da arte-terapia: a compreensão do sujeito. Porto Alegre: Artes Médicas.

Philippini, A. (2000). Cartografias da coragem: Rotas em Arte Terapia. Rio de Janeiro: Pomar.

Valladares, A.C.A. (2003). Arteterapia com crianças hospitalizadas. Dissertação de Mestrado não publicada, Universidade de São Paulo, São Paulo, SP, Brasil.

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Imagem: Caminhar de Vasco Abrunhosa

Por Angelita Scardua

Abraham Maslow foi um psicólogo norte-americano que viveu no século XX. Muito embora Maslow tenha empenhado grande parte de sua energia para o desenvolvimento e o reconhecimento da Psicologia Humanista, ele quase sempre é lembrado pela grande contribuição que legou ao estudo psicológico dos mecanismos que motivam o comportamento humano.

Quando pesquisava o comportamento de macacos, no início de sua carreira, Maslow percebeu que algumas necessidades são mais prioritárias do que outras. De forma bem sucinta: as necessidades referentes às demandas típicas do corpo como a fome, a sede, a cessação da dor, etc., tendem a ocupar nossa mente em primeiro lugar. Não há como negar, antes de qualquer pretensão transcendente, somos animais, habitamos um corpo material que se não for adequadamente nutrido e protegido, desfalecerá.  O fato é que a sede tem prioridade sobre a fome, pois a falta de água mata mais rápido do que a de comida!…E assim sucessivamente.

Em função dessa característica, de que uma necessidade exerce primazia sobre outras, Maslow criou uma Hierarquia de Necessidades, na qual definiu cinco níveis de necessidades:

1- Necessidades fisiológicas: ar, água, comida, abrigo, evitamento/cessação da dor e sexo. Também se inserem nessa categoria as necessidade de ter atividades, de descansar, de dormir, de livrar-se de substâncias tóxicas ou inúteis como urina e fezes, por exemplo.

2- Necessidades de segurança e estabilidade: garantir que a satisfação das necessidades fisiológicas não se interrompam. Assim, desenvolve-se a necessidade de ter uma estrutura, alguma ordem e alguns limites. Do ponto de vista negativo, a fome e a sede podem não ser mais as preocupações hegemônicas mas sim o medo, a insegurança e a ansiedade. Quando nos encontramos nesse estágio da hierarquia, descobrimos a urgência de ter um lar, um emprego, um plano de saúde, um plano de aposentadoria, uma poupança…

3- Necessidades de amor e pertencimento: sentir-se acolhido, protegido e integrado a um grupo com o qual possa se identificar e ser identificado. Quando se consegue suprir, de modo geral, as necessidade fisiológicas e de segurança, surge um terceiro nível. Começamos a ter necessidades essencialmente afetivas, associadas ao contato íntimo com outros seres vivos, especialmente humanos. Amigos, namorado(a), filhos. Além disso, todo tipo de vínculo social que nos dê a sensação de pertencimento, como o encontrado na comunidade, igreja, família, etc., passa a prevalecer. O lado negativo disso? Bom, podemos nos tornar suscetíveis à solidão e ao julgamento dos outros.

4- Necessidades de estima: sentir-se reconhecido e valorizado pelos seus pares, e por você mesmo, em função de suas características, capacidades e recursos pessoais. Maslow identificou duas versões das necessidades de estima: uma inferior e uma superior. A inferior é o desejo de ter o respeito dos outros, a necessidade de status, fama, glória, reconhecimento, atenção, reputação, apreciação, dignidade e mesmo dominância. A versão superior envolve a necessidade de auto-respeito, incluindo sentimentos como confiança, competência, capacidade de realização, mestria, independência e liberdade. A questão da superioridade de uma forma de estima sobre a outra é que o auto-respeito é muito mais difícil de perder, ou seja, uma vez que essa necessidade é atendida, sua força motivadora é muito mais constante e efetiva do que a motivação dependente da reação dos outros. Não satisfazer essas necessidades produz baixa auto-estima e os complexos de inferioridade.

Esses quatro níveis da Hierarquia das Necessidades, citados até agora, fazem parte das D-Needs: Deficit Needs, melhor dizendo: necessidades geradas pela falta. Isso significa que, nesses níveis, tendemos a nos sentirmos motivados a fazer algo quando nos falta os elementos adequados para satisfazer uma dessas quatro categorias de necessidade.

Maslow vê esses quatro primeiros níveis como necessidades de sobrevivência, presentes não apenas nos seres humanos mas em outros animais. Até mesmo o amor e a estima, que parecem tão particulares à nossa espécie, são necessários à manutenção da saúde, e isso pode ser percebido em outros animais que desenvolvem depressão ou ansiedade em função de abandono ou maus tratos. Tanto é que, por exemplo, quando não conseguimos satisfazer as necessidades superiores podemos “regredir”, focando nossa atenção na satisfação das necessidades inferiores. Por exemplo: o rompimento de um relacionamento, o desemprego, a reprovação em uma prova, podem desencadear sentimentos de desamparo, nos levando a buscar compensações na comida ou no sexo. Essa busca de compensação – baseada no redirecionamento do foco para as necessidades inferiores quando as superiores não são satisfeitas – ocorrem também no nível coletivo. Quanto mais pobre for um país menos as pessoas terão acesso a lazer, educação, etc., e existirá uma maior demanda social por um dirigente que prometa apenas acabar com a fome.

Na visão de Maslow, todos nós temos essas necessidades implantadas geneticamente, como se fossem instintivas. Contudo, não somos apenas animais atrelados à mera sobrevivência, somos animais que aspiram à divindade. Nossa percepção do mundo, e de nós mesmos, é filtrada por um complexo sistema neuronal habilitado com a impressionante capacidade de abstrair, logo, simbolizar. A imagem sensorial que captamos do mundo é (re)significada pelo nosso cérebro, ou seja, a imagem do mundo externo não resulta diretamente do estímulo coletado pelos sentidos, mas é construída mediante os processos de assimilação e diferenciação. A assimilação e a diferenciação são processos ancorados na capacidade do cérebro de processar e interpretar os dados sensoriais, o que é feito, em grande parte, pela via da comparação entre as informações coletadas. Comparar, por sua vez, implica a associação entre experiências: leia-se sentimentos, pensamentos e impressões anteriormente assimilados. Assim, a percepção humana é atravessada por valores subjetivos, próprios da vivência de cada um de nós.

Resumindo: as imagens com as quais representamos em nossa mente o mundo vivido – até mesmo em seus aspectos mais básicos como beber e comer – são construções subjetivas por excelência, muito embora se originem por meio da Experiência Sensorial. Portanto, apesar de num primeiro momento priorizarmos a manutenção do corpo físico – a sobrevivência –, o conjunto das necessidades humanas é mais ampliado e mais complexo do que aquele que motiva um gato, um macaco ou um peixinho dourado! Uma vez que tenhamos satisfeito as D-Needs, as quatro categorias de necessidades básicas que são subsidiadas pela exigência de sobreviver, elas deixam de gerar a motivação necessária para que possamos nos mexer.

 

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Por Angelita Scardua

 

Abraham Maslow, o criador da Psicologia Humanista e da Hierarquia das Necessidades, que era esperto e também humano, entendeu as particularidades próprias da nossa espécie. Àquelas que nos ajudam a entender o que é que nos motiva. Ele percebeu que as nossas necessidades íam além do substrato fisiológico. Tanto é que ele acreditava que nossa visão de futuro é dependente das necessidades que ainda não conseguimos satisfazer. Ou seja, uma pessoa que tenha sofrido privações econômicas por um longo período de tempo, ou que tenha sido abandonada quando criança, pode “fixar-se” nas Necessidades de Segurança por boa parte da vida e, assim, condicionar todos os seus planos de vida à busca de uma condição segura. É por essa perspectiva que Maslow compreende a neurose. Uma criança negligenciada emocionalmente pode tornar-se um adulto doentiamente ciumento, por exemplo!

A partir do ponto de vista de Maslow, se, teoricamente, os humanos são mais pretensiosos do que os outros animais quanto ao propósito de suas vidas, como alguém que tem comida, amor, saúde, etc., sente-se motivado para continuar se desenvolvendo? Para explicar isso, Maslow apostou numa nova categoria de necessidades humanas, as B-Needs, ou Necessidades de Ser. Essa categoria de necessidades é também conhecida como “motivação para o crescimento” ou “auto-realização”. As pessoas que atingem esse nível foram chamadas por Maslow de “auto-realizadoras”. Especificando:

1- Necessidades de auto-realização: se referem ao contínuo desejo de desenvolver potencialidades, de “ser tudo que podemos ser”. São os desejos, sonhos, fantasias, planos que nos impelem a nos tornarmos tudo aquilo que, efetivamente, podemos ser. Daí o termo auto-realização. Para ser auto-realizador, um ser humano precisa já ter dado conta, minimamente, das outras quatro categorias de necessidades. Caso contrário, não é possível dedicar-se ao desenvolvimento dos potenciais. Com fome, não dá para pensar em “sentido da vida”; sentindo-se solitário – que não é o mesmo que estar sozinho – fica difícil dedicar-se à busca de significado. Para Maslow, numa sociedade tão demandante, materialista e consumista como a que vivemos, poucas pessoas são capazes de sentirem-se satisfeitas em suas necessidades…sempre há uma necessidade para satisfazer! Além disso, como os recursos são limitados sempre haverá alguém que, por mais que se empenhe, não logrará satisfazê-las. É por isso que ele defendia que apenas 2% da população mundial seria auto-realizadora.

Maslow – assim como você está se perguntando agora – também se perguntou o que poderia caracterizar as pessoas auto-realizadoras? Para responder a essa pergunta, ele realizou uma extensa investigação psicológica a partir da biografia de pessoas já mortas e da análise de entrevistas com alguns vivos que, na sua visão, pareciam ter superado a motivação unicamente voltada para a satisfação das necessidades voltadas apenas à sobrevivência. O que Maslow concluiu disso nos ajuda, hoje, a ver que as pessoas auto-realizadoras:

– São “Centradas na realidade”: capazes de distinguir o que é falso e enganoso do que é real e genuíno.

– São “Centradas em problemas”: tratam as dificuldades da vida como problemas que precisam de soluções, e não como frustrações pessoais com as quais devessem se irritar e se conformar.

– Possuem “percepção diferente de meios e fins”: sentem que os fins não necessariamente justificam os meios, mas que os meios podem ser fins em si mesmos. Ou seja, que a jornada pode ser muito mais importante que o destino.

– Apreciam a solidão: sentem-se confortáveis em estar sozinhas.

– Apreciam relações pessoais profundas: poucos amigos próximos e sinceros são preferidos a relações superficiais com muitas pessoas.

– Apreciam a autonomia: gozam, e necessitam, de uma relativa independência das necessidades físicas e sociais.

– Resistem à aculturação: não são suscetíveis à pressão social de serem “bem ajustados” ou de se adequarem ao padrão.

– Têm senso de humor: conseguem fazer piada de si próprios ou da condição humana, sem que isso dependa de divertir-se às custas de alguém.

– Aceitam a si-mesmo e aos outros: o que as predispõem a aceitar o outro como ele é, ao invés de tentar mudá-lo. O mesmo se aplica as próprias atitudes. Se alguma característica pessoal não é prejudicial, elas a aceitam e a reconhecem como uma peculiaridade pessoal. Por outro lado, elas são fortemente motivadas a mudar características negativas próprias que podem ser mudadas.

– Possuem espontaneidade e simplicidade: preferindo ser elas mesmas a serem pretensiosas ou artificiais.
– Têm senso de humildade e respeito: algo que Maslow também chamou de “valores democráticos”, caracterizado pela abertura à diversidade.

– Têm “human kinship“: o que denota um sentimento de fraternidade para com a raça humana, significando interesse social, compaixão e empatia.

– Têm forte senso ético: conotando uma certa dose de espiritualidade sem, necessariamente, estar associado a religiões convencionais.

– Têm admiração: habilidade de ver as coisas, até mesmo as coisas comuns, com entusiasmo e encantamento.

– São criativas: recorrem mais freqüentemente a soluções e visões inventivas e originais.

– Vivem experiências culminantes: as peak experiences são experiências que podem ocorrer a todas as pessoas, mas tendem a ser mais comuns para os auto-realizadores. Nessas experiências, nos percebemos muito pequenos ou muito grandes. Saímos de nós-mesmos e nos sentimos unos com a vida, ou com a natureza, ou com Deus. São experiências que tendem a deixar marcas profundas na nossa vida, conferindo propósito e significado à experiência e, em geral, transformando-nos para melhor. São as chamadas de “experiências místicas”, familiares a muitas tradições religiosas e filosóficas.

Não se iluda! Os auto-realizadores não são perfeitos. Maslow identificou muitas falhas e problemas nessas pessoas ao longo de suas pesquisas. Culpa e ansiedade, perder-se nos próprios pensamentos, bondade excessiva e episódios de crueldade, frieza e mau humor podem ocorrer com certa freqüência entre os auto-realizadores. O diferencial otimizador desse tipo de pessoa é que os seus valores fluem sem esforço, as qualidades aparecem como traços de personalidade, são espontâneas e naturais. Talvez, por isso, parece fácil para eles transcender muitas das dicotomias que são inerentes à percepção da maioria como, por exemplo, as diferenças entre espiritual e físico, ou entre egoísmo e altruísmo, ou entre o masculino e o feminino. Nesse sentido os auto-realizadores se aproximam muito da definição de criatividade proposta pela Psicologia Positiva.

Pessoas auto-realizadoras têm necessidades especiais, as metanecessidades, ou B-needs, que é o que realmente as motiva. Eis o que elas precisam em suas vidas para serem felizes:

Verdade; Beleza; Unidade, Completude, Transcendência de opostos; Singularidade; Vitalidade; Perfeição; Justiça; Ordem; Simplicidade; Riqueza; Ausência de esforço; Auto-suficiência; Sentido

Ok! Já sei o que você está pensando – todo mundo precisa dessas coisas. De fato. Mas se você estiver endividado, com fome, com dor, ou numa rua escura, sozinho, num bairro perigoso, no meio da noite, muito dificilmente você vai priorizar alguma dessas metanecessidades. Esse é o ponto! Maslow acreditava que poucas pessoas estavam interessadas nesses valores. Não que as outras pessoas – a maioria da humanidade – sejam más. Mas, talvez, elas ainda não tenham conseguido atender às suas necessidades básicas, ou, apenas estejam focadas demais nas demandas fisiológicas. E veja bem, esse aprisionamento pode ocorrer mesmo quando a pessoa tem as condições de atender aos seus anseios materiais, seja porque estão “animalizadas” por traumas e experiências ruins, ou por estarem demasiadamente submetidas às demandas do grupo social. É o caso, por exemplo, de uma pessoa rica que investe todo o seu tempo e energia em sexo, comida, compras ou festas, etc. Do ponto de vista da Hierarquia das Necessidades, não importa se a sua necessidade premente é de feijão com arroz ou de blinis com caviar; se a necessidade que te motiva na maior parte do tempo é comer, então sua vida e escolhas são guiadas por uma necessidade fisiológica, básica e inferior.

Quando o auto-realizador não consegue satisfazer as metanecessidades, ele desenvolve metapatologias. De forma resumida, ser forçado a viver sem esses valores, faz com que a pessoa auto-realizadora desenvolva depressão, falta de esperança, desgosto, alienação e um certo grau de cinismo.

É possível que o próprio Maslow fosse uma pessoa auto-realizadora, e que durante boa parte da vida não pode satisfazer suas metanecessidades. Digo isso porque, como psicóloga, acredito que temos curiosidade para compreender aquilo que diz respeito a nossa própria experiência de vida. Da mesma forma, somos mais competentes para entender a dor que também sentimos. No mais, os relatos do próprio Maslow me dão a sensação de que ele se via como uma alma aprisionada, um espírito habitando um mundo muito menor do que as suas potencialidades. Veja o que ele disse sobre a própria infância:

“Fui um garoto tremendamente infeliz… Minha família era miserável e minha mãe era uma criatura horrível… Cresci dentro de bibliotecas e sem amigos… Com a infância que tive, é de se surpreender que eu não tenha me tornado um psicótico.”

 

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