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Archive for the ‘Psicologia da Felicidade’ Category

(Imagem da Internet – Autor desconhecido)


Por Angelita Scardua

Primeiramente, podemos pensar na moradia como parte de duas de nossas necessidades básicas: proteção e segurança. De um lar, contudo, espera-se mais do que a função de simples abrigo. Nós temos a expectativa, consciente ou inconsciente, de que a casa que habitamos nos ofereça conforto, paz, estabilidade e, principalmente, nos ajude a ter mais felicidade. Mas como transformar cimento, tijolos, telhas, tinta, etc., num espaço que possa nutrir nossos corpos, corações e mentes?

A sociedade de consumo viabiliza a existência de vários profissionais dispostos a nos ajudar a ter uma casa que expresse nossos anseios de habitar: arquitetos, decoradores, designers, e por aí vai. Na prática, porém, poucos profissionais da área saberiam explicar o que pode transformar uma casa num lar. Quando oferecem soluções para a organização, decoração, montagem…construção de uma casa, os experts em moradia tendem, na média, a seguir as tendências do mercado. Via de regra, as tendências em questão são fruto de pesquisas das indústrias de construção civil, têxtil, iluminação, etc. Melhor dizendo, as tendências surgem, quase sempre, para justificar os gastos das indústrias com pesquisas que levam a novos materiais e técnicas. Muitas vezes essas inovações podem ser ótimas para o consumidor final, muitas vezes não! O amianto, só para citar um exemplo recente, foi usado largamente nas construções do mundo até que se descobrisse uma correlação entre esse material e a incidência de tumores malignos. Outras vezes, as inovações teconológicas criam tendências que melhoram a vida doméstica de forma geral, favorecendo nossas busca por bem-estar e qualidade de vida. É o caso, por exemplo, dos materiais renováveis, do uso da energia solar, dos vidros temperados, e muitas outros.

Ainda assim, de que forma os “profissionais da casa” podem nos ajudar a erigir um lar? Se pensarmos que a idéia de lar implica, em boa parte, a expressão da nossa individualidade, o desejo de afirmarmos nossa condição social e cultural e a representação dos nossos valores pessoais; o mínimo de conhecimento psicológico, tanto ao nível da espécie – o ser humano – quanto ao nível do indivíduo – o sujeito que demanda a casa – deveria ser parte essencial da formação daqueles que constroem casas. Quem sabe, anum futuro próximo se estabeleça uma abertura conceitual de ambos os lados para a existência de um trabalho interdisciplinar? Ou, pelo menos, o interesse numa produção teórico-prática que buscasse efetivamente o diálogo entre áreas como Arquitetura, Design, Decoração, Engenharia Civil, Psicologia, Antropologia, Sociologia, História, etc.

No campo da Psicologia, do qual me sinto confortável para falar, há estudos sobre os efeitos do ambiente na vida das pessoas, e vice-versa. Esses estudos abarcam desde aspectos genéticos como as neurociências da percepção, até fatores subjetivos como as características de personalidade subsidiadas por formações inconscientes. Uma vertente interessante, e a princípio mais palatável para não psicólogos, são os estudos no campo da Psicologia Ambiental, que se baseiam nos mecanismos evolutivos que favoreceram a constituição da espécie humana. Sabe-se hoje, por exemplo, que a sensação de conforto e felicidade no que diz respeito ao habitar vincula-se aos instintos primários que nos leva(ra)m à luta pela sobrevivência. Como assim? Para entender isso melhor, seguem alguns exemplos:

A busca de refúgio: a sobrevivência de nossos antepassados dependia da capacidade de encontrar lugares seguros, que fornecessem abrigo dos elementos naturais e proteção contra os predadores. Assim, tendemos a preferir lugares acolhedores, que dão a sensação de conter, abrigar, acolher…como ocorre com telhados  de muitas águas e variações na altura, com moradias de espaços compartimentados e privativos. Tanto é que a tendência dos lofts, por exemplo, por mais que tenha sido enaltecida pela mídia especializada, não logrou tornar-se uma regra de moradia, nem mesmo para uma minoria significativa. Alguns arquitetos, como Frank Lloyd Wright, são mestres em criar habitações cheias de espaços com essa característica de “refúgio”. Muitos profissionais, atualmente, seguem esses princípios optando por uma disposição dos móveis e por uma escolha de materiais – como madeira, pedra e outros – que promovem a sensação de conforto e segurança.

A importância da visibilidade: para os nossos antepassados, sobreviver numa savana africana implicava capacidade de antever as ameaças circundantes. Para fazer esses tipo de “previsão”, os humanos sempre dependeram da visão do que ocorria nas redondezas. Não é à toa que ao longo da história humana, os lugares altos semprem foram uma escolha para a construção de castelos, fortalezas e todo tipo de espaço para a defesa. Ou seja, ao mesmo tempo que precisamos nos recolher/refugiar, precisamos saber o que nos ronda a fim de que possamos nos defender. Assim, mesmo hoje, entre nós, há uma certa predileção por espaços amplos, tetos altos, luminosidade, etc. O mesmo vale pelo encantamento que ainda sentimos com casas erigidas em colinas, montanhas e, até mesmo, pelo fascínio susictado pelos arranha-céus das grandes metrópoles no imaginário moderno.

A atração pelo desconhecido: experimentos psicológicos sugerem que os humanos possuem uma forte atração pelo mistério. O que parece fazer sentido, já que descobrir, desvendar, conhecer, etc., são interesses inerentes à própria evolução da espécie. Sem tais interesses estaríamos todos, neste exato momento, habitando cavernas e vestindo a pele de animais mortos (alguns ainda o fazem, sei lá porquê!). Nossa sobrevivência como espécie está diretamente associada ao nosso interesse pelo que é desconhecido, misterioso. É a vontade de conhecer que nos impulsiona a realizar coisas, seja cruzar os oceanos ou fiar o algodão. Talvez, por isso, tendamos a nos sentir atraídos por corredores, escadas, nichos…espaços que “prometem” a revelação de algo mais que nos escapa à primeira vista. Hallsde entrada, sólidas portas; caminhos de acesso à entrada da casa com curvas, esquinas, cantos; cortinas que não ocultam totalmente os ambientes mas velam seus conteúdos…Enfim, casas com pequenos “segredos” parecem nos atrair e encantar.

A conexão com a natureza: no âmbito da investigação científica há sólidos indícios de que imagens de paisagens naturais podem melhorar o humor e, conseqüentemente, causar impacto positivo na saúde dos seres humanos. Um estudo clássico nessa área revelou que pacientes em recuperação cirúrgica, quando instalados em quartos com vista para a natureza, sentiam menos dor e se recuperavam mais rápido do que aqueles acomodados em quartos comuns. É claro que nem todo mundo pode habitar uma casa com vista privilegiada mas, certamente, isso é algo que a maioria de nós gostaria de fazer. Cultivar plantas em casa, morar próximo à agua – seja mar, cachoeira, rio, lago, etc., – ornar paredes com fotografias e pinturas de paisagem, criar um animal de estimação…são maneiras de nos mantermos em contato com a natureza e, ao mesmo tempo, de alegrar o nosso cotidiano. No passado remoto, para os nossos ancestrais, lugares cercados de vegetação e água era a garantia segura de fonte de alimentos, ou seja, de sobrevivência. No mais, o que seria da nossa história como espécie sem a companhia de nossos alegres companheiros de caçada, os cães.

A preferência pela simetria: uma das idéias dominantes atualmente nas neurociências é que o nosso cérebro se sente recompensado com padrões. Essa parece ser uma herança do nosso profundo vínculo original com a natureza. Do ponto de vista biológico, o equilíbrio das proporções, a regularidade e a ordem parecem sinalizar boas condições para a perpetuação da espécie. Tanto no âmbito da atração por um parceiro sexual quanto pela escolha de um lugar adequado para se viver, a existência de formas ordenadas e padronizadas parecem sinalizar confiabilidade. Pense bem: habitar um local no qual as estações seguem um fluxo regular possibilita um melhor planejamento das temporadas de caça, semeadura, colheita, recolhimento, etc. Similarmente, pesquisas recentes sobre a atração sexual têm demonstrado que o nosso cérebro tende a interpretar um corpo simétrico e bem proporcionado com genes mais saudáveis. Logo, simetria, ordem, equilíbrio e proporção parecem estar, do ponto de vista evolutivo, intimamente associados a tudo aquilo que no longo prazo possa ser confiável, produtivo e seguro. Não é a toa que ambientes com arrumação simétrica tendem a nos parecer mais aprazíveis. Paredes, tapetes, móveis, luminárias, janelas, portas, quadros…qualquer elemento de decoração que segue um padrão, seja de cor, textura, forma, tamanho, etc., parece agradar aos nossos olhos.

À procura do centro: nossos ancestrais caçadores e coletores – posteriormente agricultores e pastores – não teriam nos legado seus genes, e garantido nossa passagem por aqui, se em algum momento da dura rotina cotidiana eles não tivessem podido parar e repousar. O descanso é parte essencial da nossa sobrevivência, é o momento no qual nos permitimos ser mais do que animais. O repouso, o descanso, o ócio, são momentos em que podemos refletir, vagar… mergulhar no campo imaginário das nossas especulações, sonhos, desejos e delírios. O espaço que favorece essa “humanização” diária é o que podemos chamar de “centro”, o lugar de recolhimento, de auto-conexão. Casas que oferecem espaços preservados, ou seja, distantes de entradas, corredores e locais de passagem, nos parecem mais relaxantes. Não precisa necessariamente ser um cômodo, pode ser apenas uma poltrona num canto da sala, um banco num jardim, uma cama adequadamente posicionada. Às vezes, a simples mudança da iluminação de um ambiente pode proporcionar esse oásis imaginativo. Um dado interessante sobre o efeito da disposição dos móveis numa casa é que alguns experimentos psicológicos demonstraram que nossas escolhas fora de casa – dos locais por onde queremos andar, em quais preferimos parar e o que buscamos olhar – são afetadas pela organização dos espaços em nossos lares. Simbolicamente falando, nossa motivação para explorar o mundo tem a intensidade e a dimensão dos sonhos que a nossa casa nos permite abrigar.

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Por Angelita Scardua

Psicologia do Design de Interiores é um ramo recente da Psicologia Ambiental. Baseia-se em resultados de pesquisas científicas e em experimentação. O fundamento essencial dessa área é o amplo universo de investigação neurocientífica das emoções humanas. Dito de outra maneira, ocupa-se de entender como os seres humanos reagem, no nível emocional e cognitivo, à forma com que os espaços interiores – residenciais e comerciais, individuais e coletivos – são organizados. A partir disso, a Psicologia do Design de interiores visa contribuir para que os lares e estabelecimentos comerciais sejam espaços promotores de bem-estar e qualidade de vida. Não se pode confundir a Psicologia do Design de interiores com a Ergonomia. Enquanto a Ergonomia volta-se para a criação de ambientes funcionais, a Psicologia do Design de interiores tem a árdua tarefa de tentar criar ambientes mais felizes, espaços que priorizem as emoções e as vivências positivas.

Ainda, a Psicologia do Design de interiores também tem sido utilizada para auxiliar profissionais do mercado imobiliário na venda e alocação de imóveis, principalmente no que diz respeito à decoração das casas a serem negociadas. No canal de TV à cabo A&E há um reality show, Sell This House (Casa à Venda), no qual o designer Roger Hazard utiliza os princípios da Psicologia do Design de interiores para ajudar pessoas a venderem seus imóveis. Similarmente, os mesmos conhecimentos têm sido utilizados por lojas que trabalham com artigos de decoração para promover uma melhor adequação dos produtos ao perfil e às necessidades e expectativas do cliente.

A Psicologia do Design de interiores foi o primeiro passo no sentido de utilizar os conhecimentos propiciados pela Psicologia Positiva na Psicologia Ambiental. Ou seja, a primeira tentativa de promover felicidade a partir da interação homem-ambiente. Apesar de ter sido a primeira, essa vertente não é a única a ocupar-se de tornar meros moradores em habitantes mais felizes. Recentemente, surgiu nos EUA a onda do happy décor!

O happy décor, segue a enxurrada de propostas, em todos os âmbitos da cultura contemporânea, que prometem a felicidade num pacote bem arrumado. Da perfumaria à culinária, da literatura ao setor bancário, quase todas as formas de produção humana nesse início de século têm adotado o discurso da felicidade prêt-àporter. Tendo por resolução produzir felicidade com cores intensas e ambientes profusamente iluminados, o happy décor surge como a alternativa da hora para quem quer decorar a casa e, ao mesmo tempo, se sentir em dia com as as mais recentes tendências de comportamento e estilo de vida  contemporâneas…Afinal, só no ano de 2007, 100 instituições americanas ofereceram cursos sobre a felicidade.

Mas não é só de fast-self-h(elp)appy-décor que vive o mundo da arquitetura. Alguns estudos, bem mais sérios, na área tentam entender a relação entre arquitetura e felicidade. O filósofo Alain Botton, por exemplo, publicou um livro, em 2007, sobre o papel da arquitetura na promoção de felicidade. Em seu livro A arquitetura da Felicidade, o autor nos convida a abrir os olhos para essa curiosa relação, raramente percebida. Botton defende que o que buscamos numa obra de arquitetura não está tão longe do que procuramos num amigo. Ao construir uma casa ou decorar um cômodo, as pessoas querem mostrar quem são, lembrar de si próprias e ter sempre em mente como elas poderiam idealmente ser. O lar, portanto, não é um refúgio apenas físico, mas também psicológico, o guardião da identidade de seus habitantes.

Assim como Botton, outros estudiosos procuram levar a sério a investigação da relação entre felicidade e arquitetura. Dentre eles, há psicólogos sociais, experimentais, evolutivos e ambientais como Gary W. Evans, da Universidade Cornell, em Nova York, que realiza estudos profícuos na área. Num deles, Evans identificou que o bem-estar numa casa é, em grande parte, dependente da possibilidade que os moradores têm de fazer mudanças na casa. Para ele, essa autonomia decisória quanto à organização da casa cria um elo emocional entre o morador e o imóvel. Não é a toa que a as pesquisas sobre satisfação com a moradia apontam para o fato de que os proprietários costumam ser mais satisfeitos com seus lares do que os inquilinos. Evans também conseguiu demonstrar que determinadas mudanças nas características da casa podem melhorar a percepção subjetiva dos moradores e dar lugar a sentimentos positivos. Ele concluiu, por exemplo, que a falta de privacidade numa casa contribui para o estresse. A sensação de perda do espaço individual pode ser originada por elementos como paredes muito finas, janelas mal posicionadas e varanda muito aberta.

A necessidade de privacidade é um aspecto recorrente nos estudos sobre os efeitos do ambiente no bem-estar subjetivo das pessoas. Por exemplo, os psicólogos Oddvar Skjaeveland, da Universidade de Bergen, na Noruega, e Tommy Gärling, da Universidade de Gutemburgo, na Suécia, defendem que deve haver áreas de transição entre o espaço privado(a casa) e o público(a rua), para transmitir segurança e tranqüilidade. Seja como for, identificar os fatores que promovem bem-estar, sentimentos e emoções positivas, sensações agradáveis e satisfação com o lar tem sido a meta dos psicólogos envolvidos na formulação de uma arquitetura da felicidade. Com isso, o foco da casa passa a ser o indivíduo e não apenas conceitos abstratos de estética ou funcionalidade.

Como defende Botton, o autor do livro Arquitetura da Felicidade, esses dois aspectos não são independentes nem excludentes. Ou seja, para ele, as construções não deveriam ser desenhadas apenas para funcionar de tal ou tal modo, mas também para refletir um ideal de beleza e transmitir mensagens. Segundo o filósofo, a funcionalidades essencial dos prédios deve ser a psicológica. Um banheiro que não funciona direito incomoda tanto quanto um que não atenda à função estética e expressiva. Talvez, por isso, os psicólogos da arquitetura da felicidade afirmem que para que alguém seja feliz com sua casa não é preciso gastar rios de dinheiro. Respeitar as características e particularidades do morador já é um passo. O outro é respeitar as necessidades inerentes à nossa condição biológica. Deixar a luz natural adentrar a casa, por exemplo, não serve apenas para aquecer os ambientes e realçar as cores das paredes, tecidos e  móveis, mas também para ajudar o nosso organismo a regularizar os ciclos cotidianos dependentes de hormônios – como o ciclo vigília-sono – e isso, coincidentemente, melhora o nosso humor!

 

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Imagem: Caminhar de Vasco Abrunhosa

Por Angelita Scardua

Abraham Maslow foi um psicólogo norte-americano que viveu no século XX. Muito embora Maslow tenha empenhado grande parte de sua energia para o desenvolvimento e o reconhecimento da Psicologia Humanista, ele quase sempre é lembrado pela grande contribuição que legou ao estudo psicológico dos mecanismos que motivam o comportamento humano.

Quando pesquisava o comportamento de macacos, no início de sua carreira, Maslow percebeu que algumas necessidades são mais prioritárias do que outras. De forma bem sucinta: as necessidades referentes às demandas típicas do corpo como a fome, a sede, a cessação da dor, etc., tendem a ocupar nossa mente em primeiro lugar. Não há como negar, antes de qualquer pretensão transcendente, somos animais, habitamos um corpo material que se não for adequadamente nutrido e protegido, desfalecerá.  O fato é que a sede tem prioridade sobre a fome, pois a falta de água mata mais rápido do que a de comida!…E assim sucessivamente.

Em função dessa característica, de que uma necessidade exerce primazia sobre outras, Maslow criou uma Hierarquia de Necessidades, na qual definiu cinco níveis de necessidades:

1- Necessidades fisiológicas: ar, água, comida, abrigo, evitamento/cessação da dor e sexo. Também se inserem nessa categoria as necessidade de ter atividades, de descansar, de dormir, de livrar-se de substâncias tóxicas ou inúteis como urina e fezes, por exemplo.

2- Necessidades de segurança e estabilidade: garantir que a satisfação das necessidades fisiológicas não se interrompam. Assim, desenvolve-se a necessidade de ter uma estrutura, alguma ordem e alguns limites. Do ponto de vista negativo, a fome e a sede podem não ser mais as preocupações hegemônicas mas sim o medo, a insegurança e a ansiedade. Quando nos encontramos nesse estágio da hierarquia, descobrimos a urgência de ter um lar, um emprego, um plano de saúde, um plano de aposentadoria, uma poupança…

3- Necessidades de amor e pertencimento: sentir-se acolhido, protegido e integrado a um grupo com o qual possa se identificar e ser identificado. Quando se consegue suprir, de modo geral, as necessidade fisiológicas e de segurança, surge um terceiro nível. Começamos a ter necessidades essencialmente afetivas, associadas ao contato íntimo com outros seres vivos, especialmente humanos. Amigos, namorado(a), filhos. Além disso, todo tipo de vínculo social que nos dê a sensação de pertencimento, como o encontrado na comunidade, igreja, família, etc., passa a prevalecer. O lado negativo disso? Bom, podemos nos tornar suscetíveis à solidão e ao julgamento dos outros.

4- Necessidades de estima: sentir-se reconhecido e valorizado pelos seus pares, e por você mesmo, em função de suas características, capacidades e recursos pessoais. Maslow identificou duas versões das necessidades de estima: uma inferior e uma superior. A inferior é o desejo de ter o respeito dos outros, a necessidade de status, fama, glória, reconhecimento, atenção, reputação, apreciação, dignidade e mesmo dominância. A versão superior envolve a necessidade de auto-respeito, incluindo sentimentos como confiança, competência, capacidade de realização, mestria, independência e liberdade. A questão da superioridade de uma forma de estima sobre a outra é que o auto-respeito é muito mais difícil de perder, ou seja, uma vez que essa necessidade é atendida, sua força motivadora é muito mais constante e efetiva do que a motivação dependente da reação dos outros. Não satisfazer essas necessidades produz baixa auto-estima e os complexos de inferioridade.

Esses quatro níveis da Hierarquia das Necessidades, citados até agora, fazem parte das D-Needs: Deficit Needs, melhor dizendo: necessidades geradas pela falta. Isso significa que, nesses níveis, tendemos a nos sentirmos motivados a fazer algo quando nos falta os elementos adequados para satisfazer uma dessas quatro categorias de necessidade.

Maslow vê esses quatro primeiros níveis como necessidades de sobrevivência, presentes não apenas nos seres humanos mas em outros animais. Até mesmo o amor e a estima, que parecem tão particulares à nossa espécie, são necessários à manutenção da saúde, e isso pode ser percebido em outros animais que desenvolvem depressão ou ansiedade em função de abandono ou maus tratos. Tanto é que, por exemplo, quando não conseguimos satisfazer as necessidades superiores podemos “regredir”, focando nossa atenção na satisfação das necessidades inferiores. Por exemplo: o rompimento de um relacionamento, o desemprego, a reprovação em uma prova, podem desencadear sentimentos de desamparo, nos levando a buscar compensações na comida ou no sexo. Essa busca de compensação – baseada no redirecionamento do foco para as necessidades inferiores quando as superiores não são satisfeitas – ocorrem também no nível coletivo. Quanto mais pobre for um país menos as pessoas terão acesso a lazer, educação, etc., e existirá uma maior demanda social por um dirigente que prometa apenas acabar com a fome.

Na visão de Maslow, todos nós temos essas necessidades implantadas geneticamente, como se fossem instintivas. Contudo, não somos apenas animais atrelados à mera sobrevivência, somos animais que aspiram à divindade. Nossa percepção do mundo, e de nós mesmos, é filtrada por um complexo sistema neuronal habilitado com a impressionante capacidade de abstrair, logo, simbolizar. A imagem sensorial que captamos do mundo é (re)significada pelo nosso cérebro, ou seja, a imagem do mundo externo não resulta diretamente do estímulo coletado pelos sentidos, mas é construída mediante os processos de assimilação e diferenciação. A assimilação e a diferenciação são processos ancorados na capacidade do cérebro de processar e interpretar os dados sensoriais, o que é feito, em grande parte, pela via da comparação entre as informações coletadas. Comparar, por sua vez, implica a associação entre experiências: leia-se sentimentos, pensamentos e impressões anteriormente assimilados. Assim, a percepção humana é atravessada por valores subjetivos, próprios da vivência de cada um de nós.

Resumindo: as imagens com as quais representamos em nossa mente o mundo vivido – até mesmo em seus aspectos mais básicos como beber e comer – são construções subjetivas por excelência, muito embora se originem por meio da Experiência Sensorial. Portanto, apesar de num primeiro momento priorizarmos a manutenção do corpo físico – a sobrevivência –, o conjunto das necessidades humanas é mais ampliado e mais complexo do que aquele que motiva um gato, um macaco ou um peixinho dourado! Uma vez que tenhamos satisfeito as D-Needs, as quatro categorias de necessidades básicas que são subsidiadas pela exigência de sobreviver, elas deixam de gerar a motivação necessária para que possamos nos mexer.

 

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Jornalista Náira Malze Entrevistando Angelita Scárdua – Psicóloga da Felicidade

 

Psicóloga diz que a felicidade está no autoconhecimento e na maneira como nos relacionamos com o mundo.

 

A felicidade, sempre desejada e cantada em verso e prosa, é mais do que um objetivo na vida da psicóloga Angelita Corrêa Scárdua. É o tema sobre o qual ela faz pesquisas. Seguindo a linha da psicologia positiva – não por acaso chamada também de psicologia da felicidade. Nesses estudos, Angelita chegou a várias conclusões. Uma delas é de que o brasileiro não é tão feliz quanto se imagina. Outra é que a felicidade depende mais das relações que estabelecemos e menos do quanto temos na conta bancária para gastar.

 

O que é psicologia positiva?

É uma abordagem psicológica americana criada nos anos 80, pelo psicólogo Martin Seligman. Essa linha dedica-se a estudar a construção de pensamentos positivos, e o que se pode fazer para ter experiências e emoções saudáveis; e a vida, mais feliz. Por isso também é chamada de psicologia da felicidade.

 

Na prática o que quer dizer?

Para a psicologia positiva, mesmo que você tenha aprendido a ter uma visão negativa da vida, não está condenado a ser um adulto infeliz. Não importa quantos anos você tenha. É possível mudar a forma de perceber o mundo e a sei mesmo.

 

O que isso tinha a ver com a sua pesquisa?

Eu já participava de uma pesquisa de neurociências sobre desenvolvimento, emoção e percepção, tinha finalidades com a teoria de Jung (Carl Jung, psiquiatra que defende que o sujeito se desenvolve até o fim da vida)e, juntando à psicologia positiva, fui investigar o imaginário cultural brasileiro sobre o que é ser brasileiro. Há o mito de que ele é feliz, mas nós identificamos que o brasileiro não acredita que possa mudar a própria vida. Em vez disso, atribui essa responsabilidade a algo ou alguém externo como provedor dessa felicidade.

 

Mas o brasileiro não se enxerga com positividade?

Quando é perguntado sobre o que é bom no país, ele se refere à natureza – praias, clima, mulheres… ou seja, a idéia é que, o que temos de positivo não foi construído, mas dado. Quando a pergunta é o que pode mudar o país, aparece uma contradição: a crença na educação. Quer dizer, o que temos de positivo não é construído. Já o necessário para mudar requer esforço pessoal,mas não é valorizado. Isso leva as pessoas a buscarem as alternativas mais cômodas. E, claro, atrapalha a felicidade.

 

Então o brasileiro não é feliz?

Aqui, e nas culturas latinas, é comum confundir alegria com felicidade. São coisas diferentes. A alegria é o estado emocional- afetivo de uma satisfação momentânea, como a festa de casamento ou comprar o carro dos sonhos.

 

E felicidade?

É um estado no qual você se sente de bem consigo mesmo e realizado com o que tem. É comum pensar que uma pessoa feliz não tem sofrimento,mas não é verdade. A diferença está em funcionar positivamente e entender que problemas são temporários e superáveis.

 

Qual a relação de felicidade com qualidade de vida?

Por vivermos numa sociedade consumista, há a fantasia de que o consumo traz felicidade. E aí quando se fala em qualidade de vida- e na pessoa ter lazer, ter uma alimentação saudável, se exercitar, fazer todos os check-ups é comum associar qualidade a um certo padrão socioeconômico.E, riqueza à felicidade. Mas todas as pesquisas mostram que não existe relação direta entre riqueza e felicidade.

 

Mas a qualidade de vida pode variar com a riqueza?

Sim, ela é variável. Para uma pessoa, pode significar pagar o melhor restaurante da cidade.Para outra,subir a laje e improvisar uma churrasqueira. A qualidade de vida varia em função das suas expectativas de vida. A questão é: se eu me imponho tarefas que me sobrecarregam, vou romper com a qualidade de vida. E sem qualidade, a felicidade fica difícil.

 

Por que é tão difícil sair do discurso e incorporar qualidade no dia a dia?

Por causa do imediatismo, tendemos a associar satisfação a consumo. Então, se não estou bem, é porque falta algo que pode ser consumido e que me traz uma satisfação temporária , mas imediata . Adotar um padrão assim demonstra profunda imaturidade psicológica e a capacidade de postergar a satisfação. Ou seja, de entender que o prazer vem depois de certo esforço. E a qualidade de vida depende disso.

 

A falta de tempo é uma justificativa para essa imaturidade?

Sim, dar desculpas por sua falta de tempo passa a idéia de uma pessoa com a agenda cheia de muitos compromissos. E alguém com esse perfil na nossa sociedade é valorizado. Pega bem dizer “eu não tenho tempo”. É uma desculpa padrão, mas na verdade tempo é uma questão de prioridade.

 

E é realmente possível se dedicar com qualidade a todas as áreas da vida?

Sim. Acontece que por conta dessa percepção imediatista, muitos não estão dispostos a fazer um compromisso consigo mesmo pela felicidade. Por exemplo, quem está infeliz no casamento, se parar e avaliar o que está errado, percebe que precisa mudar alguns aspectos. E que dá trabalho, leva tempo. Mas a maioria não tem maturidade para se comprometer, investir a longo prazo e busca uma saída imediata. Pode ser uma amante, uma cirurgia plástica, o trabalho…

 

Mas investir no casamento aumenta a chance de ser feliz?

Muito. Todas as pesquisas de felicidade comprovam isso. Numa relação estável em que haja cumplicidade, companheirismo, afinidade e intimidade, a pessoa se sente livre para se expressar integralmente. E tem a certeza de que será amada independente de quem seja. Isso é fundamental para a felicidade.

 

Você atende principalmente a pessoas na meia idade. Nessa faixa etária, a busca pela felicidade é mais urgente?

É. Jung traz a idéia que, a partir dos 35 anos, vivenciamos um processo psicológico que seria o ápice do desenvolvimento humano. É a metanóia ou “crise da meia idade”, quando a pessoa faz uma avaliação de tudo que viveu e passa a se perguntar se valeu a pena. Isso pode gerar um conflito intenso. E, junto das marcas do tempo no corpo, mostra que a vida tem um prazo. É um momento crucial, hora de nos realizarmos como seres humanos.

 

Como uma segunda chance?

Sim, o momento de resgatar quem é você, o que quer, o que busca. E não o que o país ou a igreja ou a sociedade determinaram. A decisão implica em rupturas e perdas e por isso gera uma crise. Por isso nem todos escolhem o caminho da felicidade, porque o caminho da felicidade é o de ser você mesmo, mas isso tem um preço.

 

Hoje, ao mesmo tempo em que se buscam avanços para o futuro, fala-se em resgatar valores simples. Como explicar essa contradição?

Mesmo com a desigualdade gerada pelo capitalismo, nunca se teve tanto acesso a tantas coisas como hoje. Saúde, moradia férias, bens de consumo. Ao mesmo tempo, nunca os índices de felicidade foram tão mornos. Para se ter uma idéia, pesquisas dos Estados Unidos e da Grã-Bretanha mostraram que, nesses países, hoje se consome cinco vezes mais, mas o índice de felicidade está estagnado, desde a década de 50.

 

Por quê?

Com tantas promessas da tecnologia e da ciência, por um momento acreditamos que conseguir controlar o corpo, as doenças, o envelhecimento, morar em casas superconfortáveis e dirigir carros velozes nos tornaria felizes. Mas pensar assim é focar na nossa porção animal, preocupada com a sobrevivência da espécie.

 

E a outra porção?

O ser humano tem um lado que anseia pela divindade e por transcender a condição animal de trabalhar-reproduzir-sobreviver. Ele quer enlevo, satisfação, leveza,o que não é contemplado pela ciência, porque o que satisfaz são coisas muito simples. Como uma flor, o pôr-do-sol, aquele sentimento de que a vida pode ser mágica em alguns momentos. É a beleza da vida, a essência. A sensação de que a vida é mais que apenas sobreviver. Isso é dado pelas coisas simples da vida.

 

Posso dizer que elas promovem a felicidade?

Sim, coisas simples como ter uma vida estável, amigos de verdade, tomar um banho de chuva. Ter prazer pela vida. Ter uma atividade que traz satisfação e a sensação de que você  faz algo por um mundo melhor. É acreditar em algo melhor que a vida cotidiana, por isso a espiritualidade é tão importante para a felicidade. São coisas simples que nos dão a sensação de que a vida pode ser leve, mesmo nos momentos mais difíceis.

 

Mas mesmo as coisas simples podem ser confundidas pelo consumismo?

Podem. Com a falta de sentido nas coisas materiais, a gente resgata lembranças felizes, por exemplo, na casa da avó tomando leite com café quentinho, na caneca de esmalte, enquanto está chovendo. Muitas pessoas tentam recuperar isso comprando canequinhas, porque devido a valores consumistas, a gente de novo acredita que pode comprar a felicidade, adotando determinados comportamentos, como uma fórmula. Contudo a felicidade não está na canequinha de esmalte, mas na sensação de estar protegido, guardado ,amado. Porque no fim das contas, a principal fonte de felicidade e de infelicidade está nas relações que estabelecemos com as outras pessoas e com o mundo.

 

 

“Não existe felicidade se você não for capaz de reconhecer quem você é e o que é importante para si mesmo.”

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