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Archive for the ‘Psicofísica’ Category

bird-woman.jpgImagem: “Captured” de Catrin Welz-Stein

Autor: Ana Luísa Testa

RESUMO

Este artigo aborda questões relativas à dois grandes autores da psicologia moderna: Reich e Jung e traça paralelos não só em suas teorias, assim como em suas percepções sobre vida, ciência e cultura. Discute e crítica posições empregadas pelo paradigma mecanicista de ciência e aponta como Reich e Jung – homens com uma visão além de seu tempo – conseguiram transpor os valores científicos de sua época e adotaram uma visão mais integral de homem em suas práticas e teorias, reconhecendo nos outros em si o que há de irracional e obscuro, aquilo que aprendemos a negar e não conseguimos enxergar – a Sombra e nossos corpos.

Palavras-chave: Jung, Psicologia Corporal, Reich,

ABSTRACT

This article discusses issues about two of the main authors of psychology: Reich and Jung, and draw some parallels into their theories, their perceptions about life, science and culture. This article also criticizes the mechanicist model of science and shows how Reich and Jung were able to skip the scientific paradigm of their time and concept a holistc vision about life and human nature in their practices and theories, recognizing in human beings what’s irrational and obscure, what we learn to deny and what we are not able to see – the Shadow and our bodies.

Keywords: Body Psychology, Jung, Reich.

Oscilei em minha decisão sobre comparar partes da teoria de Reich e Jung muitas vezes. Seriam as semelhanças fortes o suficiente para justificar um artigo? E o que fazer quanto às diferenças? Essas diferenças teóricas e técnicas poderiam se complementar de alguma forma? Quem apresenta a melhor proposta de trabalho: Reich ou Jung? Esta última pergunta foi a mais simples de se responder, pois em psicologia não existe certo e errado; as escolhas teóricas são baseadas na personalidade, visão de mundo, história de vida e grau de identificação de cada pessoa com as mais diversas teorias. Muitas correntes teóricas são eficientes, desde que bem aplicadas e compreendidas. É como Sannino (1992) expõe, fazendo referência aos chineses – A palavra certa na boca do homem errado produz resultados errados. A palavra errada na boca do homem certo produz resultados certos. Em psicologia, a eficiência pessoal e técnica do terapeuta são elementos de maior importância.

Seguindo o desenvolvimento de minhas perguntas, quando penso nas diferenças entre os dois, vejo que elas não se restringem apenas à teoria – já que Reich e Jung foram homens muito diferentes. O primeiro era mais extrovertido, concreto, bastante apegado à seriedade, sem raízes – Reich era um cidadão do mundo – e com pouco senso de humor. O segundo, um tipo introvertido, predominantemente pensador, mais recluso, mais humilde em suas convicções e profundamente enraizado na Suíça. (CONGER, 1993). De fato as diferenças são enormes, mas e quanto às semelhanças?

Ambos foram filhos da psicanálise e amigos próximos de Freud. Reich foi o membro mais novo a ser aceito na Sociedade Psicanalítica, e Freud era como um pai para ele. O livro “Psicopatologia e Sociologia da Vida Sexual”, traduzido no Brasil como “A Função do Orgasmo” foi um presente de Reich para Freud, em 1926, por conta de seu septuagésimo aniversário, mas Freud o rejeitou, e por fim acabaram rompendo por divergências não só teóricas, mas também pessoais. Com Jung a situação não foi muito diferente. Freud acreditava que Jung seria seu sucessor na Sociedade Psicanalítica, mas as divergências teóricas foram profundas, já que Jung considerava a redução nas interpretações sexuais algo superficial, e buscava em sua teoria os símbolos ocultos do inconsciente, e por fim acabaram rompendo no ano de 1913. (CONGER, 1993)

Após a ruptura com Freud, Reich e Jung começaram a desenvolver suas próprias teorias e métodos de trabalho psicoterapêutico. Dedicaram-se à psicologia profunda e aos fundamentos da vida de forma brilhante – Reich estudando e trabalhando com a energia e o corpo e Jung com imagens e símbolos do inconsciente.

Outra semelhança é que para os dois autores, corpo e mente são aspectos diferentes de um mesmo organismo. (CONGER, 1993). Hoje, através de um novo paradigma de ciência que vem abrindo caminhos pela física quântica, sabemos que essa visão de homem não poderia ser mais apropriada. Energia e matéria são aspectos de uma mesma unidade. A natureza do elétron se comporta ora como onda, ora como partícula. Muitos físicos, atualmente, aceitam que a matéria esteja impregnada de psiquismo, (SILVEIRA, 2000) e as neurociências apontam cada vez mais as bases materiais de nosso psiquismo, o que não significa a emergência de um reducionismo das ciências psicológicas às neurofisiológicas, mas sim um complemento, uma visão mais complexa e interdisciplinar.

Conforme diz Silveira (2000, p. 164): “Se o psicólogo, nas suas investigações através das camadas mais profundas da psique, encontra a matéria, por sua vez o físico, nas suas pesquisas mais finas sobre a matéria, encontra a psique”. Neste sentido, matéria e psique podem ser consideradas um mesmo fenômeno, o primeiro observado pelo exterior, e o segundo do interior. (VON FRANZ apud SILVEIRA, 2000)

Seguindo esta linha de raciocínio, acredito que Reich e Jung conseguiram se distanciar do paradigma científico predominante da época – o mecanicista, muito bem sintetizado pela máxima de René Descartes – “Penso, logo existo” – que restringe o homem à um ser racional, previsível e fundamentalmente mecânico. (CAPRA, 1995) O homem se identificou com sua parte racional, e neste modelo de ciência, não teve instrumentos para olhar e compreender o todo. É por esta razão que intitulei Reich e Jung como homens além de seu tempo, mostrando alguns prejuízos que uma cisão entre racionalidade e irracionalidade no homem podem acarretar.

Os dois autores conseguiram esquivar-se do padrão mecanicista de ciência cada um à seu modo: Reich de uma forma que ele julgava concreta (científica) e palpável, e Jung por suas observações e classificações sistemáticas de todo material que lhe aparecia, seja por um processo de auto análise, na clínica ou pelo estudo dos mitos. Ao criticar o modelo vigente, em “O Éter, Deus e o Diabo” (2003) Reich questiona por qual razão a ciência não abraçou o estudo do processo vital, e argumentou que todo paradigma científico adotado é sempre o reflexo dos homens de sua época. Podemos dizer então que o homem mecanicista, materialista, que se enxerga tal como uma máquina é incapaz de incluir em sua pesquisa aspectos que ele próprio não enxerga – sua humanidade total.

O físico mecanicista típico pensa de acordo com os princípios da construção da máquina, a quem serve em primeiro lugar. Uma máquina deve ser perfeita. Portanto, o pensamento e a ação do físico devem ser perfeitos. O perfeccionismo é uma característica essencial do pensamento mecanicista. Não permite erros. Incertezas e situações em fluxo são indesejáveis. (REICH, 2003, pág. 89)

O cientista moderno trabalha com modelos artificiais, altamente controlados em laboratório, já que erros e desvios são considerados inoportunos. E desta forma ele se opõe à realidade, pois a natureza opera de forma imprevisível e altamente complexa. Além disso, o cientista omite em seus resultados possíveis erros, lacunas e contradições e expõe apenas o resultado final, já lapidado. Esta é mais uma atitude que ilustra como a necessidade de perfeição do cientista pode atrapalhar a compreensão dos fenômenos. (REICH, 2003)

Jung, assim como Reich, também faz a sua critica à ciência, ao dizer que ela não consegue trabalhar com o que o homem é – sua essência – e que a vida humana pode ser mais bem expressa através dos mitos. O mito expressa a vida com mais exatidão do que a ciência, que falha por trabalhar com noções médias e demasiadamente genéricas para dar conta da riqueza e complexidade de uma vida individual. (JUNG, 1984)

Com isto, eles não queriam dizer que a ciência deva ser descartada, mas sim complementada, e que seus objetos de estudo possam ser visto a partir de uma visão mais complexa, menos fragmentada e menos desconectada.

Como Reich afirmou, o paradigma empregado em determinada época é o reflexo dos homens que o adotam e o validam, então poderíamos dizer que estes homens estão tão fragmentados e desconectados quanto seu modelo de produção de conhecimento? Reich e Jung acreditam que sim, e que este homem é resultado de uma cultura que considera os aspectos irracionais do ser humano como algo inferior. Para eles, esta cisão é o retrato do homem não saudável, e a saúde deve ser reconquistada a partir da união de opostos. (CONGER, 1993) “Natureza e cultura, instinto e moralidade, sexualidade e realização tornaram-se incompatíveis, como resultado da cisão na estrutura humana.” (REICH, 1995, p. 17)

A unidade desses fenômenos será utópica enquanto o homem se negar a ver e levar em conta o seu corpo e toda a irracionalidade à ele pertinente. Keleman (1999), afirma que tal cisão nos faz perder contato com nossa imagem interior, nosso self. O contato é perdido porque aprendemos em nosso meio externo como devemos ser e como devemos nos comportar, e tentamos corporificar essas imagens de fora para dentro. A fim de sermos aceitos, nos afastamos de nossa capacidade de expansão, de contato e de autenticidade em relação ao nosso ser. Vivemos um personagem que acreditamos ser a representação mais fidedigna de nós mesmos, sem nos darmos conta de que forma ele nos consome e reprime nossos sentimentos mais espontâneos, nossa fluidez natural, nos deixando temerosos e destrutivos – indivíduos encouraçados.

Para Reich, a couraça é desenvolvida pela imposição social de controle dos impulsos e emoções. Elas são corporificadas para que o indivíduo se adapte às exigências sociais através da manipulação de seu sistema vegetativo, como por exemplo, prender a respiração (bloqueio do diafragma) a fim de suprimir fortes emoções. As couraças são identificáveis no corpo através de contrações crônicas em grupos musculares funcionalmente associados.  Estamos inconscientes de nossas couraças, de nossa rigidez somática, e do que elas representam. Nossas couraças são as estruturas capazes de manter a cisão no ser humano. (REICH, 2004)

Se para Reich cultura e sociedade são responsáveis pela cisão e pela formação das couraças, para Jung elas são responsáveis pela cisão e pela constituição da sombra.

Da mesma forma que estamos inconscientes de nossas couraças, também estamos inconscientes de nossa sombra. A sombra, para Jung, abrange os lados opostos inaceitáveis pela sociedade – e por fim por nós mesmos – que não conseguimos acoplar ao nosso Ego. É o nosso lado obscuro. (VON FRANZ, apud CONGER, 1993)

Poderíamos então dizer que o conceito de corpo encouraçado de Reich assemelha-se ao conceito de sombra de Jung, na medida em que ambos operam na manutenção da cisão humana entre o par de opostos racional x irracional. Tanto o corpo quanto a sombra contém a história de como o surgimento espontâneo da energia vital (e de nosso self) é rejeitado.

A vitória de uma vida super racionalizada se dá à custa de uma vitalidade mais primitiva e natural. Para quem pode ler o corpo, ele guarda o arquivo de nosso lado rejeitado, revelando o que não ousamos falar, expressando nossos temores passados e presentes. O corpo como sombra é predominantemente, o corpo como caráter, o corpo como energia contida que não é reconhecida, não é constatada, é ignorada e indisponível. (Conger, 1993. pág. 103)

Através desses conceitos descritos e relacionados – couraça e sombra – vemos que Reich e Jung preocuparam-se com a questão da cisão humana e a forma como ela nos afeta e prejudica. À medida que valorizamos a razão e abandonamos parte de nossa humanidade, os aspectos não-racionais permanecerão na sombra, num estado de inconsciência e indiferenciação, e não poderão ser usados na busca do prazer, do contato íntimo e do amor. Acredito que no trabalho psicoterapêutico o principal objetivo é auxiliar nosso clientes a unirem seus opostos, para que consigam amar não só superficialmente, mas também afetivamente, trabalhar não só com a mente, mas também com o corpo e conhecer não só aquilo que é racional, e sim o todo – e, parafraseando Reich, desta forma ajudá-los à governarem suas vidas.

Relacionar Reich e Jung não é tarefa fácil quando pensamos em encontrar muitos paralelos em suas teorias, mas bastante enriquecedora quando procuramos entender a grandeza de pensamento desses dois autores e cruzar conceitos semelhantes que exprimem a realidade humana. Acredito que estudiosos e seguidores de ambas as teorias podem se beneficiar ao beber de outras fontes teóricas. Este texto não esgota de forma alguma as possíveis relações entre os dois, e argumenta basicamente o reconhecimento de que Reich e Jung identificaram um certo círculo vicioso, de um homem desconectado que produz uma ciência fragmentada, e de uma ciência fragmentada que alimenta a desconexão de um homem racionalizado com a sua irracionalidade.

REFERÊNCIAS:

CAPRA, F. O Ponto de Mutação: A Ciência, a Sociedade e a Cultura emergente.25 ª ed. São Paulo: Cultrix, 2005.

CONGER, J. P. Jung e Reich: O corpo como sombra. São Paulo: Summus, 1993.

JUNG, C.G. Memórias Sonhos Reflexões. 6 ª ed. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1984.

KELEMAN, S. Mito e Corpo: Uma conversa com Joseph Campbell. São Paulo: Summus, 1999.

REICH, W. Análise do Caráter. 3 ª ed. São Paulo: Martins Fontes, 2004.

REICH W. A função do Orgasmo.  19 ª ed. São Paulo: Brasiliense. 1995.

REICH W. O Éter, Deus e o Diabo. São Paulo: Martins Fontes. 2003.

SANNINO, A. M. Métodos do Trabalho Corporal na Psicoterapia Jungiana: Teoria e Prática. São Paulo: Editora Moraes, 1992.

SILVEIRA, N. Jung: Vida e Obra. 17 ª ed. Rio de Janeiro: Editora Paz e Terra. 2000.

LINK: http://www.terapiaemdia.com.br/?p=104

 

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Imagem: Angelo Musgo

FONTE: KELEMAN, S. MITO & CORPO: UMA CONVERSA COM JOSEPH CAMPBELL. TRADUÇÃO: BOLANHO, D. M. EDITORA: SUMMUS EDITORIAL, 1999.

Existem lugares solitários onde podemos esconder nossas assombrações com aquela sensação de inviolabilidade que apenas os loucos conseguem construir. Esses lugares solitários costumam a nos seduzir com seu conforto e ao mesmo tempo nos prender como quando se cai em uma armadilha.

 Eu sei que você já deve ter estado nesses lugares solitários por muitos e muitos anos. Tem gente que nunca saiu de seus labirintos simplesmente porque nem consegue imaginar que existe algo fora desse espaço privado e confortável, onde nossa mente pode se isolar do mundo exterior como se fossemos apartados, cindidos, separados.

A ilusão do quarto privado nos diz que nossa mente está em nosso corpo, como alguém está sozinho em um quarto. Protegidos por grossas paredes e uma porta trancada com cadeado. É como se esse alguém, nesse lugar solitário e confortável, olhasse o mundo à distância pelas janelas desse quarto.

As paredes do quarto são nossos ossos, nossos músculos, nossa pele, nossas fronteiras. As janelas são nossos sentidos e o solitário dentro daquela sala vazia é cada um de nós.

Essa imagem, moderna, derivada de um conjunto bem articulado de teorias e concepções sobre o mundo e a alma humana, que derivam de Descartes, Locke, Leibniz e até Shakespeare, nos presenteou com a segurança de nossa solidão e com uma curiosa alucinação de onipotência mental.

O dualismo corpo-mente nos presenteou com a terra devastada. Com a impressão de que temos um corpo como quem tem uma moeda no bolso. O esquecimento do corpo é um tópico bem estudado na filosofia contemporânea. Nossa impressão de deslocamento, nossas sensação de exílio, a ideia de uma prisão física para uma alma imortal (que remonta as antigas seitas órficas e ao gnosticismo cristão dos primeiros séculos) nos ofertou um mote forte para o abandono do corpo, com a desconcertante impressão de que não estamos comprometidos com esse mundo e que o corpo, como parte da história biológica da terra, é apenas um invólucro provisório de nossa essência, uma capa protetora para um Eu intangível que se esconde por trás de suas paredes.

Joseph Campbell percebeu essa síndrome moderna e chamou o estado de nossa corporeidade contemporânea de terra devastada. Quando Stanley Keleman, coordenador do Centro para estudos energéticos em Berkeley, Califórnia, encontrou-se com Campbell e em sua parceria, entabulou uma longa conversa sobre corporeidade e mito, um caminho de escape da terra devasta começou a ser pensado.

A ideia é que os mitos são criados não em função da mente, mas sim em resposta a determinadas sugestões do corpo é o fio de Ariadne de nosso quarto privado. Como um sonho coletivo, o mito nos apresenta uma chave para compreendermos a relação com nossos corpos e para que possamos abandonar o estado de alienação em que nos encontramos diante do fluxo biológico da terra e reencontrar um lugar menos solitário para se estar nesse mundo.

O mito de Parsifal e do Graal é o mote do livro de Keleman em suas conversas com Campbell (Mito e corpo: uma conversa com Joseph Campbell – Summus Editorial). A conexão de nosso Self com nosso corpo ancestral, um corpo coletivo que remota a tempos onde a memória das vidas individuais e particulares não pode chegar é expressa através da narrativa mítica. O mais interessante das intuições de Campbell a partir da história de Parsifal e da busca pelo Graal é que nossas vidas privadas, a história de nossas individualidades e de nossas experiências pessoais não podem ser contadas sem o apelo a uma narrativa, a uma trama que une diversos personagens que se sucedem e que aparecem marcados em nossos corpos, na infância, na adolescência, na juventude, na vida adulta, na velhice…  Arthur Schopenhauer explicou isso uma vez dizendo: “o mundo é como um sonho sonhado por um único sonhador, no qual todos os personagens estão sonhando também. Eles estão sonhando suas vidas e tudo se coordena em uma harmonia misteriosa”.

Existem muitos personagens corporais em nossas histórias. Existe o velho sábio, o jovem guerreiro, a grande mãe. Existem nossos próprios personagens pessoais que misteriosamente se conectam aos personagens dos mitos que compõe nossa experiência coletiva. Macunaíma, Beowulf, Parsifal, Gilgamesh… não importam os nomes, suas narrativas se fundem com as nossas e suas histórias nos apresentam a chave para nos livrarmos do confortável e vazio lugar solitário de nossa própria mente. Para que possamos reaprender a ser nosso corpo e semear novamente nossa terra devastada com algum tipo novo e revigorante de esperança.

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Pintura: “The Journey – His Story” de Christopher Clark

AUTORA: RAMONA SCHOERPF

Jung diz que é muito importante o analista estar inteiro no processo analítico e que é na relação entre analista e analisando, quando esta se transforma numa relação entre eu—tu, que se pode chegar ao homem inteiro. E é nesse espaço do instante vivido que gostaria de refletir acerca da postura do analista e na enorme potencia curadora que pode existir quando este espaço é valorizado pelo analista.

Lendo o livro Psicologia e Alquimia, um ponto que achei muito interessante foram algumas colocações de Jung acerca do lugar do analista no processo analítico. Jung (2012 c) diz que é muito importante o analista estar inteiro no processo, ou seja, que é a partir dessa inteireza que o processo analítico pode verdadeiramente ocorrer.

““Arts totum requirit hominem!” (a Arte requer o homem inteiro!), exclama um velho alquimista. Justamente é este “homo totus” que se procura. O esforço médico, bem como a busca do paciente, perseguem esse “homem total” oculto e ainda não manifesto, que é também o homem mais amplo e futuro. No entanto, o caminho correto que leva a totalidade é infelizmente feito de desvios e extravios do destino. Trata-se da “longíssima via”, que não é uma reta, mas uma linha que serpenteia, unindo os opostos à maneira do caduceu, senda cujos meandros labirínticos não nos poupam do terror. Nessa via ocorrem experiências que se consideram de “difícil acesso”. Poderíamos dizer que elas são inacessíveis por serem dispendiosas, uma vez que exigem de nós o que mais tememos, isto é, a totalidade. Aliás, falamos constantemente sobre ela – sua teorização é interminável -, mas a evitamos na vida real. Prefere-se geralmente cultivar a “psicologia de compartimentos”, onde uma gaveta nada sabe do que a outra contém”. (Jung, 2012 c, pág. 12-13)

Trago tais reflexões porque acho muito importante tentarmos nos aproximar o máximo possível dessa relação que ocorre no aqui e no agora no consultório, para podermos a partir desse clareamento trabalhar o que ocorre na transferência e contratransferência.

Murray Stein (1992) fala de um modelo xamânico de cura na contratransferência, onde, citando Jung (1946*) diz que “seus comentários esparsos acerca da dinâmica da transferência/contratransferência na análise seguem em larga medida este modelo: os analistas se contaminam pelas doenças de seus analisandos e então promovem a cura curando-se a si mesmos e administrando o remédio que produzem em si ao analisando pela “influência”. Na análise, este processo xamânico de cura é, evidentemente, levado a cabo num plano psíquico, ao invés de físico. Conforme descrito por Jung, trata-se de uma interação muito complexa e sutil, que abarca a personalidade inteira de ambos os parceiros numa espécie de combinação alquímica de elementos psíquicos”. (Murray, 1992, pág. 73 – Cf. 1946*)

Em seu livro Psicologia e Alquimia, Jung (2012 c) escreve que “ninguém mexe com fogo ou veneno sem ser atingido em algum ponto vulnerável; assim, o verdadeiro médico não é aquele que fica ao lado, mas sim dentro do processo”.

Portanto, uma importante reflexão de Jung é sua fala sobre a relação que se estabelece durante a análise, assumindo que tal relação existe e que é nesta relação que temos a possibilidade de estarmos inteiros.

*JUNG, C.G. 1946. The psychology of the transference. In: Collected Works, 16:163-323. Princeton:Princeton University Press, 1966

“O trabalho analítico conduzirá mais cedo ou mais tarde ao confronto inevitável entre o eu e o tu, e o tu e o eu, muito além de qualquer pretexto humano; assim, pois, é provável e mesmo necessário que tanto paciente quanto o médico sintam o problema na própria pele. (…) Tanto para o médico como para o paciente, o “ficar pendente”, ou a dependência pode tornar-se algo indesejável, incompreensível e até mesmo insuportável, sem que isso signifique algo de negativo para a vida. Pelo contrário, pode até ser uma dependência (um “ficar pendente”) de caráter positivo: se por um lado parece um obstáculo aparentemente insuperável, por outro, representa uma situação única, exigindo um esforço máximo que compromete o homem total.” (Jung, 2012 c, pág. 18)

Se observarmos com atenção todo o trabalho de Jung (2012 c), veremos o quanto se debruçou sobre qualquer tema por ele elaborado, onde nos coloca a importância dessa inteireza dentro do processo analítico.

“E é preciso não esquecer que foi através da paciência indizível dos pesquisadores que a nova ciência conseguiu erigir um conhecimento mais profundo da natureza da alma; certos resultados terapêuticos inesperados foram obtidos graças à perseverança abnegada do médico”. (Jung, 2012 c, pág.18)

Jung se debruçava em cima da historia de seus pacientes e é essa intensidade, essa paixão, esse amor pela cura que faz com que eu me interesse e tenha desejo de me debruçar perante sua obra! Jung estava inteiro em todos os processos que estudava. Não se descobriria a cura para tantas doenças se não fossem a insistência de alguns poucos, que mesmo passando por inúmeras dificuldades, continuavam persistindo!

Rolando Toro (2005 b), criador do sistema Biodanza, nos fala que o “fracasso da psiquiatria e da psicologia é a dificuldade que possuem de amar o louco”.

Este “amar o louco” seria essa inteireza de estarmos entregues ao processo analítico. É preciso se importar com a pessoa que esta a nossa frente, é preciso se debruçar e entrar dentro desse sofrimento junto com o paciente para conseguir sentir o que se passa verdadeiramente. Precisamos ser verdadeiros xamas. Se não consigo me comover perante o sofrimento do outro, devo encaminha-lo para outra pessoa que o possa.

Muitas vezes é o que a pessoa me desperta que me diz como ela esta se movimentando pela vida. E o quanto mais conseguirmos estar atentos a esta relação com nosso analisando, mas fácil nos daremos conta do que estamos sentindo. E este sentir nos diz de nossa contratransferência, podendo ao mesmo tendo nos auxiliar no que estes sentimentos que despertam em mim no momento podem dizer do movimento do paciente.

A partir dai cabe ao analista verificar até que ponto é válido usar tais dados na relação transferencial.

Nathan Schwartz-Salant (1992) também fala sobre a importância da transferência em seu artigo, citando o ponto de vista de Jung sobre o papel do analista.

“(…) muitas vezes, recorre-se às reações do analista para busca de informações sobre o paciente, e o que este diz ou sonha é reconhecido como indicação de percepção precisa do analista e do estado do processo analítico”. (Schwartz, 1992, pág. 9)

Na biodança fala-se que não é necessário somente o contato, mas sim a conexão para podermos nos transformar. James A. Hall (1992) também fala disso em seu artigo Sonhos e transferência/contratransferência: o campo transformador, onde faz uma citação de Jung, onde este diz que ”(…) o verdadeiro médico não se coloca fora de seu trabalho, mas está sempre no meio dele.”

Algo que sempre me fascinou na Biodança foi a valorização do instante vivido, e o quanto Rolando Toro, se debruçou em cima desse conceito, que denominou vivência.

Para Rolando Toro (1968), vivência é “a experiência vivida com grande intensidade por um individuo em um lapso de tempo aqui – agora (‘gênese atual’) abarcando as funções emocionais, cenestésicas e orgânicas”. Para ele, vivência é o instante vivido no aqui e agora com total intensidade e entrega, é quando conseguimos realmente estar inteiros. E é nessa inteireza que existe a possibilidade da transformação acontecer.

Segundo Toro (2005 a), “a vivência constitui-se na experiência original de nós mesmos, da nossa identidade, anterior a qualquer elaboração simbólica ou racional”. É no ato de estarmos inteiros que nos transformamos, pois saímos de nosso modo racional para vivenciar o inédito.

Penso que o ato de ser analisado é também uma tentativa de chegarmos a este homem inteiro que nos fala Jung (2012 c). Entramos num processo profundo de analise interna para sabermos quais aspetos podem estar “trancando” ou bloqueando a livre expressão do meu ser. E à medida que vamos entrando nesse processo interno vemos o quanto levamos conosco de vivências passadas que nos impedem de usufruir o presente.

Então quando Jung (2012 c) nos diz que a arte requer o homem inteiro, esta nos colocando que tanto o analista como o analisando está na busca desse “homem total”, que anseia por se expressar livremente.

Este estar inteiro vai muito além de se reconhecer como um ser único e singular, porque exige também da pessoa um desfazer-se de tudo aquilo que já não serve mais na sua caminhada de individuação. Exige um desfazer-se de aspectos que não fazem mais parte de sua caminhada atual. E é nesse aspecto que surge um dos principais papéis do analista, auxiliar o analisando a se dar conta do já não serve mais na sua caminhada.

Rolando Toro (2005 a) fala que colocar-se no lugar do outro é um ato de lucidez. E esse ato de lucidez (sempre que possível) se dá através do analista dentro do processo analítico. Como na maioria das vezes o analisando busca analise por encontrar-se perdido em alguns caminhos que só consegue andar em círculos, é a lucidez do analista dentro do caminhar do analisando que ira lhe proporcionar a possibilidade de um novo olhar para a sua caminhada. Mas essa lucidez somente poderá ocorrer quando o analista se permitir entrar no processo.

O modo, portanto, pelo qual o analista se coloca nesse processo pode fazer toda a diferença. Quanto mais inteiro o analista estiver, ou seja, mais presente no momento da analise, mais fácil será para este vivenciar o que ocorre na transferência / contratransferência.

Segundo Góis (1997), participação é o oposto de opressão. O papel do analista, portanto, não deixa ser um papel de libertador de padrões internos que não servem mais para a caminhada atual de seu analisando.

A mudança é algo vivo, que nos modifica enquanto vamos vivendo. E o ato terapêutico não é algo a parte onde fazemos uma pausa para relatar apenas acontecimentos significativos de nossa vida, ele também faz parte do que estou vivendo e, portanto, à medida que vou me aprofundando e me entregando nesse processo, vai mostrando também como interajo com o outro e com o mundo. É um processo alquímico!

Só olhando…

Vem, olha no meu olho. Deixa pra lá o que você pensa que eu sou. O que você gostaria que eu fosse. Tenta ver, tenta sentir, te permite ver o que eu sou de verdade. Me dá um minuto da tua vida antes de me definir. E eu mudo todo o dia um pouco, nunca sou igual. E você só vai ver se tiver tempo de ficar me olhando. Tempo de estar comigo no aqui e agora. E se você fizer isso vamos sempre nos entender porque sempre vamos nos ver de verdade.

Vem, olha no meu olho.

 

BIBLIOGRAFIA

GÓIS, Cezar Wagner de Lima. 1997. Vivência em Biodanza in org Flores, Feliciano. Cadernos de Biodança. Porto Alegre.

JUNG, Carl Gustav. 2012 c. Psicologia e Alquimia / tradução e revisão literária Dora Mariana Ribeiro Ferreira da Silva; revisão Técnica, Jette Bonaventure – 6 ed. – Petrópolis, RJ : Vozes.

STEIN, Murray & SCHWARTZ-SALANT, org. 1992. Transferência – Contratransferência / tradução Rosas de Oliveira; revisão técnica Marcia Tabone – São Paulo, SP : Editora Cultrix Ltda.

TORO, Rolando. 2005 a. Biodanza. 2 ed. – São Paulo : Olavobras.

TORO, Rolando. 1968. A vivência. Curso de formação docente em Biodanza. Sistema Rolando Toro – Chile.

WARNKEN, Cristián. 2005 b. Entrevista a Rolando Toro em el programa “La Belleza del pensar”. Chile.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

FLORES, Feliciano Edi Vieira, org. 2006. Educação biocêntrica : aprendizagem visceral e integração afetiva. Porto Alegre : Evangraf.

JUNG, C.G. 2012. Ab-reação, análise dos sonhos e transferência. Tradução de Maria Luiza Appy; revisão técnica Jette Bonaventure. 8 ed. – Petrópolis, RJ.

JUNG, C.G. 2012. Freud e a psicanálise. Tradução de Lúcia Mathilde Endlich Orth; revisão técnica Jette Bonaventure – 6 ed. – Petrópolis, RJ : Vozes.

STEIN, Murray. 2006. Jung : O mapa da alma : uma introdução. Tradução Álvaro Cabral; revisão técnica Marcia Tabone – 5 ed. – São Paulo : Cultrix.

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PASSIONATE FLAMENCO

Imagem:  Passionate Flamenco

Por: Vera Cristina Marcellino*

ISSN 1516-0793

Pouco vivenciamos nossos corpos em movimento de uma forma consciente sobre os significados que cada gesto cotidiano pode carregar. Em linguagem psicanalítica diríamos um movimento carregado de valor, de sentido, algo que vem cheio de afetividade, que nos liga a um estado  mais profundo que a consciência cotidiana poderia observar. A surpresa é que o corpo, mesmo  em estado cotidiano não deixa nunca de estar carregado de sentido.

O movimento é a expressão particular de cada pessoa, revelando involuntariamente, suas mais íntimas características psíquicas.

Ele traz consigo, invariavelmente, aspectos conscientes e inconscientes, culturais, sociais, afetivos, simbólicos e assimila informações. O corpo, ao contrário do clichê, nome de livro, não só fala. O corpo também tem memória, escuta e elabora, pensa, simboliza, identifica sentidos, aquilo que de alguma forma tem valor para o indivíduo.

Considerando a experiência sensível do movimento uma oportunidade para a elaboração interna e dessa elaboração desenvolver o conhecimento das próprias habilidades, de seu repertório expressivo e, simultaneamente, integrar processos psíquicos ainda não conscientes, poderemos destacar que o corpo compreende à sua maneira como integrar e expressar esses processos. Ele tem uma linguagem própria que foge de códigos pré-estabelecidos ou racionais.

É raro encontrar uma abordagem terapêutica que integre os aspectos simbólicos que o corpo vivencia aos aspectos expressivos e integrativos desses símbolos através do movimento corporal.

Há técnicas terapêuticas que utilizam o corpo como recurso para psicoterapia; há terapias corporais, mas ainda é muito escasso no Brasil um trabalho que atinja simultaneamente essa unidade psicofísica através de processos artísticos, mais apropriadamente, processos da dança, ou do movimento expressivo, que no contexto da psicologia de Carl Gustav Jung poderemos chamar de Terapias Expressivas.

O princípio essencial da dança como técnica expressiva é a autonomia do indivíduo em investigar-se em movimento de tal forma que identifique a si mesmo, ou seja: descubra seu corpo e seus aspectos sensíveis e simbólicos.

No desenvolvimento desse trabalho identificamos que, articular o corpo, às emoções, às imagens simbólicas, ao mesmo tempo em que o movimento é buscado em sua forma mais crua, ele, o corpo, transborda elementos que se alimentam mutuamente: significados se desdobram em movimentos, movimentos resgatam significados.

Para Jung o processo criativo consiste (até onde nos é dado segui-lo) numa ativação mais profunda do inconsciente e numa elaboração e formalização na obra acabada. À camada mais profunda do inconsciente, nesse contexto, C. G. Jung refere-se aos árquétipos, marcas do inconsciente coletivo partilhadas pela humanidade e que resgata no indivíduo um senso de unidade, de ter um lugar no mundo. É paradoxal, mas emocionante. Para ele, a arte seria então, uma forma de tornar mais acessível e consciente esse processo de percepção de elementos não facilmente verbalizáveis e não cognitivos; forma de conhecimento mais complexo e total por ser vivencial.

Os conteúdos simbólicos podem, pela vivência poética da dança, ser requisitados para um diálogo sincero de aproximação, de acolhimento e de transformação. O resultado é: equilíbrio emocional, equilíbrio corporal.

Podemos identificar semelhanças entre os processos criativos e sensíveis e o conceito de processo de individuação que C. G. Jung propõe ao longo de sua obra. Uma vivência sensível permite acessar um universo mítico e arcaico no movimento que torna-se expressivo e integrativo em si mesmo. Dá sentido e integra no indivíduo aqueles aspectos sombrios escondidos às sete chaves, mas que, por ser vivencial, só a pessoa em processo descobre, não é necessário verbalizar, aqui, na maioria das vezes, as palavras são dispensáveis, mas a escuta faz parte do ambiente acolhedor que pretendemos oferecer. Ainda segundo Jung, nossa meta como seres humanos é a Individuação, um processo natural de amadurecimento.  É o caminho da plenitude, do encontro do Si-mesmo ou Self. Quando Jung fala de individuação, refere-se ao caminho que é orientado pelos símbolos arquetípicos (incluindo imagens mitológicas) que emergem espontaneamente, de acordo com a natureza do indivíduo.

Todos nós temos nossas identificações simbólicas com algum aspecto comum à humanidade, esses momentos de identificação não são mensuráveis. A arte possibilita esses momentos de encontro.

Ainda rara como terapia no Brasil, a dança está apresentando resultados surpreendentes na área de saúde mental, sua expansão está tardia, já que desde os primórdios da humanidade é através do movimento (corpo expressivo) que o ser humano percebe, identifica, explora e relaciona-se com o mundo, com o cosmos, com o outro e consigo mesmo.

*Vera Cristina Marcellino, Mestre em Artes pela Unicamp, Bacharel e Licenciada em Dança pela Unicamp. Facilitadora de recursos expressivos em arte-terapia (dança. Aborda e pesquisa a articulação e diálogo entre performance-art,  somma psíquico e psicologia analítica.

 LINK: www.symbolon.com.br/artigos/A_danca_e_a_psicologia_junguiana.doc

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Por : Bárbara Gehrke Rohde, Psicóloga e Arteterapeuta – CRP 07/15404

Primeiramente vamos pensar na arte como forma de expressão do ser humano. Poderíamos supor que o homem das cavernas já utilizava a arte como meio de catarse, uma forma de colocar pra fora seus sentimentos e emoções. E muitas foram às manifestações de dor, angústias, luta, morte, vitórias e alegrias representadas nas paredes das cavernas (pinturas rupestres), o que nos faz pensar em projeções do inconsciente representadas por imagens e símbolos. “A arte é quase tão antiga quanto o homem” (Fischer 1971, p. 21).

As artes em geral têm o poder de alcançar emoções profundas, como refere Brown (2000), elas podem mudar a maneira como você se sente em relação ao mundo e a si mesmo. A arteterapia consegue examinar a forma como você olha para si mesmo e para o mundo. Seja trabalhando com argila, palavras ou teclas de um piano, um artista constrói um mundo de símbolos que libera emoções e idéias. Todos nós temos símbolos que representam nossos pensamentos e sentimentos.

Pessoalmente, considero a arteterapia uma “ferramenta a mais” para meu trabalho com psicoterapia. Um processo terapêutico de utilização da arte, que incluo o relaxamento, meditação, pintura, modelagem, desenho, costura, dança, teatro, marionetes, enfim, toda representação artística. Posso utilizá-la em psicoterapia individual, de grupo, com diferentes idades e tipos psicológicos, facilitando o entendimento do sujeito desde a anamnese até o tratamento psíquico em si. É utilizada em escolas, organizações e na área clínica (hospitais, consultórios, instituições psiquiátricas, etc). E também por profissionais da área da saúde, educação e artes.

Trabalho com a arteterapia de abordagem Junguiana, sobre esta, aponta Philippini (2000), que Jung, em sua obra, descreveu amplamente como, nas culturas mais diversas, etapas do processo de individuação eram codificadas em símbolos com temáticas similares e estas representações do inconsciente coletivo repetidas em mitos, contos, tradições religiosas, tratados alquímicos e ritos de passagem de locais geograficamente distantes. Estas imagens recorrentes em toda a humanidade reaparecem em sonhos, desenhos, pinturas, esculturas e nos símbolos produzidos através da imaginação ativa e nas técnicas de visualização e meditação.

Psicologia e Arte: “Apesar de sua incomensurabilidade existe uma estreita conexão entre esses dois campos que pede uma análise direta. Essa relação baseia-se no fato de a arte, em sua manifestação, ser uma atividade psicológica e, como tal, pode e deve ser submetida a considerações de cunho psicológico; pois, sob este aspecto, ela, como toda atividade humana oriunda de causas psicológicas, é objeto da psicologia” (Jung, 1971, p.54).

Conforme Philippini (2000), a arteterapia resgata a promoção, a prevenção e a expansão da saúde. A arteterapia auxilia a resgatar desbloquear e fortalecer potenciais criativos, através de formas de expressão diversas, ademais facilita que cada um encontre, comunique e expanda a seu próprio caminho criativo e singular, favorecendo a expressão, a revelação e o reconhecimento do mundo interno e inconsciente. Destaca ainda, que em arteterapia com abordagem Junguiana, o caminho será fornecer suportes materiais adequados para que a energia psíquica plasme símbolos em criações diversas. Estas produções simbólicas retratam múltiplos estágios da psique, ativando e realizando a comunicação entre inconsciente e consciente. Este processo colabora para a compreensão e resolução de estados afetivos conflitivos, favorecendo a estruturação e expansão da personalidade através do processo criativo.

E Osório (in Valladares, 2003) salienta que a arteterapia é uma prática terapêutica que trabalha com a intersecção de vários saberes, como educação, saúde e ciência, buscando resgatar a dimensão integral do homem. A arte se propõe a algo pessoal e único, e expressa a linguagem do inconsciente.

Segundo Valladares (2003), a arteterapia na teoria Junguiana, propicia o fornecimento de materiais expressivos diversos e adequados para a criação de símbolos presentes no universo imagético singular de cada cliente, universo que se traduz em produções simbólicas que retratam estruturas psíquicas internas do inconsciente pessoal e coletivo. A arteterapia facilita a entrada no psiquismo humano por infinitas possibilidades da arte e através da linha Junguiana o surgimento dos símbolos abre caminho para o trabalho do arteterapeuta.

E finalmente é importante lembrar que somente psicólogos ou psiquiatras com formação em psicoterapia poderão utilizar a arteterapia na psicoterapia, sobre isto, Païn (1996), sublinha que a arte em psicoterapia é realizada, sobretudo, por profissionais específicos da psicologia. Freqüentemente, neste processo, considera-se a atividade plástica secundária, pois o efeito terapêutico sobrevém somente das trocas verbais em torno do conteúdo da obra. Utiliza-se a expressão plástica, neste caso, como meio de atender a comunicação verbal ou como a única maneira de estabelecer uma comunicação, caso em que a representação simbólica é ignorada.

Não precisamos ser artistas ou conhecer as técnicas das artes para fazer arteterapia, basta ter motivação para o autoconhecimento.

REFERÊNCIAS:

Brown, D. (2000). Arte Terapia: fundamentos. São Paulo: Vitória Régia.

Fischer, E. (1971). A necessidade da arte. (3ª ed.) Rio de Janeiro: Zahar Editores.

Jung, C. G. (1971). O espírito na arte e na ciência. (3ª ed.) Petrópolis: Vozes.

Païn, S. e Jarreau, G. (1996). Teoria e técnica da arte-terapia: a compreensão do sujeito. Porto Alegre: Artes Médicas.

Philippini, A. (2000). Cartografias da coragem: Rotas em Arte Terapia. Rio de Janeiro: Pomar.

Valladares, A.C.A. (2003). Arteterapia com crianças hospitalizadas. Dissertação de Mestrado não publicada, Universidade de São Paulo, São Paulo, SP, Brasil.

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Por Angelita Scardua

Psicologia do Design de Interiores é um ramo recente da Psicologia Ambiental. Baseia-se em resultados de pesquisas científicas e em experimentação. O fundamento essencial dessa área é o amplo universo de investigação neurocientífica das emoções humanas. Dito de outra maneira, ocupa-se de entender como os seres humanos reagem, no nível emocional e cognitivo, à forma com que os espaços interiores – residenciais e comerciais, individuais e coletivos – são organizados. A partir disso, a Psicologia do Design de interiores visa contribuir para que os lares e estabelecimentos comerciais sejam espaços promotores de bem-estar e qualidade de vida. Não se pode confundir a Psicologia do Design de interiores com a Ergonomia. Enquanto a Ergonomia volta-se para a criação de ambientes funcionais, a Psicologia do Design de interiores tem a árdua tarefa de tentar criar ambientes mais felizes, espaços que priorizem as emoções e as vivências positivas.

Ainda, a Psicologia do Design de interiores também tem sido utilizada para auxiliar profissionais do mercado imobiliário na venda e alocação de imóveis, principalmente no que diz respeito à decoração das casas a serem negociadas. No canal de TV à cabo A&E há um reality show, Sell This House (Casa à Venda), no qual o designer Roger Hazard utiliza os princípios da Psicologia do Design de interiores para ajudar pessoas a venderem seus imóveis. Similarmente, os mesmos conhecimentos têm sido utilizados por lojas que trabalham com artigos de decoração para promover uma melhor adequação dos produtos ao perfil e às necessidades e expectativas do cliente.

A Psicologia do Design de interiores foi o primeiro passo no sentido de utilizar os conhecimentos propiciados pela Psicologia Positiva na Psicologia Ambiental. Ou seja, a primeira tentativa de promover felicidade a partir da interação homem-ambiente. Apesar de ter sido a primeira, essa vertente não é a única a ocupar-se de tornar meros moradores em habitantes mais felizes. Recentemente, surgiu nos EUA a onda do happy décor!

O happy décor, segue a enxurrada de propostas, em todos os âmbitos da cultura contemporânea, que prometem a felicidade num pacote bem arrumado. Da perfumaria à culinária, da literatura ao setor bancário, quase todas as formas de produção humana nesse início de século têm adotado o discurso da felicidade prêt-àporter. Tendo por resolução produzir felicidade com cores intensas e ambientes profusamente iluminados, o happy décor surge como a alternativa da hora para quem quer decorar a casa e, ao mesmo tempo, se sentir em dia com as as mais recentes tendências de comportamento e estilo de vida  contemporâneas…Afinal, só no ano de 2007, 100 instituições americanas ofereceram cursos sobre a felicidade.

Mas não é só de fast-self-h(elp)appy-décor que vive o mundo da arquitetura. Alguns estudos, bem mais sérios, na área tentam entender a relação entre arquitetura e felicidade. O filósofo Alain Botton, por exemplo, publicou um livro, em 2007, sobre o papel da arquitetura na promoção de felicidade. Em seu livro A arquitetura da Felicidade, o autor nos convida a abrir os olhos para essa curiosa relação, raramente percebida. Botton defende que o que buscamos numa obra de arquitetura não está tão longe do que procuramos num amigo. Ao construir uma casa ou decorar um cômodo, as pessoas querem mostrar quem são, lembrar de si próprias e ter sempre em mente como elas poderiam idealmente ser. O lar, portanto, não é um refúgio apenas físico, mas também psicológico, o guardião da identidade de seus habitantes.

Assim como Botton, outros estudiosos procuram levar a sério a investigação da relação entre felicidade e arquitetura. Dentre eles, há psicólogos sociais, experimentais, evolutivos e ambientais como Gary W. Evans, da Universidade Cornell, em Nova York, que realiza estudos profícuos na área. Num deles, Evans identificou que o bem-estar numa casa é, em grande parte, dependente da possibilidade que os moradores têm de fazer mudanças na casa. Para ele, essa autonomia decisória quanto à organização da casa cria um elo emocional entre o morador e o imóvel. Não é a toa que a as pesquisas sobre satisfação com a moradia apontam para o fato de que os proprietários costumam ser mais satisfeitos com seus lares do que os inquilinos. Evans também conseguiu demonstrar que determinadas mudanças nas características da casa podem melhorar a percepção subjetiva dos moradores e dar lugar a sentimentos positivos. Ele concluiu, por exemplo, que a falta de privacidade numa casa contribui para o estresse. A sensação de perda do espaço individual pode ser originada por elementos como paredes muito finas, janelas mal posicionadas e varanda muito aberta.

A necessidade de privacidade é um aspecto recorrente nos estudos sobre os efeitos do ambiente no bem-estar subjetivo das pessoas. Por exemplo, os psicólogos Oddvar Skjaeveland, da Universidade de Bergen, na Noruega, e Tommy Gärling, da Universidade de Gutemburgo, na Suécia, defendem que deve haver áreas de transição entre o espaço privado(a casa) e o público(a rua), para transmitir segurança e tranqüilidade. Seja como for, identificar os fatores que promovem bem-estar, sentimentos e emoções positivas, sensações agradáveis e satisfação com o lar tem sido a meta dos psicólogos envolvidos na formulação de uma arquitetura da felicidade. Com isso, o foco da casa passa a ser o indivíduo e não apenas conceitos abstratos de estética ou funcionalidade.

Como defende Botton, o autor do livro Arquitetura da Felicidade, esses dois aspectos não são independentes nem excludentes. Ou seja, para ele, as construções não deveriam ser desenhadas apenas para funcionar de tal ou tal modo, mas também para refletir um ideal de beleza e transmitir mensagens. Segundo o filósofo, a funcionalidades essencial dos prédios deve ser a psicológica. Um banheiro que não funciona direito incomoda tanto quanto um que não atenda à função estética e expressiva. Talvez, por isso, os psicólogos da arquitetura da felicidade afirmem que para que alguém seja feliz com sua casa não é preciso gastar rios de dinheiro. Respeitar as características e particularidades do morador já é um passo. O outro é respeitar as necessidades inerentes à nossa condição biológica. Deixar a luz natural adentrar a casa, por exemplo, não serve apenas para aquecer os ambientes e realçar as cores das paredes, tecidos e  móveis, mas também para ajudar o nosso organismo a regularizar os ciclos cotidianos dependentes de hormônios – como o ciclo vigília-sono – e isso, coincidentemente, melhora o nosso humor!

 

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Por Nara Trevizan


Neste artigo, trago uma proposta de pesquisa na interface entre a Arquitetura e a Psicologia dentro de uma abordagem reichiana, buscando obter diretrizes para aproximar a intervenção arquitetônica nos espaços residenciais às necessidades, desejos e traços de caráter de seus usuários.(…)

Esse assunto sempre me pareceu vasto e fascinante(…) já que todos nós habitamos “um lugar” e, porque nossa casa é um universo único, onde os significados tomam forma e são distribuídos obedecendo uma ordem que revela quem somos e como nos posicionamos nesse espaço que nos acolhe e protege.

O usuário quando se apropria de “seu lugar”, busca através de um conjunto de símbolos e signos, marcar este território imprimindo nele uma identidade própria. (…)

 Um método para auxiliar a identificar essa adequação cognitiva entre homem-ambiente pode ser a leitura reichiana do caráter da pessoa(…).

 (…)Segundo Reich (1995), caráter significa o modo de agir de uma pessoa. Inclui-se nesse modo de agir o tom de voz, postura, vestimenta, etc. Dessa forma, uma pessoa irá se relacionar com outras pessoas e objetos de acordo com os seus traços de caráter. O mesmo se diz a respeito de suas preferências na decoração de seus ambientes residenciais.

Caráter esquizóide
Têm como comportamento básico a esquiva e a racionalização. Geralmente, são pessoas frias, distantes, reservadas. Em relação às suas preferências pela decoração do ambiente onde vivem, percebem-se a busca por cores frias como o azul, lilás e branco com detalhes em cores puras ou ambientes monocromáticos. Quando houver o uso de estampas, percebe-se o gosto por desenhos geométricos e uma preferência por móveis em metal, ou madeira escura, pisos limpos e brilhantes, poucos móveis nos ambientes e iluminação sóbria, tudo isso, condizente com o ser traço de caráter, esquizóide. Uma residência com esse perfil é, geralmente, discreta e reservada, e poderá oscilar entre os estilos conservador e futurista passando pelo alternativo, desde que mantenha espaços bem compartimentados e definidos e com poucos móveis (estilo clean) para evitar muita “poluição” visual. É muito difícil ter muitos moradores nesta casa, no máximo, um casal com um ou dois filhos, onde sala de leitura e meditação são cómodos quase obrigatórios.

Caráter oral
São pessoas mais extrovertidas, amáveis e ótimas anfitriãs. Os moradores, cujo traço de caráter que predomina é o oral, preferem mais receber os amigos do que fazer uma visita. Sãs preferências por cores quentes para os detalhes decorativos como o ocre, laranja, bordo, estampas florais e fibras naturais deixam seus ambientes muito aconchegantes. Produzem ambientes que geralmente nos faz lembrar da infância, muito bem cuidados nos pequenos detalhes, mas que nem sempre, a ordem faz parte da rotina. É um local acolhedor, tranquilo e muito bonito em sua simplicidade, sendo a sala e cozinha, os locais mais movimentados da casa (se possível em espaços próximos ou integrados), com paredes em cores suaves e alegres, como o amarelo, bege, rosa.

Caráter obsessivo-compulsivo
São pessoas conservadoras e apegadas ao tradicional e com um gosto exacerbado pela ordem. Apresentam um gosto por uma casa organizada, prática e cheia de normas, onde tudo deve ser funcional e sóbrio, com uma decoração básica em móveis de madeira bem tradicionais, e cores sóbrias e neutras em todos os ambientes e uso do verde musgo, bordo ou azul nos detalhes da decoração onde a simetria é quase sempre valorizada. Num projeto arquitetônico, para essetipo de caráter, escritório, despensas, armários muito bem estudados em sua função e distribuição tem particular importância.

 Caráter masoquista
Têm como traço marcante em seu comportamento a ansiedade, sentimento de culpa e uma tendência ao desapego pelos bens materiais. Geralmente têm uma grande preocupação com o próximo. Não é difícil encontrar entre os moradores de uma casa alguém com esse perfil. Geralmente são profissionais da área médica, religiosa, educacional, social ou voluntário em alguma instituição. Apresentam preferência por ambientes bem despojados e integrados, muito colorido nos detalhes, com vasos de plantas e floreiras, cores claras e discretas, móveis de diversos estilos, fibras naturais que transmitem um aspecto muito acolhedor e amistoso. No projeto arquitetônico, o quarto de hóspedes e varandas fazem parte sem dúvida, da lista, se não de necessidades, pelo menos de desejos.

 Caráter fálico-narcisista
São pessoas alegres, agitadas, dinâmicas e cheias de movimento. São moradores que têm muito “jogo de cintura” para trabalhar com as mudanças constantes em suas vidas. São pessoas que não gostam de monotonia. Por este motivo, estão sempre trocando os móveis de lugar e fazendo reformas. Local para prática de esporte e malhacão é sempre bem vindo, assim como projetos arrojados e originais. Gostam de conforto e luxo, por isso trabalham muito para conseguir prosperar. Cuidam muito bem da casa, nunca a deixam deteriorada, bagunçada ou suja. São ótimos anfitriões e amigos fazendo que a sala de estar, de televisão e cozinha sejam os locais preferidos da casa. Tudo o que for relacionado a conforto e status será uma boa ideia nesse local, porque é o esperado passar uma vibração de sucesso, riqueza, solidez material, segurança e poder.

Caráter histérico
São pessoas alegres, falantes e inquietas com tendência a gostar de coisas diferentes, exóticas e chamativas como ambientes com espelhos, luzes, metais, brilho, cores fortes e vibrantes, texturas e materiais nobres. E por seus proprietários serem pessoas dinâmicas e inquietas, faz com que sempre estejam mudando algo na casa – pinturas, móveis ou pequenas reformas. No projeto arquitetônico, é importante prever espaços amplos ou multifuncionais, porque muitas festas e reuniões serão dadas nesta casa, fazendo que a sala de estar ou espaço social e banheiros sejam os locais mais valorizados da casa, assim como, armários ou locais especiais para guardar roupas, brinquedos , equipamentos e móveis componíveis e de fácil remanejamento.

Na Integra aqui!

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