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Archive for the ‘Psicanálise’ Category

bird-woman.jpgImagem: “Captured” de Catrin Welz-Stein

Autor: Ana Luísa Testa

RESUMO

Este artigo aborda questões relativas à dois grandes autores da psicologia moderna: Reich e Jung e traça paralelos não só em suas teorias, assim como em suas percepções sobre vida, ciência e cultura. Discute e crítica posições empregadas pelo paradigma mecanicista de ciência e aponta como Reich e Jung – homens com uma visão além de seu tempo – conseguiram transpor os valores científicos de sua época e adotaram uma visão mais integral de homem em suas práticas e teorias, reconhecendo nos outros em si o que há de irracional e obscuro, aquilo que aprendemos a negar e não conseguimos enxergar – a Sombra e nossos corpos.

Palavras-chave: Jung, Psicologia Corporal, Reich,

ABSTRACT

This article discusses issues about two of the main authors of psychology: Reich and Jung, and draw some parallels into their theories, their perceptions about life, science and culture. This article also criticizes the mechanicist model of science and shows how Reich and Jung were able to skip the scientific paradigm of their time and concept a holistc vision about life and human nature in their practices and theories, recognizing in human beings what’s irrational and obscure, what we learn to deny and what we are not able to see – the Shadow and our bodies.

Keywords: Body Psychology, Jung, Reich.

Oscilei em minha decisão sobre comparar partes da teoria de Reich e Jung muitas vezes. Seriam as semelhanças fortes o suficiente para justificar um artigo? E o que fazer quanto às diferenças? Essas diferenças teóricas e técnicas poderiam se complementar de alguma forma? Quem apresenta a melhor proposta de trabalho: Reich ou Jung? Esta última pergunta foi a mais simples de se responder, pois em psicologia não existe certo e errado; as escolhas teóricas são baseadas na personalidade, visão de mundo, história de vida e grau de identificação de cada pessoa com as mais diversas teorias. Muitas correntes teóricas são eficientes, desde que bem aplicadas e compreendidas. É como Sannino (1992) expõe, fazendo referência aos chineses – A palavra certa na boca do homem errado produz resultados errados. A palavra errada na boca do homem certo produz resultados certos. Em psicologia, a eficiência pessoal e técnica do terapeuta são elementos de maior importância.

Seguindo o desenvolvimento de minhas perguntas, quando penso nas diferenças entre os dois, vejo que elas não se restringem apenas à teoria – já que Reich e Jung foram homens muito diferentes. O primeiro era mais extrovertido, concreto, bastante apegado à seriedade, sem raízes – Reich era um cidadão do mundo – e com pouco senso de humor. O segundo, um tipo introvertido, predominantemente pensador, mais recluso, mais humilde em suas convicções e profundamente enraizado na Suíça. (CONGER, 1993). De fato as diferenças são enormes, mas e quanto às semelhanças?

Ambos foram filhos da psicanálise e amigos próximos de Freud. Reich foi o membro mais novo a ser aceito na Sociedade Psicanalítica, e Freud era como um pai para ele. O livro “Psicopatologia e Sociologia da Vida Sexual”, traduzido no Brasil como “A Função do Orgasmo” foi um presente de Reich para Freud, em 1926, por conta de seu septuagésimo aniversário, mas Freud o rejeitou, e por fim acabaram rompendo por divergências não só teóricas, mas também pessoais. Com Jung a situação não foi muito diferente. Freud acreditava que Jung seria seu sucessor na Sociedade Psicanalítica, mas as divergências teóricas foram profundas, já que Jung considerava a redução nas interpretações sexuais algo superficial, e buscava em sua teoria os símbolos ocultos do inconsciente, e por fim acabaram rompendo no ano de 1913. (CONGER, 1993)

Após a ruptura com Freud, Reich e Jung começaram a desenvolver suas próprias teorias e métodos de trabalho psicoterapêutico. Dedicaram-se à psicologia profunda e aos fundamentos da vida de forma brilhante – Reich estudando e trabalhando com a energia e o corpo e Jung com imagens e símbolos do inconsciente.

Outra semelhança é que para os dois autores, corpo e mente são aspectos diferentes de um mesmo organismo. (CONGER, 1993). Hoje, através de um novo paradigma de ciência que vem abrindo caminhos pela física quântica, sabemos que essa visão de homem não poderia ser mais apropriada. Energia e matéria são aspectos de uma mesma unidade. A natureza do elétron se comporta ora como onda, ora como partícula. Muitos físicos, atualmente, aceitam que a matéria esteja impregnada de psiquismo, (SILVEIRA, 2000) e as neurociências apontam cada vez mais as bases materiais de nosso psiquismo, o que não significa a emergência de um reducionismo das ciências psicológicas às neurofisiológicas, mas sim um complemento, uma visão mais complexa e interdisciplinar.

Conforme diz Silveira (2000, p. 164): “Se o psicólogo, nas suas investigações através das camadas mais profundas da psique, encontra a matéria, por sua vez o físico, nas suas pesquisas mais finas sobre a matéria, encontra a psique”. Neste sentido, matéria e psique podem ser consideradas um mesmo fenômeno, o primeiro observado pelo exterior, e o segundo do interior. (VON FRANZ apud SILVEIRA, 2000)

Seguindo esta linha de raciocínio, acredito que Reich e Jung conseguiram se distanciar do paradigma científico predominante da época – o mecanicista, muito bem sintetizado pela máxima de René Descartes – “Penso, logo existo” – que restringe o homem à um ser racional, previsível e fundamentalmente mecânico. (CAPRA, 1995) O homem se identificou com sua parte racional, e neste modelo de ciência, não teve instrumentos para olhar e compreender o todo. É por esta razão que intitulei Reich e Jung como homens além de seu tempo, mostrando alguns prejuízos que uma cisão entre racionalidade e irracionalidade no homem podem acarretar.

Os dois autores conseguiram esquivar-se do padrão mecanicista de ciência cada um à seu modo: Reich de uma forma que ele julgava concreta (científica) e palpável, e Jung por suas observações e classificações sistemáticas de todo material que lhe aparecia, seja por um processo de auto análise, na clínica ou pelo estudo dos mitos. Ao criticar o modelo vigente, em “O Éter, Deus e o Diabo” (2003) Reich questiona por qual razão a ciência não abraçou o estudo do processo vital, e argumentou que todo paradigma científico adotado é sempre o reflexo dos homens de sua época. Podemos dizer então que o homem mecanicista, materialista, que se enxerga tal como uma máquina é incapaz de incluir em sua pesquisa aspectos que ele próprio não enxerga – sua humanidade total.

O físico mecanicista típico pensa de acordo com os princípios da construção da máquina, a quem serve em primeiro lugar. Uma máquina deve ser perfeita. Portanto, o pensamento e a ação do físico devem ser perfeitos. O perfeccionismo é uma característica essencial do pensamento mecanicista. Não permite erros. Incertezas e situações em fluxo são indesejáveis. (REICH, 2003, pág. 89)

O cientista moderno trabalha com modelos artificiais, altamente controlados em laboratório, já que erros e desvios são considerados inoportunos. E desta forma ele se opõe à realidade, pois a natureza opera de forma imprevisível e altamente complexa. Além disso, o cientista omite em seus resultados possíveis erros, lacunas e contradições e expõe apenas o resultado final, já lapidado. Esta é mais uma atitude que ilustra como a necessidade de perfeição do cientista pode atrapalhar a compreensão dos fenômenos. (REICH, 2003)

Jung, assim como Reich, também faz a sua critica à ciência, ao dizer que ela não consegue trabalhar com o que o homem é – sua essência – e que a vida humana pode ser mais bem expressa através dos mitos. O mito expressa a vida com mais exatidão do que a ciência, que falha por trabalhar com noções médias e demasiadamente genéricas para dar conta da riqueza e complexidade de uma vida individual. (JUNG, 1984)

Com isto, eles não queriam dizer que a ciência deva ser descartada, mas sim complementada, e que seus objetos de estudo possam ser visto a partir de uma visão mais complexa, menos fragmentada e menos desconectada.

Como Reich afirmou, o paradigma empregado em determinada época é o reflexo dos homens que o adotam e o validam, então poderíamos dizer que estes homens estão tão fragmentados e desconectados quanto seu modelo de produção de conhecimento? Reich e Jung acreditam que sim, e que este homem é resultado de uma cultura que considera os aspectos irracionais do ser humano como algo inferior. Para eles, esta cisão é o retrato do homem não saudável, e a saúde deve ser reconquistada a partir da união de opostos. (CONGER, 1993) “Natureza e cultura, instinto e moralidade, sexualidade e realização tornaram-se incompatíveis, como resultado da cisão na estrutura humana.” (REICH, 1995, p. 17)

A unidade desses fenômenos será utópica enquanto o homem se negar a ver e levar em conta o seu corpo e toda a irracionalidade à ele pertinente. Keleman (1999), afirma que tal cisão nos faz perder contato com nossa imagem interior, nosso self. O contato é perdido porque aprendemos em nosso meio externo como devemos ser e como devemos nos comportar, e tentamos corporificar essas imagens de fora para dentro. A fim de sermos aceitos, nos afastamos de nossa capacidade de expansão, de contato e de autenticidade em relação ao nosso ser. Vivemos um personagem que acreditamos ser a representação mais fidedigna de nós mesmos, sem nos darmos conta de que forma ele nos consome e reprime nossos sentimentos mais espontâneos, nossa fluidez natural, nos deixando temerosos e destrutivos – indivíduos encouraçados.

Para Reich, a couraça é desenvolvida pela imposição social de controle dos impulsos e emoções. Elas são corporificadas para que o indivíduo se adapte às exigências sociais através da manipulação de seu sistema vegetativo, como por exemplo, prender a respiração (bloqueio do diafragma) a fim de suprimir fortes emoções. As couraças são identificáveis no corpo através de contrações crônicas em grupos musculares funcionalmente associados.  Estamos inconscientes de nossas couraças, de nossa rigidez somática, e do que elas representam. Nossas couraças são as estruturas capazes de manter a cisão no ser humano. (REICH, 2004)

Se para Reich cultura e sociedade são responsáveis pela cisão e pela formação das couraças, para Jung elas são responsáveis pela cisão e pela constituição da sombra.

Da mesma forma que estamos inconscientes de nossas couraças, também estamos inconscientes de nossa sombra. A sombra, para Jung, abrange os lados opostos inaceitáveis pela sociedade – e por fim por nós mesmos – que não conseguimos acoplar ao nosso Ego. É o nosso lado obscuro. (VON FRANZ, apud CONGER, 1993)

Poderíamos então dizer que o conceito de corpo encouraçado de Reich assemelha-se ao conceito de sombra de Jung, na medida em que ambos operam na manutenção da cisão humana entre o par de opostos racional x irracional. Tanto o corpo quanto a sombra contém a história de como o surgimento espontâneo da energia vital (e de nosso self) é rejeitado.

A vitória de uma vida super racionalizada se dá à custa de uma vitalidade mais primitiva e natural. Para quem pode ler o corpo, ele guarda o arquivo de nosso lado rejeitado, revelando o que não ousamos falar, expressando nossos temores passados e presentes. O corpo como sombra é predominantemente, o corpo como caráter, o corpo como energia contida que não é reconhecida, não é constatada, é ignorada e indisponível. (Conger, 1993. pág. 103)

Através desses conceitos descritos e relacionados – couraça e sombra – vemos que Reich e Jung preocuparam-se com a questão da cisão humana e a forma como ela nos afeta e prejudica. À medida que valorizamos a razão e abandonamos parte de nossa humanidade, os aspectos não-racionais permanecerão na sombra, num estado de inconsciência e indiferenciação, e não poderão ser usados na busca do prazer, do contato íntimo e do amor. Acredito que no trabalho psicoterapêutico o principal objetivo é auxiliar nosso clientes a unirem seus opostos, para que consigam amar não só superficialmente, mas também afetivamente, trabalhar não só com a mente, mas também com o corpo e conhecer não só aquilo que é racional, e sim o todo – e, parafraseando Reich, desta forma ajudá-los à governarem suas vidas.

Relacionar Reich e Jung não é tarefa fácil quando pensamos em encontrar muitos paralelos em suas teorias, mas bastante enriquecedora quando procuramos entender a grandeza de pensamento desses dois autores e cruzar conceitos semelhantes que exprimem a realidade humana. Acredito que estudiosos e seguidores de ambas as teorias podem se beneficiar ao beber de outras fontes teóricas. Este texto não esgota de forma alguma as possíveis relações entre os dois, e argumenta basicamente o reconhecimento de que Reich e Jung identificaram um certo círculo vicioso, de um homem desconectado que produz uma ciência fragmentada, e de uma ciência fragmentada que alimenta a desconexão de um homem racionalizado com a sua irracionalidade.

REFERÊNCIAS:

CAPRA, F. O Ponto de Mutação: A Ciência, a Sociedade e a Cultura emergente.25 ª ed. São Paulo: Cultrix, 2005.

CONGER, J. P. Jung e Reich: O corpo como sombra. São Paulo: Summus, 1993.

JUNG, C.G. Memórias Sonhos Reflexões. 6 ª ed. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1984.

KELEMAN, S. Mito e Corpo: Uma conversa com Joseph Campbell. São Paulo: Summus, 1999.

REICH, W. Análise do Caráter. 3 ª ed. São Paulo: Martins Fontes, 2004.

REICH W. A função do Orgasmo.  19 ª ed. São Paulo: Brasiliense. 1995.

REICH W. O Éter, Deus e o Diabo. São Paulo: Martins Fontes. 2003.

SANNINO, A. M. Métodos do Trabalho Corporal na Psicoterapia Jungiana: Teoria e Prática. São Paulo: Editora Moraes, 1992.

SILVEIRA, N. Jung: Vida e Obra. 17 ª ed. Rio de Janeiro: Editora Paz e Terra. 2000.

LINK: http://www.terapiaemdia.com.br/?p=104

 

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Imagem: Nicoletta Ceccoli 

Autor: Juliana Corrêa

 Observando a biografia de escritores, pintores, poetas e artistas em geral, percebemos que um elo que os une é a criatividade. Alguns desses artistas tornam-se indivíduos criativos de um modo bastante específico, ao acessarem as camadas mais profundas da psique. Tal acesso às profundezas da alma também é comum à psicose e, de fato, muitos indivíduos criativos famosos apresentam sintomas neuróticos e psicóticos, em maior ou menor grau. Existe, assim, uma relação evidente entre a arte e a doença mental.

De acordo com a psicologia analítica, o artista é um indivíduo que possui determinada permeabilidade entre consciente-inconsciente. Embora outros indivíduos também apresentem tal permeabilidade, no artista os conteúdos gerados pelo inconsciente são trazidas à consciência através da arte. Jung faz distinção entre a arte produto da neurose, que segundo ele é permeada de conteúdos pessoais, e a arte cuja fonte está no inconsciente coletivo. Nos casos em que a arte é produto de uma neurose o artista busca inspiração em seu próprio inconsciente pessoal, porém essa fonte de inspiração pode se extinguir com a dissolução dos conflitos.

Com esse tipo de arte Jung foi bastante impiedoso, dizendo que deveria ser relegada ao “método purgativo freudiano” (SIC) sem remorso, e que “A neurose não cria arte. Ela é não criativa e inimiga da vida. Ela é o fracasso e a não-realização.” (JUNG: 2001, p. 337). Tal espécie de arte teria mais afinidade com os sintomas do que com os símbolos, e assim, pode ser totalmente reduzida à biografia do próprio autor. Embora detenha muitos méritos, muito da obra de Woody Allen, por exemplo, baseada em seus conflitos pessoais, poderia desvanecer caso tais conflitos fossem sanados. Contudo, a criação originária dos extratos mais profundos da psique não pode ser esgotada tão facilmente: “A resolução de qualquer repressão jamais poderá destruir o que é realmente criativo” (JUNG: 1981, §206).

Neste segundo tipo de arte, de conteúdo simbólico e sobretudo universal, Jung depositava maior interesse. O conteúdo da arte proveniente do inconsciente coletivo não tem sua origem nos sintomas ou numa repressão, pois jamais passou pela consciência, e suas imagens pertencem ao patrimônio comum da humanidade. E é exatamente por esse motivo, que essa espécie de obra de arte nos sensibiliza de forma tão arrebatadora, pois está repleta de significados e experiências comuns a todos.

A arte do inconsciente pessoal, por outro lado, geralmente não resiste, não é deixada à posteridade, principalmente diante da velocidade vertiginosa das informações na época atual. As artes fruto da neurose são sombras que passam e se vão; mas há aquilo que fica: o tempo conserva o que realmente possui valor. Não cultivamos a leitura de obras desconhecidas do passado, mas de clássicos dignos de aprofundado estudo, pois os símbolos que eles portam transcendem a sua época. Assim, podemos ser mais críticos com aqueles que atribuem seu insucesso à “falta de oportunidades” de um ambiente inoportuno. De fato, o meio de muitos criadores brilhantes como Van Gogh e Goya foi injustamente árido. Entretanto, tal fato muitas vezes tem servido de justificativa a uma igual falta de talento, ou até a um excesso de “talento” neurótico.

O homem verdadeiramente criativo não se beneficia da neurose, porém não pode se abster da criação, na medida em que o impulso criativo é mais forte do que ele. Conforme comenta Jung, não se trata, nesse caso, de um “talentozinho agradável” (SIC). Sua força criadora não pode ser reprimida, e poderá pressioná-lo de tal forma a restar pouca energia psíquica às demais atividades, algo que muitas vezes se torna um obstáculo em sua vida. Devido a isso, observamos algumas características comuns a esses artistas.

Muitas vezes o artista não consegue se adaptar às exigências do meio pois o inconsciente lhe subtrai a energia da consciência que seria utilizada a esse propósito. O estereótipo do artista incompreendido e de certa forma exilado da sociedade ilustra bem esse fato: muitas vezes esses indivíduos não conseguem se comunicar com os demais da mesma forma com que se comunicam com o próprio inconsciente. A adaptação ao meio exige certo controle da atenção consciente, algo que o imperativo dos arquétipos inconscientes ativados chega a suplantar, gerando uma enorme tensão e desconforto.

De um lado vemos uma força inconsciente que pressiona e exige expressão. De outro, as ânsias e exigências do homem comum, como o avanço na carreira, o sustento da família, etc. Podemos observar que alguns artistas optam pelo descaso em relação a essas últimas exigências, refugiando-se no ostracismo e, muitas vezes, acusando a própria sociedade de não lhes oferecer as devidas oportunidades. Sofrem por se verem de certa forma marginalizados por essa sociedade.

Tal tendência à inadaptação sofrida pelo indivíduo criativo é uma conseqüência do chamado “rebaixamento do nível mental”, que ocasiona a perda do interesse nas atividades conscientes e a descida aos níveis arcaicos da psique. O nível de consciência rebaixado também ocasiona a conhecida preponderância do amoral sobre o ético em alguns artistas, assim como uma infantilidade comumente vista com maus olhos pela comunidade em geral. Hoje em dia, é nas excentricidades de algumas pessoas famosas que as peculiaridades éticas e morais se manifestam de forma mais patente.

Talvez seja exatamente devido à conduta excêntrica, original ou extemporânea que a mente criativa seja capaz de exteriorizar aquilo que os demais não vêem. Enquanto todos voltam sua atenção às tarefas cotidianas mais burocráticas e enfadonhas, esses indivíduos estão literalmente imersos na psique: eles experimentam como uma realidade viva muito do que o homem em geral ignora. São os anseios, as imagens e experiências ignoradas pela maioria das pessoas comuns justamente o que desponta de forma irresistível e muitas vezes aflitiva na consciência do homem criativo, o qual muitas vezes surge como cura para o modo de vida unilateral da época em que vivemos: “Partindo da insatisfação do presente, a ânsia do artista recua até encontrar no inconsciente aquela imagem primordial adequada para compensar de modo mais efetivo a carência e unilateralidade do espírito da época.” (JUNG: 1991, §130).

Jung fala aqui da enantiodromia, a tendência de qualquer atitude ou estado a originar aquilo que seria o seu oposto. Segundo ele, toda tendência geral é necessariamente uma atitude unilateral. O homem comum é afetado pela tensão desses opostos de forma bem mais branda do que o homem criativo. Este, por estar em contato com o inconsciente de uma forma mais direta, tende a corrigir essa unilateralidade inconscientemente com sua obra. Dessa forma, a obra de arte, ao trazer à tona uma realidade inconsciente, tem a função social de orientar o espírito da época. Zarathustra surgiu com esse propósito na obra de Nietzsche, sob a forma de um salvador, ou sábio:

He (Zarathustra) is going to produce the enantiodromia, he is going to supply mankind with what is lacking, with that which they hate or fear or despise, with that which the wise ones have lost, their folly, and the poor ones the riches. In other words he is going to supply the compensation1. (JUNG: 1988, p.19)

É conhecida a idéia de que a extrema criatividade de alguns artistas os aproxima muito da loucura. Temos muitos exemplos de indivíduos criativos que manifestaram sintomas graves de doença mental, sendo Van Gogh e Nietzsche alguns dos mais ilustres. Tal proximidade entre a criatividade e a psicose se deve à influência exercida, em ambos os casos, pelo inconsciente coletivo, que é a fonte comum de imagens primordiais compartilhada na produção psicótica e nas expressões artísticas.

Jung percebeu, já no início de sua carreira, que a produção de alguns pacientes estava repleta de mitos e símbolos universais, isto é, que muitos desenhos e esculturas produzidos por esses pacientes representavam arquétipos com os quais eles jamais haviam entrado em contato conscientemente. Foi dessa forma que postulou o inconsciente coletivo, que diferentemente do inconsciente freudiano, não é um reservatório de memórias e experiências reprimidas pelo ego, mas um substrato que transcende nossas vivências pessoais. A obra de William Blake, por exemplo, dificilmente poderia ser resultado de sua experiência pessoal no mundo.

Por outro lado, foi apenas através da insanidade que alguns indivíduos produziram o que há de mais importante em suas obras. A inspiração de Sylvia Plath, famosa escritora americana, é interrompida quando ela finalmente encontra equilíbrio na figura de Ted Hughes, durante seu casamento. O contato com o inconsciente e, conseqüentemente, a produção criativa, foi retomado apenas após a separação, com o surgimento de um estado patológico deflagrado pela crise de seu casamento.

Alguns indivíduos são produtivos apenas enquanto o rebaixamento do nível mental se faz presente, não conseguindo manifestar sua criatividade quando existe um vínculo forte com a realidade. Seria arriscado dizer que tais indivíduos deveriam procurar aquilo que os vincula à realidade para manter a consciência. Entretanto, em sua autobiografia o ex-editor dos poemas de Sylvia Plath, Al Alvarez, acredita que alguns artistas pagam um preço alto em troca do mergulho no inconsciente:

I had always believed that genuine art was a risky business and artists experiment with new forms not in order to cause a sensation but because the old forms are no longer adequate for what they want to express. In other words, making it new in the way Sylvia did had almost nothing to do with technical experiment and almost everything to do with exploring her inner world – with going down into the cellars and confronting her demons.2 (ALVAREZ: 1999, p. 56)

Alguns escritores, entretanto, não necessitam abrir mão da consciência para expressar o inconsciente, isto é, eles exploram tal “mundo interior” de forma mais lúcida e não se vêem tão inundados pelo conteúdo simbólico arrebatador. Nesse sentido, é também o nível de consciência mantido quando se vivencia o inconsciente aquilo que separa a arte da doença mental. Ao contrário do que acredita Alvarez, a arte em si talvez não seja um negócio arriscado, pois surge como conseqüência de um comprometimento, e muitas vezes, pode ainda servir como uma função auto-organizadora da psique.

Um outro aspecto que pode intrigar considerando a linha tênue entre a arte e a doença mental é o fato de que as imagens universais produzidas na arte e na psicose podem representar os mesmos arquétipos. Além disso é natural questionarmo-nos qual seria a diferença entre a obra do artista e a produção da loucura pois muitas vezes, sobretudo na arte moderna, a produção do artista é distorcida à maneira fragmentada e caótica da produção esquizofrênica. Em primeiro lugar, no doente mental a produção não possui um objetivo consciente, é antes um sintoma involuntário de sua personalidade fragmentada. O artista, por sua vez, manifesta a tendência atual do inconsciente coletivo, uma vez que sua função, conforme mencionado, é a de solucionar a atitude unilateral da época. Ademais, a produção é vivenciada de forma diferente em ambos os casos:

A distorção do sentido e da beleza pela objetividade grotesca ou pela igualmente grotesca irrealidade é, no doente, uma manifestação conseqüente da destruição de sua personalidade. No artista, porém, é um propósito criativo. O artista moderno, longe de vivenciar e sofrer em sua criação artística a expressão da destruição de sua personalidade, encontra justamente na destrutibilidade a unidade de sua personalidade artística. (JUNG: 1991, §175)

Na arte e na doença mental o tratamento dado às imagens inconscientes tem uma aparente semelhança, que se manifesta na falta de sentimento e harmonia, na fragmentação e impulsos contraditórios, numa expressão esquizofrênica onde não há uma tentativa de comunicação:

Nada vem ao encontro de quem o contempla, tudo se afasta dele, até mesmo uma beleza ocasional aparece apenas como um imperdoável atraso de uma retirada. É o feio, o doentio, o grotesco, o incompreensível e o banal que está sendo procurado, não para esclarecer, mas para disfarçar, um disfarce porém, que não aproveita a quem está buscando, mas, qual névoa fria que procura esconderijo, paira, sem querer, sobre pantanais desabitados como um espetáculo que pode prescindir do espectador. (JUNG: 1991, § 209)

Não obstante tal tendência compartilhada, Jung nega que a obra de James Joyce, por exemplo, que possui “uma semelhança grave” (SIC) com a esquizofrenia, tenha os mesmos traços encontrados na doença mental comum. Resta assim a doença mental incomum, para a qual, segundo ele, a psiquiatria não tem critério, e a qual “pode ser uma espécie de sanidade mental, inconcebível para a inteligência mediana, ou um poder espiritual superior” (1991, § 173).

Finalmente, uma outra possibilidade de associarmos a psicose à arte é o fato de que em ambas observamos a presença de algo denominado por Jung de complexo autônomo. Trata-se de um conceito associado por Jung ao próprio nascimento de uma obra, pois “abrange quase todas as formações psíquicas que se desenvolvem em primeiro lugar bem inconscientemente e só a partir do momento em que atingem o valor limiar da consciência, também irrompem na consciência” (1991: p. 123). O complexo autônomo surge muitas vezes personificado e como não pertencente ao próprio ‘eu’, e na doença mental, manifesta-se na forma de vozes, ou na identificação com personalidades históricas. Embora o indivíduo criativo seja, muitas vezes, dominado por tais complexos autônomos, isso por si só não caracteriza a doença mental, pois pessoas normais também são dominadas por eles. A diferença está na intensidade com que isso ocorre. Ainda que em todos os casos o complexo autônomo tenha a propriedade de dominar e influenciar a personalidade, na produção artística não se trata de fragmentos dissociados, mas de representações arquetípicas repletas de sentido.

Assim, percebemos que tanto a arte legítima quanto a loucura compartilham a imersão no inconsciente coletivo. O que parece existir também em ambas é a necessidade de transcender as imagens inconscientes, o que eventualmente ocorre com a ampliação da consciência. Podemos arriscar a hipótese de que o nível de profundidade alcançado em tal mergulho e o nível simultâneo de consciência é o que provavelmente define o impacto da obra em determinada época.

1. Ele (Zarathustra) produzirá a enantiodromia, suprirá à humanidade do que está faltando, do que ela necessita, daquilo que as pessoas odeiam ou desprezam, a tolice aos sábios, a pobreza aos ricos, ou seja, Zarathustra promoverá uma compensação.

2. Sempre acreditei que a verdadeira arte é um negócio arriscado e os artistas experimentam novas formas não para causar sensação, mas porque as antigas não são mais adequadas para o que desejam expressar. Em outras palavras, inovar do modo com que fez Sylvia não teve quase nenhuma relação com experimentação técnica e relacionava-se quase totalmente com a exploração de seu mundo interior – com descer os porões e confrontar seus demônios.

 

REFERÊNCIAS:

· ALVAREZ, A. Where Did It All Go Right? Londres: Richard Cohen Books, 1999.

· JUNG, C.G O Desenvolvimento da Personalidade. Petrópolis: Ed. Vozes, 1981.

· _____ Jung’s Seminar on Nietzsche’s Zarathustra. Princeton: Princeton University

Press, 1988.

· _____ O Espírito na Arte e na Ciência. Petrópolis: Ed. Vozes, 1991.

· _____ Cartas Vol I. Petrópolis: Ed. Vozes, 2001.

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Daily-Painting-the-Journey-His-Story (1)-

Pintura: “The Journey – His Story” de Christopher Clark

AUTORA: RAMONA SCHOERPF

Jung diz que é muito importante o analista estar inteiro no processo analítico e que é na relação entre analista e analisando, quando esta se transforma numa relação entre eu—tu, que se pode chegar ao homem inteiro. E é nesse espaço do instante vivido que gostaria de refletir acerca da postura do analista e na enorme potencia curadora que pode existir quando este espaço é valorizado pelo analista.

Lendo o livro Psicologia e Alquimia, um ponto que achei muito interessante foram algumas colocações de Jung acerca do lugar do analista no processo analítico. Jung (2012 c) diz que é muito importante o analista estar inteiro no processo, ou seja, que é a partir dessa inteireza que o processo analítico pode verdadeiramente ocorrer.

““Arts totum requirit hominem!” (a Arte requer o homem inteiro!), exclama um velho alquimista. Justamente é este “homo totus” que se procura. O esforço médico, bem como a busca do paciente, perseguem esse “homem total” oculto e ainda não manifesto, que é também o homem mais amplo e futuro. No entanto, o caminho correto que leva a totalidade é infelizmente feito de desvios e extravios do destino. Trata-se da “longíssima via”, que não é uma reta, mas uma linha que serpenteia, unindo os opostos à maneira do caduceu, senda cujos meandros labirínticos não nos poupam do terror. Nessa via ocorrem experiências que se consideram de “difícil acesso”. Poderíamos dizer que elas são inacessíveis por serem dispendiosas, uma vez que exigem de nós o que mais tememos, isto é, a totalidade. Aliás, falamos constantemente sobre ela – sua teorização é interminável -, mas a evitamos na vida real. Prefere-se geralmente cultivar a “psicologia de compartimentos”, onde uma gaveta nada sabe do que a outra contém”. (Jung, 2012 c, pág. 12-13)

Trago tais reflexões porque acho muito importante tentarmos nos aproximar o máximo possível dessa relação que ocorre no aqui e no agora no consultório, para podermos a partir desse clareamento trabalhar o que ocorre na transferência e contratransferência.

Murray Stein (1992) fala de um modelo xamânico de cura na contratransferência, onde, citando Jung (1946*) diz que “seus comentários esparsos acerca da dinâmica da transferência/contratransferência na análise seguem em larga medida este modelo: os analistas se contaminam pelas doenças de seus analisandos e então promovem a cura curando-se a si mesmos e administrando o remédio que produzem em si ao analisando pela “influência”. Na análise, este processo xamânico de cura é, evidentemente, levado a cabo num plano psíquico, ao invés de físico. Conforme descrito por Jung, trata-se de uma interação muito complexa e sutil, que abarca a personalidade inteira de ambos os parceiros numa espécie de combinação alquímica de elementos psíquicos”. (Murray, 1992, pág. 73 – Cf. 1946*)

Em seu livro Psicologia e Alquimia, Jung (2012 c) escreve que “ninguém mexe com fogo ou veneno sem ser atingido em algum ponto vulnerável; assim, o verdadeiro médico não é aquele que fica ao lado, mas sim dentro do processo”.

Portanto, uma importante reflexão de Jung é sua fala sobre a relação que se estabelece durante a análise, assumindo que tal relação existe e que é nesta relação que temos a possibilidade de estarmos inteiros.

*JUNG, C.G. 1946. The psychology of the transference. In: Collected Works, 16:163-323. Princeton:Princeton University Press, 1966

“O trabalho analítico conduzirá mais cedo ou mais tarde ao confronto inevitável entre o eu e o tu, e o tu e o eu, muito além de qualquer pretexto humano; assim, pois, é provável e mesmo necessário que tanto paciente quanto o médico sintam o problema na própria pele. (…) Tanto para o médico como para o paciente, o “ficar pendente”, ou a dependência pode tornar-se algo indesejável, incompreensível e até mesmo insuportável, sem que isso signifique algo de negativo para a vida. Pelo contrário, pode até ser uma dependência (um “ficar pendente”) de caráter positivo: se por um lado parece um obstáculo aparentemente insuperável, por outro, representa uma situação única, exigindo um esforço máximo que compromete o homem total.” (Jung, 2012 c, pág. 18)

Se observarmos com atenção todo o trabalho de Jung (2012 c), veremos o quanto se debruçou sobre qualquer tema por ele elaborado, onde nos coloca a importância dessa inteireza dentro do processo analítico.

“E é preciso não esquecer que foi através da paciência indizível dos pesquisadores que a nova ciência conseguiu erigir um conhecimento mais profundo da natureza da alma; certos resultados terapêuticos inesperados foram obtidos graças à perseverança abnegada do médico”. (Jung, 2012 c, pág.18)

Jung se debruçava em cima da historia de seus pacientes e é essa intensidade, essa paixão, esse amor pela cura que faz com que eu me interesse e tenha desejo de me debruçar perante sua obra! Jung estava inteiro em todos os processos que estudava. Não se descobriria a cura para tantas doenças se não fossem a insistência de alguns poucos, que mesmo passando por inúmeras dificuldades, continuavam persistindo!

Rolando Toro (2005 b), criador do sistema Biodanza, nos fala que o “fracasso da psiquiatria e da psicologia é a dificuldade que possuem de amar o louco”.

Este “amar o louco” seria essa inteireza de estarmos entregues ao processo analítico. É preciso se importar com a pessoa que esta a nossa frente, é preciso se debruçar e entrar dentro desse sofrimento junto com o paciente para conseguir sentir o que se passa verdadeiramente. Precisamos ser verdadeiros xamas. Se não consigo me comover perante o sofrimento do outro, devo encaminha-lo para outra pessoa que o possa.

Muitas vezes é o que a pessoa me desperta que me diz como ela esta se movimentando pela vida. E o quanto mais conseguirmos estar atentos a esta relação com nosso analisando, mas fácil nos daremos conta do que estamos sentindo. E este sentir nos diz de nossa contratransferência, podendo ao mesmo tendo nos auxiliar no que estes sentimentos que despertam em mim no momento podem dizer do movimento do paciente.

A partir dai cabe ao analista verificar até que ponto é válido usar tais dados na relação transferencial.

Nathan Schwartz-Salant (1992) também fala sobre a importância da transferência em seu artigo, citando o ponto de vista de Jung sobre o papel do analista.

“(…) muitas vezes, recorre-se às reações do analista para busca de informações sobre o paciente, e o que este diz ou sonha é reconhecido como indicação de percepção precisa do analista e do estado do processo analítico”. (Schwartz, 1992, pág. 9)

Na biodança fala-se que não é necessário somente o contato, mas sim a conexão para podermos nos transformar. James A. Hall (1992) também fala disso em seu artigo Sonhos e transferência/contratransferência: o campo transformador, onde faz uma citação de Jung, onde este diz que ”(…) o verdadeiro médico não se coloca fora de seu trabalho, mas está sempre no meio dele.”

Algo que sempre me fascinou na Biodança foi a valorização do instante vivido, e o quanto Rolando Toro, se debruçou em cima desse conceito, que denominou vivência.

Para Rolando Toro (1968), vivência é “a experiência vivida com grande intensidade por um individuo em um lapso de tempo aqui – agora (‘gênese atual’) abarcando as funções emocionais, cenestésicas e orgânicas”. Para ele, vivência é o instante vivido no aqui e agora com total intensidade e entrega, é quando conseguimos realmente estar inteiros. E é nessa inteireza que existe a possibilidade da transformação acontecer.

Segundo Toro (2005 a), “a vivência constitui-se na experiência original de nós mesmos, da nossa identidade, anterior a qualquer elaboração simbólica ou racional”. É no ato de estarmos inteiros que nos transformamos, pois saímos de nosso modo racional para vivenciar o inédito.

Penso que o ato de ser analisado é também uma tentativa de chegarmos a este homem inteiro que nos fala Jung (2012 c). Entramos num processo profundo de analise interna para sabermos quais aspetos podem estar “trancando” ou bloqueando a livre expressão do meu ser. E à medida que vamos entrando nesse processo interno vemos o quanto levamos conosco de vivências passadas que nos impedem de usufruir o presente.

Então quando Jung (2012 c) nos diz que a arte requer o homem inteiro, esta nos colocando que tanto o analista como o analisando está na busca desse “homem total”, que anseia por se expressar livremente.

Este estar inteiro vai muito além de se reconhecer como um ser único e singular, porque exige também da pessoa um desfazer-se de tudo aquilo que já não serve mais na sua caminhada de individuação. Exige um desfazer-se de aspectos que não fazem mais parte de sua caminhada atual. E é nesse aspecto que surge um dos principais papéis do analista, auxiliar o analisando a se dar conta do já não serve mais na sua caminhada.

Rolando Toro (2005 a) fala que colocar-se no lugar do outro é um ato de lucidez. E esse ato de lucidez (sempre que possível) se dá através do analista dentro do processo analítico. Como na maioria das vezes o analisando busca analise por encontrar-se perdido em alguns caminhos que só consegue andar em círculos, é a lucidez do analista dentro do caminhar do analisando que ira lhe proporcionar a possibilidade de um novo olhar para a sua caminhada. Mas essa lucidez somente poderá ocorrer quando o analista se permitir entrar no processo.

O modo, portanto, pelo qual o analista se coloca nesse processo pode fazer toda a diferença. Quanto mais inteiro o analista estiver, ou seja, mais presente no momento da analise, mais fácil será para este vivenciar o que ocorre na transferência / contratransferência.

Segundo Góis (1997), participação é o oposto de opressão. O papel do analista, portanto, não deixa ser um papel de libertador de padrões internos que não servem mais para a caminhada atual de seu analisando.

A mudança é algo vivo, que nos modifica enquanto vamos vivendo. E o ato terapêutico não é algo a parte onde fazemos uma pausa para relatar apenas acontecimentos significativos de nossa vida, ele também faz parte do que estou vivendo e, portanto, à medida que vou me aprofundando e me entregando nesse processo, vai mostrando também como interajo com o outro e com o mundo. É um processo alquímico!

Só olhando…

Vem, olha no meu olho. Deixa pra lá o que você pensa que eu sou. O que você gostaria que eu fosse. Tenta ver, tenta sentir, te permite ver o que eu sou de verdade. Me dá um minuto da tua vida antes de me definir. E eu mudo todo o dia um pouco, nunca sou igual. E você só vai ver se tiver tempo de ficar me olhando. Tempo de estar comigo no aqui e agora. E se você fizer isso vamos sempre nos entender porque sempre vamos nos ver de verdade.

Vem, olha no meu olho.

 

BIBLIOGRAFIA

GÓIS, Cezar Wagner de Lima. 1997. Vivência em Biodanza in org Flores, Feliciano. Cadernos de Biodança. Porto Alegre.

JUNG, Carl Gustav. 2012 c. Psicologia e Alquimia / tradução e revisão literária Dora Mariana Ribeiro Ferreira da Silva; revisão Técnica, Jette Bonaventure – 6 ed. – Petrópolis, RJ : Vozes.

STEIN, Murray & SCHWARTZ-SALANT, org. 1992. Transferência – Contratransferência / tradução Rosas de Oliveira; revisão técnica Marcia Tabone – São Paulo, SP : Editora Cultrix Ltda.

TORO, Rolando. 2005 a. Biodanza. 2 ed. – São Paulo : Olavobras.

TORO, Rolando. 1968. A vivência. Curso de formação docente em Biodanza. Sistema Rolando Toro – Chile.

WARNKEN, Cristián. 2005 b. Entrevista a Rolando Toro em el programa “La Belleza del pensar”. Chile.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

FLORES, Feliciano Edi Vieira, org. 2006. Educação biocêntrica : aprendizagem visceral e integração afetiva. Porto Alegre : Evangraf.

JUNG, C.G. 2012. Ab-reação, análise dos sonhos e transferência. Tradução de Maria Luiza Appy; revisão técnica Jette Bonaventure. 8 ed. – Petrópolis, RJ.

JUNG, C.G. 2012. Freud e a psicanálise. Tradução de Lúcia Mathilde Endlich Orth; revisão técnica Jette Bonaventure – 6 ed. – Petrópolis, RJ : Vozes.

STEIN, Murray. 2006. Jung : O mapa da alma : uma introdução. Tradução Álvaro Cabral; revisão técnica Marcia Tabone – 5 ed. – São Paulo : Cultrix.

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