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Por Lucy Coelho Penna

 

Apresentado no Simpósio “Relaxamento: sua importância no contexto psicoterápico”, 36ª Reunião Anual da SBPC, São Paulo, 4-11 de julho de 1984. Publicado na Revista Ciência e Cultura (SBPC), 1984.

 

RESUMO

A calatonia é um método de relaxação proposto por Sándor o qual utiliza toques suaves sobre o corpo do paciente, em associação com a psicologia profunda. As três técnicas componentes do método são brevemente descritas neste trabalho, e comentadas focalizando-se a sua relação com a psicoterapia, com as reorganizações psicofisiológicas e com as mudanças posturais. Partes das respostas que são induzidas pelo método calatônico parecem ser devidas ao papel dos fatores cinesiológicos que os toques suaves mobilizam, assim como às sensações, afetos, imagens e idéias que o estímulo tátil pode despertar. Em qualquer destas categorias, as respostas do paciente ao método não devem ser vistas somente como recondicionamentos psicofisiológicos, mas, e sobretudo, como recolocações existenciais amplas e profundas.

HISTÓRICO

A calatonia é um método de relaxação proposto por Sándor (7, 8), composto de três técnicas para serem utilizadas em associação com a psicologia profunda. Sándor partiu das observações realizadas em hospitais da Cruz Vermelha, antes e durante a II Grande Guerra, para elaborar o seu método, cujo desenvolvimento posterior teve a influência das suas experiências clínicas no Brasil.

 

A técnica básica desse método, conhecida também como calatonia, foi apresentada pela primeira vez em público por ocasião do evento que a Sociedade de Psicologia de São Paulo promoveu em 1969.

Naquela ocasião, Sándor apresentou, pela primeira vez, a técnica básica, embora ela já estivesse em uso por diversos profissionais, em São Paulo. Assim , na mesma oportunidade, Mauro (3) e De Santis (1) apresentaram as suas experiências clínicas com o uso desta técnica em psicoterapia de adultos. Mais recentemente, esta última autora também mostrou o emprego da calatonia em psicoterapia infantil (2). Na mesma linha de consideração, Penna (5) apresentou o caso de uma menina de cinco anos, cuja excessiva tensão oral a tinha levado a grave síndrome da articulação temporomandibular, recuperando-se através da calatonia integrada à psicoterapia de linha jungueana. Mais recentemente, a mesma autora propôs alguns princípios para a avaliação do contexto teórico da calatonia, em sua modalidade básica (5).

 

Embora as observações já publicadas representem apenas uma parcela muito pequena das experiências clínicas feitas pelos profissionais que empregam o método calatônico, atualmente há outros relatos feitos oralmente, em várias ocasiões. Durante os últimos anos o método tem sido divulgado através de cursos de especialização 1 e de grupos de estudos, realizados por Sándor ou por seus colaboradores, tanto na universidade, quanto em clínicas particulares.

 

 

OBJETIVO DO MÉTODO

Em um plano mais abrangente, esse método visa uma reavaliação existencial ampla e foi planejado para alcançá-la em integração com a psicologia profunda. Visto de modo operacional o método objetiva a regulação do tono psicomotor e procura o recondicionamento psicofisiológico do paciente, através de estímulos táteis suaves, aplicados em pontos determinados do corpo.

 

Os seus efeitos são observados no planejamento da postura, que é conseqüência da regulação do tono das musculaturas esquelética e visceral; assim como na soltura dos movimentos e na expansão da sensibilidade proprioceptiva. Com um melhor conhecimento do próprio corpo, o sujeito então pode reavaliar as suas expressões corporais e elaborar a linguagem dos próprios sintomas, quando os possui. Segundo Sándor (8), os conteúdos inconscientes que estão associados às desorganizações psicofisiológicas aparecem na forma de imagens, idéias, lembranças e sonhos, refletindo o momento em que vive a pessoa. Sempre que surgem, essas produções das camadas mais profundas da personalidade são acolhidas e trabalhadas no processo terapêutico, sem que se procure dirigi-Ias e nem também forçá-las em esquemas interpretativos, mas dando-lhes a dimensão profunda adequada.

Assim, a calatonia possibilita a ampliação do mundo interno e abre a recepção do simbolismo das representações corporais. As funções intelectiva e ideatória são, por este meio, também mobilizadas, do que resulta um amplo processo transformador, o qual é diretamente manifestado na melhor qualidade dos relacionamentos interpessoais.

O método é constituído, atualmente, por três técnicas. A primeira, que foi originalmente apresentada como “calatonia” e duas outras, que devem ser consideradas como desdobramentos da técnica básica: Descompressão Fracionada e Toques de Reajustamento nos Pontos de Apoio. As três técnicas possuem em comum o modo suave como empregam a estimulação tátil, além do princípio geral de utilização em um contexto psicoterapêutico. Entretanto, dentro de certos critérios éticos, a técnica básica tem sido empregada também na prática médica; em fonoaudiologia e fisioterapia, assim como em reabilitação e em terapia ocupacional (relatos pessoais). Além disso, estão sendo presentemente desenvolvidas várias experiências com essa técnica em centros comunitários (penitenciárias, creches, escolas e hospitais), cujos relatos (pessoais) indicam resultados bastante promissores.

 

1. Inicialmente na Universidade Católica e, depois, no Instituto Sedes, em São Paulo.

 

A TÉCNICA BÁSICA

A aplicação do método calatônico em sua modalidade básica (calatonia) consiste na realização de uma seqüência de nove toques suaves e monótonos, os quais são aplicados sobre a pele, nas extremidades do corpo. Pode-se escolher entre a área dos pés e calcanhares e a área das mãos e pulsos, segundo critérios terapêuticos. Preferencialmente, realizamos a calatonia sobre as extremidades distais, de acordo com as normas descritas por Sándor (7, 8).

 

Para a aplicação, o paciente deita-se em decúbito dorsal, com os braços bem soltos ao longo do corpo. Sugere-se que feche os olhos, podendo abri-los, se quiser; o terapeuta solicita que aceite as mudanças que poderão acontecer em seu estado geral, sem procurar interferir, além de que é muito importante que não pense em relaxar-se, apenas “deixe acontecer”. O terapeuta senta-se, então, aos pés da cama e, muito suavemente, toca os pés do paciente, mas sem massagear, nem movimentar ou pressionar, limitando-se ao contato sutil. A área de contato situa-se nas falanges distais, mais precisamente na base da unha, colocando-se o polegar no lado posterior, à altura da polpa do dedo. Cada contato é feito simultaneamente nos dois pés, de maneira tranqüila e uniforme, por aproximadamente três minutos. Para voltar do estado de relaxação, pedimos que a pessoa movimente os dedos, balance levemente a cabeça, abra os olhos e pisque, respire fundo e espreguice, antes de erguer-se.

 

A aplicação da calatonia em sua modalidade principal, nos pés, promove determinados efeitos que vêm sendo estudados clinicamente, mostrando que sua peculiaridade reside no alcance da estimulação tátil realizada nos pés, dentro da relação terapêutica. Esta condição enfatiza as qualidades empáticas do contato suave na pele, além dos aspectos simbólicos dos pés na imagem do corpo. Consideramos que os pés, estando na parte mais inferior do corpo humano, podem ser, analogicamente, depositários dos conteúdos básicos da personalidade, juntamente com as pernas e a pélvis.

 

Por outro lado, os pés têm sido tratados como símbolo da alma humana (5) e local de projeção dos conteúdos infantis (9). Tais simbolismos são amplamente difundidos e vê-se que os conteúdos projetados na extremidade inferior do corpo também estão presentes nos mitos do Saci Pererê, Curupira e Mapinguaris que, no folclore brasileiro, são entidades protetoras dos recursos naturais (6). Por outro lado, o espaço recebe conotações simbólicas decorrentes da analogia que estabelecemos entre as partes do corpo e o meio circundante. Estes elementos de natureza psíquica estão na origem dos processos perceptivos e da relação que o ser humano constitui com as principais dimensões espaciais; fato já aproveitado em diversos testes, como o Desenho da Figura Humana, o Teste da Árvore e o Rorschach. Os pés ligam o ser humano com o chão, com a terra que não somente o sustenta, mas também o atrai para baixo.

Naturalmente, cabe ao terapeuta assinalar o alcance individual ou coletivo dos conteúdos originários da estimulação calatônica dos pés ou das mãos. De qualquer modo que o faça, porém, a sua interpretação constitui um momento privilegiado dentro da sessão. Nem sempre é oportuno interpretar-se as imagens obtidas durante a relaxação, havendo casos em que a sua simples verbalização, pelo paciente, já constitui uma elaboração suficiente e também uma grande vitória sobre a resistência.

 

 

DESCOMPRESSÃO FRACIONADA

A Descompressão Fracionada, tanto quanto o Toque de Reajustamento nos Pontos de Apoio, foi planejada para ser utilizada em seqüência à técnica básica. O seu objetivo é também desmobilizar os núcleos de tensão corporais e estimular a auto-regulação em níveis psicofisiológicos, promovendo, concomitantemente, a manifestação dos conteúdos afetivos e ideativos subjacentes. Enquanto a técnica básica estimula o sujeito a partir das suas extremidades durante quase meia hora, nesta modalidade a estimulação pode ser feita em, praticamente, todos os pontos do corpo, tendo uma duração mais curta em cada área.

 

O terapeuta exerce certa pressão com as palmas das mãos ou ponta dos dedos sobre os pontos escolhidos no corpo da pessoa, e vai modulando esse contato durante nove ciclos respiratórios do sujeito. Assim, a pressão é de modo que a pessoa perceba claramente o contato durante três expirações. Na quarta, inicia-se a descompressão, fracionando-a durante mais três ciclos respiratórios completos. Finalmente, ainda sem afastar as mãos completamente, o terapeuta permanece outros três ciclos em contato apenas suavemente perceptível.

 

Para realizar cada momento de descompressão, observa-se cuidadosamente como o paciente respira, para modulá-la quando a pessoa estiver soltando o ar. O terapeuta precisa estar ainda bastante consciente do seu próprio estado, relaxando os próprios níveis de tensão, especialmente nos braços e nas mãos.

 

As repercussões da Descompressão Fracionada são comumente de descontração nas regiões tocadas, com certa generalização para as áreas circunvizinhas, acompanhadas da sensação de calor. Freqüentemente, as recordações dos contatos anteriores nas mesmas áreas e o desejo de preenchimento daquelas experiências incompletas ou frustrantes, aparecem. Estas condições são, às vezes, espontaneamente projetadas sobre a figura do terapeuta, de modo que a pessoa cria determinadas expectativas, normalmente desfeitas com o decorrer do tratamento. Nunca é demais lembrar que, ao mesmo tempo em que toca, o terapeuta é tocado também, mesmo de modo aparentemente passivo. As suas reações podem ser, ao menos potencialmente, análogas às do paciente. Em parte isto se deve à qualidade da estimulação tátil que, sendo próxima e imediata, coloca as duas pessoas envolvidas como sujeitas a processos semelhantes de identificação e de projeção.

 

 

OS TOQUES DE REAJUSTAMENTO NOS PONTOS DE APOIO

Os Toques de Reajustamento nos Pontos de Apoio da postura são realizados, de modo muito suave, preferencialmente sobre as articulações do corpo, durante aproximadamente três minutos.

 

De acordo com a articulação escolhida, o contato é feito com um ou mais dedos, de ambas as mãos, tocando-se, simultaneamente, áreas paralelas do corpo do paciente. Assim, por exemplo, o toque nos joelhos é realizado colocando-se as pontas dos dedos de cada mão em volta da patela. O paciente está sentado, com as pernas estendidas e o terapeuta, sentado à sua frente, realiza o contato suavemente, observando as reações do sujeito.

 

O efeito mais evidente desse tipo de contato é soltar as articulações móveis (anfiartroses e diartroses), ocasionando um afrouxamento gradativo dos pontos de apoio posturais. Pela diminuição dos níveis de tensão na articulação estimulada, far-se-á sentir o predomínio da força da gravidade, conduzindo o corpo para uma soltura maior. Por isso temos sempre ao lado do sujeito um divã, ou mesmo boas almofadas, para que, eventualmente, ele possa deixar-se descontrair despreocupadamente.

 

É o estado de tensão anterior do paciente que vai determinar o reajustamento postural necessário. No entanto, sempre se pode observar uma resposta respiratória reflexa após o toque, acompanhada de descontrações em feixes de fibras, ou até mesmo em grupos musculares inteiros. Estas reações levam a uma soltura parcial do corpo no espaço, partes simétricas se reequilibram e movem-se, alinhando-se de modo mais harmonioso. Em outras ocasiões, quando o reajustamento atinge zonas musculares mais extensas, observamos um verdadeiro “derretimento” da postura, todo o corpo se solta e o paciente entra em profunda relaxação.

Nesses momentos, é comum que haja certa percepção do processo de reajustamento que teve lugar, o qual se propõe à mente do paciente através de imagens diversas, às vezes em tonalidades de luz e sombra nas áreas corporais envolvidas.

 

 

A APLICAÇÃO DO MÉTODO EM PSICOTERAPIA

Dentro de uma sessão, costuma-se, primeiramente, ouvir o paciente, receber os seus conteúdos e observações e depois realizar a calatonia ou uma das outras técnicas. Este procedimento conduz a uma peculiar aproximação dos mesmos conteúdos relatados verbalmente. Durante a relaxação a pessoa tem a oportunidade de observar-se a partir de outro ponto de vista e captar aquilo que o seu inconsciente está querendo dizer sobre o material verbalizado. Esta visão interior geralmente contribui com lembranças e com imagens sensoriais atuais, experiências do corpo vividas intensamente no passado e ligadas ao momento presente.

 

Muito freqüentemente, os toques nos pés estimulam o aparecimento de imagens de movimento ou alterações do equilíbrio, fazendo com que a pessoa se perceba em posições diferentes daquela em que realmente está. Aparecem, ainda, lembranças relativas aos primeiros passos e a quedas, a correr, dançar, momentos já vividos que se propõem ao sujeito, não apenas como reminiscências, mas acompanhados dos conteúdos afetivos correspondentes.

 

 

A PELE

Do ponto de vista subjetivo, a relação que constituímos com a pele a coloca como porção limítrofe do Eu: ela está na fronteira entre o mundo interno e externo, fronteira sensível, dinâmica e mutável, que se expande e se contrai de acordo com os estados psicofisiológicos. A pele nos isola, nos protege e também nos contém.

 

A pele é considerada, segundo os especialistas, como um órgão dos sentidos, ocupando entre estes, uma posição singular. A sua origem embrionária é a mesma do sistema nervoso 2 . Estas características a capacitam para exercer as funções de recepção e de emissão que lhe são peculiares. A pele parece emitir sinais em um grau não encontrado nos outros órgãos dos sentidos, embora alguns destes sinais somente sejam perceptíveis quando há um contato proximal entre emissor e receptor. À medida que o meio interno apresenta certas modificações, estas são conduzidas à periferia do corpo e traduzidas em alterações vasomotoras de ereção capilar e de sudorese, de mudança da condutibilidade elétrica e outras, que se constituem em autênticos sinais de comunicação. O método calatônico procura produzir estímulos predominantemente ectodermais, mas também as camadas de origem mesodérmicas são ativadas nos toques com pressão leve.

 

2. O sistema nervoso central e a camada superficial da pele desenvolvem-se do ectoderma, enquanto a camada interna (derme) e o sistema nervoso vegetativo têm origem no mesoderma.

 

No método calatônico o silêncio e a ausência de controle visual contribuem para enfatizar a pele como meio e mensagem da relação que se constitui. As mãos do terapeuta podem, então, representar um ponto de contato com o mundo exterior que permite à pessoa realizar a transição entre o estado de alerta e o relaxamento. Nesse sentido, as mãos desempenhariam um papel análogo ao dos “objetos transicionais” mencionados por Winicott (10), facilitando o mergulho introspectivo e assegurando o retomo construtivo da libido. Os objetos transicionais trazem proteção e impedem que a ansiedade, naturalmente elevada pelos conteúdos da entrada no inconsciente, desorganize a identidade egóica. As mãos do terapeuta podem ser percebidas como um objeto a meio caminho entre o objetivo e o subjetivo, sendo, então, parcialmente incorporadas durante a experiência de descontração. Com a continuidade do desenvolvimento do indivíduo, ele poderá criar relações objetais propriamente ditas, valendo-se destas vivências de soltura psicológica e física que correspondem ao estado de relaxação.

 

Nas ocasiões em que as reações neurovegetativas são também mobilizadas, pode-se ter choro ou uma gostosa vontade de rir, além de outras expressões fisiológicas com significados afetivos, como de alegria ou de tristeza. A “volta à terra” que este derretimento promove, aproxima o paciente de zonas inconscientes muitas vezes intocadas, produzindo experiências “arquetípicas”, onde o somático e o psicológico não estão ainda dicotomizados, nem diferenciados. A energia libidinal pode então ser conscientemente percebida, fluindo no próprio corpo, sem controle voluntário, gerando eventualmente medo e angústia, tanto quanto prazer e alegria.

A FORÇA DE GRAVIDADE

A participação da energia gravitacional nos três procedimentos mencionados é central. Quando estimulamos os pés aproveitamos terapeuticamente os muitos recursos sensoriais e motores desenvolvidos pela espécie para captar e responder à “mãe-terra”, no curso da adaptação do ser humano ao planeta. O principal estímulo recebido da terra, sempre presente desde o início da vida, é a sua força magnética, segurando o homem à sua superfície. O esqueleto, os músculos e os órgãos desenvolveram-se estrutural e funcionalmente para adaptar-se ao tipo de ambiente terrestre. Logo, o equilíbrio e a harmonia da postura estão correlacionados com a adaptação funcional ao ambiente. Neste sentido, quando a relaxação desmancha os núcleos de tensão muscular, a força de gravidade atua e atrai para baixo. Após essa “queda” planejada, será mais fácil a pessoa perceber como está organizando a sua posição no mundo e se por de pé de modo mais harmonioso.

 

Na Descompressão Fracionada toca-se o corpo de um modo que dificilmente ele é tocado nas relações sociais comuns. Além disto, a compressão é parte do estímulo constantemente recebido pela massa corpórea que, ao se movimentar, muda as relações de peso e altera a pressão que está sendo constantemente exercida pela gravidade terrestre sobre as diferentes áreas do corpo.

Nos toques de Reajustamento o paciente está de pé ou sentado e, o efeito da força gravitacional é ainda mais evidente. Realiza-se neste como nos outros toques, o sentido procurado pelo seu Autor quando escolheu o termo grego khalaó, para denominar o método. Este verbo, que significa literalmente “relaxação”, possui, ainda, outros sentidos, tais como: “deixar ir”, “afastar-se do estado de ira ou de violência”, “abrir uma porta”, “rasgar os véus”, “desatar as amarras de um odre”, “retirar o véu dos olhos”, “alimentar-se”, e também, “perdoar os pais”.

 

Sabemos que as defesas são erigidas para resistir à força natural, que tanto está fora do corpo como dentro dele. A neurose se estrutura nos músculos, especialmente nos posteriores, através dos quais se expressa simbolicamente em uma postura orgulhosa, dura; por outro lado, denuncia a enorme dificuldade em relaxar, em deixar-se ir, seguindo o fluxo da própria energia. Saber ser ativo e passivo, conforme as circunstâncias, é um estilo de vida, não somente uma questão de fisiologia ou de psicologia do movimento. Reconhecendo a importância desses aspectos, o trabalho psicoterapêutico que utiliza os toques suaves em associação com a análise do inconsciente procura integrar os níveis físico, afetivo e cognitivo da experiência humana.

 

Em todos os casos nos quais a reorganização seja visada, o método calatônico pode ser utilizado.

Segundo Sándor (8), desaconselha-se o seu emprego em casos de psicoses agudas, quando este método não poderia ser realizado de maneira suave, como foi planejado. Por outro lado, em afecções somáticas graves, nas síndromes psicossomáticas e em estados confusionais, aconselha-se que o terapeuta trabalhe com supervisão, além de que mantenha contatos com o médico responsável, para o eventual tratamento medicamentoso do paciente.

Durante certos tratamentos com fármacos que alteram o estado de consciência, e também com corticoesteróides, entre outros, o emprego do método precisa de especial atenção.

 

Em síntese, os critérios éticos e as indicações só podem ser adequadamente pensados e pesados quando o terapeuta tenha sido submetido antecipadamente, ele próprio, às intervenções que pretende realizar.

 

 

REFERÊNCIAS

(1) De Santis, M.I. 1969. A integração do animus na metanóia e no relaxamento. Bol. Psicol, São Paulo, 21: 57 e 58:
(2) De Santis, M.I. 1976. O discurso não verbal do corpo no contexto psicoterápico. Dissert Dep. Psicol. PUC, mimeog., Rio de Janeiro.
(3) Mauro, B. 1969. Anima e inconsciente racial no relaxamento e nos sonhos. Bol. Psicol, São Paulo, 21: 57 e 58.
(4) Penna, L 1976. Observações sobre um caso de psicoterapia infantil com relaxamento. Anais do II Congresso Interamericano de Psicologia. Clínica, São Paulo.
(5) Penna, L. 1979. Calatonia: a sensibilidade, os pés a imagem do próprio corpo em psicoterapia Dissert. IP-USP , mimeog., São Paulo.
(6) Penna, L. 1983. Os pés em relação com a terra. Cadernos da PUC, São Paulo, n 15.
(7) Sándor, P. 1969. Calatonia. Bol. Psicol., São Paulo, 21:57 e 58.
(8) Sándor, P. 1974. Técnicas de relaxamento, São Paulo, Vetor.
(9) Schilder, P. 1950. The image and appearance of the human body. Nova York, John Wiley & Sons.
(10) Winicott, D.W. 1958. Transitional objects and transitional phenomena Collected Papers: Through Pediatrics to Psyco-Analylisi. Londres, Tavistock Publ.

 

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Por Rosa Farah

  (Revista “Hermes” no. 1)

 

Ainda hoje, mesmo entre terapeutas junguianos, podemos por vezes observar algumas reações de surpresa ao mencionarmos a aplicação das técnicas de trabalho corporal associadas à Psicologia Analítica de C.G. Jung. Tal fato deve-se apenas em parte à maior divulgação em nosso meio das abordagens corporais derivadas do trabalho de Reich e seus seguidores (a Bioenergética, por exemplo), ou mesmo das chamadas formas “alternativas” de intervenção terapêutica.

 

Embora existam razões históricas mais complexas para que os processos corporais permanecessem até então aparentemente à parte das considerações dos psicoterapeutas não é nosso objetivo aqui detalhar tais razões(2). Vamos mencionar apenas como ilustração destes fatores a polêmica estabelecida – dentro do próprio meio psicanalítico – pelas contestações apresentadas por Reich: Conforme sabemos, suas críticas foram dirigidas não apenas a alguns dos postulados teóricos e metodológicos da Psicanálise. As próprias estruturas de poder subjacentes às instituições acadêmico-científicas também foram alvo direto de sua análise. A partir daí, o posicionamento científico de Reich passou a ser conhecido de forma inseparavelmente associada à sua atitude contestadora.

A polêmica resultante da repercussão de suas propostas contribuiu em grande parte para Reich passar à História da Psicologia como sendo um contestador pioneiro, especialmente no assunto referente à consideração dos processos corporais na busca de compreensão dos dinamismos psicológicos.

 

Não se pretende aqui entrar em detalhes sobre os aspectos inovadores de sua obra, embora o tema seja de extremo interesse e valia para uma maior compreensão da evolução da Psicologia ocidental. Nossa intenção inicial é chamar a atenção para o fato de a polêmica envolvendo a história do corpo na Psicologia não ter se originado com as proposições de Reich e seus seguidores.

 

Em “Tocar, Terapia do Corpo e Psicologia Profunda”, McNeely(3), terapeuta junguiana, apresenta um esclarecedor apanhado histórico sobre aqueles que considera como pioneiros da somatoterapia(4).

 

“Considero pioneiros da somatoterapia Freud, Sandor Ferenczi, Alfred Adler, Groddeck, Wilhelm Reich e Jung. Eles foram naturalmente influenciados por outros: Nietzsche, Kretschmer, Krafft-Ebing, Schiller, antropólogos, etc.

 

Começo por estes seis terapeutas porque sua principal preocupação com relação ao corpo foi a distribuição da energia (conforme se vê principalmente na teoria dos impulsos). Descobre-se que nesta matéria eles estiveram juntos, discordaram e, por fim, se separaram.” (5)

 

Estamos destacando aqui um elemento fundamental para a compreensão sobre a evolução da atenção dada ao corpo na história da Psicologia ocidental: as dificuldades para o equacionamento da relação corpo-mente não provêm apenas da complexidade inerente aos processos psicofísicos envolvidos. Se mesmo em nossos dias nos defrontamos ainda com muitos obstáculos – fruto de preconceitos determinados ainda pelo espírito de nossa época – para o desenvolvimento de certos níveis do nosso trabalho, o que não estaria então ocorrendo naqueles tempos e lugares, no âmbito acadêmico onde viveram e trabalharam os pioneiros da Psicologia Profunda? Vejamos o pensamento de McNeely a respeito.

 “A resistência da sociedade para com aquilo que se revelava foi impressionante. Freud e seus colegas estavam descobrindo que a moralidade e a neurose relacionavam-se. De algum modo, a energia da unidade mente-corpo era capaz de direcionar-se mal, transformando-se em sintomas físicos, dizendo realmente que um corpo doente ou perturbado indica uma psique perturbada que necessita de cura. Esta não era uma mensagem popular.” (6)

Não nos parece necessário detalhar neste momento a apresentação de elementos demonstrativos do aspecto polêmico da consideração do corpo na Psicologia.

 

Esses breves comentários têm por finalidade apenas situar e destacar o fato que, em época idêntica à mencionada por McNeely – e portanto em meio ao mesmo clima descrito -, C. G. Jung ter sido um dos pioneiros a abrir caminhos para uma nova forma de abordagem da questão da integração corpo-mente. Cada pesquisador de então, de forma pessoal, desenvolvia não apenas uma teoria, pois, conforme palavras do próprio Jung,

 

“Todo psicoterapeuta não só tem o seu método: ele próprio é esse método.” (7)

 

A maneira escolhida por Jung para expressar suas considerações sobre a questão do paralelismo psicofísico, parece-nos, foi intencionalmente parcimoniosa. Talvez mesmo cautelosa, especialmente quando perguntado diretamente a respeito, tal como consta nos relatos da primeira e segunda conferências que proferiu em Londres, 1935, transcritas em Fundamentos de Psicologia Analítica (8).

 

Tal atitude, embora possa parecer contraditória com outros momentos ousados de sua obra, devia-se muito mais ao fato de ser ele um homem consciente do risco representado pela atitude de pôr-se em confronto direto com a forma de pensar da época. Em suas memórias, a certa altura, diz textualmente:

 

“Percebi que é inútil falar aos outros sobre coisas que não sabem. Compreendi que uma idéia nova, isto é, um aspecto inusitado das coisas só se afirma pelos fatos.” (9)

 

Parece-nos ter Jung escolhido um outro caminho, em lugar de participar da polêmica reinante a respeito do tema corpo: a observação e registro dos fatos tal como se lhes apresentavam. E então, quando assim lhe foi possível apresentar suas idéias – isto é, corroboradas por demonstrações fatuais – não deixou de apresentá-las de modo assertivo.

A obra de Jung poderá surpreender o leitor disposto a localizar suas inúmeras menções à correlações psicofísicas. Porém mais esclarecedor do que qualquer argumento aqui apresentado será a própria constatação desse fato, por meio de uma consulta direta à fonte.

 

Sobre o material escolhido para a pesquisa:

Para realizar esta pequena pesquisa procuramos selecionar, na obra de Jung, algum material adequado ao objetivo expresso no título deste artigo: ilustrar a maneira direta e explícita com que este autor faz referências a processos corporais, mencionando-os como componentes intrinsecamente interligados aos dinamismos psíquicos.

 Localizar e destacar tais referências parece-nos uma maneira bastante clara e objetiva de ilustrar um aspecto de fundamental interesse na Psicologia junguiana: o fato de que a maneira utilizada por Jung para mencionar o dado corporal, já deixava implícita a possibilidade de vir a se desenvolver uma forma “junguiana” de abordagem do corpo em Psicologia. Um texto em especial foi então escolhido: Trata-se da edição das conhecidas “Conferências de Tavistock”, uma espécie de introdução, didaticamente organizada, ao pensamento de Jung.

 

Esta obra, conforme já mencionamos, compõe-se do relato de cinco conferências proferidas por Jung em Londres em 1935. Na edição brasileira, aparece sob o título Fundamentos de Psicologia Analítica (10).

Uma das razões motivadoras de nossa escolha por esse texto é o fato de, mesmo sendo dirigida a psicoterapeutas, a apresentação da Psicologia Analítica ser ali realizada em termos introdutórios. Assim, os principais conceitos e idéias de Jung são expressos de forma abrangente e clara, sem perder a autenticidade garantida pelo fato ser o próprio autor quem os expõe.

 

 

 

 

Procedimento utilizado:

A prática adotada em nossa pesquisa foi a seguinte: elaboramos um esquema referente a cada conferência, para ser utilizado como uma espécie de roteiro de leitura. Esse esquema colocou em destaque os principais conceitos e idéias apresentados e/ou comentados por Jung ao longo de suas falas. Na seqüência, destacamos os trechos correspondentes, em cada parágrafo do texto, aos momentos em que o autor expressou algum tipo de relação ou paralelo entre os processos psicofísicos.

 

Foi possível assim observar diferentes níveis ou tipos de menções ao corpo (e/ou seus processos) sendo expressas nas falas de Jung: em alguns momentos trata-se literalmente de uma relação formulada pelo autor, no real sentido do termo. Em outros, consiste numa hipótese, uma simples menção ao corpo ou, ainda, uma exemplificação de algum processo ou fenômeno corporal. Optamos por incluir todos os tópicos voltados a nossa finalidade – destacar menções ao dado corporal -, sem nos preocuparmos em discriminar, generalizar ou classificar o tipo de consideração feita em cada momento.

 

 

 

Citações ilustrativas sobre os dados coletados:

Antes de passarmos às citações desejamos deixar clara a idéia de que estas ilustrações não pretendem tornar prescindível a leitura (ou releitura) do texto integral. Ao contrário, esperamos que esta apresentação sirva de estímulo à sua consulta do original. Porém existe uma razão para adotarmos esta forma – a citação – e não apenas a menção aos parágrafos e trechos pertinentes: a visão conjunta dos textos selecionados fornecerá ao leitor, em nossa forma de entender, uma percepção diferenciada dos elementos assim destacados no pensamento de Jung.

 

1. Falando sobre a relação consciente <–> inconsciente (11):

“A consciência é sobretudo o produto da percepção e orientação no mundo externo, que provavelmente se localiza no cérebro e sua origem seria ectodérmica. No tempo de nossos ancestrais essa mesma consciência derivaria de um relacionamento sensorial da pele com o mundo exterior. É bem possível que a consciência, derivada dessa localização cerebral, retenha tais qualidades de sensação e orientação.” (12) # 14

 

2. Ao falar sobre o ego e sua relação com a consciência:

“E o que seria o ego? É um dado complexo formado primeiramente por uma percepção geral de nosso corpo e existência e, a seguir, pelos registros de nossa memória.(…) Esses dois fatores são os principais componentes do ego, que nos possibilitam considerá-lo como um complexo de fatos psíquicos. A força de atração desse complexo é poderosa como a de um imã: é ele que atrai os conteúdos do inconsciente, daquela região obscura sobre a qual nada se conhece. Ele também chama a si impressões do exterior que se tornam conscientes ao seu contato. Caso não haja este contato, tais impressões permanecerão inconscientes.” # 18

 

3. Diferenciando afeto e sentimento:

“O problema está apenas numa questão de grau. Se houver um valor obsessivamente forte, sua tendência é tornar-se uma emoção num dado momento, ou seja, quando atingir a intensidade suficiente para causar uma enervação fisiológica. Todo processo mental provavelmente causa ligeiras enervações deste tipo, e são realmente tão pequenas que não há meios de demonstrá-las(13).

 

Existe, entretanto, um método bastante sensível de registrar as emoções em suas manifestações fisiológicas; trata-se do efeito psicogalvânico(14). Baseia-se na diminuição da resistência elétrica da pele sob influência emocional, o que não se dá sob influência do sentimento.” (15) # 48

 

4. Falando a respeito da relação corpo-mente:

“A relação corpo-mente constitui um problema extremamente difícil. Pela teoria de James-Lange, o afeto é resultado de alteração fisiológica. A pergunta: Corpo ou psique é fator preponderante? sempre será respondida segundo diferenças temperamentais. Aqueles que por temperamento preferem a teoria da supremacia do corpo afirmarão que os processos mentais são epifenômenos da química fisiológica. Os que acreditam mais no espírito adotarão a tese contrária: o corpo é apêndice da mente e a causalidade reside no espírito. A questão tem aspectos filosóficos e por não ser filósofo não posso arrogar a mim a decisão. Tudo o que se pode observar empiricamente é que processos do corpo e processos mentais desenrolam-se simultaneamente e de maneira totalmente misteriosa para nós. É por causa de nossa cabeça lamentável que não podemos conceber corpo e psique como sendo uma única coisa.

 

A Física moderna está sujeita à mesma dificuldade: atentemos para o que acontece com a luz! Comporta-se como se fosse composta de oscilações e ainda formada por corpúsculos. Foi necessário uma fórmula matemática muito complexa, cujo autor é M. de Broglie, para auxiliar a mente humana a conceber a possibilidade de corpúsculos e oscilações serem dois fenômenos que formam uma única e mesma realidade(16). É impossível pensar isso, mas somos obrigados a admiti-lo como postulado.

 “Do mesmo modo o chamado paralelismo psicofísico forma um outro problema insolúvel. Tome-se por exemplo o caso da febre tifóide e suas contaminações psíquicas; se os fatores psíquicos forem confundidos com uma causalidade atingiríamos conclusões absurdas. O máximo que se pode afirmar é a existência de certas condições fisiológicas que são claramente produzidas por doenças mentais, e outras que não são causadas, porém meramente acompanhadas de processos psíquicos. Corpo e psique são os dois aspectos do ser vivo, e isso é tudo o que sabemos.

 

Assim prefiro afirmar que os dois elementos agem simultaneamente, de forma milagrosa, e é melhor deixarmos as coisas assim, pois não podemos imaginá-las juntas. Para meu próprio uso cunhei um termo que ilustra essa existência simultânea; penso que existe um princípio particular de sincronicidade(17) ativa no mundo, fazendo com que fatos de certa maneira aconteçam juntos como se fossem um só, apesar de não captarmos essa integração. Talvez um dia possamos descobrir um novo tipo de método matemático, através do qual fiquem provadas essas identidades. Mas atualmente sinto-me totalmente incapaz de afirmar se é o corpo ou a psique que prevalece.” # 69/70

 

5. Ao final da segunda conferência, um dos presentes retoma, na forma de novo questionamento, a discussão do paralelo psicofísico (# 135). Pode-se perceber, na colocação da pergunta a tentativa de cobrar de Jung a retomada da análise de um sonho por ele realizada em outro contexto. A partir da interpretação do mencionado sonho, Jung teria identificado a base orgânica da doença do sonhador, conforme é relatado na nota 33, pág. 60 do texto original. Dr. Bion pergunta, então, se Jung coloca apenas como uma analogia os paralelos entre as formas arcaicas do corpo e da mente ou se ele percebe uma relação mais profunda entre elas. A íntegra das respostas de Jung abrange várias páginas, motivo pelo qual novamente recomendamos uma consulta ao texto original(# 135 a 144). Como ilustração da cautela adotada por Jung frente à questão citaremos aqui alguns trechos dessa sua fala.

 “O senhor voltou novamente ao problema do paralelo psicofísico, ponto extremamente controvertido, sem resposta, pois está fora do conhecimento humano. Como tentei explicar ontem, as duas coisas acontecem juntas, de maneira peculiar, e são, creio, dois aspectos diferentes apenas para a nossa inteligência, e não na realidade. Nós as concebemos como duas formas devido a nossa total incapacidade de concebê-las juntas.” # 136

 

“O caso mencionado pelo senhor foi o do pequeno mastodonte. Explicar o que o mastodonte significa de orgânico e por que devo tomar tal sonho como sintoma fisiológico desencadearia uma tal polêmica que os senhores acabariam por me acusar de obscurantismo. Tais coisas são realmente obscuras, e eu teria de falar da mente básica, que pensa por meio de padrões arquetípicos. Quando falo de tais padrões, aqueles que têm consciência deles entendem, mas os outros podem acabar pensando assim: ‘Esse sujeito é completamente louco, pois se preocupa com diferenças entre mastodontes, cobras e cavalos’. Eu deveria dar-lhes um curso de aproximadamente quatro semestres sobre simbologia para que os senhores conseguissem seguir o que eu digo.” # 138

 

“Quando ouvem o que digo, costumam dizer: é passe de mágica. Também se pensava assim na Idade média e se perguntava: Como se pode afirmar que Júpiter tem satélites? Se a gente responder que é pelo telescópio, o que representará isso para um público medieval?.” # 139

 

“Não quero me superestimar por isso; fico sempre perplexo quando meus colegas perguntam: Como você estabelece um diagnóstico desses ou chega a tal conclusão? Respondo normalmente: Explico, se você me permitir dizer o que você deve fazer a fim de entendê-lo.” # 140

 

6. Ao discorrer sobre os complexos:

“…provavelmente os senhores já observaram que, ao me fazerem perguntas difíceis, não consigo respondê-las imediatamente porque o assunto é importante, e o meu tempo de reação, muito longo. Começo a gaguejar e a memória não fornece o material desejado. Tais distúrbios são devidos a complexos – mesmo que o assunto tratado não se refira a um complexo meu. Trata-se simplesmente de um assunto importante, tudo o que é acentuadamente sentido torna-se difícil de ser abordado, porque esses conteúdos encontram-se, de uma forma ou de outra, ligados com reações fisiológicas, com processos cardíacos, com o tônus dos vasos sangüíneos, a condição dos intestinos, a enervação da pele, a respiração. Quando houver um tônus alto, será como se esse complexo particular tivesse um corpo próprio e até certo ponto localizado em meu corpo, o que o tornará incontrolável por estar arraigado, acabando por irritar meus nervos. Aquilo que é dotado de pouco tônus e pouco valor emocional pode facilmente ser posto de lado porque não tem raízes. Não é aderente.” # 148

 

“…O complexo, por ser dotado de tensão ou energia própria, tem a tendência de formar, também por conta própria, uma pequena personalidade. Apresenta uma espécie de corpo e uma determinada quantidade de fisiologia própria, podendo perturbar o coração, o estômago, a pele.(…) Quando se fala em força de vontade, naturalmente se pensa em um ego. Onde, pois, está o ego, ao qual pertence a força dos complexos? O que conhecemos é o nosso próprio complexo do ego, que supomos ter o domínio pleno do nosso corpo. Não é bem isso, mas vamos considerar que ele seja um centro que está de posse do corpo, que exista um foco denominado ego, dotado de vontade e que possa fazer alguma coisa por meio de seus componentes.” # 149.

 

7. Comentando um sonho, Jung estabelece relações entre imagens oníricas e estruturas orgânicas do sonhador. Novamente reproduziremos aqui apenas as correlações estabelecidas. O contexto global poderá ser localizado nos parágrafos 180 a 201 do texto original.

 

“…Afirmo – e quando digo isso tenho algumas razões para fazê-lo – que representações de fatos psíquicos através de imagens como cobra, lagarto, caranguejo, mastodonte ou animais semelhantes também representam fatos orgânicos. A serpente, via de regra, representa o sistema raquidiano (cérebro espinhal), particularmente o bulbo e a medula. O caranguejo, por outro lado, sendo dotado apenas de um sistema simpático, representa as funções relativas a esse sistema nervoso, mais o parassimpático, ambos localizados no abdômen. O caranguejo é uma coisa abdominal. Então, se traduzirmos o texto do sonho, poderemos ler: se você continuar assim, seu sistema simpático e raquidiano voltar-se-á contra você, e aí não haverá como fugir. E é bem isso o que está acontecendo. Os sintomas de sua neurose expressam a rebelião das funções simpáticas e do sistema raquidiano contra a sua atitude consciente.” # 194(…)

 

“Eis como se comportam as pessoas que só têm cabeça. Usam o intelecto, a fim de afastarem as coisas por meio de um raciocínio qualquer. Dizem: Isso é insensato, portanto, não pode ser, portanto, não é. É assim que faz o nosso amigo. Ele simplesmente abole o monstro através do raciocínio.” # 199

 

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 Por Rosa Farah

 8. Comentando um sonho de criança Jung menciona outras relações entre símbolos presentes no conteúdo onírico e estruturas orgânicas da sonhadora. Os conteúdos envolvidos são: a) uma roda de fogo despencando morro abaixo ameaçando queimar a sonhadora; b) uma barata picando a sonhadora.

 

“A barata segundo penso, relaciona-se ao sistema simpático. Daí ser possível calcular que haja certos processos psicológicos estranhos desenrolando-se na criança, que afetam esse sistema, o que poderá provocar-lhe alguma desordem abdominal ou intestinal. A afirmação mais cautelosa que nos podemos permitir é a de que pode ter havido um certo acúmulo de energia no sistema simpático, causando ligeiros distúrbios. O que também é expresso pela simbologia da roda de fogo, que em seu sonho parece surgir como um símbolo solar, correspondendo o fogo, na filosofia tântrica, ao chamado manipura chacra, que se localiza no abdômen. Nos sintomas prodrômicos da epilepsia, às vezes encontramos a idéia de uma roda que gira no interior da pessoa. Isto também expressa uma manifestação duma natureza simpática. A imagem da roda que gira lembra a crucifixão de Ixion. O sonho da garotinha é um sonho arquetípico, um desses estranhos sonhos que as crianças costumam ter.” # 203

 

9. Ao falar sobre o caráter emocional da transferência:

(…)”As emoções não são manejáveis como as idéias ou os pensamentos, pois são idênticas a certas condições físicas, sendo, portanto, profundamente enraizadas na matéria pesada do corpo.(…)” # 317

 

10. Ao falar sobre o caráter contagioso das emoções:

“A projeção de conteúdos emocionais sempre tem uma influência particular. As emoções são contagiosas, estando profundamente enraizadas no sistema simpático, que tem o mesmo sentido que a palavra ‘sympathicus’.(…)” # 318

 

11. Mais adiante, ainda tratando do tema transferência, Jung comenta as somatizações possíveis de acometer os terapeutas, causadas pela infeção psíquica decorrente das contínuas projeções a que estão expostos durante seu trabalho:

 

“São espinhos do ofício do terapeuta tornar-se psiquicamente infectado e envenenado pelas projeções às quais se expõe. Tem de estar continuamente em guarda contra a auto-estima excessiva. Mas o veneno não afeta apenas a sua psique. Pode ser que perturbe finalmente o seu sistema simpático.

 

Tenho observado um número extraordinário de doenças físicas entre os psicoterapeutas; doenças que não se ajustam à sintomatologia médica conhecida, e que eu atribuo à contínua onda de projeções da qual o analista não discrimina a sua própria psicologia. A condição emocional particular do paciente exerce um efeito contagioso. Pode-se dizer que ela provoca as mesmas vibrações no sistema nervoso do paciente e, conseqüentemente, como os alienistas, os psicoterapeutas também são passíveis de tornarem-se um pouco esquisitos. Não deve-mos nunca esquecer esse fato, pois liga-se profundamente com o problema da transferência.” # 356

 

12. Comentando a eclosão do nazismo na Alemanha – como resultante da ativação de conteúdos arquetípicos -, Jung enfatiza a possibilidade de atuação das forças do inconsciente sobre as estruturas orgânicas. Mais uma vez, devemos ressaltar a recomendação da leitura integral do texto original para a real compreensão das idéias do autor. Vale lembrar a época destas conferências: entre as duas guerras mundiais (1935).

 

(…) “Eu já pressentira esse fato em 1918, quando disse que a ‘besta loura está se mexendo em seu sono’ e alguma coisa vai acontecer na Alemanha(18).

Naquela época, nenhum psicólogo entendeu o que eu queria dizer, pois não entendiam que nossa Psicologia individual não passa de uma pele bem fina, uma pequena onda sobre um oceano de Psicologia coletiva. O fator poderoso, aquele que muda a vida por completo, que muda a superfície do mundo conhecido, que faz a História, é a Psicologia coletiva que se move de acordo com leis totalmente diferentes daquelas que regem nossa consciência. # 371(…)

 

(…) “Não se pode resistir a tal poder. Os acontecimentos escapam a todas as medidas e fogem à capacidade de raciocinar. O cérebro acaba não valendo nada e o sistema simpático é tomado. Ê uma força que simplesmente fascina as pessoas de dentro para fora, é o inconsciente coletivo que está sendo ativado, um arquétipo comum a todos os que vêm à vida. # 372(…)

 

b A platéia apreende, a partir de novos comentários acrescidos sobre a questão anterior, a posição de Jung sobre a neurose enquanto tentativa de autocura e solicita sua confirmação de tal entendimento. Em resposta a essa solicitação, Jung apresenta sua percepção dos aspectos positivos das patologias às doenças físicas:

 

“Participante: Posso dizer então que a irrupção de uma doença neurótica, do ponto de vista do desenvolvimento humano, é um fator favorável?

 

Jung: É isso mesmo, e fico contente que esse ponto tenha sido levantado. Meu ponto de vista é realmente este. Não sou totalmente pessimista em relação a uma neurose. Em muitos casos deveríamos dizer: ‘Graças a Deus ele decidiu ficar neurótico’. Essa é uma tentativa de autocura, bem como qualquer doença física também o é. Não se pode mais entender a doença como um <ens per se>, como uma coisa desenraizada, como há algum tempo se julgava que fosse. A Medicina moderna, a clínica, por exemplo, concebe a doença como um sistema composto de fatores prejudiciais e de elementos que levam à cura. O mesmo se dá com a neurose, que é uma tentativa do sistema psíquico auto-regulador de restaurar o equilíbrio, que em nada difere da função dos sonhos, sendo apenas mais drástica e pressionadora.” # 388 e 389

 

 

Comentário final:

Apresentamos neste artigo apenas uma pequena seleção ilustrativa dos dados coletados em nossa pesquisa. O levantamento feito ao longo de todo o livro permitiu-nos, inicialmente, a constatação de alguns aspectos quantitativos interessantes, não tanto pelos números em si mesmos, mas pelo que podem nos mostrar a respeito da relação estabelecida entre Jung e sua platéia.

Essa mesma releitura implicou ainda numa espécie de imersão nas entrelinhas das cinco conferências. E durante esse mergulho na atmosfera provavelmente dominante durante a apresentação e discussão das idéias de Jung, nossa atenção se voltou para algumas observações e impressões a serem comentadas a seguir. Do ponto de vista mais objetivo, temos já um aspecto quantitativo a destacar. Realizando uma rápida contagem, dispomos dos seguintes números: De um total de 415 parágrafos, constituintes das cinco conferências relatadas, nosso levantamento aponta uma soma de 97 parágrafos selecionados por conterem algum tipo de menção ao corpo e/ou suas estruturas componentes (dos quais apenas 13 foram reproduzidos aqui(19)). Esses números já nos dizem alguma coisa, especialmente se tivermos em conta o fato de essa não ser, a princípio, uma obra sobre a questão do corpo na Psicologia!

 

Mas, se formos um pouco além e observarmos a distribuição dos parágrafos selecionados ao longo das cinco conferências, um dado a mais chamará nossa atenção. Esses 97 parágrafos estão distribuídos da seguinte maneira:

 

* “Primeira conferência”: 13 parágrafos;

 * “Segunda conferência”: 25 parágrafos;

 

* “Terceira conferência”: 28 parágrafos;

 

* “Quarta conferência”: 11 parágrafos;

 

* “Quinta conferência”: 20 parágrafos.

 

Percebemos, então, o fato de a freqüência no uso de algum tipo de menção ao dado corporal ter aumentado, progressivamente, desde a primeira até a terceira noite. Em seguida caiu, durante a quarta conferência, para voltar a aumentar numericamente na última apresentação. Esses números não parecem apenas casuais. Acompanhando a apresentação das idéias de Jung, o leitor atento certamente poderá perceber os movimentos – tanto do próprio Jung quanto por parte da platéia – frente às colocações mais diretamente relacionadas ao tema dos paralelos psicofísicos, tornando bastante significativa a distribuição dos números acima apontada.

 

Durante as duas primeiras conferências, Jung introduz de maneira fluente, tranqüila, quase casual, sua visão integradora de tais processos. Expressa-se de forma bastante direta e enfática, ao estabelecer as primeiras correlações psicofísicas, sem com isso parecer ter intenção de explicar tais paralelismos. Esta “tonalidade” de suas falas podem ser observadas, por exemplo, nos momentos em que aborda: a origem da consciência (#14); o ego (#18), ou ainda quando diferencia afeto e sentimento (# 48).

 

Ao final da primeira conferência, um dos presentes coloca uma pergunta mais direta a respeito – # 68. A questão, no entanto, é formulada em termos do dualismo causa-efeito: os afetos seriam causados por condições fisiológicas ou o processo se daria de modo inverso?

 

Em resposta, Jung expõe com bastante clareza a posição por ele adotada: ressalta a complexidade do problema, bem como os aspectos filosóficos envolvidos. Mais uma vez ressalta ainda, enfatizando seu procedimento, a importância da observação empírica dos fatos. E, nessa medida, apresenta a constatação a respeito da simultaneidade dos eventos psicofísicos. Sublinhando não pretender esgotar sua explicação, propõe o princípio da sincronicidade como um recurso para ampliar parcial e temporariamente a compreensão a respeito. Percebe-se já nesse momento que, embora Jung coloque sua posição de forma clara e aberta a futuras ampliações, não se dispõe a entrar em discussões meramente teóricas a respeito da questão, como lhe foi proposto por alguns dos ouvintes. Mas a platéia não parece dar-se por satisfeita com sua resposta (ou seria com sua não adesão à polêmica?) ao tema. Vejamos como evolui esse ponto do diálogo entre Jung e os presentes às conferências.

 

Ao final da terceira exposição e de forma quase provocativa (# 135 a 137), mais uma vez alguém retoma a mesma questão. Jung de início responde atenciosamente ao participante proponente da questão (# 136). Diante, porém, de nova insistência da platéia, Jung inclui, numa consideração amplificadora, uma observação ao estilo dos sábios orientais frente a discípulos mais jovens e imaturos: intercala um sutil, mas certeiro, “puxão de orelhas”, ao explicar a condição necessária para o fornecimento da resposta solicitada.

 

“Eu deveria dar-lhes um curso de aproximadamente quatro semestres sobre simbologia para que os senhores conseguissem seguir o que eu digo.” #138

 

Poderíamos presumir essa observação de Jung como encerramento da questão. Essa impressão poderia até ser reforçada pelo fato de, na noite seguinte, Jung reduzir suas menções ao tema causador de tanta inquietação. Porém não foi isso o que ocorreu, visto ao final da quarta exposição, mais uma insistência no mesmo ponto ser apresentada por um dos participantes (# 299 a 302).

 

Dessa vez, porém, a resposta de Jung é menos paciente: mostra-se realmente decidido a considerar definida a questão. Entenda-se bem: encerrada apenas enquanto discussão, pois, ao longo da próxima conferência, Jung volta a estabelecer novos paralelos entre os processos psicofísicos, tal como fizera nas apresentações das três primeiras noites.

 

Outro aspecto a ser destacado é a própria maneira com que tais correlações são expressas pelo autor: fica muito claro o fato de, ao traçar esses paralelos, Jung não expressar-se de forma a estabelecer relações causais entre os eventos psicofísicos. Em lugar disto, menciona-os como simultâneos, ou, melhor dizendo, sincrônicos. Descreve os processos globais tal como os observa, de acordo com sua perspectiva integradora, em lugar de estabelecer dicotomias analíticas. Agindo assim, sua forma de expressão antecipa, em sentido mais prático do que teórico, proposições só agora presentes no âmbito da Psicologia acadêmica. Essas considerações começam a explicitar o emergir coletivo de um certo enfoque da consciência, tido como novo para nossos padrões ocidentais.

 

Ainda de acordo com o pensamento junguiano expresso na atualidade, o movimento acima apontado corresponde a um passo importante e previsível do processo de desenvolvimento da consciência em termos coletivos. Embora fundamental para a compreensão de algumas das proposições de Jung, a exploração deste tema, por sua amplitude, escapa ao alcance dos limites desse nosso trabalho.

 

Remetemos, então, o leitor interessado a autores como Neumann(20) e Whitmont(21), entre outros(22), que ocupam-se amplamente dessa questão: o emergir ou, melhor dizendo, o ressurgir da consciência matriarcal. A título apenas de ilustração, faremos uma breve citação de Whitmont a respeito.

“O caráter divisível e, posteriormente analítico da consciência patriarcal é de natureza masculina. Essa maneira particular de experimentar os acontecimentos é, evidentemente, apenas uma entre outras.

 

Não é uma qualidade necessária ou intrínseca à consciência enquanto tal. Acostumados que estamos ao funcionamento patriarcal, ela acabou nos parecendo a única alternativa possível. No entanto, uma consciência de natureza mais Yin, que está começando a fazer-se presente na atualidade, não funciona por meio de separações e divisões, mas através da percepção intuitiva de processos inteiros e de padrões inclusivos.” (23)

Levando em conta os pontos acima levantados, parece-nos, efetivamente, ter Jung razões de sobra para não se mostrar interessado em “discutir” a questão do paralelismo psicofísico, tão insistentemente incitada durante a realização das Conferências de Tavistock. Não, ao menos, nos termos da discussão proposta por aquela platéia. Nem poderia ser de outra forma, visto sua apreensão desses processos estar, já então, alguns passos além de sua época. Nesse aspecto, como aliás em muitos outros, Jung, em seu tempo, já estava caminhando em direções somente agora apontadas por investigadores tidos, na atualidade, como portadores de proposições inovadoras.

 

Por outro lado, registros datados da mesma época das conferências de Tavistock nos apresentam colocações bastante explícitas, feitas por Jung no âmbito de círculos mais restritos, onde podemos encontrar interessantes exemplos do ponto de vista amplificado com que verdadeiramente buscava compreender tais processos.. A título de ilustração apresentaremos a seguir alguns pequenos trechos de comentários feitos por ele durante os “Seminários sobre Assim falou Zarathustra” a respeito da alternância do predomínio “carne/espírito” ao longo da evolução ocidental.

 

“A Filosofia e a Religião são como a Psicologia quanto ao fato de que não se pode nunca colocar um princípio definitivo: é impossível, pois algo que é verdade para um estágio de desenvolvimento é bastante inadequado para outro. Então é sempre uma questão de desenvolvimento, de tempo; a melhor verdade para certo estágio é talvez veneno para outro.” (…)

 

“O espírito pode ser qualquer coisa, mas somente a terra pode ser algo definido. Então manter-se fiel à terra significa manter-se em relacionamento consciente com o corpo. Não fujamos e nãos nos tornemos inconscientes dos fatos corporais, pois eles nos mantém na vida real e ajudam-nos a não perder nosso caminho no mundo das meras possibilidades, onde estamos simplesmente de olhos vendados.”

“Mas é perfeitamente lógico que depois de uma época que esgotou a importância do espírito, a carne deva ter sua vingança e conquistar o espírito talvez mesmo sobrepujá-lo por algum tempo. É claro que expressemos essas coisas usando os termos espírito e matéria, sem saber exatamente o que designamos através dessas palavras.

 

Na filosofia clássica chinesa usar-se-iam os termos Yang e Yin, e dir-se-ia que está de acordo com as regras do céu que eles invertam suas posições. Yang devora o Yin, e do Yang o Yin renasce; ele emerge de novo, e então o Yin envolve o Yang, e assim por diante. Este é o curso da natureza. Os chineses não ficam tão aborrecidos, porque eles tem observado este processo natural por muito mais tempo. Mas a nossa história não é velha o suficiente, então ficamos atônitos ao observar que o espírito devora a matéria, e então a matéria devora o espírito. É exatamente o mesmo processo. Nós fomos ensinados que Deus enviou seu filho para sobrepor o espírito à carne como um evento único na história; e agora nós aprendemos a verdade reversa, que a carne devora o espírito. E nós ainda não conseguimos acreditar nisso, embora tenha se tornado ainda mais óbvio do que quando apareceu pela primeira vez, no tempo da Reforma.”(24)

 

A pequena pesquisa apresentada neste capítulo nem de longe pretende esgotar o tema levantado, ou seja, o tratamento dado à questão do corpo em Jung. Ao contrário, o leitor atento poderá ampliar fartamente essa observação, ao percorrer sua vasta obra.

 

Nossa intenção aqui foi demonstrar de maneira breve, porém fundamentada, as formas mais ou menos sutis com que colocava sua posição essencial a respeito dessa questão. Já ao final da vida, Jung podia se permitir ser mais explícito ao colocar suas posições sobre essa questão, como exemplifica esse pequeno trecho de entrevista concedida por ele a G. Duplain em 1959. A temática geral dessa entrevista era as mudanças e adaptações necessárias para a Humanidade na entrada do terceiro milênio. Em dado momento, Duplain pergunta à Jung:

 “Duplain – Mas que recomendações pode fazer para a passagem que está prestes a ocorrer e cujas dificuldades o senhor teme?

 

“Jung: Um espírito de maior abertura em relação ao inconsciente, uma atenção maior aos sonhos, um sentido mais agudo da totalidade do físico e do psíquico, de sua indissolubilidade; um gosto mais ativo pelo autoconhecimento. Uma higiene mental melhor estabelecida, se quisermos ver as coisas por esse prisma.” (25)

O pensamento junguiano plantou sementes férteis, e muitas já começaram a germinar, há algum tempo, na direção apontada acima. Ao longo deste nosso relato foram mencionados vários autores cujas pensamento mostra o florescimento de idéias concordantes com a recomendação presente na última citação de Jung.

 

Recentemente têm surgido publicações ilustrativas do movimento já muito ativo no sentido da solidificação dessa visão integradora frente à estrutura psicofísica. Um desses trabalhos soaria talvez como uma heresia aos ouvidos acadêmicos, caso tivesse surgido alguns anos antes. Trata-se da recente publicação, em português, do livro de J. P. Conger “Jung e Reich – O Corpo como Sombra”(26). Mais do que o próprio conteúdo dessa obra, destacamos aqui o aspecto no mínimo inusitado do paralelo estabelecido pelo autor já em sua apresentação. Soa-nos como se o espírito de nosso tempo já reclamasse com veemência aquela disposição antecipada por Jung: a reabilitação do corpo do exílio a que foi lançado em nossa civilização ao longo dos últimos séculos.

 

Ou ainda, dizendo de outro modo, a necessidade da reconciliação do ser humano com a (sua) própria natureza, como condição essencial para atingir a transcendência.

 

Porém, mesmo estando ainda o homem tão longe de elucidar os mistérios da união de seu ser terreno com sua alma, alguns pensadores, seguindo a trilha deixada por Jung, nos ajudam a refletir com maior inteireza sobre essa questão. É o caso de Kreinheder, ao dizer, citando Plotino: “na doença, o corpo perde contato com a alma, e não se parece com ela.”(27)

 

 

 

Notas e referências bibliográficas:

(1) Este artigo contem a síntese do material apresentado pela autora no capítulo homônimo do livro “Integração Psicofísica – O Trabalho Corporal e a Psicologia de C.G. Jung”, (Ed. Robe/C.I. – São Paulo, 1995). Este capítulo, por sua vez, foi elaborado com base no trabalho apresentado sob o mesmo título no “Encontro do Sedes” realizado em 1991.
(2) Mais elementos sobre estes aspectos históricos são apresentados no capítulo 1 do mesmo livro citado no item anterior.
(3) McNeely, D. A., Tocar, Terapia do Corpo e Psicologia Profunda. Ed. Cultrix, 1a. edição, São Paulo, 1987.
(4) Definição do termo “somatoterapia”, segundo a autora: “Uso o termo somatoterapia para expressar um processo que ocorre entre o indivíduo e o terapeuta que emprega o movimento e centros físicos para alcançar seu objetivo mútuo: a descoberta dos aspectos da psique antes desconhecidos. O terapeuta usa o centro físico além da atenção tradicional aos processos psíquicos, a fim de incrementar o diálogo entre o consciente e o inconsciente.” Ib, pág. 17.
(5) Ib., pág. 36.
(6) Ib., pág. 37.
(7) Jung, C. G., A Prática da Psicoterapia, Ed. Vozes, 2a. Edição, Petrópolis, 1985, pág. 84, parágrafo 198.
(8) Jung, C. G., Fundamentos de Psicologia Analítica, Ed. Vozes, 5a. Edição, Petrópolis, 1989, perguntas e respostas relatadas ao final da primeira e segunda conferências, conforme será destacado na seqüência deste capítulo.
(9) Jung, C. G., Memórias, Sonhos, Reflexões, compilação e prefácio de Aniela Jaffé, Ed. Nova Fronteira, 4a. Edição, Rio de Janeiro, 1981, pág. 100.
(10) Jung, C. G., op. cit. em 8, pág. 84, parágrafo 194.
(11) A partir desse ponto, em nome da praticidade, a indicação das localizações referentes ao relato das conferências será inserida no próprio texto. O sinal “#” indicará o número do parágrafo de “Fundamentos de Psicologia Analítica” transcrito.
(12) A origem embrionária comum (ectodérmica) da pele e do sistema nervoso central é comentada por vários autores, conforme foi relatado no capítulo 9 – “A Calatonia” – do livro citado na referência 1.
(13) Recentemente observamos o surgimento de novas áreas de pesquisa científica, peculiarmente constituídas pela integração de disciplinas até então tidas como campos independentes e específicos de investigação. Um exemplo é a Psiconeuroimunologia, um novo campo – os primeiros trabalhos datam do início da década de 80 – em que já se investiga, a nível laboratorial, aspectos bastante acurados das correlações psicofísicas. Nos Estados Unidos o Institute of Noetic Sciences (2658, Bridgeway, Sausalito, California 94965) publica o boletim Investigations com informações a respeito do andamento de tais pesquisas.
(14) Ver nota no 16, no texto original, à pág. 22.
(15) Na seqüência do texto original Jung relata um exemplo e ilustra o que acaba de citar.
(16) Ver nota no 19, no texto original, pág. 29.
(17) Ver nota no 20, no texto original, pág. 30.
(18) Ver nota no 74, no texto original, pág. 151.
(19) No capítulo homônimo deste artigo, componente do livro citado na nota de número 1, é apresentada a reprodução integral dos 97 parágrafos selecionados em nossa pesquisa.
(20) Neumann, E., História da Origem da Consciência, Ed. Cultrix, 1a. Edição, São Paulo, 1990.
(21) Whitmont, E. C., Retorno da Deusa, Summus Editorial, 1a. Edição, São Paulo, 1991.
(22) Essa questão, relativa ao ressurgimento da consciência matriarcal, e suas implicações em diferentes níveis dos processos coletivos, vem recebendo nos últimos tempos a atenção de autores junguianos. Não apenas a importância da consideração do corpo para a mais completa compreensão dos dinamismos psíquicos, mas toda uma nova postura diante de questões básicas humanas decorre desta perspectiva. Uma mostra dessa bibliografia pode ser encontrada, por exemplo, nas matérias publicadas na revista da Sociedade Brasileira de Psicologia Analítica: Junguiana. Ou, ainda, em publicações mais recentes da área, onde toda uma ênfase sobre as questões relativas ao tema pode ser constatada.
(23) Ob. cit. no item 21, pág. 78.
(24) Jung, C.G., Seminário sobre: Assim falou Zarathustra, Clube Psicológico de Zurique, 1934/1939, tradução do prof. Pethö Sándor para estudos em grupo, págs. 51 e 52.
(25) Em McGuire, W., e R. F. C. Hull, C.G. Jung: Entrevistas e Encontros; Ed. Cultrix, São Paulo, 1982 cap.: “Nas fronteiras do conhecimento”, pág. 364.
(26) Conger, J. P., Jung e Reich – O Corpo como Sombra, Ed. Summus, 1a. Edição, São Paulo, 1993. A edição original inglesa data de 1988.
(27) Kreinheder, A., Conversando com a Doença – Um diálogo de Corpo e Alma, Summus Editorial, 1a. Edição, São Paulo, 1993, pág. 32.

 

Rosa Maria Farah é Psicóloga (CRP 06/1315) e Professora da Faculdade de Psicologia da PUC-SP, onde Coordena o Núcleo: “Integração Psicofísica”. Contatos com a autora: rfarah@uol.com.br

 

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