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Archive for the ‘Jung e o Corpo’ Category

bird-woman.jpgImagem: “Captured” de Catrin Welz-Stein

Autor: Ana Luísa Testa

RESUMO

Este artigo aborda questões relativas à dois grandes autores da psicologia moderna: Reich e Jung e traça paralelos não só em suas teorias, assim como em suas percepções sobre vida, ciência e cultura. Discute e crítica posições empregadas pelo paradigma mecanicista de ciência e aponta como Reich e Jung – homens com uma visão além de seu tempo – conseguiram transpor os valores científicos de sua época e adotaram uma visão mais integral de homem em suas práticas e teorias, reconhecendo nos outros em si o que há de irracional e obscuro, aquilo que aprendemos a negar e não conseguimos enxergar – a Sombra e nossos corpos.

Palavras-chave: Jung, Psicologia Corporal, Reich,

ABSTRACT

This article discusses issues about two of the main authors of psychology: Reich and Jung, and draw some parallels into their theories, their perceptions about life, science and culture. This article also criticizes the mechanicist model of science and shows how Reich and Jung were able to skip the scientific paradigm of their time and concept a holistc vision about life and human nature in their practices and theories, recognizing in human beings what’s irrational and obscure, what we learn to deny and what we are not able to see – the Shadow and our bodies.

Keywords: Body Psychology, Jung, Reich.

Oscilei em minha decisão sobre comparar partes da teoria de Reich e Jung muitas vezes. Seriam as semelhanças fortes o suficiente para justificar um artigo? E o que fazer quanto às diferenças? Essas diferenças teóricas e técnicas poderiam se complementar de alguma forma? Quem apresenta a melhor proposta de trabalho: Reich ou Jung? Esta última pergunta foi a mais simples de se responder, pois em psicologia não existe certo e errado; as escolhas teóricas são baseadas na personalidade, visão de mundo, história de vida e grau de identificação de cada pessoa com as mais diversas teorias. Muitas correntes teóricas são eficientes, desde que bem aplicadas e compreendidas. É como Sannino (1992) expõe, fazendo referência aos chineses – A palavra certa na boca do homem errado produz resultados errados. A palavra errada na boca do homem certo produz resultados certos. Em psicologia, a eficiência pessoal e técnica do terapeuta são elementos de maior importância.

Seguindo o desenvolvimento de minhas perguntas, quando penso nas diferenças entre os dois, vejo que elas não se restringem apenas à teoria – já que Reich e Jung foram homens muito diferentes. O primeiro era mais extrovertido, concreto, bastante apegado à seriedade, sem raízes – Reich era um cidadão do mundo – e com pouco senso de humor. O segundo, um tipo introvertido, predominantemente pensador, mais recluso, mais humilde em suas convicções e profundamente enraizado na Suíça. (CONGER, 1993). De fato as diferenças são enormes, mas e quanto às semelhanças?

Ambos foram filhos da psicanálise e amigos próximos de Freud. Reich foi o membro mais novo a ser aceito na Sociedade Psicanalítica, e Freud era como um pai para ele. O livro “Psicopatologia e Sociologia da Vida Sexual”, traduzido no Brasil como “A Função do Orgasmo” foi um presente de Reich para Freud, em 1926, por conta de seu septuagésimo aniversário, mas Freud o rejeitou, e por fim acabaram rompendo por divergências não só teóricas, mas também pessoais. Com Jung a situação não foi muito diferente. Freud acreditava que Jung seria seu sucessor na Sociedade Psicanalítica, mas as divergências teóricas foram profundas, já que Jung considerava a redução nas interpretações sexuais algo superficial, e buscava em sua teoria os símbolos ocultos do inconsciente, e por fim acabaram rompendo no ano de 1913. (CONGER, 1993)

Após a ruptura com Freud, Reich e Jung começaram a desenvolver suas próprias teorias e métodos de trabalho psicoterapêutico. Dedicaram-se à psicologia profunda e aos fundamentos da vida de forma brilhante – Reich estudando e trabalhando com a energia e o corpo e Jung com imagens e símbolos do inconsciente.

Outra semelhança é que para os dois autores, corpo e mente são aspectos diferentes de um mesmo organismo. (CONGER, 1993). Hoje, através de um novo paradigma de ciência que vem abrindo caminhos pela física quântica, sabemos que essa visão de homem não poderia ser mais apropriada. Energia e matéria são aspectos de uma mesma unidade. A natureza do elétron se comporta ora como onda, ora como partícula. Muitos físicos, atualmente, aceitam que a matéria esteja impregnada de psiquismo, (SILVEIRA, 2000) e as neurociências apontam cada vez mais as bases materiais de nosso psiquismo, o que não significa a emergência de um reducionismo das ciências psicológicas às neurofisiológicas, mas sim um complemento, uma visão mais complexa e interdisciplinar.

Conforme diz Silveira (2000, p. 164): “Se o psicólogo, nas suas investigações através das camadas mais profundas da psique, encontra a matéria, por sua vez o físico, nas suas pesquisas mais finas sobre a matéria, encontra a psique”. Neste sentido, matéria e psique podem ser consideradas um mesmo fenômeno, o primeiro observado pelo exterior, e o segundo do interior. (VON FRANZ apud SILVEIRA, 2000)

Seguindo esta linha de raciocínio, acredito que Reich e Jung conseguiram se distanciar do paradigma científico predominante da época – o mecanicista, muito bem sintetizado pela máxima de René Descartes – “Penso, logo existo” – que restringe o homem à um ser racional, previsível e fundamentalmente mecânico. (CAPRA, 1995) O homem se identificou com sua parte racional, e neste modelo de ciência, não teve instrumentos para olhar e compreender o todo. É por esta razão que intitulei Reich e Jung como homens além de seu tempo, mostrando alguns prejuízos que uma cisão entre racionalidade e irracionalidade no homem podem acarretar.

Os dois autores conseguiram esquivar-se do padrão mecanicista de ciência cada um à seu modo: Reich de uma forma que ele julgava concreta (científica) e palpável, e Jung por suas observações e classificações sistemáticas de todo material que lhe aparecia, seja por um processo de auto análise, na clínica ou pelo estudo dos mitos. Ao criticar o modelo vigente, em “O Éter, Deus e o Diabo” (2003) Reich questiona por qual razão a ciência não abraçou o estudo do processo vital, e argumentou que todo paradigma científico adotado é sempre o reflexo dos homens de sua época. Podemos dizer então que o homem mecanicista, materialista, que se enxerga tal como uma máquina é incapaz de incluir em sua pesquisa aspectos que ele próprio não enxerga – sua humanidade total.

O físico mecanicista típico pensa de acordo com os princípios da construção da máquina, a quem serve em primeiro lugar. Uma máquina deve ser perfeita. Portanto, o pensamento e a ação do físico devem ser perfeitos. O perfeccionismo é uma característica essencial do pensamento mecanicista. Não permite erros. Incertezas e situações em fluxo são indesejáveis. (REICH, 2003, pág. 89)

O cientista moderno trabalha com modelos artificiais, altamente controlados em laboratório, já que erros e desvios são considerados inoportunos. E desta forma ele se opõe à realidade, pois a natureza opera de forma imprevisível e altamente complexa. Além disso, o cientista omite em seus resultados possíveis erros, lacunas e contradições e expõe apenas o resultado final, já lapidado. Esta é mais uma atitude que ilustra como a necessidade de perfeição do cientista pode atrapalhar a compreensão dos fenômenos. (REICH, 2003)

Jung, assim como Reich, também faz a sua critica à ciência, ao dizer que ela não consegue trabalhar com o que o homem é – sua essência – e que a vida humana pode ser mais bem expressa através dos mitos. O mito expressa a vida com mais exatidão do que a ciência, que falha por trabalhar com noções médias e demasiadamente genéricas para dar conta da riqueza e complexidade de uma vida individual. (JUNG, 1984)

Com isto, eles não queriam dizer que a ciência deva ser descartada, mas sim complementada, e que seus objetos de estudo possam ser visto a partir de uma visão mais complexa, menos fragmentada e menos desconectada.

Como Reich afirmou, o paradigma empregado em determinada época é o reflexo dos homens que o adotam e o validam, então poderíamos dizer que estes homens estão tão fragmentados e desconectados quanto seu modelo de produção de conhecimento? Reich e Jung acreditam que sim, e que este homem é resultado de uma cultura que considera os aspectos irracionais do ser humano como algo inferior. Para eles, esta cisão é o retrato do homem não saudável, e a saúde deve ser reconquistada a partir da união de opostos. (CONGER, 1993) “Natureza e cultura, instinto e moralidade, sexualidade e realização tornaram-se incompatíveis, como resultado da cisão na estrutura humana.” (REICH, 1995, p. 17)

A unidade desses fenômenos será utópica enquanto o homem se negar a ver e levar em conta o seu corpo e toda a irracionalidade à ele pertinente. Keleman (1999), afirma que tal cisão nos faz perder contato com nossa imagem interior, nosso self. O contato é perdido porque aprendemos em nosso meio externo como devemos ser e como devemos nos comportar, e tentamos corporificar essas imagens de fora para dentro. A fim de sermos aceitos, nos afastamos de nossa capacidade de expansão, de contato e de autenticidade em relação ao nosso ser. Vivemos um personagem que acreditamos ser a representação mais fidedigna de nós mesmos, sem nos darmos conta de que forma ele nos consome e reprime nossos sentimentos mais espontâneos, nossa fluidez natural, nos deixando temerosos e destrutivos – indivíduos encouraçados.

Para Reich, a couraça é desenvolvida pela imposição social de controle dos impulsos e emoções. Elas são corporificadas para que o indivíduo se adapte às exigências sociais através da manipulação de seu sistema vegetativo, como por exemplo, prender a respiração (bloqueio do diafragma) a fim de suprimir fortes emoções. As couraças são identificáveis no corpo através de contrações crônicas em grupos musculares funcionalmente associados.  Estamos inconscientes de nossas couraças, de nossa rigidez somática, e do que elas representam. Nossas couraças são as estruturas capazes de manter a cisão no ser humano. (REICH, 2004)

Se para Reich cultura e sociedade são responsáveis pela cisão e pela formação das couraças, para Jung elas são responsáveis pela cisão e pela constituição da sombra.

Da mesma forma que estamos inconscientes de nossas couraças, também estamos inconscientes de nossa sombra. A sombra, para Jung, abrange os lados opostos inaceitáveis pela sociedade – e por fim por nós mesmos – que não conseguimos acoplar ao nosso Ego. É o nosso lado obscuro. (VON FRANZ, apud CONGER, 1993)

Poderíamos então dizer que o conceito de corpo encouraçado de Reich assemelha-se ao conceito de sombra de Jung, na medida em que ambos operam na manutenção da cisão humana entre o par de opostos racional x irracional. Tanto o corpo quanto a sombra contém a história de como o surgimento espontâneo da energia vital (e de nosso self) é rejeitado.

A vitória de uma vida super racionalizada se dá à custa de uma vitalidade mais primitiva e natural. Para quem pode ler o corpo, ele guarda o arquivo de nosso lado rejeitado, revelando o que não ousamos falar, expressando nossos temores passados e presentes. O corpo como sombra é predominantemente, o corpo como caráter, o corpo como energia contida que não é reconhecida, não é constatada, é ignorada e indisponível. (Conger, 1993. pág. 103)

Através desses conceitos descritos e relacionados – couraça e sombra – vemos que Reich e Jung preocuparam-se com a questão da cisão humana e a forma como ela nos afeta e prejudica. À medida que valorizamos a razão e abandonamos parte de nossa humanidade, os aspectos não-racionais permanecerão na sombra, num estado de inconsciência e indiferenciação, e não poderão ser usados na busca do prazer, do contato íntimo e do amor. Acredito que no trabalho psicoterapêutico o principal objetivo é auxiliar nosso clientes a unirem seus opostos, para que consigam amar não só superficialmente, mas também afetivamente, trabalhar não só com a mente, mas também com o corpo e conhecer não só aquilo que é racional, e sim o todo – e, parafraseando Reich, desta forma ajudá-los à governarem suas vidas.

Relacionar Reich e Jung não é tarefa fácil quando pensamos em encontrar muitos paralelos em suas teorias, mas bastante enriquecedora quando procuramos entender a grandeza de pensamento desses dois autores e cruzar conceitos semelhantes que exprimem a realidade humana. Acredito que estudiosos e seguidores de ambas as teorias podem se beneficiar ao beber de outras fontes teóricas. Este texto não esgota de forma alguma as possíveis relações entre os dois, e argumenta basicamente o reconhecimento de que Reich e Jung identificaram um certo círculo vicioso, de um homem desconectado que produz uma ciência fragmentada, e de uma ciência fragmentada que alimenta a desconexão de um homem racionalizado com a sua irracionalidade.

REFERÊNCIAS:

CAPRA, F. O Ponto de Mutação: A Ciência, a Sociedade e a Cultura emergente.25 ª ed. São Paulo: Cultrix, 2005.

CONGER, J. P. Jung e Reich: O corpo como sombra. São Paulo: Summus, 1993.

JUNG, C.G. Memórias Sonhos Reflexões. 6 ª ed. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1984.

KELEMAN, S. Mito e Corpo: Uma conversa com Joseph Campbell. São Paulo: Summus, 1999.

REICH, W. Análise do Caráter. 3 ª ed. São Paulo: Martins Fontes, 2004.

REICH W. A função do Orgasmo.  19 ª ed. São Paulo: Brasiliense. 1995.

REICH W. O Éter, Deus e o Diabo. São Paulo: Martins Fontes. 2003.

SANNINO, A. M. Métodos do Trabalho Corporal na Psicoterapia Jungiana: Teoria e Prática. São Paulo: Editora Moraes, 1992.

SILVEIRA, N. Jung: Vida e Obra. 17 ª ed. Rio de Janeiro: Editora Paz e Terra. 2000.

LINK: http://www.terapiaemdia.com.br/?p=104

 

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Imagem: Angelo Musgo

FONTE: KELEMAN, S. MITO & CORPO: UMA CONVERSA COM JOSEPH CAMPBELL. TRADUÇÃO: BOLANHO, D. M. EDITORA: SUMMUS EDITORIAL, 1999.

Existem lugares solitários onde podemos esconder nossas assombrações com aquela sensação de inviolabilidade que apenas os loucos conseguem construir. Esses lugares solitários costumam a nos seduzir com seu conforto e ao mesmo tempo nos prender como quando se cai em uma armadilha.

 Eu sei que você já deve ter estado nesses lugares solitários por muitos e muitos anos. Tem gente que nunca saiu de seus labirintos simplesmente porque nem consegue imaginar que existe algo fora desse espaço privado e confortável, onde nossa mente pode se isolar do mundo exterior como se fossemos apartados, cindidos, separados.

A ilusão do quarto privado nos diz que nossa mente está em nosso corpo, como alguém está sozinho em um quarto. Protegidos por grossas paredes e uma porta trancada com cadeado. É como se esse alguém, nesse lugar solitário e confortável, olhasse o mundo à distância pelas janelas desse quarto.

As paredes do quarto são nossos ossos, nossos músculos, nossa pele, nossas fronteiras. As janelas são nossos sentidos e o solitário dentro daquela sala vazia é cada um de nós.

Essa imagem, moderna, derivada de um conjunto bem articulado de teorias e concepções sobre o mundo e a alma humana, que derivam de Descartes, Locke, Leibniz e até Shakespeare, nos presenteou com a segurança de nossa solidão e com uma curiosa alucinação de onipotência mental.

O dualismo corpo-mente nos presenteou com a terra devastada. Com a impressão de que temos um corpo como quem tem uma moeda no bolso. O esquecimento do corpo é um tópico bem estudado na filosofia contemporânea. Nossa impressão de deslocamento, nossas sensação de exílio, a ideia de uma prisão física para uma alma imortal (que remonta as antigas seitas órficas e ao gnosticismo cristão dos primeiros séculos) nos ofertou um mote forte para o abandono do corpo, com a desconcertante impressão de que não estamos comprometidos com esse mundo e que o corpo, como parte da história biológica da terra, é apenas um invólucro provisório de nossa essência, uma capa protetora para um Eu intangível que se esconde por trás de suas paredes.

Joseph Campbell percebeu essa síndrome moderna e chamou o estado de nossa corporeidade contemporânea de terra devastada. Quando Stanley Keleman, coordenador do Centro para estudos energéticos em Berkeley, Califórnia, encontrou-se com Campbell e em sua parceria, entabulou uma longa conversa sobre corporeidade e mito, um caminho de escape da terra devasta começou a ser pensado.

A ideia é que os mitos são criados não em função da mente, mas sim em resposta a determinadas sugestões do corpo é o fio de Ariadne de nosso quarto privado. Como um sonho coletivo, o mito nos apresenta uma chave para compreendermos a relação com nossos corpos e para que possamos abandonar o estado de alienação em que nos encontramos diante do fluxo biológico da terra e reencontrar um lugar menos solitário para se estar nesse mundo.

O mito de Parsifal e do Graal é o mote do livro de Keleman em suas conversas com Campbell (Mito e corpo: uma conversa com Joseph Campbell – Summus Editorial). A conexão de nosso Self com nosso corpo ancestral, um corpo coletivo que remota a tempos onde a memória das vidas individuais e particulares não pode chegar é expressa através da narrativa mítica. O mais interessante das intuições de Campbell a partir da história de Parsifal e da busca pelo Graal é que nossas vidas privadas, a história de nossas individualidades e de nossas experiências pessoais não podem ser contadas sem o apelo a uma narrativa, a uma trama que une diversos personagens que se sucedem e que aparecem marcados em nossos corpos, na infância, na adolescência, na juventude, na vida adulta, na velhice…  Arthur Schopenhauer explicou isso uma vez dizendo: “o mundo é como um sonho sonhado por um único sonhador, no qual todos os personagens estão sonhando também. Eles estão sonhando suas vidas e tudo se coordena em uma harmonia misteriosa”.

Existem muitos personagens corporais em nossas histórias. Existe o velho sábio, o jovem guerreiro, a grande mãe. Existem nossos próprios personagens pessoais que misteriosamente se conectam aos personagens dos mitos que compõe nossa experiência coletiva. Macunaíma, Beowulf, Parsifal, Gilgamesh… não importam os nomes, suas narrativas se fundem com as nossas e suas histórias nos apresentam a chave para nos livrarmos do confortável e vazio lugar solitário de nossa própria mente. Para que possamos reaprender a ser nosso corpo e semear novamente nossa terra devastada com algum tipo novo e revigorante de esperança.

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PASSIONATE FLAMENCO

Imagem:  Passionate Flamenco

Por: Vera Cristina Marcellino*

ISSN 1516-0793

Pouco vivenciamos nossos corpos em movimento de uma forma consciente sobre os significados que cada gesto cotidiano pode carregar. Em linguagem psicanalítica diríamos um movimento carregado de valor, de sentido, algo que vem cheio de afetividade, que nos liga a um estado  mais profundo que a consciência cotidiana poderia observar. A surpresa é que o corpo, mesmo  em estado cotidiano não deixa nunca de estar carregado de sentido.

O movimento é a expressão particular de cada pessoa, revelando involuntariamente, suas mais íntimas características psíquicas.

Ele traz consigo, invariavelmente, aspectos conscientes e inconscientes, culturais, sociais, afetivos, simbólicos e assimila informações. O corpo, ao contrário do clichê, nome de livro, não só fala. O corpo também tem memória, escuta e elabora, pensa, simboliza, identifica sentidos, aquilo que de alguma forma tem valor para o indivíduo.

Considerando a experiência sensível do movimento uma oportunidade para a elaboração interna e dessa elaboração desenvolver o conhecimento das próprias habilidades, de seu repertório expressivo e, simultaneamente, integrar processos psíquicos ainda não conscientes, poderemos destacar que o corpo compreende à sua maneira como integrar e expressar esses processos. Ele tem uma linguagem própria que foge de códigos pré-estabelecidos ou racionais.

É raro encontrar uma abordagem terapêutica que integre os aspectos simbólicos que o corpo vivencia aos aspectos expressivos e integrativos desses símbolos através do movimento corporal.

Há técnicas terapêuticas que utilizam o corpo como recurso para psicoterapia; há terapias corporais, mas ainda é muito escasso no Brasil um trabalho que atinja simultaneamente essa unidade psicofísica através de processos artísticos, mais apropriadamente, processos da dança, ou do movimento expressivo, que no contexto da psicologia de Carl Gustav Jung poderemos chamar de Terapias Expressivas.

O princípio essencial da dança como técnica expressiva é a autonomia do indivíduo em investigar-se em movimento de tal forma que identifique a si mesmo, ou seja: descubra seu corpo e seus aspectos sensíveis e simbólicos.

No desenvolvimento desse trabalho identificamos que, articular o corpo, às emoções, às imagens simbólicas, ao mesmo tempo em que o movimento é buscado em sua forma mais crua, ele, o corpo, transborda elementos que se alimentam mutuamente: significados se desdobram em movimentos, movimentos resgatam significados.

Para Jung o processo criativo consiste (até onde nos é dado segui-lo) numa ativação mais profunda do inconsciente e numa elaboração e formalização na obra acabada. À camada mais profunda do inconsciente, nesse contexto, C. G. Jung refere-se aos árquétipos, marcas do inconsciente coletivo partilhadas pela humanidade e que resgata no indivíduo um senso de unidade, de ter um lugar no mundo. É paradoxal, mas emocionante. Para ele, a arte seria então, uma forma de tornar mais acessível e consciente esse processo de percepção de elementos não facilmente verbalizáveis e não cognitivos; forma de conhecimento mais complexo e total por ser vivencial.

Os conteúdos simbólicos podem, pela vivência poética da dança, ser requisitados para um diálogo sincero de aproximação, de acolhimento e de transformação. O resultado é: equilíbrio emocional, equilíbrio corporal.

Podemos identificar semelhanças entre os processos criativos e sensíveis e o conceito de processo de individuação que C. G. Jung propõe ao longo de sua obra. Uma vivência sensível permite acessar um universo mítico e arcaico no movimento que torna-se expressivo e integrativo em si mesmo. Dá sentido e integra no indivíduo aqueles aspectos sombrios escondidos às sete chaves, mas que, por ser vivencial, só a pessoa em processo descobre, não é necessário verbalizar, aqui, na maioria das vezes, as palavras são dispensáveis, mas a escuta faz parte do ambiente acolhedor que pretendemos oferecer. Ainda segundo Jung, nossa meta como seres humanos é a Individuação, um processo natural de amadurecimento.  É o caminho da plenitude, do encontro do Si-mesmo ou Self. Quando Jung fala de individuação, refere-se ao caminho que é orientado pelos símbolos arquetípicos (incluindo imagens mitológicas) que emergem espontaneamente, de acordo com a natureza do indivíduo.

Todos nós temos nossas identificações simbólicas com algum aspecto comum à humanidade, esses momentos de identificação não são mensuráveis. A arte possibilita esses momentos de encontro.

Ainda rara como terapia no Brasil, a dança está apresentando resultados surpreendentes na área de saúde mental, sua expansão está tardia, já que desde os primórdios da humanidade é através do movimento (corpo expressivo) que o ser humano percebe, identifica, explora e relaciona-se com o mundo, com o cosmos, com o outro e consigo mesmo.

*Vera Cristina Marcellino, Mestre em Artes pela Unicamp, Bacharel e Licenciada em Dança pela Unicamp. Facilitadora de recursos expressivos em arte-terapia (dança. Aborda e pesquisa a articulação e diálogo entre performance-art,  somma psíquico e psicologia analítica.

 LINK: www.symbolon.com.br/artigos/A_danca_e_a_psicologia_junguiana.doc

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Por : Bárbara Gehrke Rohde, Psicóloga e Arteterapeuta – CRP 07/15404

Primeiramente vamos pensar na arte como forma de expressão do ser humano. Poderíamos supor que o homem das cavernas já utilizava a arte como meio de catarse, uma forma de colocar pra fora seus sentimentos e emoções. E muitas foram às manifestações de dor, angústias, luta, morte, vitórias e alegrias representadas nas paredes das cavernas (pinturas rupestres), o que nos faz pensar em projeções do inconsciente representadas por imagens e símbolos. “A arte é quase tão antiga quanto o homem” (Fischer 1971, p. 21).

As artes em geral têm o poder de alcançar emoções profundas, como refere Brown (2000), elas podem mudar a maneira como você se sente em relação ao mundo e a si mesmo. A arteterapia consegue examinar a forma como você olha para si mesmo e para o mundo. Seja trabalhando com argila, palavras ou teclas de um piano, um artista constrói um mundo de símbolos que libera emoções e idéias. Todos nós temos símbolos que representam nossos pensamentos e sentimentos.

Pessoalmente, considero a arteterapia uma “ferramenta a mais” para meu trabalho com psicoterapia. Um processo terapêutico de utilização da arte, que incluo o relaxamento, meditação, pintura, modelagem, desenho, costura, dança, teatro, marionetes, enfim, toda representação artística. Posso utilizá-la em psicoterapia individual, de grupo, com diferentes idades e tipos psicológicos, facilitando o entendimento do sujeito desde a anamnese até o tratamento psíquico em si. É utilizada em escolas, organizações e na área clínica (hospitais, consultórios, instituições psiquiátricas, etc). E também por profissionais da área da saúde, educação e artes.

Trabalho com a arteterapia de abordagem Junguiana, sobre esta, aponta Philippini (2000), que Jung, em sua obra, descreveu amplamente como, nas culturas mais diversas, etapas do processo de individuação eram codificadas em símbolos com temáticas similares e estas representações do inconsciente coletivo repetidas em mitos, contos, tradições religiosas, tratados alquímicos e ritos de passagem de locais geograficamente distantes. Estas imagens recorrentes em toda a humanidade reaparecem em sonhos, desenhos, pinturas, esculturas e nos símbolos produzidos através da imaginação ativa e nas técnicas de visualização e meditação.

Psicologia e Arte: “Apesar de sua incomensurabilidade existe uma estreita conexão entre esses dois campos que pede uma análise direta. Essa relação baseia-se no fato de a arte, em sua manifestação, ser uma atividade psicológica e, como tal, pode e deve ser submetida a considerações de cunho psicológico; pois, sob este aspecto, ela, como toda atividade humana oriunda de causas psicológicas, é objeto da psicologia” (Jung, 1971, p.54).

Conforme Philippini (2000), a arteterapia resgata a promoção, a prevenção e a expansão da saúde. A arteterapia auxilia a resgatar desbloquear e fortalecer potenciais criativos, através de formas de expressão diversas, ademais facilita que cada um encontre, comunique e expanda a seu próprio caminho criativo e singular, favorecendo a expressão, a revelação e o reconhecimento do mundo interno e inconsciente. Destaca ainda, que em arteterapia com abordagem Junguiana, o caminho será fornecer suportes materiais adequados para que a energia psíquica plasme símbolos em criações diversas. Estas produções simbólicas retratam múltiplos estágios da psique, ativando e realizando a comunicação entre inconsciente e consciente. Este processo colabora para a compreensão e resolução de estados afetivos conflitivos, favorecendo a estruturação e expansão da personalidade através do processo criativo.

E Osório (in Valladares, 2003) salienta que a arteterapia é uma prática terapêutica que trabalha com a intersecção de vários saberes, como educação, saúde e ciência, buscando resgatar a dimensão integral do homem. A arte se propõe a algo pessoal e único, e expressa a linguagem do inconsciente.

Segundo Valladares (2003), a arteterapia na teoria Junguiana, propicia o fornecimento de materiais expressivos diversos e adequados para a criação de símbolos presentes no universo imagético singular de cada cliente, universo que se traduz em produções simbólicas que retratam estruturas psíquicas internas do inconsciente pessoal e coletivo. A arteterapia facilita a entrada no psiquismo humano por infinitas possibilidades da arte e através da linha Junguiana o surgimento dos símbolos abre caminho para o trabalho do arteterapeuta.

E finalmente é importante lembrar que somente psicólogos ou psiquiatras com formação em psicoterapia poderão utilizar a arteterapia na psicoterapia, sobre isto, Païn (1996), sublinha que a arte em psicoterapia é realizada, sobretudo, por profissionais específicos da psicologia. Freqüentemente, neste processo, considera-se a atividade plástica secundária, pois o efeito terapêutico sobrevém somente das trocas verbais em torno do conteúdo da obra. Utiliza-se a expressão plástica, neste caso, como meio de atender a comunicação verbal ou como a única maneira de estabelecer uma comunicação, caso em que a representação simbólica é ignorada.

Não precisamos ser artistas ou conhecer as técnicas das artes para fazer arteterapia, basta ter motivação para o autoconhecimento.

REFERÊNCIAS:

Brown, D. (2000). Arte Terapia: fundamentos. São Paulo: Vitória Régia.

Fischer, E. (1971). A necessidade da arte. (3ª ed.) Rio de Janeiro: Zahar Editores.

Jung, C. G. (1971). O espírito na arte e na ciência. (3ª ed.) Petrópolis: Vozes.

Païn, S. e Jarreau, G. (1996). Teoria e técnica da arte-terapia: a compreensão do sujeito. Porto Alegre: Artes Médicas.

Philippini, A. (2000). Cartografias da coragem: Rotas em Arte Terapia. Rio de Janeiro: Pomar.

Valladares, A.C.A. (2003). Arteterapia com crianças hospitalizadas. Dissertação de Mestrado não publicada, Universidade de São Paulo, São Paulo, SP, Brasil.

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POR FELIPE SALLES XAVIER

Nosso corpo é uma ferramenta imaginal de contato com as emoções, com os elementos da natureza que o formam, com a alma e com a mente, repetindo a história de sua criação. Para uma explicação do corpo arquetípico foi utilizada questões da Cabala no plano expressivo da manifestação do arquétipo.

 

A palavra Cabala significa “Tradição”, ela é um sistema de compreensão do mundo místico judaico, onde se acreditava que seria possível entender Deus. Mas, com o passar dos anos a Cabala evolui como forma de compreensão da organização do esquema corporal da vida, sendo chamada também de a Árvore da Vida.

 

A árvore é um símbolo sagrado encontrado nas mais diversas culturas em diferentes épocas, ela faz parte do inconsciente coletivo. Segundo a psicóloga Angelita Scárdua, ela representa a estrutura do universo, seus galhos representam a conexão com as dimensões superiores e sagradas da existência humana, já as raízes simbolizam a ligação com os aspectos inferiores, primitivos e básicos e funcionais da vida. Seus frutos dão a ela atributos positivos do eterno.

 

Sempre damos significados a algo tentado explicar a nossa própria existência, e uma forma pela qual fazemos isso é na utilização da Metáfora Espacial, que é algo simples que nos auxilia a compreensão arquetípica dos símbolos. Ela se refere às dimensões físicas, “à cima”, “a baixo”, “esquerda” e “direita”, todos estes tem uma associação em diversas áreas inclusive com o corpo.

 

Quando falamos que estamos nos sentindo bem, felizes ou com outros sentimentos positivos dizemos que nos percebemos para “cima”, e quando estamos nos sentindo mal, tristes dizemos que nos sentimos para “baixo”. Podemos ver que sempre usamos os significados da metáfora espacial em nossas vidas.

 

Na religião, nos contos-de-fada, na mitologia podemos ver que associamos o sagrado, o divino, o espiritual, o bondoso, o superior e os deuses com o espaço geográfico do alto, e quando falamos de mal, desonesto, sujo, diabo ou seres maléficos e as perdas, ligamos a idéia do espaço geográfico do subterrâneo e inferior.

 

Com essa explicação torna-se mais fácil entender o sentido filosófico e existencial da Árvore da Vida no sentido cabalístico. Na parte superior da árvore cabalística localizada na cabeça vemos a Coroa e na parte inferior localizado nos pés e pernas vemos o Reino, o que simbolicamente demonstra a conexão do sagrado com o mundano. Há também na cabala a separação do lado esquerdo com a escuridão e impureza, e no lado direito temos a fonte da luz e da pureza.

 

Sempre associamos inconscientemente a parte esquerda do corpo com algo negativo, pois biologicamente e culturalmente não desenvolvemos este lado, evoluímos desenvolvendo o lado direito. O lado esquerdo mostra no esquema corporal o coração que é símbolo da emoção e também é o lado do inconsciente, pois é o lado menos trabalhado, e nele existem muitas emoções perdidas e não trabalhadas, por isso o associamos ao impuro e ao escuro, pois está mal resolvido e escondido. Também está associado à mãe.

 

Já o lado direito é naturalmente o lado mais desenvolvido na maioria das pessoas, é o lado do “trabalho” porque evoluímos utilizando essa parte do corpo, portanto é a zona do consciente, da luz, pois é o que conhecemos e temos a percepção mais avançada.

 

A luz é o símbolo típico do conhecimento em todas e quaisquer mitologias, contos-de-fada e religiões. Isso também é biológico, basta olhar para os tempos ancestrais, nesta época fazíamos tudo durante a parte clara do dia, porque era menos perigoso e nos permitia boa visão das coisas ao nosso redor, já à noite não tínhamos auxilio da luz para enxergar nada, existiam inimigos a espreita, feras e o desconhecido. Por isso damos a luz o símbolo do conhecimento e as trevas o significado de sombrio, perigo e maléfico. Também está associado ao pai.

 

A esquematização simbólica da Cabala se organizou de acordo com a experiência evolutiva humana. Segundo o livro Zohar (Esplendor) – um livro místico judaico – ensina que a alma humana se divide em três elementos básicos o Nefesh que se associa aos instintos desejos corporais e é a parte inferior e animal da alma. O Ru’ach é associado às virtudes morais e a habilidade de distinguir o bem e o mal, é a parte mediana do espírito. E o Neshamah é a parte que nos separa claramente das outras formas de vida, relaciona-se com o intelecto, permite que o individuo tenha consciência de Deus.

 

E com Raaya Meheimna – um livro posterior ao Zohar – ainda incluem mais dois níveis. O Chayyah que nos permite ter a percepção do divino e o Yehidah que possibilita ao homem a união máxima com Deus, é a parte mais superior da alma. Isso deixa mais clara a árvore cabalística na Metáfora Espacial.

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POR FELIPE SALLES XAVIER

Na esquematização imagética existem 10 centros cabalísticos em nosso corpo simbólico, chamados Sephirots, que significariam “esferas que emanam luz” que funcionam vinculada uma a outra. Segundo a psicoterapeuta junguiana Lucy Penna, são localizações imaginais de 10 arquétipos. Esses Sephirots são interligados gerando 22 caminhos, que seguem os princípios dos arcanos maiores do Tarô que representam imagens arquetípicas do inconsciente coletivo. Os Sephirots são os seguintes: Kether, Chokmah, Binah Chesed, Geburah, Tipheret, Hod, Netsach, Yesod e Malkhuth, e ainda uma décima primeira que não é um Sephirot, Daat. Logo abaixo seguem suas localizações e seus aspectos simbólicos.

 

Malkhuth (O Reino) – se localiza nos pés e em nossas pernas, é o contato com o solo, representa a conexão com a parte instintiva, animal é a realidade física. Engloba também a energia de sustentação do corpo e da vida, é o local da energia de telúrica, ou seja, a energia de ação, e simbolicamente é o contato com a mãe terra. Gaia na mitologia grega é a deusa-mãe terra, a criadora e geradora dos outros deuses, ela representa o interior humano, fonte de emoções mais primitivas.

 

Yesod (Fundamento / Forma) – se localiza acima do órgão genital e abaixo do abdômen, é o local que funciona como um reservatório das inteligências e da criatividade, nesse local os atributos são misturados, equilibrados e preparados para a revelação física. É o centro que reuni informações de oito Sephirots. Essa área do corpo é conhecida como o ventre, ele é o centro da consciência humana, lá equilibramos todas as energias vitais e sexuais. Representa o contato com a vida e com o feminino. Yesod é olhar para si mesmo sem usar mascara alguma, permitindo-se assim entrar em contato com o eu profundo e criativo verdadeiro. Sua imagem arquetípica é a lua.

 

Netsach (Vitória / Poder / Eternidade) – se localiza no lado esquerdo próximo entre a parte superior da coxa e a cintura, fica no local do Ílio (osso que forma a cintura), é o local aonde se abriga o centro responsável pelo o contato com o próximo, surge daí o desejo de superar os próprios limites. É ligado ao fato de saber lidar bem com as paixões e com a sedução.  Engloba ainda o principio fálico fertilizador, sendo assim representa o local do masculino.

 

Hod (Glória / Majestade) – se localiza no lado oposto a Netsach, é um canal de melhoria interna e de contato com o outro, representa a aceitação dos pensamentos e reconhecimento do eu em relação ao outro, ou seja, criação do espaço interno e individual. É o principio receptivo dos óvulos femininos. A energia criativa de Yesod surge de uma comunicação entre Netsach e Hod.

 

Tipheret (Beleza / Coração) – Situa-se no centro do tórax em cima do coração, é o centro da árvore da vida. Aqui temos a complementação de consciente e inconsciente, este local integra os opostos, trazendo assim a inteligência emocional, sendo o centro da sabedoria da vida e do entendimento sobre a luz do ego (consciência). É fonte de emoções superiores como os amores, principalmente o amor ágape. Para os gregos existem quatro tipos de amor, as quais são: Eros (o amor físico e sexual, a paixão), Storge (o amor familiar), Philos (o amor entre amigos, a amizade) e por ultimo o Ágape (o verdadeiro amor, o incondicional). O amor Ágape significa generoso, é o amor que se escolhe ter, um bom exemplo desse amor é Jesus cristo. É o centro cabalístico que tem como imagem arquetípica o sol.

 

Geburah (Justiça / Rigor) – Está localizado no ombro direito é o centro de controle dos desejos responsável por questionar os impulsos e as vontades. Centraliza a energia arquetípica a canalizando em questões objetivas no mundo real, com o ideal de superar as barreiras e transformar a própria vida.

 

Chesed (Misericórdia) – Está localizado no lado oposto de Geburah é o local que representa a vontade de compartilhar as boas emoções da vida, o impulso de se doar ao próximo e também é conhecida como compaixão. De ponto de vista simbólico é o local do intuitivo, do espiritual e da bondade.

 

Binah (Sabedoria / Entendimento) – Situa-se no lado esquerdo do cérebro, fica na área da razão do ser humano. Este ponto cabalístico influencia as definições racionais e a organização do pensamento, ou planejamento concreto de algo. Tem ligação com o símbolo arquetípico da água, que sempre esta associada ao feminino e ao futuro.

 

Chokmah (Razão / Inteligência) – Está associado ao lado direito do cérebro. É a região da intuição, das manifestações artística, da criatividade e das grandes idéias, tem como imagem arquetípica o elemento fogo, que se associa ao masculino e o passado.

 

Kether (Coroa) – É a copa da árvore, situa-se na parte superior da cabeça. É a unificação de todas as Sephirots, representa a Luz Superior, gera todo o potencial criativo. No hinduísmo é visto como o Brahma, o principio da energia vital. Nesse ponto concentram-se as experiências da vida, dando passagem ao reino espiritual. A nível simbólico podemos dizer que é o caminho iniciativo para a conexão com o Inconsciente coletivo.

 

Existe ainda um possível 11º Sephirot conhecido como Daath (Conhecimento), ela não é como os outros centro, pois não emana uma energia própria. Representa o abismo, o caos, porque é o ponto de unificação entre o corpo e o espírito, também é o contato com Deus. Se localiza entre o pescoço e o tórax, e simboliza a potencialidade masculina e conhecimento profundo de si – mesmo em relação aos sentimentos profundos.

 

A cabala nós ainda encontramos a divisão de três em três centros. Atziluth (Kether, Chokmah e Binah), Beriah (Chesed, Geburah e Tipheret), Yetzirah (Netsach, Hod e Yesod) o que denuncia a dinâmica arquetípica do corpo, possibilitando outras conexões energéticas entre seus centros.

 

O Atziluth é o “Mundo das Emanações” que é o conjunto responsável pelas irradiações das idéias. O Beriah é o “Mundo das Criações” representando o contato das emoções e sentimentos com o potencial criativo. O Yetzirah é o “Mundo das Formações”, sendo aquilo que nos permite trazer para o mundo físico algo que é interno. E ainda há o Asivah que é um único centro o Malkhuth (Reino), o “Mundo das Ações”, que nos impulsiona oferecendo energia para as atitudes.

 

Em suas separações verticais a cabala ainda faz uma ligação entre os arquétipos de Anima e Animus e sua integração (o Sizígia). O Sizígia é o arquétipo da alteridade, ou seja, é o arquétipo que trabalha na unificação e equilíbrio das diferenças do “eu-pessoal” do individuo, ele está configurado na coluna central da árvore cabalística. Anima é o arquétipo que personifica o feminino, esta relacionado à coluna esquerda sendo o centro da emoção e ao sagrado. Já Animus está relacionado à personificação do masculino, e representa a organização a ordem e o racional.

 

Com isso podemos concluir a importância dos estudos da organização da Cabala, como apoio arquetípico e simbólico para entendermos o funcionamento somato-psíquico da personalidade e dos centros expressivos dos arquétipos em nossas vidas.

 

Entendendo as correntes energéticas arquetípicas podemos entender os simbolismos dos machucados, das quedas, dos hematomas, das dores musculares e dos problemas de pele. 

 

Pois, nossa mente simbólica organiza de forma inconsciente acontecimentos para que nós possamos abrir os olhos para problemas que passamos e que de certa forma nos causam sofrimento, embora a vida nos avise de muitas questões internas mal resolvidas, muitas vezes deixamos de lado não dando o devido valor as experiências vividas, abandonando assim o valor profundos dos acontecimentos externos ao nosso corpo e mente.   

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Por Lucy Coelho Penna

 

Apresentado no Simpósio “Relaxamento: sua importância no contexto psicoterápico”, 36ª Reunião Anual da SBPC, São Paulo, 4-11 de julho de 1984. Publicado na Revista Ciência e Cultura (SBPC), 1984.

 

RESUMO

A calatonia é um método de relaxação proposto por Sándor o qual utiliza toques suaves sobre o corpo do paciente, em associação com a psicologia profunda. As três técnicas componentes do método são brevemente descritas neste trabalho, e comentadas focalizando-se a sua relação com a psicoterapia, com as reorganizações psicofisiológicas e com as mudanças posturais. Partes das respostas que são induzidas pelo método calatônico parecem ser devidas ao papel dos fatores cinesiológicos que os toques suaves mobilizam, assim como às sensações, afetos, imagens e idéias que o estímulo tátil pode despertar. Em qualquer destas categorias, as respostas do paciente ao método não devem ser vistas somente como recondicionamentos psicofisiológicos, mas, e sobretudo, como recolocações existenciais amplas e profundas.

HISTÓRICO

A calatonia é um método de relaxação proposto por Sándor (7, 8), composto de três técnicas para serem utilizadas em associação com a psicologia profunda. Sándor partiu das observações realizadas em hospitais da Cruz Vermelha, antes e durante a II Grande Guerra, para elaborar o seu método, cujo desenvolvimento posterior teve a influência das suas experiências clínicas no Brasil.

 

A técnica básica desse método, conhecida também como calatonia, foi apresentada pela primeira vez em público por ocasião do evento que a Sociedade de Psicologia de São Paulo promoveu em 1969.

Naquela ocasião, Sándor apresentou, pela primeira vez, a técnica básica, embora ela já estivesse em uso por diversos profissionais, em São Paulo. Assim , na mesma oportunidade, Mauro (3) e De Santis (1) apresentaram as suas experiências clínicas com o uso desta técnica em psicoterapia de adultos. Mais recentemente, esta última autora também mostrou o emprego da calatonia em psicoterapia infantil (2). Na mesma linha de consideração, Penna (5) apresentou o caso de uma menina de cinco anos, cuja excessiva tensão oral a tinha levado a grave síndrome da articulação temporomandibular, recuperando-se através da calatonia integrada à psicoterapia de linha jungueana. Mais recentemente, a mesma autora propôs alguns princípios para a avaliação do contexto teórico da calatonia, em sua modalidade básica (5).

 

Embora as observações já publicadas representem apenas uma parcela muito pequena das experiências clínicas feitas pelos profissionais que empregam o método calatônico, atualmente há outros relatos feitos oralmente, em várias ocasiões. Durante os últimos anos o método tem sido divulgado através de cursos de especialização 1 e de grupos de estudos, realizados por Sándor ou por seus colaboradores, tanto na universidade, quanto em clínicas particulares.

 

 

OBJETIVO DO MÉTODO

Em um plano mais abrangente, esse método visa uma reavaliação existencial ampla e foi planejado para alcançá-la em integração com a psicologia profunda. Visto de modo operacional o método objetiva a regulação do tono psicomotor e procura o recondicionamento psicofisiológico do paciente, através de estímulos táteis suaves, aplicados em pontos determinados do corpo.

 

Os seus efeitos são observados no planejamento da postura, que é conseqüência da regulação do tono das musculaturas esquelética e visceral; assim como na soltura dos movimentos e na expansão da sensibilidade proprioceptiva. Com um melhor conhecimento do próprio corpo, o sujeito então pode reavaliar as suas expressões corporais e elaborar a linguagem dos próprios sintomas, quando os possui. Segundo Sándor (8), os conteúdos inconscientes que estão associados às desorganizações psicofisiológicas aparecem na forma de imagens, idéias, lembranças e sonhos, refletindo o momento em que vive a pessoa. Sempre que surgem, essas produções das camadas mais profundas da personalidade são acolhidas e trabalhadas no processo terapêutico, sem que se procure dirigi-Ias e nem também forçá-las em esquemas interpretativos, mas dando-lhes a dimensão profunda adequada.

Assim, a calatonia possibilita a ampliação do mundo interno e abre a recepção do simbolismo das representações corporais. As funções intelectiva e ideatória são, por este meio, também mobilizadas, do que resulta um amplo processo transformador, o qual é diretamente manifestado na melhor qualidade dos relacionamentos interpessoais.

O método é constituído, atualmente, por três técnicas. A primeira, que foi originalmente apresentada como “calatonia” e duas outras, que devem ser consideradas como desdobramentos da técnica básica: Descompressão Fracionada e Toques de Reajustamento nos Pontos de Apoio. As três técnicas possuem em comum o modo suave como empregam a estimulação tátil, além do princípio geral de utilização em um contexto psicoterapêutico. Entretanto, dentro de certos critérios éticos, a técnica básica tem sido empregada também na prática médica; em fonoaudiologia e fisioterapia, assim como em reabilitação e em terapia ocupacional (relatos pessoais). Além disso, estão sendo presentemente desenvolvidas várias experiências com essa técnica em centros comunitários (penitenciárias, creches, escolas e hospitais), cujos relatos (pessoais) indicam resultados bastante promissores.

 

1. Inicialmente na Universidade Católica e, depois, no Instituto Sedes, em São Paulo.

 

A TÉCNICA BÁSICA

A aplicação do método calatônico em sua modalidade básica (calatonia) consiste na realização de uma seqüência de nove toques suaves e monótonos, os quais são aplicados sobre a pele, nas extremidades do corpo. Pode-se escolher entre a área dos pés e calcanhares e a área das mãos e pulsos, segundo critérios terapêuticos. Preferencialmente, realizamos a calatonia sobre as extremidades distais, de acordo com as normas descritas por Sándor (7, 8).

 

Para a aplicação, o paciente deita-se em decúbito dorsal, com os braços bem soltos ao longo do corpo. Sugere-se que feche os olhos, podendo abri-los, se quiser; o terapeuta solicita que aceite as mudanças que poderão acontecer em seu estado geral, sem procurar interferir, além de que é muito importante que não pense em relaxar-se, apenas “deixe acontecer”. O terapeuta senta-se, então, aos pés da cama e, muito suavemente, toca os pés do paciente, mas sem massagear, nem movimentar ou pressionar, limitando-se ao contato sutil. A área de contato situa-se nas falanges distais, mais precisamente na base da unha, colocando-se o polegar no lado posterior, à altura da polpa do dedo. Cada contato é feito simultaneamente nos dois pés, de maneira tranqüila e uniforme, por aproximadamente três minutos. Para voltar do estado de relaxação, pedimos que a pessoa movimente os dedos, balance levemente a cabeça, abra os olhos e pisque, respire fundo e espreguice, antes de erguer-se.

 

A aplicação da calatonia em sua modalidade principal, nos pés, promove determinados efeitos que vêm sendo estudados clinicamente, mostrando que sua peculiaridade reside no alcance da estimulação tátil realizada nos pés, dentro da relação terapêutica. Esta condição enfatiza as qualidades empáticas do contato suave na pele, além dos aspectos simbólicos dos pés na imagem do corpo. Consideramos que os pés, estando na parte mais inferior do corpo humano, podem ser, analogicamente, depositários dos conteúdos básicos da personalidade, juntamente com as pernas e a pélvis.

 

Por outro lado, os pés têm sido tratados como símbolo da alma humana (5) e local de projeção dos conteúdos infantis (9). Tais simbolismos são amplamente difundidos e vê-se que os conteúdos projetados na extremidade inferior do corpo também estão presentes nos mitos do Saci Pererê, Curupira e Mapinguaris que, no folclore brasileiro, são entidades protetoras dos recursos naturais (6). Por outro lado, o espaço recebe conotações simbólicas decorrentes da analogia que estabelecemos entre as partes do corpo e o meio circundante. Estes elementos de natureza psíquica estão na origem dos processos perceptivos e da relação que o ser humano constitui com as principais dimensões espaciais; fato já aproveitado em diversos testes, como o Desenho da Figura Humana, o Teste da Árvore e o Rorschach. Os pés ligam o ser humano com o chão, com a terra que não somente o sustenta, mas também o atrai para baixo.

Naturalmente, cabe ao terapeuta assinalar o alcance individual ou coletivo dos conteúdos originários da estimulação calatônica dos pés ou das mãos. De qualquer modo que o faça, porém, a sua interpretação constitui um momento privilegiado dentro da sessão. Nem sempre é oportuno interpretar-se as imagens obtidas durante a relaxação, havendo casos em que a sua simples verbalização, pelo paciente, já constitui uma elaboração suficiente e também uma grande vitória sobre a resistência.

 

 

DESCOMPRESSÃO FRACIONADA

A Descompressão Fracionada, tanto quanto o Toque de Reajustamento nos Pontos de Apoio, foi planejada para ser utilizada em seqüência à técnica básica. O seu objetivo é também desmobilizar os núcleos de tensão corporais e estimular a auto-regulação em níveis psicofisiológicos, promovendo, concomitantemente, a manifestação dos conteúdos afetivos e ideativos subjacentes. Enquanto a técnica básica estimula o sujeito a partir das suas extremidades durante quase meia hora, nesta modalidade a estimulação pode ser feita em, praticamente, todos os pontos do corpo, tendo uma duração mais curta em cada área.

 

O terapeuta exerce certa pressão com as palmas das mãos ou ponta dos dedos sobre os pontos escolhidos no corpo da pessoa, e vai modulando esse contato durante nove ciclos respiratórios do sujeito. Assim, a pressão é de modo que a pessoa perceba claramente o contato durante três expirações. Na quarta, inicia-se a descompressão, fracionando-a durante mais três ciclos respiratórios completos. Finalmente, ainda sem afastar as mãos completamente, o terapeuta permanece outros três ciclos em contato apenas suavemente perceptível.

 

Para realizar cada momento de descompressão, observa-se cuidadosamente como o paciente respira, para modulá-la quando a pessoa estiver soltando o ar. O terapeuta precisa estar ainda bastante consciente do seu próprio estado, relaxando os próprios níveis de tensão, especialmente nos braços e nas mãos.

 

As repercussões da Descompressão Fracionada são comumente de descontração nas regiões tocadas, com certa generalização para as áreas circunvizinhas, acompanhadas da sensação de calor. Freqüentemente, as recordações dos contatos anteriores nas mesmas áreas e o desejo de preenchimento daquelas experiências incompletas ou frustrantes, aparecem. Estas condições são, às vezes, espontaneamente projetadas sobre a figura do terapeuta, de modo que a pessoa cria determinadas expectativas, normalmente desfeitas com o decorrer do tratamento. Nunca é demais lembrar que, ao mesmo tempo em que toca, o terapeuta é tocado também, mesmo de modo aparentemente passivo. As suas reações podem ser, ao menos potencialmente, análogas às do paciente. Em parte isto se deve à qualidade da estimulação tátil que, sendo próxima e imediata, coloca as duas pessoas envolvidas como sujeitas a processos semelhantes de identificação e de projeção.

 

 

OS TOQUES DE REAJUSTAMENTO NOS PONTOS DE APOIO

Os Toques de Reajustamento nos Pontos de Apoio da postura são realizados, de modo muito suave, preferencialmente sobre as articulações do corpo, durante aproximadamente três minutos.

 

De acordo com a articulação escolhida, o contato é feito com um ou mais dedos, de ambas as mãos, tocando-se, simultaneamente, áreas paralelas do corpo do paciente. Assim, por exemplo, o toque nos joelhos é realizado colocando-se as pontas dos dedos de cada mão em volta da patela. O paciente está sentado, com as pernas estendidas e o terapeuta, sentado à sua frente, realiza o contato suavemente, observando as reações do sujeito.

 

O efeito mais evidente desse tipo de contato é soltar as articulações móveis (anfiartroses e diartroses), ocasionando um afrouxamento gradativo dos pontos de apoio posturais. Pela diminuição dos níveis de tensão na articulação estimulada, far-se-á sentir o predomínio da força da gravidade, conduzindo o corpo para uma soltura maior. Por isso temos sempre ao lado do sujeito um divã, ou mesmo boas almofadas, para que, eventualmente, ele possa deixar-se descontrair despreocupadamente.

 

É o estado de tensão anterior do paciente que vai determinar o reajustamento postural necessário. No entanto, sempre se pode observar uma resposta respiratória reflexa após o toque, acompanhada de descontrações em feixes de fibras, ou até mesmo em grupos musculares inteiros. Estas reações levam a uma soltura parcial do corpo no espaço, partes simétricas se reequilibram e movem-se, alinhando-se de modo mais harmonioso. Em outras ocasiões, quando o reajustamento atinge zonas musculares mais extensas, observamos um verdadeiro “derretimento” da postura, todo o corpo se solta e o paciente entra em profunda relaxação.

Nesses momentos, é comum que haja certa percepção do processo de reajustamento que teve lugar, o qual se propõe à mente do paciente através de imagens diversas, às vezes em tonalidades de luz e sombra nas áreas corporais envolvidas.

 

 

A APLICAÇÃO DO MÉTODO EM PSICOTERAPIA

Dentro de uma sessão, costuma-se, primeiramente, ouvir o paciente, receber os seus conteúdos e observações e depois realizar a calatonia ou uma das outras técnicas. Este procedimento conduz a uma peculiar aproximação dos mesmos conteúdos relatados verbalmente. Durante a relaxação a pessoa tem a oportunidade de observar-se a partir de outro ponto de vista e captar aquilo que o seu inconsciente está querendo dizer sobre o material verbalizado. Esta visão interior geralmente contribui com lembranças e com imagens sensoriais atuais, experiências do corpo vividas intensamente no passado e ligadas ao momento presente.

 

Muito freqüentemente, os toques nos pés estimulam o aparecimento de imagens de movimento ou alterações do equilíbrio, fazendo com que a pessoa se perceba em posições diferentes daquela em que realmente está. Aparecem, ainda, lembranças relativas aos primeiros passos e a quedas, a correr, dançar, momentos já vividos que se propõem ao sujeito, não apenas como reminiscências, mas acompanhados dos conteúdos afetivos correspondentes.

 

 

A PELE

Do ponto de vista subjetivo, a relação que constituímos com a pele a coloca como porção limítrofe do Eu: ela está na fronteira entre o mundo interno e externo, fronteira sensível, dinâmica e mutável, que se expande e se contrai de acordo com os estados psicofisiológicos. A pele nos isola, nos protege e também nos contém.

 

A pele é considerada, segundo os especialistas, como um órgão dos sentidos, ocupando entre estes, uma posição singular. A sua origem embrionária é a mesma do sistema nervoso 2 . Estas características a capacitam para exercer as funções de recepção e de emissão que lhe são peculiares. A pele parece emitir sinais em um grau não encontrado nos outros órgãos dos sentidos, embora alguns destes sinais somente sejam perceptíveis quando há um contato proximal entre emissor e receptor. À medida que o meio interno apresenta certas modificações, estas são conduzidas à periferia do corpo e traduzidas em alterações vasomotoras de ereção capilar e de sudorese, de mudança da condutibilidade elétrica e outras, que se constituem em autênticos sinais de comunicação. O método calatônico procura produzir estímulos predominantemente ectodermais, mas também as camadas de origem mesodérmicas são ativadas nos toques com pressão leve.

 

2. O sistema nervoso central e a camada superficial da pele desenvolvem-se do ectoderma, enquanto a camada interna (derme) e o sistema nervoso vegetativo têm origem no mesoderma.

 

No método calatônico o silêncio e a ausência de controle visual contribuem para enfatizar a pele como meio e mensagem da relação que se constitui. As mãos do terapeuta podem, então, representar um ponto de contato com o mundo exterior que permite à pessoa realizar a transição entre o estado de alerta e o relaxamento. Nesse sentido, as mãos desempenhariam um papel análogo ao dos “objetos transicionais” mencionados por Winicott (10), facilitando o mergulho introspectivo e assegurando o retomo construtivo da libido. Os objetos transicionais trazem proteção e impedem que a ansiedade, naturalmente elevada pelos conteúdos da entrada no inconsciente, desorganize a identidade egóica. As mãos do terapeuta podem ser percebidas como um objeto a meio caminho entre o objetivo e o subjetivo, sendo, então, parcialmente incorporadas durante a experiência de descontração. Com a continuidade do desenvolvimento do indivíduo, ele poderá criar relações objetais propriamente ditas, valendo-se destas vivências de soltura psicológica e física que correspondem ao estado de relaxação.

 

Nas ocasiões em que as reações neurovegetativas são também mobilizadas, pode-se ter choro ou uma gostosa vontade de rir, além de outras expressões fisiológicas com significados afetivos, como de alegria ou de tristeza. A “volta à terra” que este derretimento promove, aproxima o paciente de zonas inconscientes muitas vezes intocadas, produzindo experiências “arquetípicas”, onde o somático e o psicológico não estão ainda dicotomizados, nem diferenciados. A energia libidinal pode então ser conscientemente percebida, fluindo no próprio corpo, sem controle voluntário, gerando eventualmente medo e angústia, tanto quanto prazer e alegria.

A FORÇA DE GRAVIDADE

A participação da energia gravitacional nos três procedimentos mencionados é central. Quando estimulamos os pés aproveitamos terapeuticamente os muitos recursos sensoriais e motores desenvolvidos pela espécie para captar e responder à “mãe-terra”, no curso da adaptação do ser humano ao planeta. O principal estímulo recebido da terra, sempre presente desde o início da vida, é a sua força magnética, segurando o homem à sua superfície. O esqueleto, os músculos e os órgãos desenvolveram-se estrutural e funcionalmente para adaptar-se ao tipo de ambiente terrestre. Logo, o equilíbrio e a harmonia da postura estão correlacionados com a adaptação funcional ao ambiente. Neste sentido, quando a relaxação desmancha os núcleos de tensão muscular, a força de gravidade atua e atrai para baixo. Após essa “queda” planejada, será mais fácil a pessoa perceber como está organizando a sua posição no mundo e se por de pé de modo mais harmonioso.

 

Na Descompressão Fracionada toca-se o corpo de um modo que dificilmente ele é tocado nas relações sociais comuns. Além disto, a compressão é parte do estímulo constantemente recebido pela massa corpórea que, ao se movimentar, muda as relações de peso e altera a pressão que está sendo constantemente exercida pela gravidade terrestre sobre as diferentes áreas do corpo.

Nos toques de Reajustamento o paciente está de pé ou sentado e, o efeito da força gravitacional é ainda mais evidente. Realiza-se neste como nos outros toques, o sentido procurado pelo seu Autor quando escolheu o termo grego khalaó, para denominar o método. Este verbo, que significa literalmente “relaxação”, possui, ainda, outros sentidos, tais como: “deixar ir”, “afastar-se do estado de ira ou de violência”, “abrir uma porta”, “rasgar os véus”, “desatar as amarras de um odre”, “retirar o véu dos olhos”, “alimentar-se”, e também, “perdoar os pais”.

 

Sabemos que as defesas são erigidas para resistir à força natural, que tanto está fora do corpo como dentro dele. A neurose se estrutura nos músculos, especialmente nos posteriores, através dos quais se expressa simbolicamente em uma postura orgulhosa, dura; por outro lado, denuncia a enorme dificuldade em relaxar, em deixar-se ir, seguindo o fluxo da própria energia. Saber ser ativo e passivo, conforme as circunstâncias, é um estilo de vida, não somente uma questão de fisiologia ou de psicologia do movimento. Reconhecendo a importância desses aspectos, o trabalho psicoterapêutico que utiliza os toques suaves em associação com a análise do inconsciente procura integrar os níveis físico, afetivo e cognitivo da experiência humana.

 

Em todos os casos nos quais a reorganização seja visada, o método calatônico pode ser utilizado.

Segundo Sándor (8), desaconselha-se o seu emprego em casos de psicoses agudas, quando este método não poderia ser realizado de maneira suave, como foi planejado. Por outro lado, em afecções somáticas graves, nas síndromes psicossomáticas e em estados confusionais, aconselha-se que o terapeuta trabalhe com supervisão, além de que mantenha contatos com o médico responsável, para o eventual tratamento medicamentoso do paciente.

Durante certos tratamentos com fármacos que alteram o estado de consciência, e também com corticoesteróides, entre outros, o emprego do método precisa de especial atenção.

 

Em síntese, os critérios éticos e as indicações só podem ser adequadamente pensados e pesados quando o terapeuta tenha sido submetido antecipadamente, ele próprio, às intervenções que pretende realizar.

 

 

REFERÊNCIAS

(1) De Santis, M.I. 1969. A integração do animus na metanóia e no relaxamento. Bol. Psicol, São Paulo, 21: 57 e 58:
(2) De Santis, M.I. 1976. O discurso não verbal do corpo no contexto psicoterápico. Dissert Dep. Psicol. PUC, mimeog., Rio de Janeiro.
(3) Mauro, B. 1969. Anima e inconsciente racial no relaxamento e nos sonhos. Bol. Psicol, São Paulo, 21: 57 e 58.
(4) Penna, L 1976. Observações sobre um caso de psicoterapia infantil com relaxamento. Anais do II Congresso Interamericano de Psicologia. Clínica, São Paulo.
(5) Penna, L. 1979. Calatonia: a sensibilidade, os pés a imagem do próprio corpo em psicoterapia Dissert. IP-USP , mimeog., São Paulo.
(6) Penna, L. 1983. Os pés em relação com a terra. Cadernos da PUC, São Paulo, n 15.
(7) Sándor, P. 1969. Calatonia. Bol. Psicol., São Paulo, 21:57 e 58.
(8) Sándor, P. 1974. Técnicas de relaxamento, São Paulo, Vetor.
(9) Schilder, P. 1950. The image and appearance of the human body. Nova York, John Wiley & Sons.
(10) Winicott, D.W. 1958. Transitional objects and transitional phenomena Collected Papers: Through Pediatrics to Psyco-Analylisi. Londres, Tavistock Publ.

 

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