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Archive for the ‘Contos-de-Fadas’ Category

Por : Bárbara Gehrke Rohde, Psicóloga e Arteterapeuta – CRP 07/15404

Primeiramente vamos pensar na arte como forma de expressão do ser humano. Poderíamos supor que o homem das cavernas já utilizava a arte como meio de catarse, uma forma de colocar pra fora seus sentimentos e emoções. E muitas foram às manifestações de dor, angústias, luta, morte, vitórias e alegrias representadas nas paredes das cavernas (pinturas rupestres), o que nos faz pensar em projeções do inconsciente representadas por imagens e símbolos. “A arte é quase tão antiga quanto o homem” (Fischer 1971, p. 21).

As artes em geral têm o poder de alcançar emoções profundas, como refere Brown (2000), elas podem mudar a maneira como você se sente em relação ao mundo e a si mesmo. A arteterapia consegue examinar a forma como você olha para si mesmo e para o mundo. Seja trabalhando com argila, palavras ou teclas de um piano, um artista constrói um mundo de símbolos que libera emoções e idéias. Todos nós temos símbolos que representam nossos pensamentos e sentimentos.

Pessoalmente, considero a arteterapia uma “ferramenta a mais” para meu trabalho com psicoterapia. Um processo terapêutico de utilização da arte, que incluo o relaxamento, meditação, pintura, modelagem, desenho, costura, dança, teatro, marionetes, enfim, toda representação artística. Posso utilizá-la em psicoterapia individual, de grupo, com diferentes idades e tipos psicológicos, facilitando o entendimento do sujeito desde a anamnese até o tratamento psíquico em si. É utilizada em escolas, organizações e na área clínica (hospitais, consultórios, instituições psiquiátricas, etc). E também por profissionais da área da saúde, educação e artes.

Trabalho com a arteterapia de abordagem Junguiana, sobre esta, aponta Philippini (2000), que Jung, em sua obra, descreveu amplamente como, nas culturas mais diversas, etapas do processo de individuação eram codificadas em símbolos com temáticas similares e estas representações do inconsciente coletivo repetidas em mitos, contos, tradições religiosas, tratados alquímicos e ritos de passagem de locais geograficamente distantes. Estas imagens recorrentes em toda a humanidade reaparecem em sonhos, desenhos, pinturas, esculturas e nos símbolos produzidos através da imaginação ativa e nas técnicas de visualização e meditação.

Psicologia e Arte: “Apesar de sua incomensurabilidade existe uma estreita conexão entre esses dois campos que pede uma análise direta. Essa relação baseia-se no fato de a arte, em sua manifestação, ser uma atividade psicológica e, como tal, pode e deve ser submetida a considerações de cunho psicológico; pois, sob este aspecto, ela, como toda atividade humana oriunda de causas psicológicas, é objeto da psicologia” (Jung, 1971, p.54).

Conforme Philippini (2000), a arteterapia resgata a promoção, a prevenção e a expansão da saúde. A arteterapia auxilia a resgatar desbloquear e fortalecer potenciais criativos, através de formas de expressão diversas, ademais facilita que cada um encontre, comunique e expanda a seu próprio caminho criativo e singular, favorecendo a expressão, a revelação e o reconhecimento do mundo interno e inconsciente. Destaca ainda, que em arteterapia com abordagem Junguiana, o caminho será fornecer suportes materiais adequados para que a energia psíquica plasme símbolos em criações diversas. Estas produções simbólicas retratam múltiplos estágios da psique, ativando e realizando a comunicação entre inconsciente e consciente. Este processo colabora para a compreensão e resolução de estados afetivos conflitivos, favorecendo a estruturação e expansão da personalidade através do processo criativo.

E Osório (in Valladares, 2003) salienta que a arteterapia é uma prática terapêutica que trabalha com a intersecção de vários saberes, como educação, saúde e ciência, buscando resgatar a dimensão integral do homem. A arte se propõe a algo pessoal e único, e expressa a linguagem do inconsciente.

Segundo Valladares (2003), a arteterapia na teoria Junguiana, propicia o fornecimento de materiais expressivos diversos e adequados para a criação de símbolos presentes no universo imagético singular de cada cliente, universo que se traduz em produções simbólicas que retratam estruturas psíquicas internas do inconsciente pessoal e coletivo. A arteterapia facilita a entrada no psiquismo humano por infinitas possibilidades da arte e através da linha Junguiana o surgimento dos símbolos abre caminho para o trabalho do arteterapeuta.

E finalmente é importante lembrar que somente psicólogos ou psiquiatras com formação em psicoterapia poderão utilizar a arteterapia na psicoterapia, sobre isto, Païn (1996), sublinha que a arte em psicoterapia é realizada, sobretudo, por profissionais específicos da psicologia. Freqüentemente, neste processo, considera-se a atividade plástica secundária, pois o efeito terapêutico sobrevém somente das trocas verbais em torno do conteúdo da obra. Utiliza-se a expressão plástica, neste caso, como meio de atender a comunicação verbal ou como a única maneira de estabelecer uma comunicação, caso em que a representação simbólica é ignorada.

Não precisamos ser artistas ou conhecer as técnicas das artes para fazer arteterapia, basta ter motivação para o autoconhecimento.

REFERÊNCIAS:

Brown, D. (2000). Arte Terapia: fundamentos. São Paulo: Vitória Régia.

Fischer, E. (1971). A necessidade da arte. (3ª ed.) Rio de Janeiro: Zahar Editores.

Jung, C. G. (1971). O espírito na arte e na ciência. (3ª ed.) Petrópolis: Vozes.

Païn, S. e Jarreau, G. (1996). Teoria e técnica da arte-terapia: a compreensão do sujeito. Porto Alegre: Artes Médicas.

Philippini, A. (2000). Cartografias da coragem: Rotas em Arte Terapia. Rio de Janeiro: Pomar.

Valladares, A.C.A. (2003). Arteterapia com crianças hospitalizadas. Dissertação de Mestrado não publicada, Universidade de São Paulo, São Paulo, SP, Brasil.

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Imagem: Rachel Weisz Como Branca de Neve por Annie Leibovitz

Por Fabrício Fonseca Moraes*

Um conceito importante para a psicologia analítica é o “símbolo. É quase impossível falar qualquer coisa em psicologia analítica sem tocar direta ou indiretamente em símbolos.  Isso faz com que vejamos o uso do termo de uma forma, muitas vezes, equivocada. Vamos pensar alguns aspectos dos símbolos:

1) Etimologia de Símbolo

A palavra símbolo vem do termo grego symbolon, que por sua vez estava relacionado com o verbo symballein que era “lançar com”, “lançar junto” ou fazer coincidir. O termo significava união, pacto, amizade. Símbolo na antiga Grécia representava um compromisso entre duas pessoas. Era comum, por exemplo, a divisão ao meio de uma moeda na ocasião da separação de dois amigos ou de duas pessoas que tinham um compromisso entre si, para que quando no futuro elas se reencontrassem a moeda partida seria símbolo do compromisso do passado.

Na Ilíada de Homero, no Canto VII, temos um exemplo interessante do sentido do símbolo. Nesse canto é relatado uma pausa na batalha entre os exércitos, sendo então proposta uma luta entre o melhor dos Aqueus e o melhor dos troianos. Assim Ájax, o melhor dos Aqueus, e Hector (ou Heitor) o melhor dos troianos iniciaram um combate feroz, e quando era chegada a noite, hora que era proibida pelos deuses de haver combate,  eles discutem o fim de seu combate. Heitor, diz:

“(…) Vamos por fim ao combate e à luta, por hoje. Mais adiante, à luta voltaremos até que faça a escolha, entre nós, o demônio da fortuna e a vitória caiba a um dos dois. Já cai a noite; cumpre guardar a noite. (…) Troquemos, pois, dons memoráveis, para que alguém, Troiano ou Grego, possa vir a dizer: `Combateram-se os dois na peleja devora-corações. Separaram-se amigos.`” Falou. E deu sua espada ao Dânao, cravejada em prata, com talim bem trabalhado e bainha; Ájax o cinturão – púrpura fulgurante – lhe ofertou. Separaram-se então. Aos Aqueus um se dirigiu; outro, à multidão troiana. (HOMERO, 2002, pág. 282-3)

Nesse fragmento da Ilíada devemos observar a frase “separaram-se amigos”. Olhando o contexto percebemos claramente que “amigos” como aparece no texto em nada se relaciona com o conceito de amigos que temos nos dias atuais. Essa amizade dita por Homero, tem como símbolo ou marca de reconhecimento os “dons memoráveis”, a espada e o cinturão. A troca desse presentes é o símbolo o reconhecimento e respeito mútuo, reconhecimento que seria cantado tanto por gregos e troianos.

O símbolo indica o reconhecimento, aponta para este algo em comum. Heitor e Ájax mesmo em lados opostos estavam unidos pela batalha travada, e simbolizada pela troca de armas.

Outro exemplo, mais próximo e conhecido é o símbolo do peixe utilizado pelos cristãos dos primeiros séculos para se reconhecerem, quando se encontravam, um fazia um risco curvilíneo e o interlocutor completava o desenho com outro risco curvilíneo formando um peixe (símbolo do peixe estava relacionado a palavra ICHTHYS, peixe em grego,  cujas letras que eram consideradas como acróstico para Iesous Christos Theou Hyous Soter – Jesus Cristo, de Deus o filho, Salvador). eles se reconheceriam como cristãos. Em outras versões, uma pessoa escrevia no chão a letra grega alfa (a), que guarda similaridade com o peixe, e o interlocutor apagaria o desenho, de igual modo eles se reconheceriam como cristãos reconhecendo-se como “cristãos”.

O símbolo historicamente representa a união, um elo que une entre dois iguais que foram separados, indicando uma identidade entre ambos.

2) Símbolo na Psicologia Analítica

Os junguianos muitas vezes são questionados sobre “significado” de símbolos, ou de forma caricata são aqueles que reconhecem símbolos em tudo. Por isso, devemos ter cautela no estudo de símbolos.  O primeiro passo para pensarmos o símbolo na psicologia analítica é fazermos a diferenciação entre sinal e símbolo, pois eles possuem uma relação muito próxima.

Os sinais indicam/informar convenções ou relações naturais. No geral, possuem um significado determinado.  Por outro lado, o símbolo possui vários significados. Devemos compreender que o símbolo ser expresso por um sinal, isto é, uma marca ou ícone, entretanto, o significado ou sentido do símbolo será sempre subjetivo. O sinal por sua vez, tende a apontar a um significado objetivo, determinado pela cultura. Assim, todo símbolo é um sinal, mas, nem todo sinal é um símbolo. Deste modo, para a psicologia analítica compreende que os símbolo indica algo que não pode (pelo menos não momentaneamente) ser expresso pela linguagem comum, indicando para algo desconhecido.

Colocando em outros termos, o símbolo possui um icone (ou sinal) que está relacionado com a consciência (ou seja, é percebido ou representado na consciência) e outro aspecto que é sua indeterminação corresponde a sua relação com o inconsciente. Assim, os símbolos possuem uma natureza intermediária ou transcendente, constituindo uma outra realidade. No símbolo a consciência e o inconsciente estão integrados.

Nessa perspectiva um simbolo pode ser uma imagem(icone), local, situação, musica, sensações e etc… todos os elementos sobre os quais o inconsciente possa se projetar atribuindo significado pode se tornar simbólico. Os símbolos são sempre formados a partir do inconsciente, a consciência não cria símbolos, mas sinais.   

a) Símbolos  Culturais

 Os símbolos culturais são representações arquetípicas que orientam a cultura. Os símbolos culturais estão relacionados geralmente relacionados com as religiões. Devemos lembrar que  uma religião não é Um simbolo, mas um sistema simbólico. Quando uma religião subjulga outra, o símbolos são substituídos(ou absorvidos) por outros da matriz arquetípica correspondente. Outros, podem se manter como contos de fada ou nos mitos. 

b) Símbolos  Individuais

 Os símbolos pessoais são formações que eclodem do inconsciente, intimamente relacionado com o momento do qual um individuo vive. O símbolo muitas vezes se constela como uma resolução de conflito. É um elemento integrador, que supera um possivel conflito possibilitando o funcionamento da dinâmica psíquica.  Um aspecto fundamental, é considerar que um símbolo somente é para quem o percebe, “depende da atitude da consciência que observa se alguma coisa é simbolo ou não(…)” (JUNG, 1991, p.445)

c) Transformadores de Energia

Jung se referia aos símbolos como transformadores de energia, pois tinham a função de transmitir a energia entre a consciência e o inconsciente. Isso significa dizer que os símbolos possuem a função de nutrir a consciência e o ego. Os símbolos canalizam a energia do inconsciente para a consciência, aglutinando a energia e deixando disponível para a ego. Isso especialmente importante, pois, quanto maior a energia disponível ao ego, maior o potencial de ação ou ao exercício da vontade.

d) Função Transcendente

Função Transcendente foi o conceito que Jung adotou (importando da matemática) para expressar a tendência da consciência e do inconsciente em se unir.Toda vez que falamos de símbolos estamos falando de função transcendente, ou melhor, esta se exprime ou se manifesta pelos simbolos. O que é importante para pensarmos a psicoterapia. Pois, a mudança da atitude da consciência ocorre na medida que a que a função transcedente se manifesta, como expressão da resolução do conflito. No texto intitulado “A Função Transcedente” Jung também relaciona a função transcendente com a transferência, pois, esta é uma tentativa do inconsciene em mudar a atitude da consciência (superação do conflito) através da projeção de conteúdos inconscientes no terapeua/analista que favoreceria essa mudança. Assim, a relação terapêutica seria simbólica, isto é, constituiria um símbolo para o cliente.

Por isto, na prática é o médico adequadamente treinado que faz de função transcendente para o paciente, isto é, ajuda o paciente a unir a consciência e o inconsciente e, assim, chegar a uma nova atitude. Nesta função do médico está uma das muitas significações importantes da transferência: por meio dela o paciente se agarra à pessoa que parece lhe prometer uma renovação da atitude; com a transferência, ele procura esta mudança que lhe é vital, embora não tome consciência disto.(JUNG, 1998, p. 74)

 

Referencias

JUNG, C.G. A DINAMICA DO INCONSCIENTE, Ed. Vozes, Petrópolis, RJ, 1998.

JUNG, C.G. TIPOS PSICÓLOGICOS  Ed. Vozes, Petrópolis, RJ, 1991.

HOMERO, ILIADA– tradução Haroldo Campos; 3 ed.; São Paulo: Arx, 2002.

 

Fabrício Fonseca Moraes é Psicólogo Clínico de Orientação Junguiana, Especialista em Teoria e Prática Junguiana (UVA/RJ), Especialista em Psicologia Clínica e da Família (Saberes, ES). Atua em Vitória desde 2003.

Contato: 27 – 9316-6985.

e-mail: fabriciomoraes@yahoo.com.br

Twitter:@FabricioMoraes

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 Imagem: Charles H. Sylvester, Journeys Through Bookland. Chicago: Bellows-Reeve Company, 1909


Wagner de Menezes Vaz
Psicólogo e Pós-graduando em Teoria e Terapia Junguiana pela Universidade Estácio de Sá/Rubedo
wmvaz@yahoo.com

Rafael Rodriguez
Psicólogo e Pós-graduando em Teoria e Terapia Junguiana pela Universidade Estácio de Sá/Rubedo
rafaelrodriguez@globo.com

 

Trabalho originalmente apresentado no evento Contos de Andersen – Leituras Psicológicas, promovido pela Rubedo em junho de 2008.

Em 1843, Hans Christian Andersen publica este que é o seu mais famoso conto e, posteriormente, sendo traduzido para o inglês e o alemão, obtém grande receptividade o que o projetaria definitivamente como um renomado escritor. Filho de sapateiro e de lavadeira, apesar das dificuldades, nunca desistiu de seu interesse pela arte.

A infância pobre teve grande influência em seus escritos. Que sentimentos se ocultavam por trás deste homem castigado pela vida e que, até aquele momento, não havia se revelado com grande sucesso em sua carreira literária? Teria sido este o motivo da criação de seu “Patinho Feio” que se tornou um belo cisne e que atingiu a felicidade quando amadureceu?

O “Patinho Feio” é considerado o conto mais autobiográfico de suas obras. Como disse um de seus biógrafos, Jens Andersen (2005, tradução nossa), “[…] mais que qualquer outro conto antes contado, este seria sobre ele.” Não tanto pelo fato dele também não possuir atributos estéticos como o patinho feio, mas porque tal sucesso, coincidentemente, só veio com o lançamento deste conto, já adulto, aos 38 anos de idade, chamando a atenção de todos para o grande escritor de contos de fada, romances, e até mesmo de livros de viagem que ele era. Andersen pode até ter sido rejeitado pela Grande Mãe da vida, por conta de sua infância difícil e pobre, mas não por seus pais.

Vejamos algumas passagens do conto. Uma ave que nasce em um ninho que não é o de sua espécie sofre rejeição de todos ao seu redor, exceto de sua mãe que demonstra, a princípio, uma clara esperança que seu filho se torne o mais bonito e o melhor nadador, até finalmente cair no discurso social e desejar não vê-lo mais devido à sua feiúra. Assim, sem opção, ele sai para a vida sozinho e sem rumo, pretendendo viver sem saber como, sobreviver sem saber por que, procurando viver longe de um lugar onde o rejeitaram. Porém, sabendo que nunca deixaria de ser o feio e considerado persona non grata por todos de sua comunidade, ele se torna o espelho do que lhe atribuíram ser.

Quando os filhotes nascem, a primeira coisa que buscam é um rosto no qual se mirar. Ao se defrontar com este rosto, eles o reconhecerão como sendo o de sua mãe. E os patinhos irão segui-la até estarem maduros. O que chama a atenção neste conto de Andersen é a questão da identidade e de como esta é construída a partir do reflexo. Mario Jacoby (1984, p.47) irá se referir a isto como ressonância empática, conceito este desenvolvido por Kohut. Então vejamos: a primeira reação da mãe ao ver seu filho desengonçado foi de espanto. E foi através desta reação, através do reflexo especular materno, que travou seu primeiro contato com o mundo. O mundo lhe dizia: – “Como és feio!”. Uma ferida narcísica se faz presente – existem outros mais afortunados, com mais sorte e possibilidades. São mais bonitos e contam com a aceitação social.

Uma ferida narcísica é uma ferida emocional, difícil muitas vezes de ser curada. Ela é um impeditivo à construção de uma identidade e, por conseguinte, dificulta a criação de uma maneira própria de viver. As animosidades constantes entre a mãe e o patinho feio acabaram por forçar a um corte prematuro dos laços afetivos. A falta de um sentimento de pertença, que confere identidade ao indivíduo, inexiste no patinho feio. Não existem laços que o liguem à sua família e nem tampouco à sua comunidade. Sua auto-estima fica comprometida. No conto, ao fugir pelas moitas, o patinho feio espanta os pássaros aninhados, afirmando para si: “Deve ser porque sou tão feio!”. A identidade se constrói mediante a formação de laços sociais e, por conseguinte, no diálogo com a alteridade. Caricaturalmente, a ausência de laços favorece o patinho feio, de forma que ele afirma: “[…] Sou tão feio que nem o cachorro me quis morder”. Neste caso a estratégia de acatar o discurso da feiúra atua como uma defesa narcísica a fim de proteger o Ego da dor.

A natureza muitas vezes pode parecer cruel proporcionando experiências desafiadoras ao recém-nascido, porém sua sobrevivência dependerá desta sua capacidade de adaptação. A mamãe pata como uma representante do discurso social procura transmitir os valores. Ela diz: “Vejam só! Assim é o mundo!”. Fisicamente um pato deve ter atributos que o caracterize como tal e suas funcionalidades devem estar operantes. É assim que se comporta um pato. O nosso personagem destituído, para aquele meio específico, dos atributos esperados não tem o reconhecimento do seu entorno de que ele era de fato um pato. Seus atributos confundem sua família e a vizinhança. A mãe se encontra perturbada; seu instinto de mãe entra em atrito com os valores sociais. No começo, ela defende seu rebento procurando, compensatoriamente, ressaltar-lhes as qualidades – “[…] Se quer que o diga, nada até um pouco melhor […] é um pato macho, e aí não importa tanto”. Ao mesmo tempo em que seu instinto materno a conduz a um comportamento protetor para com o desajeitado, ela tem dúvidas com relação a ser ele um de sua espécie. Os valores se impõem – “[…] Larga-o aí e ensina os outros filhotes a nadar”. A identidade grupal torna-se ameaçada ante a consciência das diferenças.

Sendo assim, o patinho teve uma vida miserável até atingir sua maturidade, correndo risco de vida o tempo todo, sendo perseguido e depreciado. Por conta disto, sente medo de tudo, até de quem não lhe quer mal; sente-se um sem-lugar no mundo, ou melhor, ocupa esta posição de não-aceito, não-visto, não-querido.

Numa tarde de fim de outono, o patinho feio avistou à beira do lago aves enormes e alvas que levantavam vôo rumo a terras mais quentes e sentiu uma irresistível vontade de acompanhá-las. Citando o conto: “Como poderia ter ousado desejar para si uma tal delícia [a de voar como os cisnes] ele que já se teria dado por muito feliz se os patos o tivessem tolerado em sua companhia, pobre bichinho feio?”. Neste episódio o patinho feio descobre o que é a felicidade; por aquelas aves sente uma identificação inexplicável, mas que gera um sentimento de nostalgia “não-vivida”, uma melancolia do desconhecido, como se seu inconsciente gritasse em sua surdez. Diante deste ímpeto pela felicidade, e após passar por possibilidades de aceitação, experiências tristes e aterradoras que só reforçavam a utopia de um dia ser feliz, decide no início da primavera, após novamente avistar os cisnes, entregar-se a sua pulsão de vida (ou seria de morte?) e arriscar sua inútil existência de dor à possibilidade de estar perto das criaturas mais felizes da Terra, por um instante que fosse, como se pudesse se contagiar de tanta alegria, e podendo mesmo ser ferido até a morte por aqueles grandes pássaros. Mal percebeu ele que também havia se tornado um grande pássaro e, como Narciso, somente ao ver seu reflexo na água do lago, foi capaz de se apaixonar por si mesmo e reconhecer a magnitude de seu ser. Só a partir deste momento sentiu alívio e satisfação por ter vivido tudo o que viveu, pois o que lhe aguardava após o enamoramento pela vida seria venturoso. Agora era elogiado como o mais belo dos belos. A experiência de contemplar sua imagem refletida na água foi de fato uma experiência numinosa e redentora.

Uma dinâmica muito parecida e comum ocorre na sociedade ocidental pós-moderna, no que tange ao papel do localizador para um problema familiar ou social, geralmente em um dos integrantes da família ou da sociedade. Algumas patologias psíquicas familiares e grupais são, fazendo-se uma análise atenta, centradas em indivíduos específicos, geralmente um dos filhos, ou moradores de rua, por exemplo, mirando-os como os culpados pela desordem, ou os doentes destacados do todo. Nunca como o retrato da doença coletiva ou o espelho de um traço comum a todos os integrantes de tal coletividade. Filhos drogadictos, pais problemáticos, sujeitos exageradamente “avoados” ou acomodados, esotéricos e fanáticos religiosos, obsessivos e sistemáticos, hoje em dia toda diferença é um “gancho” para eleger um localizador de problemas.

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Imagens: Dayton: R. Worthington, 1884 

 

 Nos dias de hoje, Jacoby (1984, p.47) admite que “[…] teria dificuldade em citar pessoas que, num maior ou menor grau, não sejam vulneráveis a flutuações narcisistas, […] que nunca caiam numa inflação irrealista ou que nunca sejam alcançadas por sentimentos de total desmerecimento”. Diz ainda estar havendo muita discussão sobre o aumento dos chamados distúrbios de personalidade, diagnóstico um tanto vago, que cobre uma gama enorme de pessoas, inclusive nós, que podemos a qualquer momento sofrer de complexos de inferioridade ou supercompensações. Portanto, elegemos patos feios para tudo e criamos com muita competência, filhos e indivíduos neuróticos e hipocondríacos, como era considerado inclusive o próprio Andersen à época.

Então perguntamos: Como fica o sujeito perante o discurso social da rejeição e do preconceito? O nosso personagem assimila este discurso e entende que a feiúra é um peso para si e para os outros. Kohut cita um fenômeno que ele denominou de mirroring (espelhamento) para descrever o “the gleam in mother’s eye” (o brilho no olho da mãe) que se constitui na “[…] empatia ótima parental que é base para um sentimento saudável de valor próprio”. (KOHUT, 1977, apud JACOBY, 1991, p.39, tradução nossa). Este fenômeno se configura como uma resposta à atuação narcísico-exibicionista da criança, confirmando sua auto-estima, ou seja, funciona como um espelho ao refletir o amor e o deslumbramento que a mãe sente por seu filho, fazendo com que ele se sinta confirmado, admirado e entendido como ser humano. Neste momento consideramos oportuna a transcrição de uma reflexão de Kohut acerca deste fenômeno, extraída do livro “Shame and the origins of self-esteem”.

[…] algo mais ocorre quando o self está se formando; não só o self deseja ser admirado e enfaticamente entendido pelo ‘Self-objeto’ (o cuidador); o self experiencia este self-objeto (pai ou mãe) como onipotentes e perfeitos; já que […] o self-objeto dificilmente pode ser distinguido do próprio mundo do self, a perfeição atribuída ao self-objeto implica na própria perfeição da criança; a criança num sentido se funde com o self-objeto o qual o experiencia como idealizado, onipotente e perfeito; o desapontamento na percepção gradual que os pais são dificilmente todo-poderosos pode criar um efeito de ‘internalização transmutadora’ que cria estruturas que podem se tornar matrizes para o desenvolvimento de ideais (em termos junguianos, seria o recolhimento das projeções).

Em outras palavras, a auto-estima pode ser criada e mantida por meio de ideais que emergem fora da fusão com o self-objeto idealizado; estes ideais são convincentes e podem se tornar modelos para sua própria conduta. (KOHUT, 1971,1977, apud JACOBY, 1991, p.39-40, tradução nossa).

Esta reflexão pode ser constatada no conto quando, ao final, o patinho feio se transforma em cisne; mesmo ciente de que é belo e de que é reconhecido e amado pelos que estão a sua volta, ele se diz até satisfeito com as angústias e adversidades sofridas e que sentia agora a ventura, as maravilhas que o aguardavam. “Sentiu-se muito feliz, mas não ficou vaidoso nem soberbo, pois um bom coração nunca se torna soberbo.”

Se voltarmos à atenção para o próprio Andersen, seus contos deram um lugar à criança, ou seja, ela passa a ser um sujeito ativo e não passivo em suas estórias. Foi através de suas obras que a criança e a infância tiveram espaço na literatura. Seu desejo íntimo maior era apenas o de ser distinguido. As dificuldades reais ou imaginárias de Andersen, refletidas no personagem autobiográfico vão de encontro a uma reflexão de Jacoby (1984) que afirma que “[…] o equilíbrio narcísico deve ser mexido para que os processos de amadurecimento aconteçam”.

Vamos observar que existe no conto um sentimento no patinho feio que se apresenta como um estranhamento. Ao entrar em contato com cisnes adultos ele se vê aturdido pela beleza daquelas aves lindas e felizes. Ele pensa consigo mesmo: “Não sabia o nome daquelas aves, nem para onde voavam, mas apesar disso gostava delas como nunca antes gostara de alguém.” Poderíamos perguntar o que no patinho apontava para algo diferente de si? Que processo estaria em movimento a ponto de desejar para si tamanha felicidade representada pela numinosidade experimentada pela visão daqueles magníficos cisnes? As agruras porque passou o patinho não foram poucas. Poderia ele ter se resignado à sua feiúra e se submetido às pressões externas e se adaptado a ponto de negar-se completamente. No entanto, com todo o sofrimento um impulso mais forte o motivou a ir a campo, a buscar não se sabe o quê. É certo dizer que os acontecimentos externos foram grandes catalizadores desta busca. É uma estória de superação. O mundo interior frente às pressões normatizadoras do mundo exterior. Jung (1981, p.525) irá definir que

a individuação é, portanto, um processo de diferenciação cujo objetivo é o desenvolvimento da personalidade individual. A necessidade de individuação é natural, enquanto que o impedimento da individuação por uma normalização exclusiva ou preponderante, de acordo com os padrões coletivos, será prejudicial para a atividade vital do indivíduo, para a sua vivência pessoal.

Ao partirmos da idéia de que o sentimento de não pertença possa também estar associado a uma imagem (vide a rejeição de sua mãe), o patinho feio ao considerar seu estranhamento frente ao seu meio corresponderia a um investimento de libido na consciência e, a partir do momento em que na presença de outros cisnes, sem que perceba, faz um movimento de pescoço que culmina com um grito agudo típico da espécie, isto por si só já se constitui numa pequena resposta individuadora. O que importa, neste momento, falando em termos analíticos é a interação do sujeito com seu inconsciente (o investimento pessoal da libido), que corresponde ao estabelecimento de uma ligação do eu com o self. O Self, portanto, estaria atuando como o centro regulador da psique, o spiritus rector inconsciente, podendo seus conteúdos, sob determinadas condições, tornarem-se acessíveis ao Ego e passarem a atuar como orientadores do processo de individuação.

Jacoby (1984) vai dizer que o ser humano tem uma necessidade básica e vital de se refletir para poder se reconhecer. Necessitamos disso para nos sentirmos reais, aceitos, e assim, importantes para outras pessoas e conseqüentemente, para nós mesmos. Relembra ainda a lenda grega num hino de Píndaro na qual Zeus, após terminar sua criação, perguntou aos deuses se eles achavam que faltava algo e estes o pediram que criasse as musas, que louvariam seus feitos e seu universo, embelezando tudo através de suas palavras e música.

Assim, vemos que somente existir não é suficiente e não satisfaz. A criação e a coisa-em-si não são independentes. Os feitos de Zeus teriam que ser trazidos para a atenção consciente através de louvação. Da mesma forma, o ser humano individual precisaria ter sua frágil e vulnerável existência refletida e ressonante nos éteres. De que adianta existir, se ninguém o notará, compreenderá, amará ou apreciará o que você é e o que você faz? Diante disto, segundo Jacoby (1984), não há equilíbrio narcísico saudável que resista ou sensação de amor próprio que possa ser mantida.

                       
Referências

ANDERSEN, Hans Christian. O Patinho Feio. In: ______. Tìtulo en negrito. Local: Editora, data. p. 240-251.

ANDERSEN, Jens. Hans Christian Andersen, a new life. Overlook Duckworth, 2005. p. 329.

JACOBY, Mario. Individuation and narcissism: the psychology of the self in Jung and Kohut. Hove: Bruner-Routledge, 1990. 267p.

JACOBY, Mario. Narcisismo e transferência. In: ______. O encontro analítico: transferência e relacionamento humano. Tradução de Claudia Gerpe. São Paulo: Cultrix, 1984. Cap. 3, p. 47-64. (Coleção Estudos de Psicologia por Analistas Junguianos).

JACOBY, Mario. Shame and the origins of self-esteem: a junguian approach. London: Bruner-Routledge, 1991. 131p.

JUNG, C. G. Definições. In: ______. Tipos psicológicos. 4. ed. Rio de Janeiro: Zahar, 1981. Cap 11, p. 471-552.

 

 

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