Feeds:
Posts
Comentários

Archive for the ‘Biologia’ Category

naked-bodies-art3

Imagem: Angelo Musgo

FONTE: KELEMAN, S. MITO & CORPO: UMA CONVERSA COM JOSEPH CAMPBELL. TRADUÇÃO: BOLANHO, D. M. EDITORA: SUMMUS EDITORIAL, 1999.

Existem lugares solitários onde podemos esconder nossas assombrações com aquela sensação de inviolabilidade que apenas os loucos conseguem construir. Esses lugares solitários costumam a nos seduzir com seu conforto e ao mesmo tempo nos prender como quando se cai em uma armadilha.

 Eu sei que você já deve ter estado nesses lugares solitários por muitos e muitos anos. Tem gente que nunca saiu de seus labirintos simplesmente porque nem consegue imaginar que existe algo fora desse espaço privado e confortável, onde nossa mente pode se isolar do mundo exterior como se fossemos apartados, cindidos, separados.

A ilusão do quarto privado nos diz que nossa mente está em nosso corpo, como alguém está sozinho em um quarto. Protegidos por grossas paredes e uma porta trancada com cadeado. É como se esse alguém, nesse lugar solitário e confortável, olhasse o mundo à distância pelas janelas desse quarto.

As paredes do quarto são nossos ossos, nossos músculos, nossa pele, nossas fronteiras. As janelas são nossos sentidos e o solitário dentro daquela sala vazia é cada um de nós.

Essa imagem, moderna, derivada de um conjunto bem articulado de teorias e concepções sobre o mundo e a alma humana, que derivam de Descartes, Locke, Leibniz e até Shakespeare, nos presenteou com a segurança de nossa solidão e com uma curiosa alucinação de onipotência mental.

O dualismo corpo-mente nos presenteou com a terra devastada. Com a impressão de que temos um corpo como quem tem uma moeda no bolso. O esquecimento do corpo é um tópico bem estudado na filosofia contemporânea. Nossa impressão de deslocamento, nossas sensação de exílio, a ideia de uma prisão física para uma alma imortal (que remonta as antigas seitas órficas e ao gnosticismo cristão dos primeiros séculos) nos ofertou um mote forte para o abandono do corpo, com a desconcertante impressão de que não estamos comprometidos com esse mundo e que o corpo, como parte da história biológica da terra, é apenas um invólucro provisório de nossa essência, uma capa protetora para um Eu intangível que se esconde por trás de suas paredes.

Joseph Campbell percebeu essa síndrome moderna e chamou o estado de nossa corporeidade contemporânea de terra devastada. Quando Stanley Keleman, coordenador do Centro para estudos energéticos em Berkeley, Califórnia, encontrou-se com Campbell e em sua parceria, entabulou uma longa conversa sobre corporeidade e mito, um caminho de escape da terra devasta começou a ser pensado.

A ideia é que os mitos são criados não em função da mente, mas sim em resposta a determinadas sugestões do corpo é o fio de Ariadne de nosso quarto privado. Como um sonho coletivo, o mito nos apresenta uma chave para compreendermos a relação com nossos corpos e para que possamos abandonar o estado de alienação em que nos encontramos diante do fluxo biológico da terra e reencontrar um lugar menos solitário para se estar nesse mundo.

O mito de Parsifal e do Graal é o mote do livro de Keleman em suas conversas com Campbell (Mito e corpo: uma conversa com Joseph Campbell – Summus Editorial). A conexão de nosso Self com nosso corpo ancestral, um corpo coletivo que remota a tempos onde a memória das vidas individuais e particulares não pode chegar é expressa através da narrativa mítica. O mais interessante das intuições de Campbell a partir da história de Parsifal e da busca pelo Graal é que nossas vidas privadas, a história de nossas individualidades e de nossas experiências pessoais não podem ser contadas sem o apelo a uma narrativa, a uma trama que une diversos personagens que se sucedem e que aparecem marcados em nossos corpos, na infância, na adolescência, na juventude, na vida adulta, na velhice…  Arthur Schopenhauer explicou isso uma vez dizendo: “o mundo é como um sonho sonhado por um único sonhador, no qual todos os personagens estão sonhando também. Eles estão sonhando suas vidas e tudo se coordena em uma harmonia misteriosa”.

Existem muitos personagens corporais em nossas histórias. Existe o velho sábio, o jovem guerreiro, a grande mãe. Existem nossos próprios personagens pessoais que misteriosamente se conectam aos personagens dos mitos que compõe nossa experiência coletiva. Macunaíma, Beowulf, Parsifal, Gilgamesh… não importam os nomes, suas narrativas se fundem com as nossas e suas histórias nos apresentam a chave para nos livrarmos do confortável e vazio lugar solitário de nossa própria mente. Para que possamos reaprender a ser nosso corpo e semear novamente nossa terra devastada com algum tipo novo e revigorante de esperança.

Read Full Post »

110901_jacci_yoga_097-2Imagem:  Google.

Autor: Artur Thiago Scarpato**

 

A relação entre anatomia e subjetividade é um tema básico da Psicologia Formativa de Stanley Keleman. Este autor estuda as formas somáticas, que são as constantes transformações morfológicas e anatômicas do corpo que se produzem ao longo da existência acompanhado pelas transformações psicológicas. Na concepção kelemaniana a vida é um processo constante de construção de formas somáticas, desde o processo embriológico na formação do ser humano até o final da vida. Essas transformações não são guiadas apenas por um programa já dado geneticamente, mas as formas somáticas refletem a própria produção da existência, com todos os seus acontecimentos, encontros e relacionamentos.

“O estudo da forma humana revela sua história genética e emocional. A forma reflete a natureza dos desafios individuais e como eles afetam o organismo humano….a postura ereta é acompanhada de uma história emocional de vínculos parentais e separações, proximidade e distanciamento, aceitação e rejeição. Uma pessoa pode incorporar a densidade compacta que reflete desafio ou um peito murcho que expressa vergonha. A anatomia humana é, assim, mais do que uma configuração bioquímica; é uma morfologia emocional. Formas anatômicas produzem um conjunto correspondente de sentimentos humanos”. (Keleman, 1992 p.72)

Keleman deixa de lado os modelos clássicos do aparelho psíquico e parte em busca da experiência encarnada, o corpo sendo criado e criando existência, sendo produzido e se produzindo e o psiquismo como uma parte deste processo somático-existencial.

Na visão kelemaniana, o psiquismo é uma função do corpo, o corpo sente, o corpo pensa, o corpo imagina, o corpo sonha. Nesta concepção, a anatomia e o psiquismo estão absolutamente enredados. Keleman propõe uma anatomia emocional, cognitiva, existencial. O psiquismo está estruturado a partir da organização morfológica do corpo todo e não apenas restrito ao cérebro ou a algum espírito imaterial.

Os estados subjetivos – sentimentos, pensamentos, estados de consciência – são estados do corpo. Como diz Keleman: “todas as sensações, todas as emoções, todos os pensamentos são, de fato, padrões organizados de movimento”.(Keleman, 1995, p 17).

O corpo cria imagens e símbolos de si e do mundo e assim se torna capaz de dialogar consigo mesmo e com os outros. Estas imagens são geradas no córtex cerebral a partir de um diálogo das diferentes camadas somáticas.

O diálogo do corpo consigo mesmo permite ativar um processo de auto-gerenciamento, onde é possível identificar, compreender e modular as formas somáticas, dialogando com os efeitos somáticos das experiências vividas, num modo de participar ativamente da construção da própria existência.

Keleman propõe a Metodologia dos Cinco Passos, processo onde pretende-se influenciar as atitudes, comportamentos e estados internos através da ação modulatória sobre a organização das formas somáticas. Este trabalho está focado na identificação do “como” um determinado comportamento é organizado somaticamente.

Ajuda-se o cliente primeiro a identificar o que ele faz, qual a imagem da situação (passo 1), depois a identificar como ele faz isto através de suas organizações somáticas, intensificando volitivamente com a ajuda da musculatura estriada, discriminando os afetos, estados cognitivos e esboços motores de ação organizados (passo 2). Depois começa-se a desintensificar e desorganizar as formas previamente intensificadas (passo 3) e a observar e receber de volta os efeitos desta desorganização – imagens, sentimentos, lembranças, etc. (passo 4). A partir daí pode-se reconhecer as formas que emergem como diferenciações sobre as formas anteriores (passo 5) ou então retorna-se aos padrões anteriores.

Através deste método de trabalho, atuando diretamente sobre as formas somáticas – organizadoras da experiência subjetiva – procura-se reorganizar comportamentos, atitudes e modos de ser e ensinar uma participação volitiva do sujeito em seu processo de vida, pelo aprendizado das regras da produção somática de existência.

A clínica formativa realiza uma cartografia das formas somáticas de uma pessoa para compreender e atuar sobre:

Os efeitos dos acontecimentos no sujeito.

Os modos habituais de lidar com estes efeitos e a cristalização somática da história de vida em formas estereotipadas, em modos fixos de lidar com as situações, em atitudes padrões.

O estabelecimento de um autodiálogo construtivo, de uma participação volitiva para o restabelecimento do processo formativo.

A partir do reconhecimento de como a pessoa está organizando somaticamente a sua experiência, ela poderá aprender a desorganizar e reorganizar estes modos. Fazer mais e fazer menos constituem um caminho para desorganizar padrões de ação estereotipados, abrindo a possibilidade para a emergência de sensações, sentimentos e novos padrões de ação. A pessoa pode então investir volitivamente neste processo, reconhecendo padrões, desorganizando formas e investindo em formas somáticas emergentes, na intenção de criar e estabilizar novos padrões de ação.

No processo clínico formativo, assim como no trabalho diário de cada um consigo mesmo, opera-se um manejo constante com as formas somáticas utilizando-se a Metodologia dos Cinco Passos.

Cada configuração de forma somática está relacionada a diferentes experiências subjetivas. O pensamento formativo oferece uma importante ferramenta para podermos participar ativamente deste processo, dialogando com os efeitos das experiências em nossos corpos, influindo em nossos comportamentos, aprendendo a navegar no devir.

 

BIBLIOGRAFIA:

Keleman, Stanley. Anatomia Emocional, Summus, São Paulo, 1992

Keleman, S. Corporificando a Experiência, Summus, São Paulo, 1995

Keleman, S. Amor e Vínculos, Summus, São Paulo, 1996

 

Notas:

* Artigo publicado na Revista Psicologia Brasil, ano 3 n 27, p 30-31, 2005.

 

**Autor: Artur Thiago Scarpato: Psicólogo clínico (PUC SP). Mestre em Psicologia Clínica (PUC SP). Possui quatro especializações na área de Psicologia: Especialização em Psicologia da Reabilitação pelo HC FMUSP, Especialização em Cinesiologia Psicológica pelo Instituto Sedes Sapientiae, Especialização em Teoria e Técnica Reichiana pelo Pulsar – Centro de Estudos Energéticos e Especialização em Educação Somática Existencial pelo Centro de Educação Somática Existencial. Trabalha em consultório particular com psicoterapia individual e de grupo. Autor de diversos artigos na área.

 

Retirado do site: http://www.psicoterapia.psc.br/scarpato/formacao.html

 

Read Full Post »


Video Clipe: My Chemical Romance – I Don’t Love You

 

Por Vanilde Gerolim Portillo

Para a Psicologia Analítica, o arquétipo da anima (termo em latim para alma),constitui o lado feminino no homem, e o arquétipo do animus(termo em latim para mente ou espírito), constitui o lado masculino na psique da mulher. Ambos os sexos possuem aspectos do sexo oposto, não só biologicamente, através dos hormônios e genes, como também, psicologicamente através de sentimentos e atitudes.

Sendo a persona a face externa da psique, a face interna, a formar o equilíbrio são os arquétipos da anima e animus. O homem traz consigo, como herança, a imagem de mulher. Não a imagem de uma ou de outra mulher especificamente, mas sim uma imagem arquetípica, ou seja, formada ao longo da existência humana e sedimentada através das experiências masculinas com o sexo oposto.

Cada mulher, por sua vez, desenvolveu seu arquétipo de animus através das experiências com o homem durante toda a evolução da humanidade.

Embora, anima e animus desempenhem função semelhante no homem e na mulher, não são, entretanto, o oposto exato. Segundo Humbert, “Anima e animus não são simétricos, têm seus efeitos próprios: possessão pelos humores para a anima inconsciente, pelas opiniões para o animus inconsciente.”

A anima, quando em estado inconsciente pode fazer com que o homem, numa possessão extrema, tenha comportamento tipicamente feminino, como alterações repentinas de humor, falta de controle emocional.

Em seu aspecto positivo a anima, quando reconhecida e integrada à consciência, servirá como guia e despertará, no homem o desejo de união e de vínculo com o feminino e com a vida. A anima será a “mensageira do inconsciente” tal como o deus Hermes da mitologia Grega.

A valorização social do comportamento viril no homem, desde criança, e o desencorajamento do comportamento mais agressivo nas mulheres, poderá provocar uma anima ou animus subdesenvolvidos e potencialmente carregados de energia, atuando no inconsciente.

Um animus atuando totalmente inconsciente poderá se manifestar de maneira também negativa, provocando alterações no comportamento e sentimentos da mulher. Segundo Jung: “em sua primeira forma inconsciente o animus é uma instância que engendra opiniões espontâneas, não premeditadas; exerce influência dominante sobre a vida emocional da mulher.”

O animus e a anima devidamente reconhecidos e integrados ao ego, contribuirão para a maturidade do psiquismo. Jung salienta que o trabalho de integração da anima é tarefa difícil. Diz ele: “Se o confronto com a sombra é obra do aprendiz, o confronto com a anima é obra-prima. A relação com a anima é outro teste de coragem, uma prova de fogo para as forças espirituais e morais do homem. Jamais devemos esquecer que, em se tratando da anima, estamos lidando com realidades psíquicas, as quais até então nunca foram apropriadas pelo homem, uma vez que se mantinham foram de seu âmbito psíquico, sob a forma de projeções.”

Anima e animus são responsáveis pelas qualidades das relações com pessoas do sexo oposto. Enquanto inconscientes, o contato com estes arquétipos são feitos em forma de projeções.

O homem, quando se apaixona por uma mulher, está projetando a imagem da mulher que ele tem internalizada. É fato que a pessoa que recebe a projeção é portadora, como dizia Jung, de um “gancho” que a aceita perfeitamente. O ato de apaixonar-se e decepcionar-se, nada mais é do que projeção e retirada da projeção do objeto externo. Geralmente o que se ouve é que a pessoa amada deixou de ser aquela por quem ele se apaixonou, quando na verdade ela nunca foi, só serviu como suporte da projeção de seus próprios conteúdos internos.

Para o homem a mãe é o primeiro “gancho” a receber a projeção da anima, ainda quando menino, o que se dá inconscientemente. Depois, com o crescimento e sua saída do ninho, o filho vai, aos poucos, retirando esta projeção e lançando-a a outras mulheres que continua sendo um processo inconsciente.

A qualidade, do relacionamento mãe-filho, será essencial e determinará a qualidade dos próximos relacionamentos, com outras mulheres. Salienta Jung: “Para o filho, a anima oculta-se no poder dominador da mãe e a ligação sentimental com ela dura às vezes a vida inteira, prejudicando gravemente o destino do homem ou, inversamente, animando a sua coragem para os atos mais arrojados.”

Jung define projeção da seguinte forma: “um processo inconsciente automático, através do qual um conteúdo inconsciente para o sujeito é transferido para um objeto, fazendo com que este conteúdo pareça pertencer ao objeto. A projeção cessa no momento em que se torna consciente, isto é, ao ser constatado que o conteúdo pertence ao sujeito.”

 

Vanilde Gerolim Portillo – Psicóloga Clínica – Pós-Graduada e Especialista Junguiana – Atende em seu consultório em São Paulo: (11) 2979-3855

 

Read Full Post »

Imagem: Caminhar de Vasco Abrunhosa

Por Angelita Scardua

Abraham Maslow foi um psicólogo norte-americano que viveu no século XX. Muito embora Maslow tenha empenhado grande parte de sua energia para o desenvolvimento e o reconhecimento da Psicologia Humanista, ele quase sempre é lembrado pela grande contribuição que legou ao estudo psicológico dos mecanismos que motivam o comportamento humano.

Quando pesquisava o comportamento de macacos, no início de sua carreira, Maslow percebeu que algumas necessidades são mais prioritárias do que outras. De forma bem sucinta: as necessidades referentes às demandas típicas do corpo como a fome, a sede, a cessação da dor, etc., tendem a ocupar nossa mente em primeiro lugar. Não há como negar, antes de qualquer pretensão transcendente, somos animais, habitamos um corpo material que se não for adequadamente nutrido e protegido, desfalecerá.  O fato é que a sede tem prioridade sobre a fome, pois a falta de água mata mais rápido do que a de comida!…E assim sucessivamente.

Em função dessa característica, de que uma necessidade exerce primazia sobre outras, Maslow criou uma Hierarquia de Necessidades, na qual definiu cinco níveis de necessidades:

1- Necessidades fisiológicas: ar, água, comida, abrigo, evitamento/cessação da dor e sexo. Também se inserem nessa categoria as necessidade de ter atividades, de descansar, de dormir, de livrar-se de substâncias tóxicas ou inúteis como urina e fezes, por exemplo.

2- Necessidades de segurança e estabilidade: garantir que a satisfação das necessidades fisiológicas não se interrompam. Assim, desenvolve-se a necessidade de ter uma estrutura, alguma ordem e alguns limites. Do ponto de vista negativo, a fome e a sede podem não ser mais as preocupações hegemônicas mas sim o medo, a insegurança e a ansiedade. Quando nos encontramos nesse estágio da hierarquia, descobrimos a urgência de ter um lar, um emprego, um plano de saúde, um plano de aposentadoria, uma poupança…

3- Necessidades de amor e pertencimento: sentir-se acolhido, protegido e integrado a um grupo com o qual possa se identificar e ser identificado. Quando se consegue suprir, de modo geral, as necessidade fisiológicas e de segurança, surge um terceiro nível. Começamos a ter necessidades essencialmente afetivas, associadas ao contato íntimo com outros seres vivos, especialmente humanos. Amigos, namorado(a), filhos. Além disso, todo tipo de vínculo social que nos dê a sensação de pertencimento, como o encontrado na comunidade, igreja, família, etc., passa a prevalecer. O lado negativo disso? Bom, podemos nos tornar suscetíveis à solidão e ao julgamento dos outros.

4- Necessidades de estima: sentir-se reconhecido e valorizado pelos seus pares, e por você mesmo, em função de suas características, capacidades e recursos pessoais. Maslow identificou duas versões das necessidades de estima: uma inferior e uma superior. A inferior é o desejo de ter o respeito dos outros, a necessidade de status, fama, glória, reconhecimento, atenção, reputação, apreciação, dignidade e mesmo dominância. A versão superior envolve a necessidade de auto-respeito, incluindo sentimentos como confiança, competência, capacidade de realização, mestria, independência e liberdade. A questão da superioridade de uma forma de estima sobre a outra é que o auto-respeito é muito mais difícil de perder, ou seja, uma vez que essa necessidade é atendida, sua força motivadora é muito mais constante e efetiva do que a motivação dependente da reação dos outros. Não satisfazer essas necessidades produz baixa auto-estima e os complexos de inferioridade.

Esses quatro níveis da Hierarquia das Necessidades, citados até agora, fazem parte das D-Needs: Deficit Needs, melhor dizendo: necessidades geradas pela falta. Isso significa que, nesses níveis, tendemos a nos sentirmos motivados a fazer algo quando nos falta os elementos adequados para satisfazer uma dessas quatro categorias de necessidade.

Maslow vê esses quatro primeiros níveis como necessidades de sobrevivência, presentes não apenas nos seres humanos mas em outros animais. Até mesmo o amor e a estima, que parecem tão particulares à nossa espécie, são necessários à manutenção da saúde, e isso pode ser percebido em outros animais que desenvolvem depressão ou ansiedade em função de abandono ou maus tratos. Tanto é que, por exemplo, quando não conseguimos satisfazer as necessidades superiores podemos “regredir”, focando nossa atenção na satisfação das necessidades inferiores. Por exemplo: o rompimento de um relacionamento, o desemprego, a reprovação em uma prova, podem desencadear sentimentos de desamparo, nos levando a buscar compensações na comida ou no sexo. Essa busca de compensação – baseada no redirecionamento do foco para as necessidades inferiores quando as superiores não são satisfeitas – ocorrem também no nível coletivo. Quanto mais pobre for um país menos as pessoas terão acesso a lazer, educação, etc., e existirá uma maior demanda social por um dirigente que prometa apenas acabar com a fome.

Na visão de Maslow, todos nós temos essas necessidades implantadas geneticamente, como se fossem instintivas. Contudo, não somos apenas animais atrelados à mera sobrevivência, somos animais que aspiram à divindade. Nossa percepção do mundo, e de nós mesmos, é filtrada por um complexo sistema neuronal habilitado com a impressionante capacidade de abstrair, logo, simbolizar. A imagem sensorial que captamos do mundo é (re)significada pelo nosso cérebro, ou seja, a imagem do mundo externo não resulta diretamente do estímulo coletado pelos sentidos, mas é construída mediante os processos de assimilação e diferenciação. A assimilação e a diferenciação são processos ancorados na capacidade do cérebro de processar e interpretar os dados sensoriais, o que é feito, em grande parte, pela via da comparação entre as informações coletadas. Comparar, por sua vez, implica a associação entre experiências: leia-se sentimentos, pensamentos e impressões anteriormente assimilados. Assim, a percepção humana é atravessada por valores subjetivos, próprios da vivência de cada um de nós.

Resumindo: as imagens com as quais representamos em nossa mente o mundo vivido – até mesmo em seus aspectos mais básicos como beber e comer – são construções subjetivas por excelência, muito embora se originem por meio da Experiência Sensorial. Portanto, apesar de num primeiro momento priorizarmos a manutenção do corpo físico – a sobrevivência –, o conjunto das necessidades humanas é mais ampliado e mais complexo do que aquele que motiva um gato, um macaco ou um peixinho dourado! Uma vez que tenhamos satisfeito as D-Needs, as quatro categorias de necessidades básicas que são subsidiadas pela exigência de sobreviver, elas deixam de gerar a motivação necessária para que possamos nos mexer.

 

Read Full Post »

POR FELIPE SALLES XAVIER

Nosso corpo é uma ferramenta imaginal de contato com as emoções, com os elementos da natureza que o formam, com a alma e com a mente, repetindo a história de sua criação. Para uma explicação do corpo arquetípico foi utilizada questões da Cabala no plano expressivo da manifestação do arquétipo.

 

A palavra Cabala significa “Tradição”, ela é um sistema de compreensão do mundo místico judaico, onde se acreditava que seria possível entender Deus. Mas, com o passar dos anos a Cabala evolui como forma de compreensão da organização do esquema corporal da vida, sendo chamada também de a Árvore da Vida.

 

A árvore é um símbolo sagrado encontrado nas mais diversas culturas em diferentes épocas, ela faz parte do inconsciente coletivo. Segundo a psicóloga Angelita Scárdua, ela representa a estrutura do universo, seus galhos representam a conexão com as dimensões superiores e sagradas da existência humana, já as raízes simbolizam a ligação com os aspectos inferiores, primitivos e básicos e funcionais da vida. Seus frutos dão a ela atributos positivos do eterno.

 

Sempre damos significados a algo tentado explicar a nossa própria existência, e uma forma pela qual fazemos isso é na utilização da Metáfora Espacial, que é algo simples que nos auxilia a compreensão arquetípica dos símbolos. Ela se refere às dimensões físicas, “à cima”, “a baixo”, “esquerda” e “direita”, todos estes tem uma associação em diversas áreas inclusive com o corpo.

 

Quando falamos que estamos nos sentindo bem, felizes ou com outros sentimentos positivos dizemos que nos percebemos para “cima”, e quando estamos nos sentindo mal, tristes dizemos que nos sentimos para “baixo”. Podemos ver que sempre usamos os significados da metáfora espacial em nossas vidas.

 

Na religião, nos contos-de-fada, na mitologia podemos ver que associamos o sagrado, o divino, o espiritual, o bondoso, o superior e os deuses com o espaço geográfico do alto, e quando falamos de mal, desonesto, sujo, diabo ou seres maléficos e as perdas, ligamos a idéia do espaço geográfico do subterrâneo e inferior.

 

Com essa explicação torna-se mais fácil entender o sentido filosófico e existencial da Árvore da Vida no sentido cabalístico. Na parte superior da árvore cabalística localizada na cabeça vemos a Coroa e na parte inferior localizado nos pés e pernas vemos o Reino, o que simbolicamente demonstra a conexão do sagrado com o mundano. Há também na cabala a separação do lado esquerdo com a escuridão e impureza, e no lado direito temos a fonte da luz e da pureza.

 

Sempre associamos inconscientemente a parte esquerda do corpo com algo negativo, pois biologicamente e culturalmente não desenvolvemos este lado, evoluímos desenvolvendo o lado direito. O lado esquerdo mostra no esquema corporal o coração que é símbolo da emoção e também é o lado do inconsciente, pois é o lado menos trabalhado, e nele existem muitas emoções perdidas e não trabalhadas, por isso o associamos ao impuro e ao escuro, pois está mal resolvido e escondido. Também está associado à mãe.

 

Já o lado direito é naturalmente o lado mais desenvolvido na maioria das pessoas, é o lado do “trabalho” porque evoluímos utilizando essa parte do corpo, portanto é a zona do consciente, da luz, pois é o que conhecemos e temos a percepção mais avançada.

 

A luz é o símbolo típico do conhecimento em todas e quaisquer mitologias, contos-de-fada e religiões. Isso também é biológico, basta olhar para os tempos ancestrais, nesta época fazíamos tudo durante a parte clara do dia, porque era menos perigoso e nos permitia boa visão das coisas ao nosso redor, já à noite não tínhamos auxilio da luz para enxergar nada, existiam inimigos a espreita, feras e o desconhecido. Por isso damos a luz o símbolo do conhecimento e as trevas o significado de sombrio, perigo e maléfico. Também está associado ao pai.

 

A esquematização simbólica da Cabala se organizou de acordo com a experiência evolutiva humana. Segundo o livro Zohar (Esplendor) – um livro místico judaico – ensina que a alma humana se divide em três elementos básicos o Nefesh que se associa aos instintos desejos corporais e é a parte inferior e animal da alma. O Ru’ach é associado às virtudes morais e a habilidade de distinguir o bem e o mal, é a parte mediana do espírito. E o Neshamah é a parte que nos separa claramente das outras formas de vida, relaciona-se com o intelecto, permite que o individuo tenha consciência de Deus.

 

E com Raaya Meheimna – um livro posterior ao Zohar – ainda incluem mais dois níveis. O Chayyah que nos permite ter a percepção do divino e o Yehidah que possibilita ao homem a união máxima com Deus, é a parte mais superior da alma. Isso deixa mais clara a árvore cabalística na Metáfora Espacial.

Read Full Post »

POR FELIPE SALLES XAVIER

Na esquematização imagética existem 10 centros cabalísticos em nosso corpo simbólico, chamados Sephirots, que significariam “esferas que emanam luz” que funcionam vinculada uma a outra. Segundo a psicoterapeuta junguiana Lucy Penna, são localizações imaginais de 10 arquétipos. Esses Sephirots são interligados gerando 22 caminhos, que seguem os princípios dos arcanos maiores do Tarô que representam imagens arquetípicas do inconsciente coletivo. Os Sephirots são os seguintes: Kether, Chokmah, Binah Chesed, Geburah, Tipheret, Hod, Netsach, Yesod e Malkhuth, e ainda uma décima primeira que não é um Sephirot, Daat. Logo abaixo seguem suas localizações e seus aspectos simbólicos.

 

Malkhuth (O Reino) – se localiza nos pés e em nossas pernas, é o contato com o solo, representa a conexão com a parte instintiva, animal é a realidade física. Engloba também a energia de sustentação do corpo e da vida, é o local da energia de telúrica, ou seja, a energia de ação, e simbolicamente é o contato com a mãe terra. Gaia na mitologia grega é a deusa-mãe terra, a criadora e geradora dos outros deuses, ela representa o interior humano, fonte de emoções mais primitivas.

 

Yesod (Fundamento / Forma) – se localiza acima do órgão genital e abaixo do abdômen, é o local que funciona como um reservatório das inteligências e da criatividade, nesse local os atributos são misturados, equilibrados e preparados para a revelação física. É o centro que reuni informações de oito Sephirots. Essa área do corpo é conhecida como o ventre, ele é o centro da consciência humana, lá equilibramos todas as energias vitais e sexuais. Representa o contato com a vida e com o feminino. Yesod é olhar para si mesmo sem usar mascara alguma, permitindo-se assim entrar em contato com o eu profundo e criativo verdadeiro. Sua imagem arquetípica é a lua.

 

Netsach (Vitória / Poder / Eternidade) – se localiza no lado esquerdo próximo entre a parte superior da coxa e a cintura, fica no local do Ílio (osso que forma a cintura), é o local aonde se abriga o centro responsável pelo o contato com o próximo, surge daí o desejo de superar os próprios limites. É ligado ao fato de saber lidar bem com as paixões e com a sedução.  Engloba ainda o principio fálico fertilizador, sendo assim representa o local do masculino.

 

Hod (Glória / Majestade) – se localiza no lado oposto a Netsach, é um canal de melhoria interna e de contato com o outro, representa a aceitação dos pensamentos e reconhecimento do eu em relação ao outro, ou seja, criação do espaço interno e individual. É o principio receptivo dos óvulos femininos. A energia criativa de Yesod surge de uma comunicação entre Netsach e Hod.

 

Tipheret (Beleza / Coração) – Situa-se no centro do tórax em cima do coração, é o centro da árvore da vida. Aqui temos a complementação de consciente e inconsciente, este local integra os opostos, trazendo assim a inteligência emocional, sendo o centro da sabedoria da vida e do entendimento sobre a luz do ego (consciência). É fonte de emoções superiores como os amores, principalmente o amor ágape. Para os gregos existem quatro tipos de amor, as quais são: Eros (o amor físico e sexual, a paixão), Storge (o amor familiar), Philos (o amor entre amigos, a amizade) e por ultimo o Ágape (o verdadeiro amor, o incondicional). O amor Ágape significa generoso, é o amor que se escolhe ter, um bom exemplo desse amor é Jesus cristo. É o centro cabalístico que tem como imagem arquetípica o sol.

 

Geburah (Justiça / Rigor) – Está localizado no ombro direito é o centro de controle dos desejos responsável por questionar os impulsos e as vontades. Centraliza a energia arquetípica a canalizando em questões objetivas no mundo real, com o ideal de superar as barreiras e transformar a própria vida.

 

Chesed (Misericórdia) – Está localizado no lado oposto de Geburah é o local que representa a vontade de compartilhar as boas emoções da vida, o impulso de se doar ao próximo e também é conhecida como compaixão. De ponto de vista simbólico é o local do intuitivo, do espiritual e da bondade.

 

Binah (Sabedoria / Entendimento) – Situa-se no lado esquerdo do cérebro, fica na área da razão do ser humano. Este ponto cabalístico influencia as definições racionais e a organização do pensamento, ou planejamento concreto de algo. Tem ligação com o símbolo arquetípico da água, que sempre esta associada ao feminino e ao futuro.

 

Chokmah (Razão / Inteligência) – Está associado ao lado direito do cérebro. É a região da intuição, das manifestações artística, da criatividade e das grandes idéias, tem como imagem arquetípica o elemento fogo, que se associa ao masculino e o passado.

 

Kether (Coroa) – É a copa da árvore, situa-se na parte superior da cabeça. É a unificação de todas as Sephirots, representa a Luz Superior, gera todo o potencial criativo. No hinduísmo é visto como o Brahma, o principio da energia vital. Nesse ponto concentram-se as experiências da vida, dando passagem ao reino espiritual. A nível simbólico podemos dizer que é o caminho iniciativo para a conexão com o Inconsciente coletivo.

 

Existe ainda um possível 11º Sephirot conhecido como Daath (Conhecimento), ela não é como os outros centro, pois não emana uma energia própria. Representa o abismo, o caos, porque é o ponto de unificação entre o corpo e o espírito, também é o contato com Deus. Se localiza entre o pescoço e o tórax, e simboliza a potencialidade masculina e conhecimento profundo de si – mesmo em relação aos sentimentos profundos.

 

A cabala nós ainda encontramos a divisão de três em três centros. Atziluth (Kether, Chokmah e Binah), Beriah (Chesed, Geburah e Tipheret), Yetzirah (Netsach, Hod e Yesod) o que denuncia a dinâmica arquetípica do corpo, possibilitando outras conexões energéticas entre seus centros.

 

O Atziluth é o “Mundo das Emanações” que é o conjunto responsável pelas irradiações das idéias. O Beriah é o “Mundo das Criações” representando o contato das emoções e sentimentos com o potencial criativo. O Yetzirah é o “Mundo das Formações”, sendo aquilo que nos permite trazer para o mundo físico algo que é interno. E ainda há o Asivah que é um único centro o Malkhuth (Reino), o “Mundo das Ações”, que nos impulsiona oferecendo energia para as atitudes.

 

Em suas separações verticais a cabala ainda faz uma ligação entre os arquétipos de Anima e Animus e sua integração (o Sizígia). O Sizígia é o arquétipo da alteridade, ou seja, é o arquétipo que trabalha na unificação e equilíbrio das diferenças do “eu-pessoal” do individuo, ele está configurado na coluna central da árvore cabalística. Anima é o arquétipo que personifica o feminino, esta relacionado à coluna esquerda sendo o centro da emoção e ao sagrado. Já Animus está relacionado à personificação do masculino, e representa a organização a ordem e o racional.

 

Com isso podemos concluir a importância dos estudos da organização da Cabala, como apoio arquetípico e simbólico para entendermos o funcionamento somato-psíquico da personalidade e dos centros expressivos dos arquétipos em nossas vidas.

 

Entendendo as correntes energéticas arquetípicas podemos entender os simbolismos dos machucados, das quedas, dos hematomas, das dores musculares e dos problemas de pele. 

 

Pois, nossa mente simbólica organiza de forma inconsciente acontecimentos para que nós possamos abrir os olhos para problemas que passamos e que de certa forma nos causam sofrimento, embora a vida nos avise de muitas questões internas mal resolvidas, muitas vezes deixamos de lado não dando o devido valor as experiências vividas, abandonando assim o valor profundos dos acontecimentos externos ao nosso corpo e mente.   

Read Full Post »

bodyImagem: Rhythman Trader, Dean Graham. Coleção Particular – The Bridgeman Art Library.

* Por Rubens Kignel

Seguidores de Wilhelm Reich desenvolveram abordagens hoje reconhecidas mundialmente como psicoterapias: bioenergética, biossistêmica, biossíntese e biodinâmica procuram o equilíbrio entre corpo, psique e sociedade.

 

Wilhelm Reich, o precursor do “corpo em psicoterapia”, deixou um legado de importantes discípulos, a partir dos quais nasceu uma segunda geração de seguidores que ocupam lugar de destaque na psicoterapia brasileira e de vários países. São chamados de neo-reichianos, pois se baseiam em conceitos e princípios criados por Reich, mas revistos, atualizados e influenciados por suas próprias pesquisas. Durante muitos anos o trabalho neo-reichiano foi considerado um campo paralelo à psicoterapia, mas hoje é reconhecido mundialmente como psicoterapia. Seu movimento de evolução e atualização foi muito vigoroso durante os últimos 30 anos. Vejamos algumas das principais abordagens e alguns de seus conceitos principais.

O trabalho de Reich sobre a “couraça muscular” foi desdobrado por Alexander Lowen e John Pierrakos, considerados os primeiros discípulos neo-reichianos. Ambos estudaram diretamente com Reich antes de trabalhar em colaboração. Por volta de 1950, desenvolveram uma técnica que denominaram “bioenergética”, termo reichiano que significa energia biológica. Lowen e Pierrakos acabaram seguindo caminhos diferenciados apesar de terem mantido as mesmas bases e conceitos do mestre.

 

Lowen continuou com o trabalho da bioenergética, que acabou se transformando numa abordagem muito conhecida e reconhecida de trabalho psicocorporal. Um dos principais conceitos da bioenergética é o grounding, termo em inglês que significa “enraizamento”, ou, em bom português, “pôr os pés no chão”, “incorporar-se”, “equilibrar-se”, “cair na real”, “estar em si e consigo mesmo”. No princípio, grounding significava para ele o movimento energético da cabeça em direção ao pés, como forma de incorporação e autoconhecimento.

 

Lowen partia do princípio reichiano de que os caracteres neuróticos, durante o ciclo do desenvolvimento, fixam-se energeticamente em algum ponto-chave do corpo, interrompendo o fluxo da energia. Esses pontos são chamados de anéis, e o bloqueio de energia ocorre desde muito cedo, durante os primeiros três meses, quando o bebê aprende a se defender principalmente com os olhos, evitando o contato ruim com o ambiente. O bloqueio, portanto, se estabelece nos olhos. Mais tarde, na época do desenvolvimento da sexualidade, a interrupção do fluxo de energia se dá na pélvis.

 

O objetivo da bioenergética é desbloquear essa circulação, que em geral vem carregada das repressões, de tal forma que ao longo da relação terapêutica a pessoa se dá conta de sua história, de seus traumas e dificuldades, restaurando um fluxo melhor e mais dinâmico. Cada um dos caracteres, de acordo com Lowen, acaba se fixando em algum dos anéis: ocular, oral, peitoral, visceral e pélvico, dependendo da fase do desenvolvimento em que o trauma ocorre e da formação deste.

 

No setting bioenergético, terapeuta e cliente podem trabalhar de pé, para que o cliente explore sua energia nas chamadas “posições de stress”, que estimulam os bloqueios a ganhar força e serem expressos. Dessa forma, é possível localizar com mais facilidade os bloqueios e restaurar ou reparar o fluxo psicoenergético.

 

Os terapeutas bioenergéticos usam também o chamado stool ou “banquinho”, em que o cliente deita de costas para alongar e estimular a musculatura paravertebral e o músculo diafragmático, que controlam movimento, sensação e respiração.

 

Descontraindo a repressão físico-emocional incorporada nas costas e na respiração, libera-se tanto o corpo físico quanto o “corpo subjetivo”, para que o processo psicoterapêutico se realize. O setting também pode ocorrer no divã, onde há a possibilidade de exploração de descarga ou contenção energética. O paciente se deita e, com a coluna apoiada, braços e pernas ficam livres para ser usados em movimentos de agressão ou acolhimento.

 

Essas técnicas corporais são acompanhadas de um profundo conhecimento psicodinâmico. Os terapeutas passam por uma intensa formação psicanalítica, que acompanha o processo. Lowen conseguiu juntar aspectos da dinâmica corporal e do organismo com a psicanálise freudiana.

Pierrakos, por outro lado, alinhavou o conceito de caráter a um trabalho em comunidade que chamou de core-energetics, desenvolvido em conjunto com sua primeira mulher, Eva Pierrakos. Assim criaram o patchwork, que integra os conceitos da personalidade com a core energética, e tem conteúdo particular no desenvolvimento da espiritualidade. O princípio da core energética considera a idéia de que tudo é energia e consciência formada com um contínuo pulsar de movimento ao interior e ao exterior da pessoa. Essa energia é chamada por Reich de “orgone”. Está tanto no Cosmos como no organismo humano, ou seja, em tudo o que existe. A capacidade de direcionamento dessa energia, de acordo com John e Eva Pierrakos, seria a própria capacidade de conscientização e, portanto, de chegar ao core (núcleo ou essência) pessoal. Influenciado pelos conceitos junguianos de “máscara”, “sombra” e “self”, Pierrakos denominou a primeira camada defensiva de “máscara”, representando as couraças musculares aparentes ou superficiais; de “eu inferior” ou “sombra” os sentimentos negativos inconscientes contidos na musculatura mais profunda; e de “eu superior” ou self core aos sentimentos positivos contidos no corpo

 

Desbloqueio das couraças

Outras duas importantes abordagens são a biodinâmica e a biossíntese, desenvolvidas respectivamente por Gerda Boyesen e David Boadella, clientes de Ola Raknes, discípulo direto de Reich na época em que este viveu na Noruega.

 

Psicóloga e fisioterapeuta norueguesa, Boyesen foi cliente e aluna de Raknes. Desenvolveu um trabalho em que aliava a experiência psicoterapêutica dos conceitos reichianos a técnicas de massagens inspiradas na fisioterapeuta Aadel Bülow-Hansen (tanto no âmbito da fisioterapia quanto no uso da massagem para tratamento de distúrbios mentais e psicossomáticos) e na vegetoterapia criada por Reich e desenvolvida na Noruega por Raknes. O objetivo de sua técnica é o desbloqueio das couraças muscular, de tecido e visceral – e conseqüentemente da subjetividade nelas contida. As massagens biodinâmicas provaram sua eficiência na prática psicoterápica através do profundo conhecimento das características da musculatura, da pele, da membrana entre a pele e o músculo e do funcionamento visceral conectado com os estágios de desenvolvimento.

 

No brilhante artigo intitulado “A personalidade primária”, Boyesen escreve sobre o desenvolvimento psicoenergético do ponto de vista da relação mãe/bebê especialmente conectado com o canal alimentar. Nesse sentido, as pesquisas em biodinâmica articuladas por Boyesen entre as massagens e a psicoterapia levaram à descoberta da “couraça visceral” (repressões localizadas no funcionamento peristáltico do intestino), tornando-o hiper ou hipotônico, isto é, preso ou solto demais. Essas repressões aconteceram em fases muito primitivas do desenvolvimento desde o nascimento até a fase anal ou de controle do esfíncter, que acarretam problemas psicológicos e psicossomáticos. A esse movimento peristáltico Boyesen denominou psicoperistaltismo, numa alusão à idéia de que a digestão não processa só alimentos, mas também emoções primitivas. O psicoperistaltismo é trabalhado a partir da escuta, feita pelo terapeuta, dos ruídos detectados por meio de um estetoscópio posicionado na barriga do cliente durante a massagem, ruídos estes estimulados pelos diferentes toques e massagens. O toque na superfície da pele levou também à descoberta da “couraça de tecido”, isto é, o excesso ou falta de defesas em nível epidérmico.

 

Gerda Boyesen desenvolveu uma forma de leitura corporal diferente da de Lowen. Enquanto ele articulou a leitura do caráter através da postura somática da pessoa de pé, Boyesen preferiu o exame da pessoa com corpo deitado: por meio do toque e do manuseio do corpo do paciente, investigando musculatura, pele, membrana, articulações, respiração e suas relações significativas com a formação de caráter. A psicoterapia biodinâmica tem forte influência da idéia de relações objetais e, especialmente, dos métodos e dos conceitos winnicottianos.

 

David Boadella, da biossíntese, também foi cliente de Raknes. Primeiro desenvolveu pesquisas com base num estudo aprofundado do desenvolvimento embriológico do ser humano, não somente pela investigação da embriologia orgânica em si, mas também pela articulação entre as camadas embriológicas e o conteúdo orgânico e subjetivo destas: O ectoderma, por exemplo, desenvolve -se em direção ao sistema nervoso, responsável pela relação sensorial e neurológica com o ambiente; o mesoderma, em direção ao sistema muscular e esquelético, encarregado de ação e movimento; e o endoderma, à parte visceral do corpo ligada às emoções mais primitivas. Essas pesquisas levaram Boadella a estudar a evolução do feto no útero, desde a fase embrionária, travando contato com o que chama de “vida intra-uterina” e com as influências que o feto recebe da mãe e do ambiente durante a gravidez. Desenvolveu dois conceitos fundamentais da biossíntese: “útero quente” (receptivo ou acolhedor ao bebê) e “útero frio” (não acolhedor ou rejeitador). Esses conceitos foram expandidos como metáforas de situações da vida e usados psicoterapeuticamente na compreensão dos processos no nível das conexões afetivas viscerais ou endodérmicas.

 

O pensamento de Boadella seguiu em direção a conceitos de movimento e postura chamados “fluxo da forma” e “posturas da alma”, com influência do embriologista alemão Blendsmith e dos conceitos de Stanley Keleman. As posturas básicas do desenvolvimento humano definem fixações caracteriológicas que dependem principalmente da educação e cultura. Uma pessoa pode ter características corporais de flexão (fechadas) e extensão (abertas), tração e oposição, rotação e canalização, ativação e absorção, e pulsação. Cada uma dessas características tem uma respectiva postura corporal acompanhada de uma subjetividade básica ligada a situações de abrir-se e fechar-se a si e ao mundo, possuir e rejeitar, desfocar e focar, atividade e absorção, além de toda pulsação existente entre as posturas.

 

Outros importantes conceitos da biossíntese são os de “grounding” (similar ao de Lowen, que vimos anteriormente), o de “centrar-se”, que se refere à capacidade de estar emocionalmente centrado ou equilibrado, e o de “ver-se”, relacionado com a capacidade de se conectar, tanto ao mundo externo como ao interno, num fluxo dinâmico de comunicação. Cada um desses conceitos é vinculado ao sistema muscular e esquelético, ao sistema nervoso autônomo e visceral e ao sistema nervoso central e ao cérebro, respectivamente.

A biossíntese lida com os conceitos de vínculo psicoterapêutico de Guntrip e Winnicott, em relações objetais, além da compreensão do que chama de bioespiritualidade, idéia desenvolvida pelo dinamarquês Bob Moore. A bioespiritualidade é a capacidade do ser humano de estar com o melhor de si mesmo na vida. Na prática clínica psicoterapêutica são usadas técnicas de movimento, meditação, dança e o conceito de “ressonância”, que ajuda o terapeuta a entrar em contato rítmico com o cliente e vice-versa.

 

Outro importante neo-reichiano que podemos citar é Jerome Liss, criador da biossistêmica. Psiquiatra formado em Harvard, Liss atualmente mora em Roma onde trabalha em cooperação com Maurizio Stupiggia, de Bolonha. A biossistêmica lida com a ação não-verbal nos sistemas corporais humanos: o corpo na família, o corpo na organização, o corpo político e o corpo nos grupos terapêuticos. A importância da biossistêmica reside no fato de que através da postura e das sensações pode-se analisar profundamente as relações familiares, de casal e de grupos.

 

No Brasil existem escolas que representam todas essas abordagens, incluindo algumas universidades, e a importância da psicoterapia corporal hoje está cada vez mais clara. Houve um grande avanço devido às pesquisas na neuropsi-cologia. Neuropsicólogos e neurologistas como Edward Tronick, do Hospital Infantil de Boston, Alan Schore, da Universidade da Califórnia, o médico e psicanalista Daniel Stern, António Damásio e Daniel Siegel, entre outros, pesquisaram profunda e detalhadamente a relação entre emoções e cognição no cérebro. As descobertas a respeito do sistema límbico (por onde passam as emoções), do hemisfério cerebral direito e esquerdo, do sistema nervoso autônomo com funcionamento simpático e parassimpático, do sistema nervoso central, do sistema motor, levaram a confirmações sólidas do que já se sabia empiricamente no trabalho clínico. Com isso, o psicoterapeuta corporal tem condições de trabalho e conhecimento que facilitam bastante os diagnósticos e a clínica, que no e através do corpo descobre e pode reparar funções psíquicas. A contribuição da psicoterapia corporal evidencia o fato de que a possibilidade de transformação deve mobilizar a pessoa como um todo. Se o estímulo for apenas psíquico, as transformações se mostrarão mais difíceis e lentas.

Esses estudos proporcionaram ao psicoterapeuta corporal um preparo avançado, o de conhecer o corpo como um emissor de subjetividade, mas também como organismo, com suas manifestações psicossomáticas, e o corpo como forma, expressa por seus gestos significativos. Além disso, a maioria dos treinamentos oferece um profundo conhecimento da dinâmica psicanalítica, influenciada por diferentes abordagens, tanto para trabalho individual como de grupo.

 

Este mês, a nata de psicoterapeutas e pesquisadores da Europa, dos Estados Unidos e da América Latina estará em São Paulo para compartilhar as novidades da área corporal, com abordagens ainda desconhecidas no Brasil, no 7o Congresso.

É importante lembrar que a psicoterapia corporal tem forte atuação na área social, e talvez seja a linha terapêutica que mais tenha avançado nessa área, pois além do trabalho terapêutico exerce função de educação terapêutica e de saúde, melhorando a qualidade de vida de dezenas de comunidades de baixa renda no Brasil. O trabalho educacional é muito importante na formação de psicoterapeutas, que aprendem constantemente com exercícios práticos e teóricos. Todo psicoterapeuta deve passar por uma intensa experiência prática compartilhada com seus colegas, tanto em grupo como no trabalho individual, para poder interferir no ambiente a partir dessa vivência pessoal.

 

Para conhecer mais:

O corpo no limite da comunicação. Rubens Kignel. Summus, 2005.

O corpo em terapia. Alexander Lowen. Summus, 1997.

Nos caminhos de Reich. David Boadella. Summus, 1985.

Entre psiquê e soma. Gerda Boyesen. Summus, 1986.

http://www.biodinamica.psc.br, http://www.biossintese.com.br, http://www.bioenergetica.com.br

 

 

 

 

 

*Rubens Kignel é psicoterapeuta, mestre em comunicação e semiótica pela PUC-SP, coordenador do curso de pós-graduação “O corpo em psicoterapia” (Unip), membro da Associação Brasileira de Psicoterapia e presidente do 7º Congresso Internacional de Psicoterapias Corporais, que acontece no Sesc Pompéia, em São Paulo, de 13 a 16 de outubro de 2005.

Read Full Post »

Older Posts »