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Archive for the ‘Arquétipo’ Category

bird-woman.jpgImagem: “Captured” de Catrin Welz-Stein

Autor: Ana Luísa Testa

RESUMO

Este artigo aborda questões relativas à dois grandes autores da psicologia moderna: Reich e Jung e traça paralelos não só em suas teorias, assim como em suas percepções sobre vida, ciência e cultura. Discute e crítica posições empregadas pelo paradigma mecanicista de ciência e aponta como Reich e Jung – homens com uma visão além de seu tempo – conseguiram transpor os valores científicos de sua época e adotaram uma visão mais integral de homem em suas práticas e teorias, reconhecendo nos outros em si o que há de irracional e obscuro, aquilo que aprendemos a negar e não conseguimos enxergar – a Sombra e nossos corpos.

Palavras-chave: Jung, Psicologia Corporal, Reich,

ABSTRACT

This article discusses issues about two of the main authors of psychology: Reich and Jung, and draw some parallels into their theories, their perceptions about life, science and culture. This article also criticizes the mechanicist model of science and shows how Reich and Jung were able to skip the scientific paradigm of their time and concept a holistc vision about life and human nature in their practices and theories, recognizing in human beings what’s irrational and obscure, what we learn to deny and what we are not able to see – the Shadow and our bodies.

Keywords: Body Psychology, Jung, Reich.

Oscilei em minha decisão sobre comparar partes da teoria de Reich e Jung muitas vezes. Seriam as semelhanças fortes o suficiente para justificar um artigo? E o que fazer quanto às diferenças? Essas diferenças teóricas e técnicas poderiam se complementar de alguma forma? Quem apresenta a melhor proposta de trabalho: Reich ou Jung? Esta última pergunta foi a mais simples de se responder, pois em psicologia não existe certo e errado; as escolhas teóricas são baseadas na personalidade, visão de mundo, história de vida e grau de identificação de cada pessoa com as mais diversas teorias. Muitas correntes teóricas são eficientes, desde que bem aplicadas e compreendidas. É como Sannino (1992) expõe, fazendo referência aos chineses – A palavra certa na boca do homem errado produz resultados errados. A palavra errada na boca do homem certo produz resultados certos. Em psicologia, a eficiência pessoal e técnica do terapeuta são elementos de maior importância.

Seguindo o desenvolvimento de minhas perguntas, quando penso nas diferenças entre os dois, vejo que elas não se restringem apenas à teoria – já que Reich e Jung foram homens muito diferentes. O primeiro era mais extrovertido, concreto, bastante apegado à seriedade, sem raízes – Reich era um cidadão do mundo – e com pouco senso de humor. O segundo, um tipo introvertido, predominantemente pensador, mais recluso, mais humilde em suas convicções e profundamente enraizado na Suíça. (CONGER, 1993). De fato as diferenças são enormes, mas e quanto às semelhanças?

Ambos foram filhos da psicanálise e amigos próximos de Freud. Reich foi o membro mais novo a ser aceito na Sociedade Psicanalítica, e Freud era como um pai para ele. O livro “Psicopatologia e Sociologia da Vida Sexual”, traduzido no Brasil como “A Função do Orgasmo” foi um presente de Reich para Freud, em 1926, por conta de seu septuagésimo aniversário, mas Freud o rejeitou, e por fim acabaram rompendo por divergências não só teóricas, mas também pessoais. Com Jung a situação não foi muito diferente. Freud acreditava que Jung seria seu sucessor na Sociedade Psicanalítica, mas as divergências teóricas foram profundas, já que Jung considerava a redução nas interpretações sexuais algo superficial, e buscava em sua teoria os símbolos ocultos do inconsciente, e por fim acabaram rompendo no ano de 1913. (CONGER, 1993)

Após a ruptura com Freud, Reich e Jung começaram a desenvolver suas próprias teorias e métodos de trabalho psicoterapêutico. Dedicaram-se à psicologia profunda e aos fundamentos da vida de forma brilhante – Reich estudando e trabalhando com a energia e o corpo e Jung com imagens e símbolos do inconsciente.

Outra semelhança é que para os dois autores, corpo e mente são aspectos diferentes de um mesmo organismo. (CONGER, 1993). Hoje, através de um novo paradigma de ciência que vem abrindo caminhos pela física quântica, sabemos que essa visão de homem não poderia ser mais apropriada. Energia e matéria são aspectos de uma mesma unidade. A natureza do elétron se comporta ora como onda, ora como partícula. Muitos físicos, atualmente, aceitam que a matéria esteja impregnada de psiquismo, (SILVEIRA, 2000) e as neurociências apontam cada vez mais as bases materiais de nosso psiquismo, o que não significa a emergência de um reducionismo das ciências psicológicas às neurofisiológicas, mas sim um complemento, uma visão mais complexa e interdisciplinar.

Conforme diz Silveira (2000, p. 164): “Se o psicólogo, nas suas investigações através das camadas mais profundas da psique, encontra a matéria, por sua vez o físico, nas suas pesquisas mais finas sobre a matéria, encontra a psique”. Neste sentido, matéria e psique podem ser consideradas um mesmo fenômeno, o primeiro observado pelo exterior, e o segundo do interior. (VON FRANZ apud SILVEIRA, 2000)

Seguindo esta linha de raciocínio, acredito que Reich e Jung conseguiram se distanciar do paradigma científico predominante da época – o mecanicista, muito bem sintetizado pela máxima de René Descartes – “Penso, logo existo” – que restringe o homem à um ser racional, previsível e fundamentalmente mecânico. (CAPRA, 1995) O homem se identificou com sua parte racional, e neste modelo de ciência, não teve instrumentos para olhar e compreender o todo. É por esta razão que intitulei Reich e Jung como homens além de seu tempo, mostrando alguns prejuízos que uma cisão entre racionalidade e irracionalidade no homem podem acarretar.

Os dois autores conseguiram esquivar-se do padrão mecanicista de ciência cada um à seu modo: Reich de uma forma que ele julgava concreta (científica) e palpável, e Jung por suas observações e classificações sistemáticas de todo material que lhe aparecia, seja por um processo de auto análise, na clínica ou pelo estudo dos mitos. Ao criticar o modelo vigente, em “O Éter, Deus e o Diabo” (2003) Reich questiona por qual razão a ciência não abraçou o estudo do processo vital, e argumentou que todo paradigma científico adotado é sempre o reflexo dos homens de sua época. Podemos dizer então que o homem mecanicista, materialista, que se enxerga tal como uma máquina é incapaz de incluir em sua pesquisa aspectos que ele próprio não enxerga – sua humanidade total.

O físico mecanicista típico pensa de acordo com os princípios da construção da máquina, a quem serve em primeiro lugar. Uma máquina deve ser perfeita. Portanto, o pensamento e a ação do físico devem ser perfeitos. O perfeccionismo é uma característica essencial do pensamento mecanicista. Não permite erros. Incertezas e situações em fluxo são indesejáveis. (REICH, 2003, pág. 89)

O cientista moderno trabalha com modelos artificiais, altamente controlados em laboratório, já que erros e desvios são considerados inoportunos. E desta forma ele se opõe à realidade, pois a natureza opera de forma imprevisível e altamente complexa. Além disso, o cientista omite em seus resultados possíveis erros, lacunas e contradições e expõe apenas o resultado final, já lapidado. Esta é mais uma atitude que ilustra como a necessidade de perfeição do cientista pode atrapalhar a compreensão dos fenômenos. (REICH, 2003)

Jung, assim como Reich, também faz a sua critica à ciência, ao dizer que ela não consegue trabalhar com o que o homem é – sua essência – e que a vida humana pode ser mais bem expressa através dos mitos. O mito expressa a vida com mais exatidão do que a ciência, que falha por trabalhar com noções médias e demasiadamente genéricas para dar conta da riqueza e complexidade de uma vida individual. (JUNG, 1984)

Com isto, eles não queriam dizer que a ciência deva ser descartada, mas sim complementada, e que seus objetos de estudo possam ser visto a partir de uma visão mais complexa, menos fragmentada e menos desconectada.

Como Reich afirmou, o paradigma empregado em determinada época é o reflexo dos homens que o adotam e o validam, então poderíamos dizer que estes homens estão tão fragmentados e desconectados quanto seu modelo de produção de conhecimento? Reich e Jung acreditam que sim, e que este homem é resultado de uma cultura que considera os aspectos irracionais do ser humano como algo inferior. Para eles, esta cisão é o retrato do homem não saudável, e a saúde deve ser reconquistada a partir da união de opostos. (CONGER, 1993) “Natureza e cultura, instinto e moralidade, sexualidade e realização tornaram-se incompatíveis, como resultado da cisão na estrutura humana.” (REICH, 1995, p. 17)

A unidade desses fenômenos será utópica enquanto o homem se negar a ver e levar em conta o seu corpo e toda a irracionalidade à ele pertinente. Keleman (1999), afirma que tal cisão nos faz perder contato com nossa imagem interior, nosso self. O contato é perdido porque aprendemos em nosso meio externo como devemos ser e como devemos nos comportar, e tentamos corporificar essas imagens de fora para dentro. A fim de sermos aceitos, nos afastamos de nossa capacidade de expansão, de contato e de autenticidade em relação ao nosso ser. Vivemos um personagem que acreditamos ser a representação mais fidedigna de nós mesmos, sem nos darmos conta de que forma ele nos consome e reprime nossos sentimentos mais espontâneos, nossa fluidez natural, nos deixando temerosos e destrutivos – indivíduos encouraçados.

Para Reich, a couraça é desenvolvida pela imposição social de controle dos impulsos e emoções. Elas são corporificadas para que o indivíduo se adapte às exigências sociais através da manipulação de seu sistema vegetativo, como por exemplo, prender a respiração (bloqueio do diafragma) a fim de suprimir fortes emoções. As couraças são identificáveis no corpo através de contrações crônicas em grupos musculares funcionalmente associados.  Estamos inconscientes de nossas couraças, de nossa rigidez somática, e do que elas representam. Nossas couraças são as estruturas capazes de manter a cisão no ser humano. (REICH, 2004)

Se para Reich cultura e sociedade são responsáveis pela cisão e pela formação das couraças, para Jung elas são responsáveis pela cisão e pela constituição da sombra.

Da mesma forma que estamos inconscientes de nossas couraças, também estamos inconscientes de nossa sombra. A sombra, para Jung, abrange os lados opostos inaceitáveis pela sociedade – e por fim por nós mesmos – que não conseguimos acoplar ao nosso Ego. É o nosso lado obscuro. (VON FRANZ, apud CONGER, 1993)

Poderíamos então dizer que o conceito de corpo encouraçado de Reich assemelha-se ao conceito de sombra de Jung, na medida em que ambos operam na manutenção da cisão humana entre o par de opostos racional x irracional. Tanto o corpo quanto a sombra contém a história de como o surgimento espontâneo da energia vital (e de nosso self) é rejeitado.

A vitória de uma vida super racionalizada se dá à custa de uma vitalidade mais primitiva e natural. Para quem pode ler o corpo, ele guarda o arquivo de nosso lado rejeitado, revelando o que não ousamos falar, expressando nossos temores passados e presentes. O corpo como sombra é predominantemente, o corpo como caráter, o corpo como energia contida que não é reconhecida, não é constatada, é ignorada e indisponível. (Conger, 1993. pág. 103)

Através desses conceitos descritos e relacionados – couraça e sombra – vemos que Reich e Jung preocuparam-se com a questão da cisão humana e a forma como ela nos afeta e prejudica. À medida que valorizamos a razão e abandonamos parte de nossa humanidade, os aspectos não-racionais permanecerão na sombra, num estado de inconsciência e indiferenciação, e não poderão ser usados na busca do prazer, do contato íntimo e do amor. Acredito que no trabalho psicoterapêutico o principal objetivo é auxiliar nosso clientes a unirem seus opostos, para que consigam amar não só superficialmente, mas também afetivamente, trabalhar não só com a mente, mas também com o corpo e conhecer não só aquilo que é racional, e sim o todo – e, parafraseando Reich, desta forma ajudá-los à governarem suas vidas.

Relacionar Reich e Jung não é tarefa fácil quando pensamos em encontrar muitos paralelos em suas teorias, mas bastante enriquecedora quando procuramos entender a grandeza de pensamento desses dois autores e cruzar conceitos semelhantes que exprimem a realidade humana. Acredito que estudiosos e seguidores de ambas as teorias podem se beneficiar ao beber de outras fontes teóricas. Este texto não esgota de forma alguma as possíveis relações entre os dois, e argumenta basicamente o reconhecimento de que Reich e Jung identificaram um certo círculo vicioso, de um homem desconectado que produz uma ciência fragmentada, e de uma ciência fragmentada que alimenta a desconexão de um homem racionalizado com a sua irracionalidade.

REFERÊNCIAS:

CAPRA, F. O Ponto de Mutação: A Ciência, a Sociedade e a Cultura emergente.25 ª ed. São Paulo: Cultrix, 2005.

CONGER, J. P. Jung e Reich: O corpo como sombra. São Paulo: Summus, 1993.

JUNG, C.G. Memórias Sonhos Reflexões. 6 ª ed. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1984.

KELEMAN, S. Mito e Corpo: Uma conversa com Joseph Campbell. São Paulo: Summus, 1999.

REICH, W. Análise do Caráter. 3 ª ed. São Paulo: Martins Fontes, 2004.

REICH W. A função do Orgasmo.  19 ª ed. São Paulo: Brasiliense. 1995.

REICH W. O Éter, Deus e o Diabo. São Paulo: Martins Fontes. 2003.

SANNINO, A. M. Métodos do Trabalho Corporal na Psicoterapia Jungiana: Teoria e Prática. São Paulo: Editora Moraes, 1992.

SILVEIRA, N. Jung: Vida e Obra. 17 ª ed. Rio de Janeiro: Editora Paz e Terra. 2000.

LINK: http://www.terapiaemdia.com.br/?p=104

 

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Imagem: Angelo Musgo

FONTE: KELEMAN, S. MITO & CORPO: UMA CONVERSA COM JOSEPH CAMPBELL. TRADUÇÃO: BOLANHO, D. M. EDITORA: SUMMUS EDITORIAL, 1999.

Existem lugares solitários onde podemos esconder nossas assombrações com aquela sensação de inviolabilidade que apenas os loucos conseguem construir. Esses lugares solitários costumam a nos seduzir com seu conforto e ao mesmo tempo nos prender como quando se cai em uma armadilha.

 Eu sei que você já deve ter estado nesses lugares solitários por muitos e muitos anos. Tem gente que nunca saiu de seus labirintos simplesmente porque nem consegue imaginar que existe algo fora desse espaço privado e confortável, onde nossa mente pode se isolar do mundo exterior como se fossemos apartados, cindidos, separados.

A ilusão do quarto privado nos diz que nossa mente está em nosso corpo, como alguém está sozinho em um quarto. Protegidos por grossas paredes e uma porta trancada com cadeado. É como se esse alguém, nesse lugar solitário e confortável, olhasse o mundo à distância pelas janelas desse quarto.

As paredes do quarto são nossos ossos, nossos músculos, nossa pele, nossas fronteiras. As janelas são nossos sentidos e o solitário dentro daquela sala vazia é cada um de nós.

Essa imagem, moderna, derivada de um conjunto bem articulado de teorias e concepções sobre o mundo e a alma humana, que derivam de Descartes, Locke, Leibniz e até Shakespeare, nos presenteou com a segurança de nossa solidão e com uma curiosa alucinação de onipotência mental.

O dualismo corpo-mente nos presenteou com a terra devastada. Com a impressão de que temos um corpo como quem tem uma moeda no bolso. O esquecimento do corpo é um tópico bem estudado na filosofia contemporânea. Nossa impressão de deslocamento, nossas sensação de exílio, a ideia de uma prisão física para uma alma imortal (que remonta as antigas seitas órficas e ao gnosticismo cristão dos primeiros séculos) nos ofertou um mote forte para o abandono do corpo, com a desconcertante impressão de que não estamos comprometidos com esse mundo e que o corpo, como parte da história biológica da terra, é apenas um invólucro provisório de nossa essência, uma capa protetora para um Eu intangível que se esconde por trás de suas paredes.

Joseph Campbell percebeu essa síndrome moderna e chamou o estado de nossa corporeidade contemporânea de terra devastada. Quando Stanley Keleman, coordenador do Centro para estudos energéticos em Berkeley, Califórnia, encontrou-se com Campbell e em sua parceria, entabulou uma longa conversa sobre corporeidade e mito, um caminho de escape da terra devasta começou a ser pensado.

A ideia é que os mitos são criados não em função da mente, mas sim em resposta a determinadas sugestões do corpo é o fio de Ariadne de nosso quarto privado. Como um sonho coletivo, o mito nos apresenta uma chave para compreendermos a relação com nossos corpos e para que possamos abandonar o estado de alienação em que nos encontramos diante do fluxo biológico da terra e reencontrar um lugar menos solitário para se estar nesse mundo.

O mito de Parsifal e do Graal é o mote do livro de Keleman em suas conversas com Campbell (Mito e corpo: uma conversa com Joseph Campbell – Summus Editorial). A conexão de nosso Self com nosso corpo ancestral, um corpo coletivo que remota a tempos onde a memória das vidas individuais e particulares não pode chegar é expressa através da narrativa mítica. O mais interessante das intuições de Campbell a partir da história de Parsifal e da busca pelo Graal é que nossas vidas privadas, a história de nossas individualidades e de nossas experiências pessoais não podem ser contadas sem o apelo a uma narrativa, a uma trama que une diversos personagens que se sucedem e que aparecem marcados em nossos corpos, na infância, na adolescência, na juventude, na vida adulta, na velhice…  Arthur Schopenhauer explicou isso uma vez dizendo: “o mundo é como um sonho sonhado por um único sonhador, no qual todos os personagens estão sonhando também. Eles estão sonhando suas vidas e tudo se coordena em uma harmonia misteriosa”.

Existem muitos personagens corporais em nossas histórias. Existe o velho sábio, o jovem guerreiro, a grande mãe. Existem nossos próprios personagens pessoais que misteriosamente se conectam aos personagens dos mitos que compõe nossa experiência coletiva. Macunaíma, Beowulf, Parsifal, Gilgamesh… não importam os nomes, suas narrativas se fundem com as nossas e suas histórias nos apresentam a chave para nos livrarmos do confortável e vazio lugar solitário de nossa própria mente. Para que possamos reaprender a ser nosso corpo e semear novamente nossa terra devastada com algum tipo novo e revigorante de esperança.

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Imagem: Nicoletta Ceccoli 

Autor: Juliana Corrêa

 Observando a biografia de escritores, pintores, poetas e artistas em geral, percebemos que um elo que os une é a criatividade. Alguns desses artistas tornam-se indivíduos criativos de um modo bastante específico, ao acessarem as camadas mais profundas da psique. Tal acesso às profundezas da alma também é comum à psicose e, de fato, muitos indivíduos criativos famosos apresentam sintomas neuróticos e psicóticos, em maior ou menor grau. Existe, assim, uma relação evidente entre a arte e a doença mental.

De acordo com a psicologia analítica, o artista é um indivíduo que possui determinada permeabilidade entre consciente-inconsciente. Embora outros indivíduos também apresentem tal permeabilidade, no artista os conteúdos gerados pelo inconsciente são trazidas à consciência através da arte. Jung faz distinção entre a arte produto da neurose, que segundo ele é permeada de conteúdos pessoais, e a arte cuja fonte está no inconsciente coletivo. Nos casos em que a arte é produto de uma neurose o artista busca inspiração em seu próprio inconsciente pessoal, porém essa fonte de inspiração pode se extinguir com a dissolução dos conflitos.

Com esse tipo de arte Jung foi bastante impiedoso, dizendo que deveria ser relegada ao “método purgativo freudiano” (SIC) sem remorso, e que “A neurose não cria arte. Ela é não criativa e inimiga da vida. Ela é o fracasso e a não-realização.” (JUNG: 2001, p. 337). Tal espécie de arte teria mais afinidade com os sintomas do que com os símbolos, e assim, pode ser totalmente reduzida à biografia do próprio autor. Embora detenha muitos méritos, muito da obra de Woody Allen, por exemplo, baseada em seus conflitos pessoais, poderia desvanecer caso tais conflitos fossem sanados. Contudo, a criação originária dos extratos mais profundos da psique não pode ser esgotada tão facilmente: “A resolução de qualquer repressão jamais poderá destruir o que é realmente criativo” (JUNG: 1981, §206).

Neste segundo tipo de arte, de conteúdo simbólico e sobretudo universal, Jung depositava maior interesse. O conteúdo da arte proveniente do inconsciente coletivo não tem sua origem nos sintomas ou numa repressão, pois jamais passou pela consciência, e suas imagens pertencem ao patrimônio comum da humanidade. E é exatamente por esse motivo, que essa espécie de obra de arte nos sensibiliza de forma tão arrebatadora, pois está repleta de significados e experiências comuns a todos.

A arte do inconsciente pessoal, por outro lado, geralmente não resiste, não é deixada à posteridade, principalmente diante da velocidade vertiginosa das informações na época atual. As artes fruto da neurose são sombras que passam e se vão; mas há aquilo que fica: o tempo conserva o que realmente possui valor. Não cultivamos a leitura de obras desconhecidas do passado, mas de clássicos dignos de aprofundado estudo, pois os símbolos que eles portam transcendem a sua época. Assim, podemos ser mais críticos com aqueles que atribuem seu insucesso à “falta de oportunidades” de um ambiente inoportuno. De fato, o meio de muitos criadores brilhantes como Van Gogh e Goya foi injustamente árido. Entretanto, tal fato muitas vezes tem servido de justificativa a uma igual falta de talento, ou até a um excesso de “talento” neurótico.

O homem verdadeiramente criativo não se beneficia da neurose, porém não pode se abster da criação, na medida em que o impulso criativo é mais forte do que ele. Conforme comenta Jung, não se trata, nesse caso, de um “talentozinho agradável” (SIC). Sua força criadora não pode ser reprimida, e poderá pressioná-lo de tal forma a restar pouca energia psíquica às demais atividades, algo que muitas vezes se torna um obstáculo em sua vida. Devido a isso, observamos algumas características comuns a esses artistas.

Muitas vezes o artista não consegue se adaptar às exigências do meio pois o inconsciente lhe subtrai a energia da consciência que seria utilizada a esse propósito. O estereótipo do artista incompreendido e de certa forma exilado da sociedade ilustra bem esse fato: muitas vezes esses indivíduos não conseguem se comunicar com os demais da mesma forma com que se comunicam com o próprio inconsciente. A adaptação ao meio exige certo controle da atenção consciente, algo que o imperativo dos arquétipos inconscientes ativados chega a suplantar, gerando uma enorme tensão e desconforto.

De um lado vemos uma força inconsciente que pressiona e exige expressão. De outro, as ânsias e exigências do homem comum, como o avanço na carreira, o sustento da família, etc. Podemos observar que alguns artistas optam pelo descaso em relação a essas últimas exigências, refugiando-se no ostracismo e, muitas vezes, acusando a própria sociedade de não lhes oferecer as devidas oportunidades. Sofrem por se verem de certa forma marginalizados por essa sociedade.

Tal tendência à inadaptação sofrida pelo indivíduo criativo é uma conseqüência do chamado “rebaixamento do nível mental”, que ocasiona a perda do interesse nas atividades conscientes e a descida aos níveis arcaicos da psique. O nível de consciência rebaixado também ocasiona a conhecida preponderância do amoral sobre o ético em alguns artistas, assim como uma infantilidade comumente vista com maus olhos pela comunidade em geral. Hoje em dia, é nas excentricidades de algumas pessoas famosas que as peculiaridades éticas e morais se manifestam de forma mais patente.

Talvez seja exatamente devido à conduta excêntrica, original ou extemporânea que a mente criativa seja capaz de exteriorizar aquilo que os demais não vêem. Enquanto todos voltam sua atenção às tarefas cotidianas mais burocráticas e enfadonhas, esses indivíduos estão literalmente imersos na psique: eles experimentam como uma realidade viva muito do que o homem em geral ignora. São os anseios, as imagens e experiências ignoradas pela maioria das pessoas comuns justamente o que desponta de forma irresistível e muitas vezes aflitiva na consciência do homem criativo, o qual muitas vezes surge como cura para o modo de vida unilateral da época em que vivemos: “Partindo da insatisfação do presente, a ânsia do artista recua até encontrar no inconsciente aquela imagem primordial adequada para compensar de modo mais efetivo a carência e unilateralidade do espírito da época.” (JUNG: 1991, §130).

Jung fala aqui da enantiodromia, a tendência de qualquer atitude ou estado a originar aquilo que seria o seu oposto. Segundo ele, toda tendência geral é necessariamente uma atitude unilateral. O homem comum é afetado pela tensão desses opostos de forma bem mais branda do que o homem criativo. Este, por estar em contato com o inconsciente de uma forma mais direta, tende a corrigir essa unilateralidade inconscientemente com sua obra. Dessa forma, a obra de arte, ao trazer à tona uma realidade inconsciente, tem a função social de orientar o espírito da época. Zarathustra surgiu com esse propósito na obra de Nietzsche, sob a forma de um salvador, ou sábio:

He (Zarathustra) is going to produce the enantiodromia, he is going to supply mankind with what is lacking, with that which they hate or fear or despise, with that which the wise ones have lost, their folly, and the poor ones the riches. In other words he is going to supply the compensation1. (JUNG: 1988, p.19)

É conhecida a idéia de que a extrema criatividade de alguns artistas os aproxima muito da loucura. Temos muitos exemplos de indivíduos criativos que manifestaram sintomas graves de doença mental, sendo Van Gogh e Nietzsche alguns dos mais ilustres. Tal proximidade entre a criatividade e a psicose se deve à influência exercida, em ambos os casos, pelo inconsciente coletivo, que é a fonte comum de imagens primordiais compartilhada na produção psicótica e nas expressões artísticas.

Jung percebeu, já no início de sua carreira, que a produção de alguns pacientes estava repleta de mitos e símbolos universais, isto é, que muitos desenhos e esculturas produzidos por esses pacientes representavam arquétipos com os quais eles jamais haviam entrado em contato conscientemente. Foi dessa forma que postulou o inconsciente coletivo, que diferentemente do inconsciente freudiano, não é um reservatório de memórias e experiências reprimidas pelo ego, mas um substrato que transcende nossas vivências pessoais. A obra de William Blake, por exemplo, dificilmente poderia ser resultado de sua experiência pessoal no mundo.

Por outro lado, foi apenas através da insanidade que alguns indivíduos produziram o que há de mais importante em suas obras. A inspiração de Sylvia Plath, famosa escritora americana, é interrompida quando ela finalmente encontra equilíbrio na figura de Ted Hughes, durante seu casamento. O contato com o inconsciente e, conseqüentemente, a produção criativa, foi retomado apenas após a separação, com o surgimento de um estado patológico deflagrado pela crise de seu casamento.

Alguns indivíduos são produtivos apenas enquanto o rebaixamento do nível mental se faz presente, não conseguindo manifestar sua criatividade quando existe um vínculo forte com a realidade. Seria arriscado dizer que tais indivíduos deveriam procurar aquilo que os vincula à realidade para manter a consciência. Entretanto, em sua autobiografia o ex-editor dos poemas de Sylvia Plath, Al Alvarez, acredita que alguns artistas pagam um preço alto em troca do mergulho no inconsciente:

I had always believed that genuine art was a risky business and artists experiment with new forms not in order to cause a sensation but because the old forms are no longer adequate for what they want to express. In other words, making it new in the way Sylvia did had almost nothing to do with technical experiment and almost everything to do with exploring her inner world – with going down into the cellars and confronting her demons.2 (ALVAREZ: 1999, p. 56)

Alguns escritores, entretanto, não necessitam abrir mão da consciência para expressar o inconsciente, isto é, eles exploram tal “mundo interior” de forma mais lúcida e não se vêem tão inundados pelo conteúdo simbólico arrebatador. Nesse sentido, é também o nível de consciência mantido quando se vivencia o inconsciente aquilo que separa a arte da doença mental. Ao contrário do que acredita Alvarez, a arte em si talvez não seja um negócio arriscado, pois surge como conseqüência de um comprometimento, e muitas vezes, pode ainda servir como uma função auto-organizadora da psique.

Um outro aspecto que pode intrigar considerando a linha tênue entre a arte e a doença mental é o fato de que as imagens universais produzidas na arte e na psicose podem representar os mesmos arquétipos. Além disso é natural questionarmo-nos qual seria a diferença entre a obra do artista e a produção da loucura pois muitas vezes, sobretudo na arte moderna, a produção do artista é distorcida à maneira fragmentada e caótica da produção esquizofrênica. Em primeiro lugar, no doente mental a produção não possui um objetivo consciente, é antes um sintoma involuntário de sua personalidade fragmentada. O artista, por sua vez, manifesta a tendência atual do inconsciente coletivo, uma vez que sua função, conforme mencionado, é a de solucionar a atitude unilateral da época. Ademais, a produção é vivenciada de forma diferente em ambos os casos:

A distorção do sentido e da beleza pela objetividade grotesca ou pela igualmente grotesca irrealidade é, no doente, uma manifestação conseqüente da destruição de sua personalidade. No artista, porém, é um propósito criativo. O artista moderno, longe de vivenciar e sofrer em sua criação artística a expressão da destruição de sua personalidade, encontra justamente na destrutibilidade a unidade de sua personalidade artística. (JUNG: 1991, §175)

Na arte e na doença mental o tratamento dado às imagens inconscientes tem uma aparente semelhança, que se manifesta na falta de sentimento e harmonia, na fragmentação e impulsos contraditórios, numa expressão esquizofrênica onde não há uma tentativa de comunicação:

Nada vem ao encontro de quem o contempla, tudo se afasta dele, até mesmo uma beleza ocasional aparece apenas como um imperdoável atraso de uma retirada. É o feio, o doentio, o grotesco, o incompreensível e o banal que está sendo procurado, não para esclarecer, mas para disfarçar, um disfarce porém, que não aproveita a quem está buscando, mas, qual névoa fria que procura esconderijo, paira, sem querer, sobre pantanais desabitados como um espetáculo que pode prescindir do espectador. (JUNG: 1991, § 209)

Não obstante tal tendência compartilhada, Jung nega que a obra de James Joyce, por exemplo, que possui “uma semelhança grave” (SIC) com a esquizofrenia, tenha os mesmos traços encontrados na doença mental comum. Resta assim a doença mental incomum, para a qual, segundo ele, a psiquiatria não tem critério, e a qual “pode ser uma espécie de sanidade mental, inconcebível para a inteligência mediana, ou um poder espiritual superior” (1991, § 173).

Finalmente, uma outra possibilidade de associarmos a psicose à arte é o fato de que em ambas observamos a presença de algo denominado por Jung de complexo autônomo. Trata-se de um conceito associado por Jung ao próprio nascimento de uma obra, pois “abrange quase todas as formações psíquicas que se desenvolvem em primeiro lugar bem inconscientemente e só a partir do momento em que atingem o valor limiar da consciência, também irrompem na consciência” (1991: p. 123). O complexo autônomo surge muitas vezes personificado e como não pertencente ao próprio ‘eu’, e na doença mental, manifesta-se na forma de vozes, ou na identificação com personalidades históricas. Embora o indivíduo criativo seja, muitas vezes, dominado por tais complexos autônomos, isso por si só não caracteriza a doença mental, pois pessoas normais também são dominadas por eles. A diferença está na intensidade com que isso ocorre. Ainda que em todos os casos o complexo autônomo tenha a propriedade de dominar e influenciar a personalidade, na produção artística não se trata de fragmentos dissociados, mas de representações arquetípicas repletas de sentido.

Assim, percebemos que tanto a arte legítima quanto a loucura compartilham a imersão no inconsciente coletivo. O que parece existir também em ambas é a necessidade de transcender as imagens inconscientes, o que eventualmente ocorre com a ampliação da consciência. Podemos arriscar a hipótese de que o nível de profundidade alcançado em tal mergulho e o nível simultâneo de consciência é o que provavelmente define o impacto da obra em determinada época.

1. Ele (Zarathustra) produzirá a enantiodromia, suprirá à humanidade do que está faltando, do que ela necessita, daquilo que as pessoas odeiam ou desprezam, a tolice aos sábios, a pobreza aos ricos, ou seja, Zarathustra promoverá uma compensação.

2. Sempre acreditei que a verdadeira arte é um negócio arriscado e os artistas experimentam novas formas não para causar sensação, mas porque as antigas não são mais adequadas para o que desejam expressar. Em outras palavras, inovar do modo com que fez Sylvia não teve quase nenhuma relação com experimentação técnica e relacionava-se quase totalmente com a exploração de seu mundo interior – com descer os porões e confrontar seus demônios.

 

REFERÊNCIAS:

· ALVAREZ, A. Where Did It All Go Right? Londres: Richard Cohen Books, 1999.

· JUNG, C.G O Desenvolvimento da Personalidade. Petrópolis: Ed. Vozes, 1981.

· _____ Jung’s Seminar on Nietzsche’s Zarathustra. Princeton: Princeton University

Press, 1988.

· _____ O Espírito na Arte e na Ciência. Petrópolis: Ed. Vozes, 1991.

· _____ Cartas Vol I. Petrópolis: Ed. Vozes, 2001.

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A Lovely Thought
Imagem: 
“Um pensamento Agradável” de Daniel Ridgway Knight

Autor: Denise Diniz Maia*

Palavras-chave: cultura, arte, ciência, imagens e símbolos.

“Jung é um dos fundadores da psicologia moderna além de ter sido um dos precursores para uma nova era. Ao reintroduzir a noção de Self em psicologia e na cultura, ele coloca o homem frente à sua verdadeira essência e lhe restitui a sua totalidade, possibilitando-lhe o contato com o seu centro”. (Léon Bonaventure)

 

 

As primeiras décadas do século XX foram um momento de intensa experimentação na literatura, nas artes e na psicologia. Artistas e escritores tentaram abolir os limites das representações para mostrar sua experiência interior, sonhos e fantasias.

Começa a acontecer uma maior percepção da importância dos fenômenos psíquicos, num anseio de renovação cultural e espiritual. Psicólogos começaram a observar o mesmo terreno e a ciência moderna também volta sua atenção à realidade subjetiva.

Jung, como um grande investigador do pensamento ocidental moderno, teve suas idéias inovadoras amplamente disseminadas, influenciando o consciente coletivo de toda uma época. Ele sempre esteve à frente de seu tempo, abrangendo em sua obra muitos e variados campos de atuação e provocando um interesse cada vez maior nas gerações mais jovens, que desejavam transformar a sociedade e ter um novo olhar também para o indivíduo.

Surge um interesse maior de teóricos, vindo de debates no âmbito da sociologia e da antropologia; outros pela ressonância de aspectos analíticos com as novas física, biologia, e os fenômenos da consciência. É importante ressaltar o diálogo entre as diversas áreas e ciências, uma comunicação interdisciplinar, onde a psicologia analítica tem muito a contribuir. Os encontros anuais de Eranos que aconteciam na época de Jung, contavam com a participação de teóricos de várias áreas, que se nutriam do pensamento junguiano e que também o influenciavam.

Os convidados se reuniam na casa de Olga Fröbe no lago Maggiore em Ascona, com o objetivo de manter acesa a chama do conhecimento e da reflexão, num momento de obscurecimento e paralização entre as duas guerras.

Olga era uma intelectual, estudiosa de símbolos, cujo desejo era promover um lugar de encontro entre o ocidente e o oriente.

Jung proferiu sua primeira conferência nos encontros, em 1933 e foram 14 no total, até 1952.

Muitos junguianos também participaram, como Emma Jung, Barbara Hannah, Jolande Jacobi, Toni Wolff e James Hilmann. De outras áreas podemos citar entre outros: Mircea Eliade, Károly Kerényi e Rudolph Otto.

Na Grécia antiga a palavra Eranos trazia o sentido de banquete, onde cada convidado apresentava-se trazendo um “presente intelectual”. Assim este se tornou um espaço para a reunião de cientistas, mitólogos, teólogos e filósofos para trocarem idéias sobre suas áreas.

A renovação cultural segundo Kerényi, vem do encontro e do diálogo entre os representantes das diversas ciências e as disciplinas do espírito.

Jung enfatizou a necessidade de se considerar todos os fatores que influenciam a vida psíquica, seja de ordem biológica, social ou espiritual, pois os acontecimentos não são só perceptíveis na realidade externa e distante, mas presentes no mundo interno de cada um. Desta forma a renovação do espírito coletivo só é alcançada por meio da consciência individual onde a elaboração do processo de individuação acontece em paralelo ao desenvolvimento histórico e cultural.

A psicologia analítica muito contribuiu para a compreensão e reavaliação dos símbolos, entendendo que existe uma conexão entre os mitos antigos e os inúmeros acontecimentos atuais além da percepção do grande anseio do homem de se reconectar com aspectos e valores espirituais negligenciados, numa busca de significado e sentido de vida. Esta contribuição foi imensa, ultrapassando a esfera acadêmica e abrangendo o sofrimento da alma e os mistérios da psique humana. Esta forma de compreensão marca o fim do racionalismo científico do século XIX, reforçando que não há uma verdade absoluta, mesmo nas ciências exatas, e que o olhar do pesquisador com toda sua subjetividade interfere no processo observado.

Jung ressaltava a grande importância da fantasia como manifestação psíquica espontânea não controlada pelo consciente e por isto livre em suas formas de expressão. O contato com esta fantasia permite a re-conexão com uma parte menos valorizada, porém de vital importância.

As manifestações artísticas têm esta capacidade de traduzir em fatos visíveis os movimentos predominantes de uma época, captando com antecedência as futuras mudanças do consciente coletivo e traçando assim a linha de um desenvolvimento futuro.

O artista é o interlocutor neste processo que com sua sensibilidade de captar a necessidade coletiva gera dentro de si a obra que irá nascer para o mundo.

As poderosas forças do inconsciente se manifestam em todas as atividades culturais por meio das quais o homem se expressa.

A teoria junguiana ampliou a visão de muitas áreas e sua influência se faz presente nas atividades culturais, no campo das artes, na teologia e na antropologia. Na física moderna, ressalta as implicações filosóficas e sua importância no estudo de nosso universo interior.

A fecundidade das idéias junguianas, a partir dos conceitos de arquétipo e de inconsciente coletivo, abre novas perspectivas sendo, uma das contribuições mais importantes, o entendimento do inconsciente não mais apenas como depositário de conteúdos reprimidos, mas como matriz criadora autônoma da vida psíquica. Cada uma das ciências relacionadas anteriormente têm seu campo de estudos com lei e características próprias, mas se pode reconhecer nelas a presença de configurações arquetípicas.

No domínio das ciências naturais, o físico Wolfgang Pauli assinalou a necessidade de se levar em conta a área de interrelação entre psique inconsciente e processos biológicos. Ele começou a estudar o papel do simbolismo arquetípico no campo científico, trazendo à luz conceitos importantes de unicidade entre as esferas físicas e psicológicas.

Disse Jung:

“A microfísica pesquisa o lado desconhecido da matéria do mesmo modo que a psicologia profunda investiga o desconhecido da psique. Mais cedo ou mais tarde a física nuclear e a psicologia do inconsciente se aproximarão cada vez mais, pois ambas, independentemente uma da outra e vindo de direções opostas, avançam em território transcendente, uma com o conceito de átomo, outra com o de arquétipo”.

Vai acontecendo uma proximidade entre trabalhos da psicologia analítica e da microfísica, onde os conceitos básicos da física como tempo, espaço, energia, matéria, etc… são originalmente idéias arquetípicas.

A noção de campo de energia pode ser comparada à noção de inconsciente, onde conteúdos psicológicos aparecem ordenados na área psíquica como partículas num campo magnético. Podemos falar assim de uma unidade psicofísica da realidade, o unus mundus, onde matéria e psique são um só.

Um dos princípios mais importantes observados é o de sincronicidade cuja explicação para os fenômenos não é apenas lógica e causal, mas uma conexão acausal, onde acontecimentos significativos vão sendo produzidos numa outra relação entre fatos psíquicos interiores e exteriores.

Assim, Jung introduziu a noção de propósito e significado que vai além das leis deterministas de causa e efeito.Enfim, todas estas idéias podem estar presentes na compreensão de novos fatos em muitos campos das ciências e nos fenômenos da vida cotidiana, trazendo uma visão mais ampla da realidade.

Em seus escritos, Jung abordou a relação da psicologia analítica e a obra de arte, indicando intersecções muito próximas entre a experiência artística e a psicológica.

Para ele, o processo criativo consiste na ativação do arquétipo até a finalização na obra acabada, num diálogo constante entre consciente e inconsciente, onde um jogo de opostos está sempre presente. E o artista, como foi dito anteriormente, é um homem coletivo que exprime a alma inconsciente da humanidade mergulhando profundamente no ato criador. Ele é um instrumento colocado à serviço da criação que precisa se expressar, de uma forma autônoma e independente da intenção do autor.

O artista dá forma e traduz, na linguagem de seu tempo, as imagens primordiais ou arquétipos, tornando acessíveis as fontes profundas da vida.

Este é um dos aspectos mais importantes da obra de arte pois, ao trazer à tona formas de que o coletivo mais necessita, ela vai educando o espírito da época. Assim, podemos compreender a arte como uma produtora de símbolos importantes e transformadores para a alma humana.

Jung demonstrou em sua vida um grande interesse por diversas culturas e pela história da arte, cuja presença se expressa na pluralidade de imagens que povoaram seu imaginário psíquico e que nutriram seu gosto pela diversidade da vida simbólica. Ele privilegiou, em sua vida pessoal e clínica, o contato com diversas formas artísticas, atribuindo às imagens e aos símbolos uma grande importância.

A partir de seus estudos analíticos podemos entender que a arte tem um lugar privilegiado pois ao escolhê-las, observá-las, reproduzí-las ou criá-las, nos recolhemos em nossas profundezas.

Como analistas e terapeutas, além de nos abastecermos com estas imagens, tornamos-nos mais criativos e sensíveis abrindo-nos para nossos pacientes na escuta de seus sonhos e no compartilhar de suas imagens.

Jung nos trouxe a descoberta da espontaneidade criativa da psique inconsciente como produtora de símbolos e por ela se deixou conduzir, permitindo que o inconsciente se expressasse em sua vida e em sua obra, trazendo à sua exposição científica, elementos sentimentais e imaginativos.

Este foi o duplo impacto de Jung em nosso mundo:

a) o efeito de sua personalidade e de sua obra e

b) o confronto com o inconsciente com o qual estava profundamente comprometido.

Bibliografia

Gaillard, C – Le Musée imaginaire de Jung, Paris, Stock, 1998

Jung, C.G. (1976) O C 9/1, O arquétipo e o inconsciente coletivo, Petrópolis,

Vozes, 2011

_____________________ – O homem e seus símbolos, Rio de Janeiro, Nova

Fronteira, 2008

_____________________ – word and image, New Jersey, Princeton/

Bollingen, 1979

*A autora, Denise Diniz Maia, é psicóloga, analista didata do Instituto Junguiano de São Paulo-IJUSP, filiado a Associação Junguiana do Brasil-AJB que é filiada da International Association for Analytycal Psychology-IAAP.

Fonte: http://ijusp.org.br/artigos/perspectivas-psicologicas-de-jung-sobre-as-ciencias-e-a-arte/

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PASSIONATE FLAMENCO

Imagem:  Passionate Flamenco

Por: Vera Cristina Marcellino*

ISSN 1516-0793

Pouco vivenciamos nossos corpos em movimento de uma forma consciente sobre os significados que cada gesto cotidiano pode carregar. Em linguagem psicanalítica diríamos um movimento carregado de valor, de sentido, algo que vem cheio de afetividade, que nos liga a um estado  mais profundo que a consciência cotidiana poderia observar. A surpresa é que o corpo, mesmo  em estado cotidiano não deixa nunca de estar carregado de sentido.

O movimento é a expressão particular de cada pessoa, revelando involuntariamente, suas mais íntimas características psíquicas.

Ele traz consigo, invariavelmente, aspectos conscientes e inconscientes, culturais, sociais, afetivos, simbólicos e assimila informações. O corpo, ao contrário do clichê, nome de livro, não só fala. O corpo também tem memória, escuta e elabora, pensa, simboliza, identifica sentidos, aquilo que de alguma forma tem valor para o indivíduo.

Considerando a experiência sensível do movimento uma oportunidade para a elaboração interna e dessa elaboração desenvolver o conhecimento das próprias habilidades, de seu repertório expressivo e, simultaneamente, integrar processos psíquicos ainda não conscientes, poderemos destacar que o corpo compreende à sua maneira como integrar e expressar esses processos. Ele tem uma linguagem própria que foge de códigos pré-estabelecidos ou racionais.

É raro encontrar uma abordagem terapêutica que integre os aspectos simbólicos que o corpo vivencia aos aspectos expressivos e integrativos desses símbolos através do movimento corporal.

Há técnicas terapêuticas que utilizam o corpo como recurso para psicoterapia; há terapias corporais, mas ainda é muito escasso no Brasil um trabalho que atinja simultaneamente essa unidade psicofísica através de processos artísticos, mais apropriadamente, processos da dança, ou do movimento expressivo, que no contexto da psicologia de Carl Gustav Jung poderemos chamar de Terapias Expressivas.

O princípio essencial da dança como técnica expressiva é a autonomia do indivíduo em investigar-se em movimento de tal forma que identifique a si mesmo, ou seja: descubra seu corpo e seus aspectos sensíveis e simbólicos.

No desenvolvimento desse trabalho identificamos que, articular o corpo, às emoções, às imagens simbólicas, ao mesmo tempo em que o movimento é buscado em sua forma mais crua, ele, o corpo, transborda elementos que se alimentam mutuamente: significados se desdobram em movimentos, movimentos resgatam significados.

Para Jung o processo criativo consiste (até onde nos é dado segui-lo) numa ativação mais profunda do inconsciente e numa elaboração e formalização na obra acabada. À camada mais profunda do inconsciente, nesse contexto, C. G. Jung refere-se aos árquétipos, marcas do inconsciente coletivo partilhadas pela humanidade e que resgata no indivíduo um senso de unidade, de ter um lugar no mundo. É paradoxal, mas emocionante. Para ele, a arte seria então, uma forma de tornar mais acessível e consciente esse processo de percepção de elementos não facilmente verbalizáveis e não cognitivos; forma de conhecimento mais complexo e total por ser vivencial.

Os conteúdos simbólicos podem, pela vivência poética da dança, ser requisitados para um diálogo sincero de aproximação, de acolhimento e de transformação. O resultado é: equilíbrio emocional, equilíbrio corporal.

Podemos identificar semelhanças entre os processos criativos e sensíveis e o conceito de processo de individuação que C. G. Jung propõe ao longo de sua obra. Uma vivência sensível permite acessar um universo mítico e arcaico no movimento que torna-se expressivo e integrativo em si mesmo. Dá sentido e integra no indivíduo aqueles aspectos sombrios escondidos às sete chaves, mas que, por ser vivencial, só a pessoa em processo descobre, não é necessário verbalizar, aqui, na maioria das vezes, as palavras são dispensáveis, mas a escuta faz parte do ambiente acolhedor que pretendemos oferecer. Ainda segundo Jung, nossa meta como seres humanos é a Individuação, um processo natural de amadurecimento.  É o caminho da plenitude, do encontro do Si-mesmo ou Self. Quando Jung fala de individuação, refere-se ao caminho que é orientado pelos símbolos arquetípicos (incluindo imagens mitológicas) que emergem espontaneamente, de acordo com a natureza do indivíduo.

Todos nós temos nossas identificações simbólicas com algum aspecto comum à humanidade, esses momentos de identificação não são mensuráveis. A arte possibilita esses momentos de encontro.

Ainda rara como terapia no Brasil, a dança está apresentando resultados surpreendentes na área de saúde mental, sua expansão está tardia, já que desde os primórdios da humanidade é através do movimento (corpo expressivo) que o ser humano percebe, identifica, explora e relaciona-se com o mundo, com o cosmos, com o outro e consigo mesmo.

*Vera Cristina Marcellino, Mestre em Artes pela Unicamp, Bacharel e Licenciada em Dança pela Unicamp. Facilitadora de recursos expressivos em arte-terapia (dança. Aborda e pesquisa a articulação e diálogo entre performance-art,  somma psíquico e psicologia analítica.

 LINK: www.symbolon.com.br/artigos/A_danca_e_a_psicologia_junguiana.doc

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Por : Bárbara Gehrke Rohde, Psicóloga e Arteterapeuta – CRP 07/15404

Primeiramente vamos pensar na arte como forma de expressão do ser humano. Poderíamos supor que o homem das cavernas já utilizava a arte como meio de catarse, uma forma de colocar pra fora seus sentimentos e emoções. E muitas foram às manifestações de dor, angústias, luta, morte, vitórias e alegrias representadas nas paredes das cavernas (pinturas rupestres), o que nos faz pensar em projeções do inconsciente representadas por imagens e símbolos. “A arte é quase tão antiga quanto o homem” (Fischer 1971, p. 21).

As artes em geral têm o poder de alcançar emoções profundas, como refere Brown (2000), elas podem mudar a maneira como você se sente em relação ao mundo e a si mesmo. A arteterapia consegue examinar a forma como você olha para si mesmo e para o mundo. Seja trabalhando com argila, palavras ou teclas de um piano, um artista constrói um mundo de símbolos que libera emoções e idéias. Todos nós temos símbolos que representam nossos pensamentos e sentimentos.

Pessoalmente, considero a arteterapia uma “ferramenta a mais” para meu trabalho com psicoterapia. Um processo terapêutico de utilização da arte, que incluo o relaxamento, meditação, pintura, modelagem, desenho, costura, dança, teatro, marionetes, enfim, toda representação artística. Posso utilizá-la em psicoterapia individual, de grupo, com diferentes idades e tipos psicológicos, facilitando o entendimento do sujeito desde a anamnese até o tratamento psíquico em si. É utilizada em escolas, organizações e na área clínica (hospitais, consultórios, instituições psiquiátricas, etc). E também por profissionais da área da saúde, educação e artes.

Trabalho com a arteterapia de abordagem Junguiana, sobre esta, aponta Philippini (2000), que Jung, em sua obra, descreveu amplamente como, nas culturas mais diversas, etapas do processo de individuação eram codificadas em símbolos com temáticas similares e estas representações do inconsciente coletivo repetidas em mitos, contos, tradições religiosas, tratados alquímicos e ritos de passagem de locais geograficamente distantes. Estas imagens recorrentes em toda a humanidade reaparecem em sonhos, desenhos, pinturas, esculturas e nos símbolos produzidos através da imaginação ativa e nas técnicas de visualização e meditação.

Psicologia e Arte: “Apesar de sua incomensurabilidade existe uma estreita conexão entre esses dois campos que pede uma análise direta. Essa relação baseia-se no fato de a arte, em sua manifestação, ser uma atividade psicológica e, como tal, pode e deve ser submetida a considerações de cunho psicológico; pois, sob este aspecto, ela, como toda atividade humana oriunda de causas psicológicas, é objeto da psicologia” (Jung, 1971, p.54).

Conforme Philippini (2000), a arteterapia resgata a promoção, a prevenção e a expansão da saúde. A arteterapia auxilia a resgatar desbloquear e fortalecer potenciais criativos, através de formas de expressão diversas, ademais facilita que cada um encontre, comunique e expanda a seu próprio caminho criativo e singular, favorecendo a expressão, a revelação e o reconhecimento do mundo interno e inconsciente. Destaca ainda, que em arteterapia com abordagem Junguiana, o caminho será fornecer suportes materiais adequados para que a energia psíquica plasme símbolos em criações diversas. Estas produções simbólicas retratam múltiplos estágios da psique, ativando e realizando a comunicação entre inconsciente e consciente. Este processo colabora para a compreensão e resolução de estados afetivos conflitivos, favorecendo a estruturação e expansão da personalidade através do processo criativo.

E Osório (in Valladares, 2003) salienta que a arteterapia é uma prática terapêutica que trabalha com a intersecção de vários saberes, como educação, saúde e ciência, buscando resgatar a dimensão integral do homem. A arte se propõe a algo pessoal e único, e expressa a linguagem do inconsciente.

Segundo Valladares (2003), a arteterapia na teoria Junguiana, propicia o fornecimento de materiais expressivos diversos e adequados para a criação de símbolos presentes no universo imagético singular de cada cliente, universo que se traduz em produções simbólicas que retratam estruturas psíquicas internas do inconsciente pessoal e coletivo. A arteterapia facilita a entrada no psiquismo humano por infinitas possibilidades da arte e através da linha Junguiana o surgimento dos símbolos abre caminho para o trabalho do arteterapeuta.

E finalmente é importante lembrar que somente psicólogos ou psiquiatras com formação em psicoterapia poderão utilizar a arteterapia na psicoterapia, sobre isto, Païn (1996), sublinha que a arte em psicoterapia é realizada, sobretudo, por profissionais específicos da psicologia. Freqüentemente, neste processo, considera-se a atividade plástica secundária, pois o efeito terapêutico sobrevém somente das trocas verbais em torno do conteúdo da obra. Utiliza-se a expressão plástica, neste caso, como meio de atender a comunicação verbal ou como a única maneira de estabelecer uma comunicação, caso em que a representação simbólica é ignorada.

Não precisamos ser artistas ou conhecer as técnicas das artes para fazer arteterapia, basta ter motivação para o autoconhecimento.

REFERÊNCIAS:

Brown, D. (2000). Arte Terapia: fundamentos. São Paulo: Vitória Régia.

Fischer, E. (1971). A necessidade da arte. (3ª ed.) Rio de Janeiro: Zahar Editores.

Jung, C. G. (1971). O espírito na arte e na ciência. (3ª ed.) Petrópolis: Vozes.

Païn, S. e Jarreau, G. (1996). Teoria e técnica da arte-terapia: a compreensão do sujeito. Porto Alegre: Artes Médicas.

Philippini, A. (2000). Cartografias da coragem: Rotas em Arte Terapia. Rio de Janeiro: Pomar.

Valladares, A.C.A. (2003). Arteterapia com crianças hospitalizadas. Dissertação de Mestrado não publicada, Universidade de São Paulo, São Paulo, SP, Brasil.

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Imagem: “Medusa” de Jacek Malczewski

Por:  Marise de Souza Morais e Silva Santos

Medusa, ser terrível, embora monstro, é considerada pelos gregos uma das divindades primordiais, pertencente a geração pré – olímpica. Só depois é tida como vítima da vingança de uma deusa. Uma das três górgonas, é a única que é mortal. Três irmãs monstruosas que possuíam cabeça com cabelos em forma de serpentes venenosas, presas de javali, mãos de bronze e asas de ouro. Seu olhar transformava em pedra aqueles que a fitavam. Como suas irmãs, Medusa representava as perversões. Euríale, simbolizava o instinto sexual pervertido, Ésteno a perversão social e Medusa a pulsão evolutiva, a necessidade de crescer e evoluir, estagnada. Medusa também é símbolo da mulher rejeitada, e por sua rejeição incapaz de amar e ser amada, odeia os homens nas figura do deus que a viola e abandona e as mulheres, pelo fato de ter deixado de ser mulher bela para ser monstro por culpa de um homem e de uma deusa. Medusa é a própria infelicidade`, seus filhos não são humanos, nem deuses, são monstros. Górgona, apavorante, terrível.

O mito de Medusa tem várias versões, mas os pontos principais refletem estas características acima. Como Midas ela não pode facilitar a proximidade, um transformava tudo em ouro com apenas um toque, ela é mais solitária mais trágica, não pode sequer olhar, pois tudo o que olha vira pedra, Medusa tira a vida, o movimento com um simples olhar, também não pode ser vista de frente, não se pode ter idéia de como ela é sem ficar paralisado, morrer.

Diz o mito que outrora Medusa fora uma belíssima donzela, orgulhosa de sua beleza, principalmente dos seus cabelos, que resolveu disputar o amor de Zeus com Minerva. Esta enraivecida transformou-a em monstro, com cabelos de serpente. Outra versão diz que Zeus a teria seqüestrado e violado no interior do templo de Minerva e esta mesmo sabendo que Zeus a abandonara, não perdoou tal ofensa, e o fim é o mesmo. Medusa é morta por Perseu, que também foi rejeitado e com sua mãe Danae trancado em uma arca e atirado ao mar, de onde foi resgatado por um pescador que os levou ao rei Polidectes que o criou com sabedoria e bondade. Quando Perseu ficou homem, Polidectes enviou-o para a trágica missão de destruir Medusa. Para isto receberia o auxílio dos deuses. Usando sandálias aladas pode pairar sobre as górgonas que dormiam. Usando um escudo mágico de metal polido, refletiu a imagem de Medusa como num espelho e decapitou-a com a espada de Hermes. Do pescoço ensangüentado de Medusa saíram dois seres que foram gerados do conúbio com Poseidon. O gigante Crisaor e o cavalo Pégaso. O sangue que escorreu de Medusa foi recolhido por Perseu. Da veia esquerda saia um poderoso veneno, da veia direita um remédio capaz de ressuscitar os mortos. Ironicamente, trazia dentro de si o remédio da vida, mas sempre usou o veneno da morte.

” Três irmãs, três monstros, a cabeça aureolada de serpentes venenosas, presas de javalis, mãos de bronze asas de ouro: Medusa, Ésteno e Euríale. São símbolos do inimigo e se tem que combater. As deformações monstruosas da psiqué, consoante Chevalier e Gheebrant ( Dictionnaire des Symboles, Paris Robert Laffont, Júpiter, 1982) se devem as forças pervertidas das três pulsões: sociabilidade, sexualidade, espiritualidade” .(Brandão, ed. Vozes 1987).

Tenho observado em pacientes em terapia, alguns processos que remetem ao mito de Medusa. Estes relatam um sofrimento imenso devido a dificuldades em perceber a própria imagem. Quem sou eu? A grande pergunta para qual toda a humanidade busca respostas. Para estas pessoas, como se tivessem uma imagem invertida refletida no espelho, a pergunta é o que eu não sou. Incapazes de mostrar uma imagem positiva, como os filhos monstros de Medusa, erram pela vida alinhando possibilidades para construir sua monstruosidade. Estes filhos de Medusa, embora filhos de um deus, herdam da mãe a figura monstruosa a que se viu presa a bela Medusa. A duplicidade da Mãe os acompanha. Pégaso unido ao homem é o Centauro, monstro identificado com os instintos animalescos. Mas tambem é fonte, como seu nome simboliza, alado , é fonte de da imaginação criadora sublimada e sua elevação. Temos em Pégaso os dois sentidos ,a fonte e as asas. Símbolo da inspiração poética representa a fecundidade e a criatividade espiritual. Pégaso talvez represente o lado belo de Medusa, que ficou escondido, que não podia ser visto, pois como vimos ela representava a pulsão espiritual estagnada. Pégaso é a espiritualidade em movimento. Crisaor é apenas um monstro, pai de outros monstros Gerião de três cabeças e Équidna. Équidina herda da avó o destino trágico. Seu corpo metade mulher, de lindas faces e belos olhos, tem na outra metade uma enorme serpente malhada, cruel . É a bela mulher de gênio violento. Incapaz de amar, devoradora de homens. Uma reedição de Medusa. Continuará a saga ancestral de odiar os homens e gerar monstros.

Com uma imagem distorcida, como dizíamos anteriormente, estes “filhos de Medusa” não podem ver-se a si mesmos como são, e sempre imaginam bem piores até mesmo do que poderiam ser.

Alguns autores como Melanie Klein e Alexander Lowen falam que a imagem de si se origina do olhar da mãe. A forma como a criança é olhada, é vista, o que ela percebe de rejeição ou aprovação é captado no olhar da mãe. Os tristes filhos de Medusa não podem vê-la, tambem não podem ser vistos por ela. Esta mãe de mãos de bronze não pode acariciar, seu olhar paralisa, seus dentes de javali impedem que beije, mas quando poderia ser atingida pelo filho ela se torna divina, tem asas de ouro, é um alvo móvel. Medusa incorpora para estas personalidades de estrutura depressiva o mito da mãe divina, vista pelo seu filho como a santa mãe, não gera filhos felizes, apenas trágicos. Não pode ser mulher, é santa. A princípio como Jocasta, depositária da paixão do filho, Medusa não o ama, fazendo-o sentir-se torpr e culpado pelo seu amor incestuoso. Como recurso ele a santifica para continuar amando-a e justificando a sua rejeição como forma de protege-lo da sua própria torpeza. Desprovida como santa de instinto sexual, não pode falar ao seu filho da sexualidade feminina, não pode dizer-lhe o que é uma mulher. Inacessível como santa, torna-se monstro. Monstro que é percebido pelo filho mas que se nega a ser visto como é. Medusa não olha, não acaricia, não orienta. Paralisa. Não é por acaso que o sentimento da depressão é a inércia, a perda da vitalidade. Como se tivessem transformados em pedra pelo olhar da mãe os filhos de Medusa erram pela vida sem espelhos que traduzam sua imagem. São monstros cuja criatividade afogada na pedra de suas almas precisa ser libertada. Precisam encontrar um espelho e que lhes diga quem são ou pelo menos quem não podem ser.

No trabalho terapêutico de pacientes com depressão, tenho observado que há uma enorme dificuldade em perceber a figura materna. Ela é idealizada a partir de perfis culturais que parecem não poder ser questionados. Frases como: “qual a mãe que não ama seus filhos?” ou “toda mãe é uma santa” traduzem a situação que impede a visão do real. São pessoas desprovidas de afeto, mas com uma enorme necessidade de carinho, que no entanto não suportam proximidade, de uma vez que não confiam em ninguém, pois não acreditam que podem ser amados. Sentem se monstros. Alguns mais adiante no processo chegam a perceber nitidamente que não foram amados, mas como se esquivando de perceber a profundidade dessa dor negam afirmando que isto é normal, diante da sua torpeza. Falam de mães ocupadas, falam de mães vaidosas ressentidas da perda da beleza com o nascimento do filho. Mas essas referências são quase superficiais.

Quando conseguem se aproximar da visão real dessa mãe de garras e mãos de bronze os sintomas se multiplicam, aumenta a depressão e com esta a paralisia, a inércia. Podem passar vários dias deitados, sem trabalhar ou realizar um mínimo de esforço. Ver Medusa é petrificar-se. Muitos desenvolvem sintomas de dor de cabeça, medo de doenças fatais como câncer, AIDS (doenças ligadas a amputação, decapitação, ao sangue, a sexualidade e sintomas de castração). As fantasias de autopunição se multiplicam, relatam possibilidades de acidentes de automóvel ou com armas de fogo. Tem fantasias de traição com amigos ou companheiras. São pessoas trágicas. Todos relatam uma ausência de alegria, mesmo quando estão em ambientes alegres. Uma profunda inveja do prazer do outro os assola. Muitos perseguem a fantasia de resolver a falta com postos de poder e dinheiro. Aumenta a dor. O poder que tanto ansiaram ou o dinheiro que tudo resolveria aumentam a profundidade do abismo. Ter tudo e não sentir-se nada é muito mais terrível. O abismo se abre cada vez mais como as entranhas da mãe monstruosa. Restam- lhes fantasias suicidas. É preferível morrer a sentir-se monstro. Muitos realizam esta fantasia como ultima tentativa de atingir Medusa. Mas ela nada sentirá, seu ódio pelo homem que a violou transmite-se ao filho que gerou. Sua pior inimiga Minerva ( a deusa da inteligência), deixa-lhe como legado o ódio às mulheres. Não pode dizer ao filho como lidar com elas, como gerar com elas novos filhos, amados ,sadios. Sua descendência, embora não precise ser deverá ser de monstros gerando outros monstros. Fala-se da hereditariedade da depressão. Penso que se houver é muito mais transmitida em gestos e pelo ambiente trágico e desprovido de prazer, em que estas novas crianças nascerão. Os filhos de Medusa não podem ter mulheres amorosas, isto a denunciaria. Raramente, quando encontram estas mulheres não podem confiar nelas e abortam assim a possibilidade de obter o amor que os revitalizaria.

Mas, apesar das dificuldades e das fantasias autopunitivas, Medusa pode ser vista. Através do espelho do terapeuta e deste como espelho, a figura de medusa pode ser vista. Se a relação terapêutica se dá de forma transferencial, amorosa, confiante, o espelho refletirá imagem de Medusa, como ela é. Incapaz de amar, cruel e terrível, górgona, apavorante. Como resultado o filho descobrirá que o monstro é ela, não ele. Da morte dela resulta sua vida, e como Pégaso ele ganha os céus, liberto, simbolizando a vitória da inteligência e sua união com a espiritualidade, a sensibilidade que sempre existiu naquele que se julgava o monstro. Como Pégaso, se não se aferrar ao seu aspecto de humano comum, em revoltas descabidas e em vinganças inúteis poderá compreender a tragédia de Medusa e perdoa-la. Não se transformará no monstro Centauro, identificado com o instintos animalescos e a sexualidade desregrada. Se incorporar Centauro errará pela vida sem pertencer a ninguém. Homem de muitas mulheres, mas sem nenhuma. Será monstro preso a sua mãe monstruosa. Incapaz de amar como ela. Se assumir sua condição de Pégaso, será fonte, de todas as belezas, da mais pura elevação, da criatividade, da fidelidade. Não é por acaso que Pégaso simboliza a Poesia.

As filhas de Medusa também apresentam como ela a impossibilidade de ser amada. São mulheres tristes de trágica figura, mesmo quando belas. Condenadas a serem crianças eternas presas as entranhas da mãe, não podem deixar de ser filhas-monstro, a não ser para poderem ser mães- monstro. Filhas da violação e do abandono (é assim que Medusa transmite a elas sua relação com os homens) são mulheres-meninas, incapazes de perceber o homem a não ser como brinquedo, ou como fonte de sofrimento. Unem-se quase sempre a homens cruéis que possam justificar a idéia da mãe da impossibilidade de ser feliz com um homem. Quando raramente encontram o amor, destroem-no destruindo o homem amado, como faz no mito Équidna, legítima herdeira de Medusa.. Mulheres de amores infelizes, herdam de Medusa as garras, as mãos de bronze, e as asas de ouro. Vítimas de novos abandonos reforçam em cada experiência infeliz a idéia da mãe. Também possuem o olhar terrível. Das uniões infelizes geram filhos infelizes que carregam presos a si mesmas não por amor, mas pelo terror que podem gerar. Novas medusas. Se pela procura puderem chegar ao espelho, podem ser deusas, podem ser Pégasos, ou até mesmo Poesia uma das Musas; se não seguirão seus destinos de mulheres- crianças gerando filhos que não podem amar e que no máximo lhes servem de brinquedo para suas brincadeiras cruéis de paralisar e aterrorizar pessoas. Seguem a saga de Medusa. Mulher que se torna monstro, pelo descuido de homem, pela crueldade de uma deusa.

Mas e as mulheres Medusa? O que lhes resta? O próprio mito nos mostra.

Perseu filho de Danae, mãe amorosa, que segue seu filho no destino que lhes foi dado pelo pai terrível que ouviu de um mago que seria assassinado pelo neto. Trancados em uma arca atirados ao mar são salvos por Poseidon que os encaminha a uma praia tranqüila onde são recolhidos por um pescador e levados ao rei Polidectis, que o educa amorosamente como filho. Perseu é filho de mãe amorosa, que tudo perde para seguir seu filho. Que abandonada por um homem, o próprio pai, atirada à morte por ele não transforma isto em ódio a masculinidade. Perseu também. Seu abandono pelo avô e pelo pai que não o salva, é no entanto criado por um pai amoroso. Perseu e Danae o oposto de Medusa. Não permitiram que sua desgraça se transformasse em ressentimento para com a humanidade. Foram alcançados e salvos pelo amor humano. Ao contrário de Medusa, da qual ninguém pode se aproximar. Somente Perseu poderia destruir Medusa, ele pode ser visto exatamente como seu contrario no espelho, ela mulher, ele homem, ela ressentida, ele perdoando, ela sem possibilidade de resgate, ele salvo pelo amor da mãe que o acompanha, pelo cuidado de um deus e pelo amor de uma pai-rei. Tudo o que faltou a Medusa que precisa ser vista, no espelho, para poder ser destruída e libertar Pégaso. Medusa tem que ser compreendida alem do seu aspecto monstro, como mulher-criança, frívola, presa a beleza passageira, desafiando a grande deusa, a inteligência a quem desafia e a quem odeia. Para depois de morta servir a ela, Minerva, mesmo que seja como esfinge no seu escudo. Guiado pela inteligência e sabedoria de Minerva, que corrige o seu erro de ter criado um monstro, o olhar de Medusa agora é útil, tem aplicabilidade, destroi o inimigo. Já não mata os que ama.

Se a transferência não se realiza, se a relação terapêutica não se faz, e disse alguém que a terapia é uma função de amor, os filhos de Medusa verão no terapeuta a imagem dela e fugirão. Tudo estará perdido, o amor não poderá realizar seu resgate, e Medusa permanecerá eternamente viva destruindo e paralisando até que se destrua ou destrua seus filhos.

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