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Archive for the ‘Alquimia’ Category

Daily-Painting-the-Journey-His-Story (1)-

Pintura: “The Journey – His Story” de Christopher Clark

AUTORA: RAMONA SCHOERPF

Jung diz que é muito importante o analista estar inteiro no processo analítico e que é na relação entre analista e analisando, quando esta se transforma numa relação entre eu—tu, que se pode chegar ao homem inteiro. E é nesse espaço do instante vivido que gostaria de refletir acerca da postura do analista e na enorme potencia curadora que pode existir quando este espaço é valorizado pelo analista.

Lendo o livro Psicologia e Alquimia, um ponto que achei muito interessante foram algumas colocações de Jung acerca do lugar do analista no processo analítico. Jung (2012 c) diz que é muito importante o analista estar inteiro no processo, ou seja, que é a partir dessa inteireza que o processo analítico pode verdadeiramente ocorrer.

““Arts totum requirit hominem!” (a Arte requer o homem inteiro!), exclama um velho alquimista. Justamente é este “homo totus” que se procura. O esforço médico, bem como a busca do paciente, perseguem esse “homem total” oculto e ainda não manifesto, que é também o homem mais amplo e futuro. No entanto, o caminho correto que leva a totalidade é infelizmente feito de desvios e extravios do destino. Trata-se da “longíssima via”, que não é uma reta, mas uma linha que serpenteia, unindo os opostos à maneira do caduceu, senda cujos meandros labirínticos não nos poupam do terror. Nessa via ocorrem experiências que se consideram de “difícil acesso”. Poderíamos dizer que elas são inacessíveis por serem dispendiosas, uma vez que exigem de nós o que mais tememos, isto é, a totalidade. Aliás, falamos constantemente sobre ela – sua teorização é interminável -, mas a evitamos na vida real. Prefere-se geralmente cultivar a “psicologia de compartimentos”, onde uma gaveta nada sabe do que a outra contém”. (Jung, 2012 c, pág. 12-13)

Trago tais reflexões porque acho muito importante tentarmos nos aproximar o máximo possível dessa relação que ocorre no aqui e no agora no consultório, para podermos a partir desse clareamento trabalhar o que ocorre na transferência e contratransferência.

Murray Stein (1992) fala de um modelo xamânico de cura na contratransferência, onde, citando Jung (1946*) diz que “seus comentários esparsos acerca da dinâmica da transferência/contratransferência na análise seguem em larga medida este modelo: os analistas se contaminam pelas doenças de seus analisandos e então promovem a cura curando-se a si mesmos e administrando o remédio que produzem em si ao analisando pela “influência”. Na análise, este processo xamânico de cura é, evidentemente, levado a cabo num plano psíquico, ao invés de físico. Conforme descrito por Jung, trata-se de uma interação muito complexa e sutil, que abarca a personalidade inteira de ambos os parceiros numa espécie de combinação alquímica de elementos psíquicos”. (Murray, 1992, pág. 73 – Cf. 1946*)

Em seu livro Psicologia e Alquimia, Jung (2012 c) escreve que “ninguém mexe com fogo ou veneno sem ser atingido em algum ponto vulnerável; assim, o verdadeiro médico não é aquele que fica ao lado, mas sim dentro do processo”.

Portanto, uma importante reflexão de Jung é sua fala sobre a relação que se estabelece durante a análise, assumindo que tal relação existe e que é nesta relação que temos a possibilidade de estarmos inteiros.

*JUNG, C.G. 1946. The psychology of the transference. In: Collected Works, 16:163-323. Princeton:Princeton University Press, 1966

“O trabalho analítico conduzirá mais cedo ou mais tarde ao confronto inevitável entre o eu e o tu, e o tu e o eu, muito além de qualquer pretexto humano; assim, pois, é provável e mesmo necessário que tanto paciente quanto o médico sintam o problema na própria pele. (…) Tanto para o médico como para o paciente, o “ficar pendente”, ou a dependência pode tornar-se algo indesejável, incompreensível e até mesmo insuportável, sem que isso signifique algo de negativo para a vida. Pelo contrário, pode até ser uma dependência (um “ficar pendente”) de caráter positivo: se por um lado parece um obstáculo aparentemente insuperável, por outro, representa uma situação única, exigindo um esforço máximo que compromete o homem total.” (Jung, 2012 c, pág. 18)

Se observarmos com atenção todo o trabalho de Jung (2012 c), veremos o quanto se debruçou sobre qualquer tema por ele elaborado, onde nos coloca a importância dessa inteireza dentro do processo analítico.

“E é preciso não esquecer que foi através da paciência indizível dos pesquisadores que a nova ciência conseguiu erigir um conhecimento mais profundo da natureza da alma; certos resultados terapêuticos inesperados foram obtidos graças à perseverança abnegada do médico”. (Jung, 2012 c, pág.18)

Jung se debruçava em cima da historia de seus pacientes e é essa intensidade, essa paixão, esse amor pela cura que faz com que eu me interesse e tenha desejo de me debruçar perante sua obra! Jung estava inteiro em todos os processos que estudava. Não se descobriria a cura para tantas doenças se não fossem a insistência de alguns poucos, que mesmo passando por inúmeras dificuldades, continuavam persistindo!

Rolando Toro (2005 b), criador do sistema Biodanza, nos fala que o “fracasso da psiquiatria e da psicologia é a dificuldade que possuem de amar o louco”.

Este “amar o louco” seria essa inteireza de estarmos entregues ao processo analítico. É preciso se importar com a pessoa que esta a nossa frente, é preciso se debruçar e entrar dentro desse sofrimento junto com o paciente para conseguir sentir o que se passa verdadeiramente. Precisamos ser verdadeiros xamas. Se não consigo me comover perante o sofrimento do outro, devo encaminha-lo para outra pessoa que o possa.

Muitas vezes é o que a pessoa me desperta que me diz como ela esta se movimentando pela vida. E o quanto mais conseguirmos estar atentos a esta relação com nosso analisando, mas fácil nos daremos conta do que estamos sentindo. E este sentir nos diz de nossa contratransferência, podendo ao mesmo tendo nos auxiliar no que estes sentimentos que despertam em mim no momento podem dizer do movimento do paciente.

A partir dai cabe ao analista verificar até que ponto é válido usar tais dados na relação transferencial.

Nathan Schwartz-Salant (1992) também fala sobre a importância da transferência em seu artigo, citando o ponto de vista de Jung sobre o papel do analista.

“(…) muitas vezes, recorre-se às reações do analista para busca de informações sobre o paciente, e o que este diz ou sonha é reconhecido como indicação de percepção precisa do analista e do estado do processo analítico”. (Schwartz, 1992, pág. 9)

Na biodança fala-se que não é necessário somente o contato, mas sim a conexão para podermos nos transformar. James A. Hall (1992) também fala disso em seu artigo Sonhos e transferência/contratransferência: o campo transformador, onde faz uma citação de Jung, onde este diz que ”(…) o verdadeiro médico não se coloca fora de seu trabalho, mas está sempre no meio dele.”

Algo que sempre me fascinou na Biodança foi a valorização do instante vivido, e o quanto Rolando Toro, se debruçou em cima desse conceito, que denominou vivência.

Para Rolando Toro (1968), vivência é “a experiência vivida com grande intensidade por um individuo em um lapso de tempo aqui – agora (‘gênese atual’) abarcando as funções emocionais, cenestésicas e orgânicas”. Para ele, vivência é o instante vivido no aqui e agora com total intensidade e entrega, é quando conseguimos realmente estar inteiros. E é nessa inteireza que existe a possibilidade da transformação acontecer.

Segundo Toro (2005 a), “a vivência constitui-se na experiência original de nós mesmos, da nossa identidade, anterior a qualquer elaboração simbólica ou racional”. É no ato de estarmos inteiros que nos transformamos, pois saímos de nosso modo racional para vivenciar o inédito.

Penso que o ato de ser analisado é também uma tentativa de chegarmos a este homem inteiro que nos fala Jung (2012 c). Entramos num processo profundo de analise interna para sabermos quais aspetos podem estar “trancando” ou bloqueando a livre expressão do meu ser. E à medida que vamos entrando nesse processo interno vemos o quanto levamos conosco de vivências passadas que nos impedem de usufruir o presente.

Então quando Jung (2012 c) nos diz que a arte requer o homem inteiro, esta nos colocando que tanto o analista como o analisando está na busca desse “homem total”, que anseia por se expressar livremente.

Este estar inteiro vai muito além de se reconhecer como um ser único e singular, porque exige também da pessoa um desfazer-se de tudo aquilo que já não serve mais na sua caminhada de individuação. Exige um desfazer-se de aspectos que não fazem mais parte de sua caminhada atual. E é nesse aspecto que surge um dos principais papéis do analista, auxiliar o analisando a se dar conta do já não serve mais na sua caminhada.

Rolando Toro (2005 a) fala que colocar-se no lugar do outro é um ato de lucidez. E esse ato de lucidez (sempre que possível) se dá através do analista dentro do processo analítico. Como na maioria das vezes o analisando busca analise por encontrar-se perdido em alguns caminhos que só consegue andar em círculos, é a lucidez do analista dentro do caminhar do analisando que ira lhe proporcionar a possibilidade de um novo olhar para a sua caminhada. Mas essa lucidez somente poderá ocorrer quando o analista se permitir entrar no processo.

O modo, portanto, pelo qual o analista se coloca nesse processo pode fazer toda a diferença. Quanto mais inteiro o analista estiver, ou seja, mais presente no momento da analise, mais fácil será para este vivenciar o que ocorre na transferência / contratransferência.

Segundo Góis (1997), participação é o oposto de opressão. O papel do analista, portanto, não deixa ser um papel de libertador de padrões internos que não servem mais para a caminhada atual de seu analisando.

A mudança é algo vivo, que nos modifica enquanto vamos vivendo. E o ato terapêutico não é algo a parte onde fazemos uma pausa para relatar apenas acontecimentos significativos de nossa vida, ele também faz parte do que estou vivendo e, portanto, à medida que vou me aprofundando e me entregando nesse processo, vai mostrando também como interajo com o outro e com o mundo. É um processo alquímico!

Só olhando…

Vem, olha no meu olho. Deixa pra lá o que você pensa que eu sou. O que você gostaria que eu fosse. Tenta ver, tenta sentir, te permite ver o que eu sou de verdade. Me dá um minuto da tua vida antes de me definir. E eu mudo todo o dia um pouco, nunca sou igual. E você só vai ver se tiver tempo de ficar me olhando. Tempo de estar comigo no aqui e agora. E se você fizer isso vamos sempre nos entender porque sempre vamos nos ver de verdade.

Vem, olha no meu olho.

 

BIBLIOGRAFIA

GÓIS, Cezar Wagner de Lima. 1997. Vivência em Biodanza in org Flores, Feliciano. Cadernos de Biodança. Porto Alegre.

JUNG, Carl Gustav. 2012 c. Psicologia e Alquimia / tradução e revisão literária Dora Mariana Ribeiro Ferreira da Silva; revisão Técnica, Jette Bonaventure – 6 ed. – Petrópolis, RJ : Vozes.

STEIN, Murray & SCHWARTZ-SALANT, org. 1992. Transferência – Contratransferência / tradução Rosas de Oliveira; revisão técnica Marcia Tabone – São Paulo, SP : Editora Cultrix Ltda.

TORO, Rolando. 2005 a. Biodanza. 2 ed. – São Paulo : Olavobras.

TORO, Rolando. 1968. A vivência. Curso de formação docente em Biodanza. Sistema Rolando Toro – Chile.

WARNKEN, Cristián. 2005 b. Entrevista a Rolando Toro em el programa “La Belleza del pensar”. Chile.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

FLORES, Feliciano Edi Vieira, org. 2006. Educação biocêntrica : aprendizagem visceral e integração afetiva. Porto Alegre : Evangraf.

JUNG, C.G. 2012. Ab-reação, análise dos sonhos e transferência. Tradução de Maria Luiza Appy; revisão técnica Jette Bonaventure. 8 ed. – Petrópolis, RJ.

JUNG, C.G. 2012. Freud e a psicanálise. Tradução de Lúcia Mathilde Endlich Orth; revisão técnica Jette Bonaventure – 6 ed. – Petrópolis, RJ : Vozes.

STEIN, Murray. 2006. Jung : O mapa da alma : uma introdução. Tradução Álvaro Cabral; revisão técnica Marcia Tabone – 5 ed. – São Paulo : Cultrix.

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Por : Bárbara Gehrke Rohde, Psicóloga e Arteterapeuta – CRP 07/15404

Primeiramente vamos pensar na arte como forma de expressão do ser humano. Poderíamos supor que o homem das cavernas já utilizava a arte como meio de catarse, uma forma de colocar pra fora seus sentimentos e emoções. E muitas foram às manifestações de dor, angústias, luta, morte, vitórias e alegrias representadas nas paredes das cavernas (pinturas rupestres), o que nos faz pensar em projeções do inconsciente representadas por imagens e símbolos. “A arte é quase tão antiga quanto o homem” (Fischer 1971, p. 21).

As artes em geral têm o poder de alcançar emoções profundas, como refere Brown (2000), elas podem mudar a maneira como você se sente em relação ao mundo e a si mesmo. A arteterapia consegue examinar a forma como você olha para si mesmo e para o mundo. Seja trabalhando com argila, palavras ou teclas de um piano, um artista constrói um mundo de símbolos que libera emoções e idéias. Todos nós temos símbolos que representam nossos pensamentos e sentimentos.

Pessoalmente, considero a arteterapia uma “ferramenta a mais” para meu trabalho com psicoterapia. Um processo terapêutico de utilização da arte, que incluo o relaxamento, meditação, pintura, modelagem, desenho, costura, dança, teatro, marionetes, enfim, toda representação artística. Posso utilizá-la em psicoterapia individual, de grupo, com diferentes idades e tipos psicológicos, facilitando o entendimento do sujeito desde a anamnese até o tratamento psíquico em si. É utilizada em escolas, organizações e na área clínica (hospitais, consultórios, instituições psiquiátricas, etc). E também por profissionais da área da saúde, educação e artes.

Trabalho com a arteterapia de abordagem Junguiana, sobre esta, aponta Philippini (2000), que Jung, em sua obra, descreveu amplamente como, nas culturas mais diversas, etapas do processo de individuação eram codificadas em símbolos com temáticas similares e estas representações do inconsciente coletivo repetidas em mitos, contos, tradições religiosas, tratados alquímicos e ritos de passagem de locais geograficamente distantes. Estas imagens recorrentes em toda a humanidade reaparecem em sonhos, desenhos, pinturas, esculturas e nos símbolos produzidos através da imaginação ativa e nas técnicas de visualização e meditação.

Psicologia e Arte: “Apesar de sua incomensurabilidade existe uma estreita conexão entre esses dois campos que pede uma análise direta. Essa relação baseia-se no fato de a arte, em sua manifestação, ser uma atividade psicológica e, como tal, pode e deve ser submetida a considerações de cunho psicológico; pois, sob este aspecto, ela, como toda atividade humana oriunda de causas psicológicas, é objeto da psicologia” (Jung, 1971, p.54).

Conforme Philippini (2000), a arteterapia resgata a promoção, a prevenção e a expansão da saúde. A arteterapia auxilia a resgatar desbloquear e fortalecer potenciais criativos, através de formas de expressão diversas, ademais facilita que cada um encontre, comunique e expanda a seu próprio caminho criativo e singular, favorecendo a expressão, a revelação e o reconhecimento do mundo interno e inconsciente. Destaca ainda, que em arteterapia com abordagem Junguiana, o caminho será fornecer suportes materiais adequados para que a energia psíquica plasme símbolos em criações diversas. Estas produções simbólicas retratam múltiplos estágios da psique, ativando e realizando a comunicação entre inconsciente e consciente. Este processo colabora para a compreensão e resolução de estados afetivos conflitivos, favorecendo a estruturação e expansão da personalidade através do processo criativo.

E Osório (in Valladares, 2003) salienta que a arteterapia é uma prática terapêutica que trabalha com a intersecção de vários saberes, como educação, saúde e ciência, buscando resgatar a dimensão integral do homem. A arte se propõe a algo pessoal e único, e expressa a linguagem do inconsciente.

Segundo Valladares (2003), a arteterapia na teoria Junguiana, propicia o fornecimento de materiais expressivos diversos e adequados para a criação de símbolos presentes no universo imagético singular de cada cliente, universo que se traduz em produções simbólicas que retratam estruturas psíquicas internas do inconsciente pessoal e coletivo. A arteterapia facilita a entrada no psiquismo humano por infinitas possibilidades da arte e através da linha Junguiana o surgimento dos símbolos abre caminho para o trabalho do arteterapeuta.

E finalmente é importante lembrar que somente psicólogos ou psiquiatras com formação em psicoterapia poderão utilizar a arteterapia na psicoterapia, sobre isto, Païn (1996), sublinha que a arte em psicoterapia é realizada, sobretudo, por profissionais específicos da psicologia. Freqüentemente, neste processo, considera-se a atividade plástica secundária, pois o efeito terapêutico sobrevém somente das trocas verbais em torno do conteúdo da obra. Utiliza-se a expressão plástica, neste caso, como meio de atender a comunicação verbal ou como a única maneira de estabelecer uma comunicação, caso em que a representação simbólica é ignorada.

Não precisamos ser artistas ou conhecer as técnicas das artes para fazer arteterapia, basta ter motivação para o autoconhecimento.

REFERÊNCIAS:

Brown, D. (2000). Arte Terapia: fundamentos. São Paulo: Vitória Régia.

Fischer, E. (1971). A necessidade da arte. (3ª ed.) Rio de Janeiro: Zahar Editores.

Jung, C. G. (1971). O espírito na arte e na ciência. (3ª ed.) Petrópolis: Vozes.

Païn, S. e Jarreau, G. (1996). Teoria e técnica da arte-terapia: a compreensão do sujeito. Porto Alegre: Artes Médicas.

Philippini, A. (2000). Cartografias da coragem: Rotas em Arte Terapia. Rio de Janeiro: Pomar.

Valladares, A.C.A. (2003). Arteterapia com crianças hospitalizadas. Dissertação de Mestrado não publicada, Universidade de São Paulo, São Paulo, SP, Brasil.

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AlquimiaPor Paulo C. de Souza

A Alquimia, ao longo dos séculos, sempre assustou e confundiu as pessoas que tentavam compreendê-la. Mas esse era o propósito dos alquimistas. Eles queriam realizar seu trabalho sem correr o risco de serem queimados nas fogueiras da ‘Santa Inquisição’. Muitos alquimistas trabalhavam escondidos em porões e até usavam os subterrâneos das antigas catedrais; alguns eram padres, sacerdotes religiosos e cientistas famosos. Portanto, o encobrir e o iludir faziam parte da alquimia. Além disso, a obra alquímica mexe muito com a nossa alma e por isto nos atemoriza. Outra característica dos alquimistas é o uso das figuras (imagens), o que normalmente desestabiliza o Ego. Os termos alquímicos, desde os mais simples até aos mais complicados, não podiam ser catalogados em um dicionário, pois eram usados com sentidos diferentes, até por uma mesma pessoa. Como fazer, para que matéria inicialmente tão complexa, deixe de sê-la?


Podemos nos imaginar nos dias de hoje fazendo um churrasco dominical e tentando afastar aquelas figuras indesejáveis que perguntam a toda hora se o churrasco está pronto ou mexem na carne que você acabou de virar. A tia que não encontramos desde o Natal, quer saber o segredo do seu molho de alho, manteiga e pimenta do reino. O sobrinho capeta estica o olhar guloso e pergunta sobre o coração de galinha. Para não causar constrangimento nas indiscretas figuras que mais parecem sair de um conto de Nelson Rodrigues ou de Kafka, você responde: “Fui no mercado ‘Estadual dos Produtores Associados Independentes’ e comprei a ‘substância protéica bovina desnaturada’, com cortes ‘longitudinais transcendentes e oblíquos’”. Os chatos se afastam ou vão embora por alguns momentos achando que você é um grande cozinheiro e, você fica livre das desagradáveis companhias.


Na Alquimia aconteceu coisa parecida. Não acredito que os alquimistas estavam em busca de ouro nem do elixir da longa vida. Eram na sua maioria pessoas introvertidas em busca do seu caminho espiritual. Eles queriam ficar em paz sem sofrer perseguição por parte do ‘poder constituído’.


Vamos agora tentar simplificar bastante o ‘processo alquímico’ e tirar deles aquela aura de mistério. Vamos deixar o ‘pano preto’ para os tímidos ou os ignorantes. Ao mesmo tempo olharemos os processos básicos da alquimia com uma visão psicológica, para ver que o evoluir da alma é dolorido, mas no final vale a pena o sacrifício da jornada.


Eles diziam, que deveríamos pegar a ‘prima materia’ (matéria prima) e trabalhá-la de diversos modos até alcançar o ‘Lapis Philosoforum’ (pedra filosofal) e com essa pedra poderiam transformar metais em ouro ou preparar o elixir da longa vida a partir do sereno ou de outros líquidos da natureza. Vocês podem achar que a colocação está muito simples, mas é isso mesmo, ir de A até B; sendo que A é o ‘bruto’ e B o ‘elaborado’. O complicado e o difícil era o caminho de A até B, pois esse era próprio de cada indivíduo. O processo para ir da ‘matéria prima’ à ‘pedra filosofal’ era longo, trabalhoso e cheio de tortuosidades e muitas vezes, acidentado.

Um caminho muito parecido com a busca espiritual dos religiosos. Um caminho muito parecido com o da individuação de Jung. Um caminho muito parecido com o ‘conhece-te a ti mesmo’ dos gregos.


Se formos listar os materiais usados como matéria prima, vamos encontrar mais de 500 nomes e, alguns esdrúxulos com: esterco de vaca, leite de virgem, urina de criança, menstruação de prostituta, etc. A própria pedra filosofal possuía várias denominações conforme o alquimista que escrevia, o século em que viveu ou seu país de origem. Mas no fundo se tratava de transformar algo bruto em um material refinado, o que corresponde a nossa transformação psíquica. Como eu disse, a complicação maior estava nos processos usados para a transformação, agravada pelo uso de nomes em latim. Podemos citar alguns desses processos alquímicos: mortificatio (morte), sublimatio (passar do sólido para o gasoso – sublimação), coagulatio (coagulação), calcinatio (queima), solutio (dissolver com água), putrefatio (decomposição da carne), separatio (separação), coniunctio (união), tinctur (tintura ou união) e daí por diante.

Por outro lado, um grande número de alquimistas afirmava: “as vias usadas no processo são duas e as chamamos de seca e úmida”. A via seca era sempre mais rápida, realizada no Athanor (forno) aberto, com fogo direto, vivo e forte e numa espécie de panela que normalmente era chamada de ‘cadinho’. A via úmida era mais eficaz, porém mais lenta. Normalmente feita em um recipiente fechado que levava o nome de ‘retorta’ ou ‘pelicano’ e cozinhada em fogo brando por bastante tempo. O forno também era fechado e muito maior do que na via seca. Podemos perceber no caminho da via úmida uma equivalência com a nossa longa estrada espiritual e do auto-conhecimento.


A maioria dos escritores dividia a via úmida em quatro estágios e os associava a cores e suas vibrações. Como não podia deixar de ser, os nomes eram em latim: Nigredo (preto), Cauda Pavonis (cauda do pavão ou arco-íris), Albedo (branco) e Rubedo (vermelho). Esses quatro processos ou etapas, se observados de uma maneira global, lembram um pouco as quatro fases da psicoterapia que Jung descreveu: Confissão, Esclarecimento, Educação e Transformação. Antes de tentarmos ver um por um os processos acima citados, temos de ter em mente que esse processo é cíclico, qual uma ‘espiral ascendente’ e praticamente nunca termina; tanto na alquimia como no processo de individuação de Jung.

Ou seja, quando terminamos uma Rubedo voltamos à Nigredo; quando terminamos uma Transformação, voltamos a uma Confissão. É claro que esse retorno nunca é a um ponto inicial do processo e, sim, um pouco mais para dentro e um pouco mais para cima. Funciona como uma longa estrada para alcançar o topo de um morro. A estrada vai contornando o morro de maneira suave e imperceptível, e de repente percebemos que já ultrapassamos as primeiras nuvens. Além disso, nada nos impede, estando numa Albedo, de retornar para a Nigredo; assim com, da Educação, retornar ao Esclarecimento. O importante é sabermos que por mais lento que seja o caminho ele é sempre para diante!


A Nigredo, o negro, já nos sugere a morte, a sombra, o pesado, o denso, o sofrimento. Foi isso que nos disse Jung quando falou da confissão no consultório do psicólogo. Contamos nossa vida, nossos segredos, nossos aborrecimentos, nossos sonhos não alcançados e, na maioria das vezes choramos como um bebê que está com fome e quer mamar ou lhe tiraram o brinquedo predileto. Ou seja, morremos para uma vida que não valia a pena ou que simplesmente passou (valia a pena talvez naquela época, agora já não vale mais). Nessa ocasião ficamos parados, inativos, deprimidos, sem ânimo, introvertidos, quietos e sentimos que algo se ‘dissolve’ em nós. Por mais angustiante que seja o processo, o importante é seguir o que ele recomenda: ficar quieto e adiar tudo o que for possível.

Quando estamos jogando nossos ‘conflitos psicológicos’ nos problemas exteriores, ou seja, no mundo em que vivemos; eles se sobrepõem e se confundem, numa mistura homogênea. Podemos usar a metáfora do ‘copo com água e álcool’; você olha para aquela substância branca e não sabe quem é quem. Daí, as decisões nessa fase da vida possuírem uma chance muito grande de dar errado. Devemos identificar os problemas que são nossos e separá-los dos problemas do mundo. Continuando na metáfora do ‘copo’; é preciso colorir a água para poder separá-la com mais facilidade do álcool.


Depois disso é como se o preto que é a ausência de todas as cores transformasse no branco que é a presença de todas as cores. Só que é o branco decomposto em todas as cores por uma espécie de ‘cristal‘ e essa pedra cristalina é muitas vezes o nosso analista, outras vezes um padre, um sacerdote, um velho amigo ou até o travesseiro. É por isso que alguns alquimistas pulam a fase da ‘cauda pavonis’ e vão da Nigredo para a Albedo. Mas como Jung colocou muito bem, após a confissão de seus temores mais profundos, o paciente fica esvaziado e se fixa na figura do psicólogo; esse fenômeno levou o nome complicado de ‘Transferência’ (até a psicologia imita a alquimia em matéria de nomes complicados). Como o nome já sugere, transferimos para a figura do analista as figuras interiores que antes estávamos jogando no pai, na mãe, no irmão, no vizinho, na namorada, no marido etc. Essa transferência precisa ser ‘esclarecida’ e discutida com o paciente para que ele entenda o que está acontecendo em sua alma ainda conturbada, embora já bastante aliviada com o auxílio da confissão.

Muitos alquimistas representaram o desmembramento do branco com o desmembramento do corpo humano. Acontece na realidade o desmembramento de nossa psique; mas temos que manter essa dissociação da nossa psique sob o controle do Ego. É para isto que ele possui as características e a função de um ‘complexo gerenciador’. Um gerente de uma grande fábrica não olha diretamente o que cada operário faz, não consegue saber o nome de todos os seus 5.000 funcionários; mas, com uma rápida análise dos seus gráficos de produção ele sabe de tudo que acontece no seu negócio e pode se concentrar no que julga importante no momento.


Após esta etapa, naturalmente vem o branco, a Albedo, a brancura, o clareamento, o entendimento, o conhecimento, uma certa tranqüilidade. É como se todas as cores do arco-íris se fundissem e nos mostrassem a beleza do branco, da paz, do espiritual. Deve ser por isso que se diz que no fim do arco-íris está um pote de ouro. O problema é que nunca encontramos o fim do arco-íris, mas na maioria das vezes o caminhar é o verdadeiro tesouro. Nesse estado de brancura nos educamos e nos inteiramos que existe uma vida nova que pode ser seguida e quando olhamos para trás, o esforço já não parece tão grande.

Lembremos que educação é repetição, porque para assimilar alguma coisa precisamos repetir, precisamos tirar todos os véus dos preconceitos, precisamos entender que os problemas estão dentro de nós, precisamos ver que o outro está ali também na sua busca. Precisamos até entender que muitos buscam o mesmo Deus que nós buscamos, só que por caminhos diferentes, mas geralmente, também chegam lá. Corremos um risco de achar que o nosso gerente, o Ego, é o maior gerente do mundo, pois está tocando uma fábrica de grande porte. Cuidado com a estagnação, o equilíbrio é sempre dinâmico e só o conflito nos faz crescer e quando não crescemos, caímos. É mais ou menos como andar de bicicleta, quanto mais rápido mais equilíbrio, o movimento nos mantém em linha reta. Vocês poderiam dizer que algumas pessoas ficam em pé em um bicicleta parada. Mas o lugar deles é no circo e perdem o objetivo da locomoção, que é o objetivo da vida.


Quando estamos nesse processo de uma certa calmaria, as coisas vão entrando nos eixos. Mas é hora, por incrível que pareça, de colocar paixão, fogo, ardor, vermelho, Rubedo. Aí conseguimos transformação transformar é ser o que já era, sem precisar fazer força para isso. É quando não roubamos o vizinho; não com medo da prisão, mas porque acreditamos que isso não é o correto. É quando não batemos no inimigo; não com medo do revide, mas quando temos compaixão por outro ser humano. Na transformação conseguimos um movimento com um mínimo de atrito. É quando nos aproximamos dos pólos; lá o movimento como um todo é o mesmo, mas, o deslocamento menor. Temos mais consciência de fazermos parte de um mundo, percebemos que somos dependentes de tudo e ao mesmo tempo tudo é impermanente. Só nos resta a essência da alma, algo dentro de nós que não morre nunca. Estes processos nos levam a essência da vida por um caminho relativamente suave. Não deixem de buscá-la, senão a dor pode vir para nos lembrar de tudo isso. Quem já sentiu uma dor muito forte sabe que naquela hora não conseguimos pensar em mais nada, só em acabar com ela. Tentem lembrar de tudo que pensaram na hora da dor, tanto física quanto espiritual e estarão perto do que é a essência.


Podemos imaginar então que o processo está todo concluído… Vamos descansar. Ledo engano, a transformação ocorreu sim, mas em parte do nosso ser. Temos de voltar a Nigredo e a Confissão, temos de passar pelas cores até o branco e, de novo inflados com o esplendor da luz, vamos mais uma vez nos inflamar para chegar às brasas, ao rubro, a Rubedo. Esta é a roda da vida e não pára nunca, nela vamos girar sem parar por muito tempo. Mas posso garantir: quem fizer um primeiro ciclo vai aceitar todo os outros com galhardia, força e abnegação e principalmente com pequenos momentos de felicidade.
 

 

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